quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Reportagem: The Devil & The Universe + She Pleasures HerSelf [Sabotage Club, Lisboa]


Mais meia-hora e não tarda, Sabotage lotado. Um sábado frio, a noite a avançar pelas horas numa Lisboa de céu encoberto envolta num clima natalício típico de Dezembro, noite de saídas, 24 de Julho, Cais do Sodré, Sabotage. O clube dos bons concertos. Noite de She Pleasures HerSelf (portugueses), de abreviatura SPHS (com “S” depois do “Her”) e também dos The Devil & The Universe (austríacos).


She Pleasures HerSelf


Estivessem eles e estiveram, em Berlim, Hamburgo, Roterdão, Praga e Milão e outras muitas cidades europeias. E antes que o ano termine, e partam em 2019 rumo a Glasgow, Manchester e Londres em tour com Ash Code e Sad Lovers & Giants, ainda se encontram em Lisboa. Os SPHS, são David Wolf (guitarras e teclas), Nuno Francisco (bateria electrónica e programação), Nuno Varudo (voz) e Letícia Contreiras (teclas e guitarra baixo).

De visual aprumado e distinto, David, impecavelmente vestido pela intenção e alma de quem não quer o socialmente vulgar, o primeiro a entrar em palco, a olhar em frente de frente para a audiência, num Sabotage lotado, a também destacada entrada em cena de Nuno Francisco semblante sério, as rufadas fortes e certeiras na bateria electrónica, com uma aparência digna de um filho de Odin. Há uma intro a acontecer, saída de um filme e a banda sonora não é, mas parece sair de um filme ao estilo do Eyes Wide Shut de Stanley Kubrick. Cruza-se o feedback letal e estridente, de uma certa sensação lúgubre. Letícia, séria e tranquila, a performer do fogo no Trash Circus, de cyber look discreto e Nuno Varudo, de Óculos Ray-Ban, de roupagem geométrica e estilizada, larga a corrente que segurava à cintura. 

São as canções do disco estreia Fetish (2017): “Fake”, “Time”, “Trust”, “Use You in Pogo” e “I Can´t Live In a Living Room” ali, com novas roupagens o original dos Red Zebra, tomam de assalto o Sabotage, fazem dançar num setlist que todos ou a maior parte conhecem: “Oceans Of Pleasure", “Dance With Her” - e dançou-se, dançaram até à última música, “Visions”. Com o anúncio de um segundo disco no decorrer de 2019, naquela noite, despediram-se daquele palco com uma inesperada explosão de feedback e ruído, a guitarra ficou sozinha a debitar uma linha amplificada ao lado de um kit de bateria disperso pelo chão, intencionalmente derrubado numa simbologia estética que vai para além da destruição, de uma certa fúria não verbalizada, de mensagem explicita. E foi do palco que Nuno Francisco, segundos antes, havia lançado um balão transparente, que subiu e voou de mãos em mãos e por ali andou até regressar de novo ao já silencioso palco. São portugueses e temos orgulho deles. Vão, vão pelo mundo fora - mas voltem sempre.





The Devil & The Universe


Roupagens nerd geek, parece-me. Máscaras de bode… com projecções de desenhos animados do tempo do Vasco Granja em pano de fundo, cruzadas com filmes de terror série B. The Devil & The Universe, na segunda parte da noite.

Assumem como influências directas Kenneth Grant, a magia, trilhas sonoras de filmes de terror, ambientes dark, mas isso são apenas palavras. Na realidade, assumem como interesse principal: דעת do hebraico que em português, significa - opinião. Há uma certa linguagem crítica nas letras e a música faz dançar, bastante.

Ashley Dayour, David Pfister e Stefan Elsbacher criam música, segundo eles, a partir de sistemas mágicos, numa espécie de permissão astral consentida através de mecanismos religiosos que legitimam (sistema  utilizado pelo famoso ocultista do século XX, Aleister Crowley) a criação musical, associada a um processo ligado a uma certa anarquia fonética extra-terrena, transformada num exemplo de perfeição sonora.  E é nesta definição que surge o termo por eles próprios criado: a goat wave. Deram um concerto enérgico, cheio de ritmo, apareceram de máscara, encapuzados e de negro.

No palco, há um certo exotismo nas samplagens, há órgão e sinos da igreja, ritmos industriais e de electrónica dançável e as tais máscaras com que haviam entrado são a sua imagem de marca, transmitem boas sensações, ao contrário do que se poderia esperar com uma temática tão obscura e misteriosa. O disco Folk Horror, cuja faixa inaugural dá o nome a esta tour, Alchemical Landscape(s), foi também a primeira música que tocaram, em jeito de introdução, dando logo de seguida lugar à batida forte que caracteriza este disco e que caracterizou todo o concerto. Mesmo com os atrasos, e a hora tardia a que se desenrolou, este evento da promotora Menino da Lágrima foi um sucesso pela diversidade artística, variedade e ecletismo das propostas apresentadas.




Texto: Lucinda Sebastião
Fotografia: Gil Simão

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