terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Reportagem: Jessica Moss [gnration, Braga]


Dia 4 de dezembro e as ruas de Braga encontram-se praticamente vazias, congeladas pelo frio que se intensifica cada vez mais. No gnration, um pequeno aglomerado de pessoas junta-se à entrada, motivadas pela passagem de Jessica Moss pelo espaço cultural. Quando entramos na sala, é notória a escassez de público perante um concerto tido como esgotado, provavelmente influenciado pela promoção garantida na compra do bilhete para a performance de Midori Takada (a compositora e percussionista japonesa apresentou-se semanas antes na Capela da Imaculada Conceição, em Braga). Nada disto influenciaria, no entanto, o serão tranquilizante que a compositora canadiana proporcionaria nesta fria noite de inverno. Membro dos seminais A Silver Mt. Zion, que integra juntamente com elementos de Godspeed You! Black Emperor e Set Fire to Flames, Jessica Moss foi desenvolvendo ao longo das últimas duas décadas um percurso pautado pela experimentação, tanto a nível colaborativo como pessoal e a solo, onde assina duas obras pela família Constellation Records. Entanglement, o segundo e mais recente disco da compositora pela editora canadiana, foi o mote para a apresentação em Braga. 

Envolta numa parafernália de fios e pedais de efeitos, Moss apresentou-se com a sua humildade caraterística, de sorriso aberto e pés descalços. Sempre calma e comunicativa, a compositora foi introduzindo cada uma das suas peças com uma pequena descrição, dando início à performance com uma breve interpretação de um tema tradicional judaico, em modo de celebração do Hanukah que iniciava assim a sua terceira noite. Os temas de Entanglement seguiriam-se logo após, primeiro com as quatro fases de “Fractals”, depois com o tema de abertura do disco, “Particles”. A primeira dá-nos a conhecer o lado mais cru e despido do violino, que nos embala numa viagem longa pelos caminhos de uma música pós-clássica, de mantras hipnotizantes em toada medieval. Simples e sedutor.  



Já em “Particles”, entramos por uma nova fase da performance. Através de um uso exacerbado de pedais e efeitos, Moss implementa camadas e camadas de loops que complementam a verdadeira natureza do violino, dando lugar a composições de uma voluptuosa densidade. Abalam-se os terrenos do clássico para introduzir uma direção mais próxima do trabalho efetuado com a sua banda, desde drones encorpados a momentos de contolada dissonância. Já nos minutos finais, a compositora introduz alguns apontamentos de voz, num cantar balbuciado e impercetível que culminaria com um final de dimensões barrocas.  

Depois de de uma performance aterradora no Madeiradig, no dia anterior, Jessica Moss provou, mais uma vez, o porquê de ser uma das figuras notáveis da celebrada cena musical de Montreal. O resultado, esse, foi uma experiência absloutamente encantadora. 


Texto: Filipe Costa
Fotografia: Hugo Sousa/gnration

0 comentários:

Enviar um comentário