sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

[Review] Ben Chisholm & Felix Skinner - Burgeoning Verse


Burgeoning Verse | Weyrd Son Records | abril de 2018
8.5 / 10

Há discos que só captam a atenção dos ouvintes um bom tempo após terem sido lançados. Burgeoning Verse, o álbum colaborativo de Ben Chisholm (Chelsea Wolfe) e Felix Skinner (Wreck & Reference), é um desses casos e, talvez, a história por trás de todo o processo que o levou até se tornar uma obra materializada explique porque este disco navegou no mar de lançamentos de 2018 mas nunca alcançou a costa, até agora. 

Burgeoning Verse começou a ser idealizado há cerca de seis anos atrás, no início de 2013, quando a decadência acelerada do mundo e dos seus próprios corpos levou a que Ben Chisholm e Felix Skinner criassem um estúdio simulado que não apresentasse as limitações físicas e financeiras experienciadas pelos artistas na vida real. Num prazo de 36 horas os músicos produziram 10 músicas com as quais se identificavam, mas cuja qualidade digital das gravações consideravam insatisfatória. Para contornar este facto ambos os músicos voltaram a regravar o disco com recurso a uma instrumentação 100% analógica, processo que lhes tomou mais uns quatro anos. Já com o trabalho na fase final, foi quando enviaram os press tests para a Bélgica que a história de Burgeoning Verse se tornou realmente intensa. O trabalho nunca chegou ao destino e ficou perdido entre as correntes do Oceano Atlântico (pelo menos é esta a história que os músicos querem que nos seja contada). 



Trabalhar durante quatro anos para materializar uma obra extremamente ambiciosa, detalhada e avant-garde como parece ter sido o caso de Burgeoning Verse e ainda ter de lidar com a sua perda para eternidade, sem visualizar o efetivo sucesso, é naturalmente uma história trágica, ainda mais nefasta nos dias que correm. Depois do seu desvanecimento no Oceano Atlântico, Burgeoning Verse chega agora aos nossos ouvidos, colocando-nos perante um universo sonoro intemporal e clássico com paisagens de uma poesia instrumental muito rica. 

A abrir com uma atmosfera de tons sinistros e estética soturna, na faixa "I", as camadas sintetizadas e o piano irrequieto afagam o ouvinte projetando-o para um ambiente tipicamente desconfortável, mas incrivelmente belo. No tema "II" os órgãos tornam-se ainda mais obscuros, interiorizam-se sonoridades de correntes e Ben Chisholm e Felix Skinner criam um caos contido na efemeridade musical. O disco, que contou ainda com a participação de Andrew Clinco (Drab Majesty e Marriages) na percussão da faixa "IV" – uma das mais magistrais peças deste registo – explora ainda os efeitos da inevitável celeridade do ser, bem como certos pontos de emotividade humana, pela sua abrangência sonora. O primeiro lado do disco termina com "V", um tema de música ambiente construído por sobre camadas dreamy. 



No lado B voltamos a poder ouvir mais uma das céleres faixas de Burgeoning Verse, "VI", single que recorre a tons orquestrais e intensos, facilmente estimulantes a uma imersão quase instantânea por parte do ouvinte. Música psicologicamente densa e altamente bonita. Os mares do disco levam-nos ainda a "VII", tema onde conseguimos ouvir a simulação de vocais etéreos sobrepostos a uma sonoridade imperativa, "VIII" - que volta a trazer os ambientes contemplativos e de reflexão já presentes em "II" -, "IX" já a deixar aquela nostalgia eminente e, por fim, "X" a marcha fúnebre de despedida. 

Em suma, Burgeoning Verse pode definir-se como um conjunto de dez registos sonoros que ilustram ambientes cinematográficos e atmosferas de suspense. Além da trágica história que esteve na base do seu processo de composição e produção, este novo trabalho – um disco extremamente desafiante - projeta o ouvinte para um ambiente sonicamente opulento, mas que pode ser lido, numa primeira instância, como um lugar de desconforto pelo desenvolvimento moroso que lhe está associado, bem como pelas atmosferas pesarosas que aporta. Claramente que Burgeoning Verse não é um disco que caia nas boas graças dos ouvintes mais impacientes, mas certamente fará os requintes dos mais apaixonados melómanos do panorama da música instrumental.



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