quarta-feira, 10 de abril de 2019

Reportagem: Colin Stetson [gnration, Braga]


Em Braga vivem-se dias de culto e comemoração. As celebrações da Páscoa e da Semana Santa agitam as ruas da cidade, o trânsito é cortado e as procissões multiplicam-se. Instaura-se a azáfama e o regresso da chuva. Na Praça Conde de Agrolongo, a missa é outra. Às portas do gnration reúnem-se amigos e conhecidos, motivados pela vinda do saxofonista norte-americano Colin Stetson ao creative hub bracarense. À semelhança do que aconteceu com Marc Ribot, em fevereiro, ou com Michael Rother em 2016, o concerto de Colin Stetson fez-se também num domingo em formato matinée.

Conhecido pelas colaborações com artistas dos mais diversos quadrantes da música contemporânea, de Tom Waits a Laurie Anderson, Evan Parker, Lou Reed ou Bon Iver, é nas suas explorações a solo que o trabalho do saxofonista ganha maior relevo. A singular trilogia New History Warfare, que recebeu o selo da reputada editora Constellation Records, estabeleceu-o como um dos saxofonistas quintessenciais do nosso tempo, uma verdadeira besta cuja entrega ao instrumento é tão bruta quanto comovente. Na primeira de três datas por Portugal, o músico norte-apresentou-se sozinho em palco para interpretar novos e antigos temas, acompanhado de dois saxofones (alto e baixo) e um clarinete contrabaixo.



All This I Do For Glory deu o mote para a digressão que Stetson se encontra neste momento a fazer pela Europa, e foi com o abalo emocional de “Spindrift” que o músico inaugurou a atuação. Através de um sopro contínuo e ininterrupto, que alcança através de uma técnica ímpar de respiração circular, Stetson projeta uma multiplicidade de sons fragmentados, sem recurso a loops ou overdubs, que aplica de um modo muito visceral e físico, afetando cada nervo do ouvinte. “Judges” seguiu-se para um belíssimo contraste, esta mais bruta e musculada que a anterior. Num esforço hercúleo, Stetson segura o monstruoso saxofone baixo durante 10 minutos sem pausas, vociferando um turbilhão de sopros sem fim aparente. Os padrões percussivos que acompanham as suas composições são causados pelo bater das teclas no instrumento, equipadas cuidadosamente com pequenos microfones de contacto que captam cada detalhe minuciosamente. O resultado é uma experiência tão surreal quanto surpreendente – Colin Stetson é um verdadeiro homem-banda. 

Entre goles valentes de água e obrigados em esforço, Stetson reservou os momentos finais da performance para apresentar algumas novidades. O primeiro tema, “The Love It Took to Leave You”, remete-nos para as paisagens sónicas de “Spindrift”, dotado de uma beleza desconcertante cujos sopros gritam num choro belo mas agonizante. Já “Strike Your Forge and Grin” encerrou a atuação com músculo. O tema, de duração extensa, elevou o instrumento até à estratosfera, explorando-o até ao limiar da catarse. 

Mais do que uma experiência auditiva, o concerto assistido nesta tarde de domingo foi uma verdadeira experiência corporal, uma odisseia táctil e purificante pelos terrenos mais suados do minimalismo.




Texto: Filipe Costa
Fotografia: David Madeira

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