sábado, 6 de abril de 2019

Vivarium Festival: 5 momentos a reter



O Vivarium Festival regressou ao Porto entre os dias 28 e 30 de março. A segunda edição do novo festival de new media estendeu-se, pela primeira vez, à cidade, levando cerca de 30 propostas e mais de 40 artistas a espaços como o Ateneu Comercial, Passos Manuel, Reitoria da Universidade do Porto e Maus Hábitos, que voltou a receber o evento que partilha com a associação cultural Saco Azul. Sob o título “Inteligência Natural, o que as Inteligências Artificiais (IA) ainda não podem fazer?”, a segunda edição do Vivarium Festival abriu um debate sobre as convergências e divergências entre Inteligência Natural e Inteligência Artificial, cruzando música, performance, dança interativa, artes visuais, pensamento e new media. No ano em que o Maus Hábitos comemora 18 anos, o festival assinalou ainda uma programação especial de celebração do famoso espaço cultural, reúnindo os DJ’s das festas mais emblemáticas da casa para para uma sessão de encerramento do evento que voltou a fazer do Porto um vivário criativo.

Da beleza insustentável do drone ao poder catártico da dança e da performance, passando pelo potencial artístico do shibari, foram muitas as experiências que o Vivarium ofereceu durante três intensos dias de programação. Aqui ficam 5 momentos que consideramos essenciais.


Ricardo Dias Gomes, Maus Hábitos


Ricardo Dias Gomes ficou encarregue de abrir o programa de concertos do festival. O músico e compositor brasileiro regressou aos palcos portugueses para apresentar o seu novo álbum, Aa, depois de ter atuado em Lisboa, na ZDB, no passado mês de novembro. No seu currículo, Ricardo conta 10 anos a tocar ao lado do incontornável Caetano Veloso, com quem formou a Banda Cê, e o segundo e mais recente trabalho a solo do músico residente em Lisboa juntou-o a nomes como Moreno Veloso, Pedro Sá, Joana Queiroz ou o músico e produtor norte-americano Arto Lindsay. 

A performance que deu no Maus Hábitos foi demonstrativa do seu percurso evolutivo enquanto músico e artista, equilibrando o concerto entre os temas que compõem o seu disco de estreia, 11, e as explorações praticadas em Aa. Aqui, Ricardo aplica linhas densas de baixo, que manipula com o baixo e a parafernália electronica que o acompanha, cruzando cancioneiro popular brasileiro com a sujidade do shoegaze e do noise. A atmosfera que carrega ao vivo é tão profunda quanto tranquilizante, equilibrando a densidade dos instrumentais com a ingenuidade das suas letras, que canta numa voz grave e sussurrada. É nesta relação constante entre o erro e a perfeição, a paz e a tensão, que Ricardo encontra o equilíbrio, e são essas relações que fazem dele um músico tão humano e peculiar.


Velvet Carpet, Ateneu Comercial


O Ateneu Comercial do Porto foi espaço para alguns dos mais interessantes momentos do festival. O programa de performances, que se intutulava “Uma corda estendida entre o animal e o super-homem, uma corda sobre o abismo” (em referência a Nietzsche), contou com casa cheia na apresentação de Velvet Carpet, do coreógrafo Pedro Prazeres. Para a performance inaugural do festival, o salão do Ateneu vestiu-se de preto, limitado por quatro cortinas translúcidas de grande dimensão e um tapete negro de veludo que cobria toda a área. A atmosfera era de grande tensão, com drones corpolentos a servir como banda sonora para um momento de emoções à flor da pele. Entre os intervenientes da performance encontravam-se cinco membros: três vultos encapuzados, em posição estática; Julen, o intérprete de Velvet Carpet que se encontra deitado ao centro, e ainda um último elemento, o percussionista Jorge Queijo, que se encarrega da componente sonora. 

Do projector que encima o aparato surge uma luz branca, direcionada ao tronco de Julen, que oscila num “oito” maciço de linhas entreleçadas. O intérprete contorce-se em convulções repetitivas, como quem se tenta levantar num ambiente instável, acompanhando mantras circulares de compasso bem vincando. A luz, que era branca, dá lugar a um azul saturado, o som, que era sintético e encorpado, torna-se agora orgânico e fragmentado, com pratos, gongos e chocalhos a servirem como banda sonora para uma coreografia calculada. Nas cortinas, avistam-se imagens turvas da dança pertubadora de Julen, replicada em pequenos apontamentos projetados que rodam até ao fim da performance. Desconcertante, mas impactante e desafiante, como que num sonho frustrante em que os movimentos nos parecem enferrujados.




Tim Hecker, Passos Manuel


O concerto de Tim Hecker era um dos momentos mais aguardados do festival. O concerto no auditório do Passos Manuel encontrava-se esgotado dias antes da performance que marcou o regresso do músico e compositor canadiano à Invicta. Depois de se apresentar em Lisboa com o seu konoyo ensemble, Hecker voltou ao país para mais um concerto de apresentação do mais recente álbum Konoyo, de 2018, assim como do vindouro trabalho que chegará no próximo mês de maio. Sozinho em palco, desta vez, esta foi mais oportunidade para experienciar o trabalho de um dos artistas sonoros que melhor concilia a dualidade entre homem e máquina. 

O seu processo de trabalho é dotado de uma grande complexidade. A sua música é, maioritariamente, desprovida de técnicas e instrumentação tradicionais, resultando em experiências que são, no mínimo, transformativas. Mas as suas performances são, também elas, um desafio à atenção. É música ambiente na verdadeira definição de Brian Eno: música ”tão ignorável quanto interessante”. A fotografia para este concerto não foi permitida, e compreende-se. A luz, quase inexistente, era abafada por nuvens densas de fumo artificial, que envolviam a sala numa atmosfera austera e sombria. Ao longo da atuação é possível reconhecer sons e excertos do seu último álbum, desde flautas às cordas gravadas durante as sessões no Japão, mas acima de tudo destacam-se as composições esparsas, as texturas orgânicas e os drones metalizados que Hecker manipula em momentos de ordem dramática. É um jogo de extremos que balança entre a luz e o assombro, o silêncio e o ruído, a vulnerabilidade e o músculo.


Iwa-Kagami, Ateneu Comercial


Escrita e interpretada por Yuko Kominami, Iwa-Kagami é uma peça de dança butoh em homenagem ao seu pai, que faleceu recentemente. Através da dança, inspirada pelas correntes artísticas da vanguarda do século XX, Konami expressa-se em movimentos desfazados da música que a acompanha, num misto entre folclore japonês e improvisação contemporânea. Num olhar constante para o vazio, seja direcionado para o público ou para cima, onde parece procurar seu pai, é possível verificar uma comoção genuína, um choro que sabemos ser verdadeiro, fruto dos acontecimentos da vida da intéprete. Quando o som para, ouvem-se os sons todos em detalhe – os espasmos provocados pelo movimento, os suspiros, as palmas das mãos e dos pés a baterem no chão de madeira. Há um sentimento muito visceral e cru, algo tocante e desconcertante que se intensifica pela expressão de Kominami, que interage com o público ao oferecer-lhes algo inteligível, imaginário, mas que pede para guardarem com o coração. O chapéu que enverga a dado momento é decorado com uma flor japonesa rosa subtil, cujo nome dá título à performance. Nos últimos dias de vida, o seu pai pediu-lhe para escalar uma última vez às montanhas íngremes onde florescem estas flores. A felicidade com que olhou para elas motivou a performance calorosa e emotiva da japonesa, que nos momentos finais desaparece por trás de uma tela branca na vertical, onde é projetada a figura de Kominami num cenário branco e pacífico, como que numa dimensão espiritual onde encontra a paz com o falecido pai.


Nun On The Moon, Maus Hábitos


A presença das práticas BDSM na arte tem vindo a assitir um crescimento nos últimos anos. Nun on the Moonde explora as possibilidades performativas da arte milenar shibari (bondage japonês) de modo libidinoso, aparentemente puro e inocente, mas com um forte cariz sexual, explorando a técnica através de uma dança leve e sedutora, levitando através das cordas que prende em diversos pontos do seu corpo. O cenário é quente, as luzes em tons alaranjados, tal como as vestes de Dasniya Sommer, bailarina e coreógrafa que assinou a última performance do festival. Ao centro, um tronco de bambu verde, onde ata a corda que prende o seu corpo. A performance divide-se em duas partes distintas: a primeira, mais performativa, é exclusivamente praticada por Dasniya. A segunda, mais interativa, alarga-se ao público, que tem a oportunidade de experienciar a prática, mas é na primeira parte que se encontra o verdadeiro encanto. São 15 breves minutos de pura libertação corporal, livre de tabus e preconceito, onde corpo e alma encontram um novo equilíbrio, uma mutação provocada pela própria restrição.




Texto: 
Filipe Costa

Fotografia:
Carolina Martins
João Pádua

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