segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Mohammad Reza Mortazavi no 88º aniversário do Teatro Rivoli



2020 marca o 88º aniversário do Teatro Rivoli. De 16 a 19 de janeiro, o Teatro Municipal do Porto desvenda um pouco do que se faz ao longo do ano com vários espetáculos, instalações e concertos que atestam a sua programação caraterísticamente pluridisciplinar.

No campo da música, o grande destaque deste ano vai para o percussionista iraniano Mohammad Reza Mortazavi, que se apresentará no sub-palco do Rivoli no dia 18 de janeiro para um concerto com o carimbo da Matéria Prima. Figura de relevo nos circuitos da música exploratória, o músico construiu uma reputação infame entre os mais canónicos percussionistas persas ao desenvolver mais de 30 novas técnicas de tocar os instrumentos tradicionais da região. Em 2017, juntou-se a Burnt Friedman para um EP colaborativo enquanto Yek. Em 2018 lança um outro EP, Focus, desta vez a solo sob a alçada da editora portuguesa Padre Himalaya. O seu último trabalho, o longa-duração Ritme Jaavdanegi, recebeu edição pela francesa Latency no passado mês de outubro.

Ainda na música, a Sonoscopia irá apresentar o espetáculo Phonopticon, um modelo de criação e representação sonora coletiva inspirado na arquitetura do Panopticon, o icónico edifício projetado por Jeremy Bentham no século XVIII. Os espetáculos acontecem dias 17 e 18 de janeiro.

O veterano Errol Arawak (King Earthquake) encerra as comemorações aos comandos do sound system português dos Mystic Fyah. A noite, que terá lugar no café do Rivoli no dia 18 de janeiro, será iniciada com um tributo da Favela Discos às sonoridades dos metais da cultura dub.   


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10 000 riffs de pura adrenalina: The Parkinsons e Conan Castro and The Moonshine Piñatas no Sabotage


Na passada sexta-feira (20 de dezembro) rumámos ao Sabotage para uma noite em que o punk rock tomou conta do palco. Os responsáveis pela “alta voltagem” e pela adrenalina, que contagiou uma casa cheia, foram Conan Castro and The Moonshine Piñatas e The Parkinsons.

As boas-vindas estiveram a cargo dos barreirenses Conan Castro and The Moonshine Pinãtas, emergindo no cenário garage-punk-rock nacional em 2014, caracteriza-os uma sonoridade que nos conduz para um ambiente repleto de ritmos “febris” e riffs desvairadamente enérgicos. A banda composta por cinco elementos lançou o seu álbum de estreia, Cataplana América, em 2017 (Hey! Pachuco Records) e em 2018 um split LP com os Planeta Quadrado (Monotone/Groovie). Durante quase uma hora a bateria, as guitarras, o baixo e os “vocais raivosos” fizeram-nos esquecer que lá fora a “Elsa” tinha atacado em força. Era impossível ficar indiferente ao rasto sonoro que ressoava na sala, já que cada tema era um convite à dança, ao movimento e a fazer coro com a banda.



Os Castro conseguiram transportar-nos para um imaginário de sons hipnotizantes e elementos musicais cujas raízes remetem para uma fronteira México/Estados Unidos, dando corpo a uma banda sonora para todos os que ambicionam um dia cruzar ilegalmente a fronteira. A grande energia em palco transbordou efusivamente para o público, num “diálogo” bem sintonizado, em que o vocalista acabou por se juntar aos fãs, terminando o concerto debaixo de fortes aplausos e de grande furor.



Num momento em que já se respirava a humidade, fruto da exaltação dos corpos, que dançaram, cantaram e esbracejaram ao ritmo dos sons ferventes da primeira banda, era a vez dos The Parkinsons colocarem o Sabotage em pleno estado de “ebulição”. A banda de culto conimbricense surge em 2000 com Victor Torpedo (guitarras) e Pedro Chau (baixo), quando se mudam “temporariamente” para Londres, juntando-se-lhes Afonso Pinto (voz) e Chris Low (bateria, retirando-se da banda em 2002). Em constante mutação e irreverência lançam o primeiro álbum em 2002, A Long Way to Nowhere (Pierce Panda), Reason to Resist em 2004 (Curfew Records). Depois de um interregno de vários anos surge Back to life (2012, Garage) e The Shape of Nothing to Come (2018, Rastilho), contando este último com a participação de Ricardo Brito (bateria) na conceção da nova moldura sonora.

Quando os The Parkinsons entraram em cena, o ambiente aqueceu ainda mais. Mal começaram a sua atuação foi desde logo percetível como é que esta banda consegue conquistar os seus fãs. Envoltos numa energia física e sonora incomparáveis, o público não lhes resiste, deixa-se contagiar pela sua “insanidade” saudável; junta-se ao frenesim dançando e cantando como se não houvesse amanhã.



As incursões de Afonso Pinto pelo público adentro são como que mergulhos no mar, numa tentativa de agitar as águas. Começa a sentir-se o mosh e uma atmosfera húmida de suor de quem salta e dança ao ritmo da banda. A interação, a simbiose entre o público e os músicos é um crescendo ao longo de todo um alinhamento “desalinhado”. A barreira entre palco e sala não existe. Com o chão escorregadio, as paredes e posters molhados, no baterista podia ver-se o “fumegar” do tronco nu, no vocalista (também em tronco nu) o suor a escorrer-lhe pelo corpo. Sentia-se o “bafo” húmido no ar, o embaciar dos óculos e das lentes das câmaras fotográficas.

Numa envolvência eletrizante, terminam com o clássico “So Lonely”, onde se pôde presenciar tudo aquilo que os The Parkinsons são bons a fazer: transmitir energia e levar o público ao rubro, como qualquer boa atuação de rock'n roll o deve ser. Havia público no palco, músicos fora dele, com o refrão a ser cantado em uníssono. A banda despede-se, assim, depois de nos “provar” uma atitude e vigor nem sempre fácil de explicar, mas que toda a gente sente e que nos faz libertar de impulsos primitivos que guardamos para nós, e que ficam à espera de momentos como este para virem ao de cima. 

Vivemos uma noite ao som de um punk-rock feito, em igual medida, de caos e sorrisos e sobretudo de uma energia avassaladora. Foi uma grandiosa celebração pré-natalícia. A irreverência caótica, o “ambiente selvagem” que destrói qualquer fronteira entre banda e público, explicam porque é que muitos continuam a considerar os The Parkinsons uma das melhores bandas portuguesas ao vivo.



Texto: Armandina Heleno
Fotografias e vídeos: Virgílio Santos

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Bonança em dia de tempestade: Timespine na ZDB


Adriana Sá, John Klima e Tó Trips compõem o “bizarro musical triângulo” que se mostra quando bem entende, como foi o caso na noite da tempestuosa “Elsa”, que nos assolou na quinta-feira passada (19 de dezembro), mas que na Galeria Zé dos Bois, o tempo foi de bonança e tranquilidade.

É um projecto intermitente, que viaja de quando em quando, em 2013 com Timespine e no ano passado com Urban Season, trabalhos editados pela label Shhpuma, que alberga no seu catálogo sonoridades variadas como jazz, blues rock, folk, world, & country, post-rock, eletrónica minimal, o abstrato, o improviso, o free

Ouvir Timespine é quase uma “violação” nos dias musicais que correm, como que se fossemos assaltados, na rua, nos transportes públicos e nos media, pois são um bom exemplo de uma espécie de “contra-cultura” ao consumismo musical do mainstream.



A sonoridade de Timespine é quase como ir ao psicólogo: deitar-nos no sofá e deixar fluir os pensamentos: os que nos apoquentam ou os que nos fazem salivar, mas que ocultamos. A música é introspetiva e apreciá-la é um chá de tisanas, ver o relaxar do nosso corpo com se tivéssemos acabado de fazer amor e pensar no amanhã sem grandes preocupações. O prazer é lento. É como ver um filme a preto e branco e testar a nossa capacidade de absorção. Timespine recria “uma torrente hipnótica de dedilhados suaves e não convencionais, eruditos e improvisados”.

Podem revisitar este evento, através da reportagem fotográfica aqui incluída.



Texto, fotografia e vídeo: Virgílio Santos

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sábado, 28 de dezembro de 2019

As 20 revelação nacionais de 2019


Com mais um ano a chegar ao fim, chegou a altura dos membros da nossa redação compilarem os artistas emergentes que mais nos surpreenderem este ano e escolher o equivalente ao que na NBA chamam de rookie do ano: as Revelações Nacionais de 2019

Sem qualquer tipo de ordem hierárquica, exceto a alfabética, eis os 20 artistas que achamos que irão continuar a marcar o panorama musical nacional.  







Um dos grandes nomes revelação no panorama da música eletrónica/experimental com algumas ambiências drone à mistura e uma vontade incrível de fazer mais e melhor. ∩ (intersectiō), o projeto que pretende manter a sua identidade oculta, lançou este ano o EP  de estreia Purga numa edição de autor. Entre quatro canções que dão vida sonora às “8 fotografias em formato analógico sem edição e que procuram ser uma representação visual metafórica da relação nublada do indivíduo com a realidade durante o estado de depressão", ∩ (intersectiō) apresenta-nos um exercício sonoro altamente criativo e visual que o afirmam como um dos produtores a ter solenemente atenção nos próximos tempos. Uma viagem que vai do existencialismo niilista a períodos de raiva extrema, passando ainda por momentos meramente reflexivos e algures poéticos. Coloquem na lista. Quem avisa, amigo é. Sónia Felizardo



Não se deixem enganar pela postura inocente de Beatriz Pereira, ou Bia Maria, nome artístico com o qual se apresenta, porque o seu vozeirão tem a força para arrepiar todos os pelos do cachaço de quem a estiver a ouvir. Com influências que vão desde o poder do fado ao sobranceiro sorriso da bossa nova, e que podem ser ouvidos no seu EP de estreia Mal Me Queres, Bem Te Quero, o talento de Bia Pereira levou-a a pisar palcos como o NOS Alive, o festival Vira Pop, em Braga, em Ourém, Ourearte Music Fest, e em Tomar no Festival Por Estas Bandas. Hugo Geada



Rui Andrade largou as produções em nome próprio para se atrever numa nova etapa sob um novo pseudónimo. Tudo começou com uma faixa solta para a compilação do coletivo Nekya em janeiro, evoluindo gradualmente para um projeto de maior dimensão com o lançamento do EP de estreia, lançado em junho deste ano pelo seu próprio selo, a recém-criada Eastern Nurseries, e culminando no seu primeiro longa-duração, Atoll, onde o também membro da dupla HRNS explora a dor provocada pela perda da sua cadela de estimação, Clarinha, que Andrade homenageia com um disco de composições drone desarmantes. Filipe Costa






“Acordo, café, rissol de leitão / queimo a placa, fecho o canhão”, esta é a barra que melhor descreve o estilo de vida do minhoto que mais corações e ouvidos conquistou em 2019. Chico da Tina surgiu da viralidade da internet e para um sucesso que se tem materializado em palcos por todo o Portugal e até no Brasil, depois de ter conquistado o primeiro Prémio Mimo de Música, entregue a jovens talentos no mundo da música. Com dois EP’s no bolso, Trapalhadas e Minho Trapstar, a sua mistura de trap com música popular portuguesa e o humor das letras, que já nos tinha feito apaixonar por artistas como PZ ou David Bruno, fez-nos render a Francisco da Concertina. Se o jovem teve este impacto em 2019, é intimidante pensar o que conquistará em 2020. HG







Muito mais do que Suicide em português, o duo do Porto, formado por Raul Mendiratta e Francisco Lima, é um ataque psíquico lançado por um Gengar de nível 100 contra todos os pés de chumbo da pista de dança. O seu EP de estreia, Bazar Esotérico, é um deleite para os nerds dos sintetizadores com melodias que acertam no krautrock e no darkwave, tem a liberdade conferido pelo punk, mas não se esquecem da importância das sensibilidades pop na hora de estruturar as músicas. HG



O nome diz tudo, mas também não diz quase nada - bem nos maneirismos do dadaísmo e surrealismo em que Dada Garbeck se assenta. Sobre a limpída tapeçaria pintada em traços largos das quentes linhas de órgão e sintetizadores repetitivas, há por vezes vozes reverberadas de outro lado. Noutras vezes, as vozes são sem língua ou com língua sem semelhança que trazem ecos de Christian Vander à memória. Talvez percussões minimalistas em 8 bits também surjam, talvez críticas ao capitalismo e à burocracia de língua aguçada por uma voz desconhecida. Dada Garbeck, neste mundo em que o arquétipo é referência imediata, é ilusório. É o artista que, na pouca música que editou, se enclausura na repetição imprevisível da tradição da música minimalista de Terry Riley e da música progressiva electrónica, numa tradição de canção popular, numa certa homenagem ao rock progressivo, e numa estranha sensibilidade para a música pop. Em 2019 editou o seu único EP até à data, The Ever Coming, que compõe nos seus 36 minutos uma visão esperançosa para um dos nomes mais recentes da música experimental portuguesa. José Guilherme de Almeida



Pedro Barceló é uma figura que tem ganho nome no panorama musical underground em Portugal essencialmente pelo seu papel como guitarrista na banda de sludge/doom metal de Lisboa, Löbo, e ainda como engenheiro de som. É contudo, a solo, com o projeto Førest Fires nascido em 2019 que o seu destaque ganha afinco, desta vez no ramo da produção eletrónica. Com conceito focado no fenómeno das alterações climáticas e o seu efeito devastador, Førest Fires apresenta-nos uma experiência sonora que compreende os emaranhados e crescendos da música eletrónica num som ambiente profundamente denso e imune de voz. São dois os EP’s que saíram na sua alçada este ano e que nos comprovam que o panorama eletrónico tem um potencial abrangente onde Førest Fires tem grande espaço para ser aclamado. Eletrónica ligeira para ouvintes curiosos sempre com a mensagem da urgência climática por trás. Juntem-se ao movimento. SF



O conceito de design de som é um pouco complicado de definir, em especial no campo da produção de música. Gonçalo Penas, no entanto, é-o por excelência, através da criação de um repertório de sons próprios, do seu arranjo em paisagens, ora nuas ora sobre-saturadas, e da construção de narrativas de destruição. Uma delas está presente no seu álbum de estreia, Ego de espinhos, editado pela Subtext, que combina as dinâmicas inflexíveis do noise com os novos sons do pós-industrial e, numa fusão estranhamente apelativa, os desloca para o ambient sem que nada perca a sua intensidade, frugalidade, ou sentido. Gonçalo Penas cria música electrónica que não perde o toque real que muitas vezes carece no género. Em vários momentos ouvimos ecos de GAS ou do brutalismo ambient de Tim Hecker, mas nunca perdemos a noção que se trata de um equilíbrio entre velhas tradições do género e a agressividade do pós-industrial. Gonçalo Penas criou um nome bastante sólido para si próprio em 2019, e neste ponto é impossível negar alguma curiosidade quanto ao vai fazer a seguir. JGA








De certeza que ao ouvirem GrandFather’s House já repararam na voz magnetizante da vocalista. É essa mesma voz que este ano se apresentou a solo sob o nome de IVY, projeto artístico de Rita Sampaio, com o single “I Miss Myself e a sua pop electrónica dominada por sintetizadores. Sombrias, introspectivas, catárticas e íntimas, é assim que se caracterizam as músicas de IVY, reunidas no seu álbum de estreia autobiográfico, Over and Out, editado a 13 de março com o selo da bracarense Cosmic Burger. Produzido e gravado pela própria, João Figueiredo e CASOTA Collective, Over and Out valeu à artista a participação na edição de 2019 do disco "Novos Talentos FNAC", assim como mais de uma dezena de concertos em salas emblemáticas do nosso país como o Maus Hábitos, Porto, e Musicbox, Lisboa, e alguns festivais - ZigurFest, Vira Pop e o Super Bock Under Fest, em Vigo, ao lado de nomes como Helado Negro e Peaches. Rui Gameiro



Kara Konchar, o novo projeto criativo de Miguel Béco de Almeida, que se desprendeu das suas raízes musicais anteriormente exploradas com ATILA segue agora um novo foco na sua carreira musical. Sempre dentro das texturas negras que tem explorado com emoção nos últimos lançamentos, o primeiro longa duração do artista projeta as típicas paisagens sonoras do produtor para um território que faz colidir rave scene, UK bass, EBM e o lado mais negro da eletrónica. Com uma história cujo nome nasce do livro Genghis Khan do autor Vasily Yan, Kara Konchar apresenta-nos uma edição d eoito temas inéditos que funcionam como uma homenagem aos bastardos da mitologia e a outros fascinados pela morte e deboche. Eletrónica poderosa, abrangente e altamente imersiva que o projecta naturalmente como um dos melhores projetos nacionais a ter data de nascimento em 2019. SF



Já há muito que o trap deixou de ser apenas um “fenómeno”. O peso das rimas e batidas tem prevalecido cada vez mais no circuito dos maiores festivais do mundo e o crescimento do trap enquanto género tem vindo a expandir-se de modo surpreendente. O mesmo tem vindo a acontecer em Portugal, onde uma nova vaga de rappers e produtores exploram as diferentes possibilidades de um género cada vez mais ramificado. No mesmo ano em que Chico da Tina introduziu o seu trap minhoto ao mundo, Kenny Berg deu os primeiros passos numa curta mas promissora carreira que parece já ter atingido um certo estatuto de culto. O rapper portuense faz da música a sua imagem, como que um culto de personalidade para os tempos modernos onde o ego dita o desenrolar de um universo ingénuo e fascinante. FC









Diogo Tudela é artista de vídeo, som e imagem, programador, investigador independente e um dos cabecilhas do Terror, coletivo-editora portuense que opera a partir do estúdio CERN e que cruza órbitas com alguns dos intervenientes do coletivo SOOPA (Frankão, Jonathan Saldanha e Luís Kasprzykowski). Fascinado pelos universos da música dancehall, reggaeton e funk carioca e assolado pela ideia de uma “cultura periférica”, Tudela responde pelos nomes de Make’em, Tar Feather ou Terror Soundsystem (com Saldanha e Frankão) na missão de fazer mover os vultos que deambulam pelos bares, clubes e ruelas da Invicta mais hedonista e viperina. “Cangote / Quadril”, um maxi-single lançado em outubro como Make’em, é um dos seus melhores lançamentos e pretende desencadear um “contacto consensual na pista de dança”. FC




No outono chegou ~ (til), álbum de estreia de Marinho (Filipa Marinho) com selo da editora Street Mission Records. Neste trabalho a artista lisboeta reuniu um conjunto de canções que compôs ao longo dos anos, muitas delas influenciadas pelas letras de compositoras como Joni Mitchell (o tema “Joni” é uma homenagem à artista) e Adrianne Lenker (Big Thief). Em ~ (til), Marinho apresenta-nos as suas emoções envolvidas em riffs despreocupados de guitarra, mergulha na sua infância, nos relacionamentos difíceis e na identidade pessoal, aceitando-se tal como é, alguém em sintonia com os seus sentimentos. Ao todo são oito canções folk-rock em que ficamos a conhecer o lado mais íntimo da artista, os seus medos, a sua sinceridade e acima de tudo o modo como amadureceu.
Marinho apresentou ~(til) na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, em formato banda, no passado mês de outubro e esteve presente na mais recente edição do Super Bock em Stock, em novembro. RG




O cenário da eletrónica de influências goth tem-se apresentado como uma das grandes apostas do nascimento de novos nomes relevantes no cenário da música em Portugal. Misfit Trauma Queen surge, então, para colmatar essa falta que se tem feito sentir forte nos últimos anos e traz-lhe acrescida uma eletrónica poderosa que bebe influência dos mais vastos espectros musicais. Com EP de estreia a chegar no final de janeiro passado, o baterista e produtor David Taylor começou a assinar o seu futuro promissor com o EP External, conjunto de cinco faixas a repescar tendências do breakcore em atmosferas contidas, ilustres cenários da música clássica e os ritmos vigorosos do techno. É, no entanto, com a edição do tema “GlassJaw” (e toda a experiência imersiva que Misfit Trauma Queen cria nesta segunda edição) que o produtor da Figueira da Foz promete incendiar as pistas de dança mais obscuras Europa fora. Se os festivais góticos lhe põem a vista em cima, certamente que em poucos anos será uma das figuras nacionais mais aclamadas no espectro da EBM, techno e industrial. Em 2020 chega-nos o seu disco de estreia Violent Blue, que promete fazer vibrar as listas nacionais de 2020 com um grande destaque. Atentem. SF


Hipnagogia - o estado complexo de existência entre estar acordado e a dormir. Quase impossível de definir por palavras, uma sensação em que presente, passado e futuro parecem coexistir. Talvez um conceito desnecessariamente complicado para descrever Montanhas Azuis, mas é o que soa mais acertado - a união incensurável de Norberto Lobo, Marco Franco e Bruno Pernadas soa, na falta de um vocabulário melhor, a sonho tornado real. Tudo o que foi editado por Montanhas Azuis até à data, no seu jeito delicado, é composto e montado como se o produto final sempre tivesse existido - nada a mais, nada em falta. É uma combinação delicada de sintetizadores, percussões e guitarra. No primeiro álbum do supergrupo, Ilha de Plástico, as gentis repetições de motivos que o eterno legado de Tangerine Dream e Mort Garson nos deixaram materializam-se numa edificação impecável da canção do século XXI. Jazz, pop e música electrónica tornam-se indistinguíveis, como se sempre tivessem existido juntos. JGA



Nui Blanc é o alias de um produtor português recluso e de identidade anónima. Atraído por música "polifónica, instável ​​e expandida”, Nui Blanc procura puxar-se a si e aos ouvintes para fora da sua zona de conforto. A produção opulenta de Strata, o seu primeiro EP, chegou este ano com o carimbo da britânica Perth Records e traz uma amostra de composições libidinosas, assentes em batidas quebradas, pianos eletrificados e uma estética sensual e lasciva contaminada pelo R&B mais idiossincrático. FC






Carregando A Vida Atrás Das Costas é o resultado de dois anos de música produzida no conforto de um quarto, um duplo EP de material resgatado de uma conta antiga do Soundcloud masterizado "para apresentação pública". Domingos Aleixo, ou Puto Tito, tem apenas 19 anos mas é já um dos pilares da Príncipe, que acolheu o primeiro lançamento do produtor angolano. Produzido durante a sua adolescência, entre 2014 e 2015, Carregando A Vida Atrás Das Costas é o testemunho de um jovem autodidata que brotou das ruas para as cabines dos clubes mais badalados do globo, e um dos mais distintos da editora que mais tem feito por levar a nova Lisboa ao mundo. FC



Se Frank Zappa, Wayne Shorter, Richard Wagner e Egberto Gismonti se encontrassem num concerto de Tool e formassem uma banda. É assim que os Troll’s Toy descrevem a sua identidade sonora. O trio veterano de Aveiro formado pelo saxofonista Gabriel Neves, o guitarrista Jorge Loura e o baterista João Martins lançou este ano o seu primeiro longa-duração de nome 18:05, onde exibem as suas tendências experimentais e progressivas envoltas em instrumentação jazzy. Neste disco de estreia os Trolls’s Toy exploram o sentimento de desordem e impotência pela qual uma pessoa pode passar durante um simples minuto - talvez um episódio aleatório de ansiedade, ou um acontecimento traumático - sendo que esse mesmo sentimento é transmitido pela banda por via de passagens em que o espírito de jam improvisada é rei e senhor, com trabalho rítmico esquizofrénico - ora mais ortodoxo, ora completamente caótico - e melodias que refletem ambientes que têm tanto de tenebroso como de atmosférico. Há espaço para faixas mais tropicais como a "Khat", músicas mais eletrizantes como "Neurotransmissor", sons mais espaciais como "Derrota" ou "Azrail", tudo aglomerado numa só unidade de forma a dar corpo a uma experiência dinamicamente avolumada como a que 18:05 proporciona. Ruben Leite




A destruição sempre foi um tema recurrente no metal - em boas maneiras, é um género tipicamente associado a uma certa visão draconiana do som e da atmosfera por ele criada. Este princípio está embutido em Ulfberth, novo grupo do Porto que dedica o seu som à música extrema. Sem nunca abandonar as tradições, o quarteto convoca o que o metal nos têm oferecido nos últimos anos de uma maneira brutal e desimpedida. A sonoridade de Ulfberth é reminescente de grupos como Old Man Gloom e Amenra, com algumas incursões pelo black metal pré-Burzum mais clássico que Hellhammer e Bathory ajudaram a trazer ao mundo. Em 2019, editam Process of Clarity, e integram e fortalecem o legado no metal português que grupos como Process of Guilt, Corpus Christi e Inverno Eterno ajudaram a criar ao longo das últimas três decadas - música que atinge a catarse através de uma crudeza pura e inquebrável. JGA






Um dos nomes da nova vaga de música ambiente em Portugal é Valestine, produtor inserido no colectivo whitewater, formado em 2018 entre o Porto e Lisboa. White, Water, World, Wide foi a compilação que assinalou o nascimento desta editora no final de dezembro 2018, contando com oito temas de seis novos projetos emergentes, entre eles Valestine. O artista de quem pouco ou nada se sabe editou a 1 de março de 2019 o seu primeiro registo de estúdio intitulado Faces Of Depression. Neste disco conceptual, Valestine exibe um som concebido com base na estética do filme educacional The Faces Of Depression: A Phenomenological Approach To The Depression Syndrome (1959), que, segundo a Universidade Simon Fraser, "recorre a entrevistas não ensaiadas com pacientes para obter uma amostra representativa de casos de depressão e ajudar o médico a reconhecer sintomas depressivos". Faces of Depression é um trabalho que se divide em quatro partes. Logo nos primeiros segundos o ouvinte é transportado para outras altitudes, envoltas em neblina de sintetizadores e vozes sampladas retiradas das entrevistas mencionadas acima, como se o tempo parasse para contemplarmos esta obra. RG


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quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Os melhores álbuns da década 2010-2019


Na Threshold Magazine sempre privilegiámos o ecletismo. Quando aceitámos levar o desafio de fazer o top dos melhores lançamentos da década para a frente, decidimos que o critério fundamental para esta decisão seria a forma como estes álbuns nos tocaram pessoalmente. Talvez por isso não seja surpreendente verificar-se uma escolha tão variada, distinta e imprevisível, capaz de ensanduichar universos tão distantes como o garage rock (Ty Segall, Oh Sees) e a pop mais vanguardista (Jenny Hval, Julia Holter).

Numa década marcada por efemérides, foram muitos os nomes que ajudaram a fazer deste mundo um lugar um pouco melhor: vozes emergentes que ditaram as coordenadas da nova música pop (Grimes, FKA twigs), rappers que geraram movimentos (Kendrick Lamar), bandas que reescreveram os manuais do rock (Idles, Preoccupations), artistas que se reinventaram (Swans, Daughters) e outros que, já estabelecidos, consolidaram o estatuto de lendas (Nick & The Bad Seeds, My Bloody Valentine).

Em baixo, deixamos a seleção dos trabalhos que, ao longo desta década, estiveram mais presentes nos nossos ouvidos e ajudaram a moldar o modo como consumimos e interpretamos a música.




50 - Kanye West - Yeezus (2013)
49 - Ovlov - TRU (2018)
48 - Death Grips - The Powers That B (2015)
47 - (Sandy) Alex G - Beach Music (2015)
46 - Melody's Echo Chamber - Melody's Echo Chamber (2012)
45 - Todd Terje - It's Album Time (2014)
44 - Swans - The Seer (2012)
43 - SOPHIE - Oil In Every Pearl's Un-insides (2018)
42 - Kero Kero Bonito - Bonito Generation (2016)
41 - Tim Hecker - Virgins (2013)
40 - Deafheaven - Sunbather (2013)
39 - Flying Lotus - Cosmograma (2010)
38 - Bladee - Icedancer (2018)
37 - Frank Ocean - Blonde (2016)
36 - The National - High Violet (2010)
35 - Tyler, the Creator - Flower Boy (2017)
34 - Linda Martini - Casa Ocupada (2010)
33 - FKA twigs - Magdalene (2019)
32 - Angel Olsen - Burn Your Fire for No Witness (2014)
31 - Kendrick Lamar - good kid, m.A.A.d city (2012)
30 - Grimes - Visions (2012)
29 - Darkside - Psychic (2013)
28 - Car Seat Headrest - Teens of Denial (2016)
27 - Radiohead - A Moon Shaped Pool (2016)
26 - The National - Trouble Will Find Me (2013)


25 - Mac DeMarco - 2 (2012)

Em 2012 era impossível prever o quão influente Mac DeMarco viria a ser ao longo da década. Foi o ano em que lançou Rock and Roll Night Club, o seu disco de estreia, onde apresentava um rock obscuro e lo-fi. Meses depois sucedeu-o com 2, apresentando o seu estilo mais conhecido e replicado. Foi neste álbum, entre o jangle pop e o indie pop, com o efeito de vibrato muito característico aplicado à guitarra, que Mac DeMarco provou todo o seu talento como compositor. Também foi aqui que outros artistas e bandas indie foram beber inspiração, sem nunca conseguir atingir o mesmo nível de qualidade e criatividade. 2 é descontraído e divertido, repleto de grandes riffs e licks. Estes são especialmente memoráveis nas guitarradas de “Freaking Out the Neighborhood” e “Ode to Viceroy”. Mac nunca complica muito, mas sabe compor uma boa melodia. As canções deixam transparecer todo o seu charme e personalidade, com uma sonoridade relaxada e letras sobre família, amor, cigarros, tudo o que faz parte da sua vida. O álbum perfeito para uma soalheira tarde de verão. Rui Santos


24 - Weyes Blood - Titanic Rising (2019)

Depois de uma origem na música noise e lo-fi, o mais recente álbum de Weyes Blood, Titanic Rising, viu a cantautora natural da California a abraçar as orquestrações e alcançar um álbum que, apesar de ter menos de um ano, pode ser considerado um clássico moderno, com destaque suficiente para merecer um destaque nos melhores álbuns da década do nosso site. Com um conceito que parte da sequela falhada do filme do Titanic de James Cameron, Natalie Mering criou um álbum que reflecte as ansiedades de viver na década de 2010, abordando não só as relações pessoais e paixões, mas oferecendo também um contexto repleto da ansiedade que as consequências ambientais trazem para uma geração que ainda não sabe ao certo quais as consequências que este desastre pode implicar. Faixas desarmantes assentes na simplicidade de uma guitarra acústica, "Wild Time", ou firmadas em magnânimas orquestrações, "Movies", fazem com que este trabalho seja uma das mais agradáveis surpresas de 2019, e, com o passar do tempo, apenas irá crescer em importância e significado. Hugo Geada 



23 - LCD Soundsystem - This is Happening (2010)

Pode-se sempre dizer que os LCD Soundsystem foram uma banda bem mais influente na primeira década do milénio do que nesta que está a terminar. Estiveram em hiato cerca de cinco anos, mas mesmo assim conseguiram compor dois trabalhos bastante aclamados pela crítica. Um antes – This Is Happening (2010) – e outro depois – American Dream (2017) – do tal hiato que se iniciou após o último concerto de quase quatro horas no Madison Square Garden, em abril de 2011. This Is Happening chegou no início da década e prometia ser o tão ameaçado último álbum do grupo liderado por James Murphy.  “Dance Yrself Clean”, tema de nove minutos, abre o álbum de modo bem calmo e discreto, sendo que a menos de meio da música o ritmo muda completamente e é tomado por sintetizadores bem pujantes, tornando este num dos temas mais memoráveis do disco. Outro dos temas que mais se destaca é “All I Want”, onde a influência de Bowie é notória nas linhas de guitarra nostálgicas, transformando-o num clássico moderno à imagem de Murphy. Num disco tão coerente como este, são vários os temas de escuta obrigatória: “You Wanted a Hit”, “Pow Pow” e “Home”. This is Happening é um álbum de produção exímia, em que Murphy nos brinca com música de dança minimal, de forte instinto pop, sobre desgostos amorosos, a distância entre as pessoas  e a saudade. Rui Gameiro 



22 - King Gizzard and the Lizard Wizard - I’m In Your Mind Fuzz (2014)

Uma das bandas mais prolíficas desta década, o septeto australiano deixou o seu marco na música com a sua explosiva energia que resulta da mistura de prog, com garage e psych rock. Para recordar mais tarde pode ficar o ano de 2017, quando lançaram 5 álbuns (todos de qualidade acima da média), o Nonagon Infinity, álbum que começa e termina da mesma forma e, por isso, pode ser repetido infinitamente, ou Infest the Rats Nest, álbum de thrash metal lançado em agosto do presente ano, no entanto, destacamos neste espaço o álbum que provavelmente serviu para muitos fãs como introdução para a banda. I’m In Your Mind Fuzz é uma viagem alucinante, com uma primeira parte que funciona como uma corrida contra o tempo que é o medley composto por "I'm in Your Mind, I'm Not in Your Mind", "Cellophane" e "I'm in Your Mind Fuzz" (que eu me atreveria a dizer que são os melhores 10 minutos iniciais de um álbum em toda a história da música) e uma segunda parte composta por baladas e por músicas mais calmas. Um excelente exemplo daquilo que foi o eclético movimento garage rock que esteve muito em voga nos últimos anos. HG



21 - Swans - To Be Kind (2014)

Trinta e dois anos desde o ano da sua fundação, a lendária banda Swans lançou um dos seus melhores álbuns. To Be Kind é o nome da obra que, em 2014, conseguiu dominar as listas de melhor álbum do ano. Neste trabalho, podemos ouvir duas horas de música de intensidade avassaladora e uma série de ritmos intermináveis que evocam algo surpreendentemente original. Um bom exemplo disso é “Bring The Sun/Toussaint L’Ouverture” em que, durante 34 minutos, ficamos totalmente hipnotizados por Michael Gira e os seus companheiros. Este álbum pode não agradar a todos, uma vez que exige um nível de paciência difícil de encontrar no contexto atual de grande demanda de emoções e gratificações instantâneas. Não obstante, quem conseguir absorver em pleno o conteúdo desta peça ficará eternamente grato aos nova-iorquinos. David Madeira 



20 - Chelsea Wolfe - Abyss (2015)

Pode-se afirmar que a cantautora californiana Chelsea Wolfe é uma artista que “nasceu” musicalmente nesta década (lançou em 2006 Mistakes in Parting, álbum que a própria tenta “esconder”), tendo editado sete álbuns nestes últimos 10 anos. Abyss, editado em 2015 com o selo da Sargent House, é o seu álbum mais pesado até à data, expansivo e fervilhante, onde incorpora sonoridades negras, densas e experimentais, perfeitamente equilibradas com o romantismo do seu folk gótico e noturno. Liricamente, as canções que compõem Abyss foram inspiradas nas experiências de paralisia de sono, algo com que a artista lidou a vida inteira, e no mundo subconsciente dos sonhos. Os grandes destaques de Abyss vão para “Iron Moon”, tema inspirado por um operário e poeta chinês, que se suicidou devido à monotonia da sua rotina diária e de um relacionamento fracassado, e para o doom bem presente em temas como “Dragged Out” e “After the Fall”. A guitarra distorcida de Mike Sullivan (Russian Circles) apresenta um papel fundamental em Abyss, tal como a produção ambiciosa de John Congleton, polindo os momentos mais íntimos e acústicos (“Crazy Love”, “Maw”) e aqueles dominados pela distorção. RG




19 - Jenny Hval - Blood Bitch (2016)

O sexto álbum de estúdio da cantora-compositora norueguesa Jenny Hval, Blood Bitch (2016, Sacred Bones), foi descrito pela própria como "uma investigação sobre o sangue", traçando paralelismos entre a história de um vampiro fictício e as próprias experiências de Hval durante a digressão do seu álbum anterior, Apocalypse, girl (2015). O disco, co-produzido pela norueguesa com o auxílio de Lasse Marhaug, explora ainda temas como a menstruação (o mais “puro, poderoso e aterrorizante” dos sangues), filmes de terror e exploitation da década de 70 e a obra da escritora, ensaísta e editora britânica Virginia Woolf. É uma experiência tátil que une vanguarda e sensibilidade pop de modo magistral, com vozes cálidas ora cantadas, ora sussurradas e uma narrativa que grita vulnerabilidade e empoderamento em igual medida. Blood Bitch, a obra definitiva de Hval, é a história do sangue contada no feminino, uma exploração dos gestos e dos mitos à volta da menstruação e de como esta aglutina mães, bruxas, prostitutas e amantes. Filipe Costa



18 - Julia Holter - Aviary (2018)

Julia Holter lançou cinco álbuns esta década, incluindo Loud City Song (2013) e Have You in My Wilderness (2015). A sua evolução ao longo dos anos culminou em Aviary (2018), um álbum memorável onde a cantora e compositora revela a sua faceta mais progressiva e experimental. Há uma grande presença de momentos de improvisação e paisagens sonoras complexas, com texturas densas onde os vocais se cruzam com violinos, sopros, órgãos e sintetizadores. O caos e a calma estão presentes em medidas iguais, ocasionalmente em simultâneo. Os instrumentos soltos, muitas vezes sem ritmos constantes a que nos possamos agarrar, deixam-nos livres em atmosferas hipnotizantes como as de “Turn the Light On” e “Chaitius”. As canções mais art pop são igualmente brilhantes. “I Shall Love 2” tem momentos intensos de uma beleza esmagadora. “Words I Heard” é mais relaxada, mas igualmente bonita. “Les Jeux to You” até tem secções dançáveis, mas não deixa de se enquadrar com o resto do disco. As faixas fluem perfeitamente entre si, levando-nos numa verdadeira viagem por um mundo à parte. Aviary é ambicioso e desafiante, um marco no panorama do pop mais vanguardista. RS




17 - Oh Sees - Floating Coffin (2013)

Quem fala de garage rock e psicadelismo dos últimos dez anos tem de obrigatoriamente falar nos Oh Sees, colectivo de São Francisco liderado com punho forte por John Dwyer. Todos os anos, desde 2006, os Oh Sees presenteiam-nos com um novo álbum de estúdio, conseguindo sempre trazer algo de novo em cada registo, sendo que nos últimos dois anos a banda virou-se mais para sonoridades influenciadas pelo prog, krautrock e heavy psych. Por isso, falar de um álbum que melhor defina os Oh Sees é uma tarefa árdua. Em Floating Coffins (2013, Castle Face) a banda percorre caminhos mais obscuros e pesados que em trabalhos anteriores e segundo Dwyer, “as canções existem na mentalidade de um mundo perpetuamente dominado pela guerra”. As letras falam sobre sangue espalhado pelas paredes e assassinar uma data de pessoas, mesmo criancinhas, e a capa confere esse ar perturbador e grotesto a toda a atmosfera de Floating Coffins. Temas como "Toe Cutter - Thumb Buster", "Strawberries 1 + 2", comprovam o músculo e a determinação dos Oh Sees neste disco, mantendo a sua estética de garage rock envolto em punk, noise e heavy psych dos anos 70. Por vezes, o rock mais furioso é alternado por momentos mais calmos, como é exemplo dos temas “Night Cralwer” e “Minotaur". RG




16 - Oneohtrix Point Never - Replica (2011)

O quinto álbum de estúdio de Daniel Lopatin como Oneohtrix Point Never, Replica (2011, Software), marca um ponto de viragem entre as eletrónicas progressivas de Returnal e dos seus anteriores lançamentos e as paisagens nebulosas de Chuck Person’s Eccojams Vol. 1, um marco que ajudou a definir as coordenadas do que viria a ser apelidado de vaporwave. O primeiro álbum a ser concluído num ambiente formal de estúdio, Replica assume uma abordagem próxima da colagem sonora, utilizando áudios extraídos de anúncios de televisão das décadas de 80 e 90. O tema-título, que termina a primeira metade do disco, mais ambiente e imersiva, serve como peça central de um disco marcado por momentos de uma assombrosa beleza e melancolia, com um bordão de piano a servir um instrumental onírico de texturas ominosas. A segunda metade, mais cerebral e fragmentada, apresenta construções rítmicas complexas e um uso mais exacerbado do sampling. Sintetizadores fraturados, vozes deformadas e sílabas fragmentadas em loop são elementos omnipresentes num disco que, mais do que uma descontextualização do som, procura desmantelar as concepções do tempo e do espaço. Depois de Replica, a vida de Lopatin tomaria novas proporções: coloborou com FKA twigs, co-produziu o álbum de estreia de Anhoni e compôs a banda-sonora das últimas duas películas de Josh e Ben Safdie (Good Time, filme de 2017, valeu-lhe o galardão de melhor banda-sonora em Cannes), mas o disco de 2011 continua a demarcar-se como uma obra intemporal, e um dos mais importantes documentos da música experimental da década. FC




15 - Ty Segall - Melted (2010)

O querubim loiro californiano conquistou muitos corações com os seus variados lançamentos que o viram brincar em reinos do garage punk, stoner, folk ou glam rock. Apesar de nos seus últimos lançamentos ter optado por produções de maior qualidade e mais ousadas (algo que nem sempre pode ter correspondido às expetativas dos fãs), o álbum escolhido para representar o artista nesta lista é Melted. O terceiro álbum do artista, lançado em 2010, atirou Ty para a ribalta e distanciou de todas as comparações que o apontavam como mais um descendente de Jay Reatard ou dos Thee Oh Sees de John Dwyer, o mentor de Segall. Um álbum energético e contagiante do inicio ao fim com malhas como "Finger", "My Sunshine" ou "Girlfriend" que, apesar da sua curta duração, fizeram, ao longo da década, muitos corpos suar e voar em loucos crowdsurfs, mas que também consegue mostrar o lado mais introspetivo e sorumbático do cantautor (e que viria a explorar ainda mais no futuro no álbum Sleeper) com faixas como "Mrs." ou "Alone". Um dos álbuns mais importantes do rock na década de 2010 e que se tornou referência para muitos outros músicos e bandas que apareceriam depois, como os Wand, os Meatbodies ou Froth. HG




14 - Mount Eerie - A Crow Looked at Me (2017)

Depois do trágico falecimento da esposa Geneviève Castrée, a premissa de Phil Elverum era apenas uma: não fazer da morte um produto artístico. Os primeiros versos de “Death Real” deixam isso bem claro: “Death is real / Someone's there and then they're not / And it's not for singing about / It's not for making into art”. Elverum, que atua sob o pseudónimo Mount Eerie desde 2003, apresentou-nos as canções mais cruas e despidas da última década com o soberbo álbum A Crow Looked at Me, uma reflexão profunda sobre o luto gerado pela perda de um ente que deixou este mundo demasiado cedo. Musicalmente, o disco funciona como uma faca de dois gumes: por um lado há a frieza de quem conta a vida como ela é, sem filtros e com detalhe preciso e pontual. Por outro, há a beleza inerente à mais pura das tristezas, capaz de gerar canções tão belas quanto angustiantes. A construção episódica do álbum chega mesmo a ser desconcertante, como que um soco certeiro no estômago, mas há uma certa beleza nas palavras de Elverum que, ainda que frias à distância, se apresentam calorosas para a alma. Os lamentos continuaram com Now Only, a sequela inevitável que chegaria um ano depois, em 2018, mas os resultados nunca foram tão estranhamente satisfatórios como em A Crow Looked at Me. FC




13 - Queens of the Stone Age - ...Like Clockwork (2013)

Poucas foram as bandas que conseguiram manter ao longo da presente década o rácio de popularidade mainstream com a qualidade e visão musical como os Queens of the Stone Age. Apesar de no final da década terem dado um passo em falso com um desinspirado Villains (2017), ...Like Clockwork mantém-se um álbum fresco e consistente de inicio ao fim. Gravado após graves complicações de saúde do frontman Josh Homme (Kyuss, Them Croocked Vultures, Eagles of Death Metal), este álbum encapsula a fragilidade e a mortalidade que o músico se confrontado neste período. Faixas como "I Appear Missing" ou a homónima, são contos de um homem que se viu confrontado com a morte e regressou para contar a sua história. Com a ajuda de retornados como magnânimas, na bateria, ou magnânimase Mark Lanegan, os Queens of the Stone Age lançaram um álbum que na data de estreia soube a um clássico instantâneo, que gerações futuras irão partilhar com os seus filhos para responder à pergunta: “o que é que ouvias quando eras mais novo?”. HG




12 - Preoccupations - Viet Cong (2015)

Viet Cong é o primeiro LP dos Preocuppations (ex-Viet Cong) depois da dissolução dos Women e o primeiro LP antes de se assumirem como Preoccupations. É também e indiscutivelmente, o álbum mais sólido do quarteto canadiano. Todo o disco evolui como se de uma catarse sonora se tratasse: desde o opener “Newspaper Spoons” com os seus tambores abafados a retumbar por entre ruído e referências ao Naked Lunch, passando pelo crescendo da “March of Progress” e pela "Bunker Buster" – um tema que poderia soar a algo feito pelos Les Rallizes Dénudés – até à culminação com “Death”, um monólito sonoro de 11 minutos cujo build-up nos prepara para o extático final deste disco. Viet Cong é um álbum cru, exploratório e expansivo, uma ode ao niilismo e à auto-destruição. Por tudo isto, poderia ser um depressivo sonoro. Mas na verdade, é um dos discos mais belos desta década. Eduardo Silva 




11 - Godspeed You! Black Emperor - 'Allelujah! Don't Bend! Ascend! (2012)

Depois de um hiato de dez anos, os Godspeed You! Black Emperor não perderam o seu toque de Midas e lançaram mais uma obra de arte. Allelujah! Don’t Bend! Ascend! é composto por dois temas hipnóticos de 20 minutos e dois temas mais curtos, continuando onde o antecessor Yanqui U.X.O. de 2002 acabou, com uma enxurrada de crescendos, drones e acordes brilhantes. O tema mais intenso deste álbum tem por nome “Mladic” (relacionado com Ratko Mladic, um dos jugoslavos que foi condenado por crimes contra a humanidade no rescaldo da guerra dos Balcãs), onde facilmente se sente uma onda de ritmos ameaçadores e onde o coletivo de Montreal parece perder-se numa tempestade de energia feroz. Apesar de ser mais curto que os trabalhos anteriores, a veemência com que Allelujah! Don’t Bend! Ascend! nos atinge é imensurável. O tempo passou, mas a qualidade do post-rock/ambient/drone dos Godspeed You! Black Emperor permaneceu intacta. DM




10 - Deerhunter - Halcyon Digest (2010)

Há dois álbuns que me introduziram à música independente da última década. O primeiro surgiu no virar da década, ainda em 2009, quando os americanos Animal Collective editaram a sua obra definitiva com o genial Merriweather Post Pavillion. O segundo foi o quinto longa-duração dos Deerhunter, Halcyon Digest. Descobri ambos em 2013, uns largos anos depois do seu lançamento, mas o imaginário sedutor destes discos ajudaria a definir a banda-sonora que musicou os últimos seis anos da minha vida. O último, que chegou em setembro de 2010, consolidou o percurso da banda de Bradford Cox enquanto bastiões da música indie, definindo as coordenadas do cancioneiro independente dos anos seguintes. Mais de nove anos depois do seu lançamento, Halcyon Digest não perdeu nem um pouco da magia inicial. O solo de guitarra de “Desire Lines” continua a soar maravilhoso, o saxofone de “Coronado” ainda espalha vida e alegria e os versos de Cox continuam igualmente fraturantes. É também o último disco produzido com o baixista Joshua Fauver, que faleceu em novembro de 2018, e o tema que encerra o disco, “He Would Have Laughed”, foi escrito em homenagem ao desaparecido Jay Reatard. Assolado pelas ideias de novos e velhos ciclos, de fantasmas e traumas do passado, de amores e desamores, Halcyon Digest balança entre o silêncio e a quietude da maturação e a dopamina da juventude. FC




9 - Tame Impala - Innerspeaker (2010)

O rock psicadélico dos últimos tempos não seria o mesmo sem os Tame Impala. Foi no álbum de estreia do projeto de Kevin Parker, encarregue de todos os instrumentos, da gravação e da produção, que este género musical foi redefinido para uma nova geração. A influência dos clássicos de décadas passadas juntou-se a uma sonoridade moderna, criando um híbrido intemporal com uma produção muito apurada e canções espantosas. “Solitude is Bliss”, “It Is Not Meant To Be” e “Runaway, Houses, City, Clouds” estão entre os melhores exemplos das músicas espaciais e nebulosas que Innerspeaker tem para oferecer. O reverb, o fuzz e o phaser alteram os instrumentos e a voz, que preenchem o espectro sonoro com várias camadas de distorção. As guitarras, ora suaves, ora abrasivas, apoiadas em ritmos de bateria arejados e potentes, fazem nascer atmosferas psicadélicas etéreas, cortadas por linhas de baixo incisivas que têm um papel preponderante neste álbum. Innerspeaker é uma viagem por um sonho surreal e caloroso que se prolongou ao longo de toda a década. RS




8 - David Bowie - Blackstar (2016)

Tido como uma personalidade transcendente e de cunho musical seminal no panorama pop-rock, David Bowie dispensa apresentações de qualquer tipo. A carreira do músico britânico é bem representativa da sua ambição artística, instaurando desde cedo uma inclinação para experimentações contínuas com vários géneros de todos os tipos e feitios, para além de uma sensibilidade narrativa bem vincada que se refletia também nos seus concertos. Em janeiro de 2016 Bowie presenteou-nos com Blackstar, o seu último álbum que apresenta ecos intensos de estilos como a nova vaga de jazz, música eletrónica e até mesmo hip-hop e que, como seria de esperar de Bowie, demonstra desde cedo uma atmosfera bastante sofisticada e teatral. Ao mesmo tempo, no álbum paira um tenso - até mesmo sombrio - presságio de que a sua jornada estaria a chegar ao fim. Tendo sido lançado dois dias antes de Bowie ter deixado esta Terra, Blackstar é um testemunho significativo do seu génio inquieto, demonstrando isso mesmo com temas como o tema-título e “Lazarus”. Ruben Leite 




7 - Daughters - You Won't Get What You Want (2018)

Até 2018 desconhecia totalmente a existência dos Daughters, porém, o elevado número de criticas e opiniões positivas acerca de You Won’t Get What You Want deixou-me com alguma curiosidade ainda que com algum ceticismo em relação ao disco. Após a primeira audição atenta ao disco na sua integra a minha única reação foi começar a chorar espontaneamente, algo que nunca tinha acontecido e cuja razão não consigo perceber totalmente. O sentimento de desespero e sufoco que o álbum transmite é avassalador e no momento em que este terminou senti que me tinha sido retirado algo, esse desespero e sufoco entranham-se e tornam-se parte do ouvinte pela duração do disco.  You Won’t Get What You Want não é um disco fácil de se ouvir, não é um disco para todos e é, provavelmente, dos meus discos favoritos, o que ouvi menos mas conquistou este lugar na primeira audição e confirma-o sempre que é ouvido. Francisco Lobo de Ávila




6 - Kendrick Lamar - To Pimp a Butterfly (2015)

O rapper de Compton (Califórnia) Kendrick Lamar tem instaurado a sua posição como um dos maiores valores do hip-hop em recente memória desde o início desta década que agora finda, apresentando álbuns como Section.80 e good kid, m.A.A.d city, que demonstram aí o seu flow ágil e expressivo, e letras pertinentes que tocam em assuntos sensíveis e vividos de perto desde tenra idade. Em 2015, Lamar atinge o patamar de supra sumo do hip-hop com aquele que é discutivelmente o seu magnum opus sob a forma do terceiro álbum To Pimp a Butterfly. Visto que a sonoridade beberica da influência de sons como jazz, funk e spoken-word, e em termos líricos as temáticas sociopolíticas atuais e de celebração da herança afro-americana (ou quiçá, da etnia negra no geral) ganham uma relevância bastante mais acentuada, é seguro dizer que a ambição e o sentido de urgência de TPAB reflete-se a vários níveis, sendo também um daqueles registos que criam expectativas altíssimas do que irá surgir no futuro. RL




5 - Spiritualized - And Nothing Hurt (2018)

Seis (longos) anos. Foi o tempo que tivemos de esperar por este novo disco de Spiritualized. Uma espera morosa para quem é adepto ferrenho das melodias espaciais e contempladoras de Jason Pierce, mas que obviamente tem razões. Em 2012 foi lhe diagnosticada uma doença grave no fígado devido aos anos de intenso consumo de drogas pesadas, o que acabou por servir de inspiração para a composição de Sweet Heart Sweet Light. Mas não foi só por isto que esperámos este tempo todo por And Nothing Hurt. J. Spaceman também já disse em várias entrevistas que só escreve álbuns quando acha que são um contributo positivo para a sua discografia. And Nothing Hurt não foi gravado num grande estúdio com vários músicos, técnicos de som e tudo mais a ajudá-lo. Foi gravado num quarto da casa de Pierce em Londres, recorrendo a um portátil e ao software Pro Tools, tudo isto porque o artista não tinha recursos financeiras para alugar um estúdio “de verdade”. Neste trabalho voltamos a sentir aquela serenidade espacial incrível, como se tudo o que estivesse errado na nossa vida finalmente fizesse sentido. As melodias ecoam infinitamente pela nossa cabeça, calmas e contemplativas, onde nos podemos imaginar a viajar sem fim pelas estrelas no universo, numa nave espacial desenhada de raiz por J. Spaceman. Tiago Farinha 




4 - IDLES - Joy as an Act of Resistance (2018)

Joy as an Act of Resistance é exatamente o que o título implica, uma coleção de músicas otimistas contra o ódio, a discriminação, a masculinidade tóxica e as imagens de perfeição impostas pela sociedade. As letras são relevantes e estão repletas de versos citáveis, cantados com paixão e sinceridade.  As músicas são agressivas e energéticas, com guitarras distorcidas, linhas de baixo musculadas e espetaculares ritmos de bateria a elevá-las a um alto nível. “Samaritans”, “Danny Nedelko” e “I’m Scum” são verdadeiros hinos, catárticos e triunfantes.  Uma lufada de ar fresco no panorama musical, um punk moderno e impactante onde tanto há raiva como amor. Os Idles têm uma poderosa presença e uma grande honestidade. A sua voz merece ser ouvida. RS




3 - Connan Mockasin - Forever Dolphin Love (2011)

Entre o esmagador sucesso do slacker Mac DeMarco, da irreverente personalidade de Ariel Pink, dos delírios eletronicos de John Maus, às vezes pode ser fácil esquecer o enigmático Connan Mockasin. Mas há uma razão muito simples para ele estar nesta lista e para merecer o destaque da medalha de bronze, e é a magia da sua música. O neozelandês é o condutor de uma encantadora orquestra que faz da mais bela música que os nossos queridos ouvidos tiveram o prazer de ouvir. A faixa homónima de Forever Dolphin Love é a que melhor reflecte o espírito do álbum: uma autêntica odisseia, uma experiência repleta de sons vintage, modernos e únicos. O encanto de Connan Mockasin está na conjugação da inocência e fertilidade da sua imaginação com os sons loucos que consegue reproduzir e de onde resultam histórias de amor entre golfinhos, unicórnios em uniformes ou faixas onde finge tocar jazz com a sua banda. Numa altura em que muitos “imitadores de imitadores” conseguem alcançar o sucesso a desgastar e a saturar géneros, é bom partilharmos o mesmo espaço temporal de alguém tão criativo e genial quanto Connan Mockasin. HG




2 - Nick Cave & The Bad Seeds - Skeleton Tree (2016)

A passada década serviu para mais uma demostração de talento e capacidade inata para a música de Nick Cave. Com o lançamento da trilogia Push The Sky Away, Skeleton Tree e Ghosteen, o músico explorou novas sonoridades e mostrou que se consegue reinventar e inovar. Skeleton Tree é o disco com maior destaque nesta lista por ser o mais emotivo desta trilogia, um disco que surgiu pouco após a trágica morte de um dos filhos do cantor, Arthur. O lançamento foi acompanhado do documentário One More Time With Feeling que se foca na criação do disco e em tudo o que muda quando se perde um filho. 2016 e o lançamento deste disco trouxe, também, profundas mudanças na atitude de Nick em concerto, sendo mais notáveis a sua energia e entrega ao público com todos os espetáculos a terminarem com membros da audiência a subir ao palco com o músico. FLA




1 - My Bloody Valentine - MBV (2013)

Era inevitável a presença de m b v, o terceiro LP dos My Bloody Valentine. Um álbum que esteve na calha desde meados dos anos 90 e que fica marcado pela separação de uma década da banda e por largos períodos de reclusão de Kevin Shields (a mente criativa My Bloody Valentine). A esta difícil conjuntura, há que contar com a agravante de que todos os integrantes dos My Bloody Valentine desfrutavam, à data da dissolução da banda, de prolíficas carreiras a solo. Tudo isto fazia parecer impossível o lançamento de um novo álbum, e mais ainda tratando-se esse eventual álbum do sucessor do incontornável Loveless, um disco que quase consumiu as forças vitais de Shields e da Creation Records. m b v começou a ser gravado em 1996 e terminou em 2012, com a composição da faixa “She Found Now”, a única do disco composta de raíz neste novo milénio, sendo também esta o tema de abertura do álbum. m b v começa assim com a frase “You come back and see I welcome” e com uma parede sonora a embalar-nos, a acolher-nos para esta nova experiência. Ainda que em termos líricos, m b v seja permeado pelos mesmos temas presentes em trabalhos anteriores – amor, perda e distanciamento emocional – este é também um disco mais estruturado que o seu antecessor, no qual momentos de introspecção – ouça-se o tríptico sonoro formado pelas faixas "Is This And Yes", "If I Am" e "New You" – convivem harmoniosamente com "Only Tomorrow" e "Who Sees You" – ambas faixas mais próximas de trabalhos anteriores dos My Bloody Valentine – com momentos de contemplação, sendo o exemplo maior disso "Wonder 2", a faixa que encerra de forma magistral. Uma obra-prima. ES

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