domingo, 21 de abril de 2019

Reportagem: Peter Hook & The Light [Aula Magna, Lisboa]

Peter Hook & The Light, a substância do legado Joy Division e New Order na Aula Magna


O amor pela música não tem idade e já são várias as décadas do legado Joy Division e, por acréscimo, o legado New Order, transversal a várias gerações. Peter Hook e os seus The Light foram à Aula Magna lembrar-nos do imenso valor que todas estas canções têm em palco e de todas as memórias que estas duas bandas em todos reactivam. Memórias de um tempo, dando-nos a oportunidade de sermos novamente felizes ao escutar e dançar as canções dos New Order e também os temas soturnos e emocionalmente mais agressivos dos Joy Division.


Encontro uma Aula Magna se não cheia, perto disso, com o público ávido e razoavelmente informado do que iria ouvir. A digressão estava anunciada como apoiada nas compilações Substance dos New Order e Substance dos Joy Division e apercebi-me ao longo do concerto de que iriam ser essas as canções, quase tal e qual como estão alinhadas em disco. Os The Light apresentaram-se sóbrios e competentes na execução e é claro que a voz de Bernard Sumner não estava lá, mas o facto foi amplamente compensado pelas intervenções vocais dos restantes músicos, em especial do guitarrista que julgo saber foi membro dos Revenge e dos Monaco, projectos de Peter Hook durante os anos noventa, e cujo timbre de voz na altura foi comparado pela imprensa ao vocalista dos New Order. É quando a voz de Hook não chega para estas canções que surgiu naquele palco a compensação pelas vocais dos seus companheiros, tornando esta experiência New Order muito gratificante para o público presente na Aula Magna. Também eu dancei a “Thieves Like Us”, a “Blue Monday”, as maravilhosas  “Bizzare Love Triangle” e “True Faith”, num alinhamento de 14 canções a percorrer Substance, e foi num instante que os músicos se retiraram do palco após uma hora e um quarto.


Por momentos pensei que estaria tudo acabado, porque foram quase dez minutos para que voltassem, mas… ninguém arredou pé e insistentemente o público exigiu a banda de volta à ribalta. Não é que fosse preciso tanto alarido, pois voltaram bem dispostos e cumpriram um segundo alinhamento previsto até então, sobre o essencial do que é a compilação Substance dos Joy Division. Até nos deram mais, foi mais uma hora de concerto onde Peter Hook foi novamente o maestro, de mão no ar em pose de batuta enquanto tocava a sua guitarra baixo a par com Yves Altana (baterista que acompanhou os Chameleons Vox nos últimos anos), este em substituição do filho de Peter Hook nos The Light.  Não imaginava que o alinhamento fosse tão extenso e respeitador das compilações, mas existe um certo conforto em saber que canções como “Dead Souls” não iriam falhar para além das sempre inevitáveis, como “Love Will Tear Us Apart”, que mais tarde fecharia o concerto. Naquela segunda parte a atitude de Peter Hook foi muito mais expressiva a nível vocal, foi como se aquelas canções, aquelas sim, lhe dessem um enorme prazer interpretar. Talvez, quem sabe, o desentendimento com os seus colegas dos New Order ainda lhe pesasse emocionalmente e o seu amor pelo catálogo dos Joy Division fosse agora ainda maior. Pelo menos foi o que transpareceu em palco. Não é difícil entender que, se Hook quisesse, o público estaria ali para ouvir ainda mais canções. Podia ter tocado outro set de New Order e outro ainda de Joy Division que ninguém se queixaria. Peter Hook foi uma figura efusiva e simpática que terminou o concerto em tronco nu depois de lançar a sua t-shirt ao público. Fez uma dedicatória a Ian Curtis num dos temas finais, tocou praticamente quase trinta canções e não demonstrou nunca sinais de cansaço. Saiu visivelmente satisfeito, e nós também.



Texto: Lucinda Sebastiao
Fotografias: Virgílio Santos 

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