domingo, 10 de fevereiro de 2019

Reportagem: triciclo | Glockenwise, Cave Story e Savage Ohms [CCOB, Barcelos]


Partir um pouco atrasado para a viagem em direção à cidade onde o rock rola foi o suficiente para chegarmos um pouco tarde ao início de mais um evento do triciclo. E as inevitáveis duas de treta com os amigos à entrada do Circulo Católico de Operários de Barcelos (CCOB) foi o suficiente para ficarmos na fila para a entrada do concerto, a primeira vez que isso nos aconteceu naquele espaço. Percebeu-se naquele momento a razão dos avisos para a compra antecipada dos bilhetes, é que a noite ainda estava a começar e já se sentia uma grande concentração de pessoas. 


O som das Savage Ohms já ecoava da sala de concertos para o resto do CCOB, enquanto muitos ainda estavam para entrar, fazendo com que o ambiente da noite prometesse. A banda também prometia, claro, não fossem quatro ninfas de Lisboa que logo nos seus primeiros concertos foram apadrinhadas por Vaiapraia e pelo facto de duas das integrantes estarem ligadas a outros projetos de qualidade (April Marmara e Calcutá). Ao entrarmos na sala com uma pequena parte do concerto já decorrida, deparávamos logo com um cenário quase ritualístico graças à contínua música de influências drone e ambient, alimentadas por sintetizador, baixo, guitarra e bateria, e também acentuado pelo facto de as quatro integrantes serem iluminadas por luzes vermelhas, como se estivéssemos a ser preparados para entrar no submundo. E nem mesmo a ocorrência da primeira falha de luz em pleno concerto fez com que se quebrasse esse ambiente de transe. Apresentaram-se na noite seguinte n`O Salgado Faz Anos FEST, mas esperamos que voltem brevemente a tocar no norte.


Também do sul de Portugal, mais concretamente de Caldas da Rainha, voltaram os Cave Story a uma cidade que lhes é querida. Trouxeram como sempre o seu som alternativo, mas sempre com as lições bem estudadas de como ser bem tocado, não fossem eles os profissionais Punk Academics, sendo esse o mesmo título do último trabalho e o qual vieram apresentar. Como em todos os concertos deles, a atitude e a energia foi sempre constante, até quando a luz voltou novamente a falhar em pleno concerto, continuando o baterista a tocar até a luz retomar. Não se esperava outra atitude de alguém com uma t-shirt do álbum de estreia de Bathory.
“Ainda bem que as baterias não são elétricas” disse o vocalista, mas onde faltava eletricidade enquanto força de energia era mesmo no público, pois apesar de toda a entrega que os Cave Story deram em palco nas suas variantes de rock e punk, o público continuou muitou sereno durante todo o concerto, havendo mesmo uma grande distância de metros entre este e o palco. Havia muitos fotógrafos neste evento, é verdade, mas também não precisavam de um fosso de tamanho igual ao de alguns festivais. Nem mesmo o facto de a última música que tocaram ser a do primeiro single do último trabalho, a curta mas potente “Special Diners”, fez com que os ânimos dos que ouviam se exaltassem.


Por fim, para jogarem em casa estavam os Glockenwise, mas não da mesma forma como se apresentaram no Estádio Cidade de Barcelos no videoclip de "Leeches". Afinal de contas, os anos passaram e agora estão diferentes e vieram dar a conhecer esta última mudança aos conterrâneos que os viram nascer e crescer de perto. Vieram para apresentar o recentemente editado Plástico, que nos alegrou no fim do ano de 2018 e onde afirmam a “vontade de mudar e de ter passos para dar”. A banda intitula-se de trash pop e, apesar de atualmente associarmos imediatamente o nome de plástico a um problema ecológico que em muito contribui para a imundice do planeta, este álbum é tudo menos lixo. Até podia ser um plástico reciclado de outros trabalhos, mas também não é o caso. Eles mudaram é certo, mas não perderam a identidade, muito pelo contrário, apenas cresceram e estão mais maduros. Plástico é um trabalho de excelente qualidade e que é um espelho destes tempos e de uma geração. E para aqueles que são curtos de memória, antes do português de Plástico, os Glockenwise cantavam sempre em inglês. Uma transformação que muitos devem ter estranhado no início, mas que certamente em pouco tempo acabaram por entranhar porque o selo de qualidade continua atual .

Com esta apresentação pudemos comprovar na totalidade de que continuam incríveis como sempre nos habituaram, seja em disco ou ao vivo, isto apesar de agora terem um baterista novo na formação. Neste concerto, o quarteto apresentou-se ainda com mais dois artistas além dos elementos da banda, sendo um deles o Coelho Radioactivo, que também está ligado a muitos outros projetos de referência. Deram um concerto impecável e ainda não percebo como não estão a ser confirmados por todos esses festivais que existem neste país-festival. E sim, o concerto, tal como se esperava, foi todo ele na primeira parte focado em Plástico, mas no encore ainda revisitaram um pouco o passado e apresentaram músicas anteriores ao último trabalho, afinal de contas é sempre bom voltar a casa (Barcelos e CCOB) e recordar velhas memórias. Quanto ao público, apesar de ser o último concerto da noite, este continuava no geral um pouco tímido e apático. Foi pena, os Glockenwise realmente tinham muito para dar e realmente deram tudo. Mas no geral foi uma noite feliz, sendo que o evento esgotou facilmente. E que seja sempre assim.

Posto isto, vale sempre a pena lembrar-vos que este trimestre do triciclo ainda está longe de terminar. Podem sempre visitar Barcelos para outros eventos do triciclo. O ritual de HHY & The Macumbas acontece já este sábado, dia 9 de fevereiro. Com novo álbum, os Wrekmeister Harmonies voltam a Portugal e estreiam-se em Barcelos no dia 15 de fevereiro. O incrível serviço educativo em formato Identidade acontece no dia 9 de março e quem quiser fumar cigarros com o B Fachada pode ir no dia 30 de março para ajudar a terminar em grande mais um ciclo do triciclo.


Texto: Óscar Santos
Fotografia: Ana Carvalho dos Santos

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