segunda-feira, 13 de maio de 2019

Madrugada + A Jigsaw: noite de sorrisos e acenos no Lisboa ao Vivo



Lembro-me de ouvir Madrugada no início desta década, sem saber quem eram, ou sequer que tinham terminado a carreira. Sem nada saber sobre eles, na altura, através da maravilha que é a Internet (YouTube e semelhantes) da vida, que nos leva(m) a descobrir canções bonitas, interpretadas com alma, guitarras e vozes que nos fazem parar, e ouvir outra vez. Lembro-me de “anotar” no computador essas canções nos favoritos do meu browser, e algumas canções da figura mais central desta banda, o cantor Sivert Høyem, a quem associo uma voz característica e uma maneira de estar na música que privilegia a beleza. E era isto que esperava ver e ouvir numa noite de concerto dos Madrugada em Lisboa: a beleza e a elegância que nos prende a esta banda.


A Jigsaw


Na primeira parte, paragem obrigatória pelos sons mais acústicos num registo intimista a fazer lembrar por exemplo, The Walkaboutscom quem já colaboraram de alguma forma. A banda portuguesa A Jigsaw estabeleceu a sua métrica indie, na voz grave barítono de João Rui coadjuvado em quase todas as canções por Tracy Vandal, com teclados de Jorri e o violino de Maria Côrte. Apresentaram um concerto bonito e singular. Deram-nos uma agradável melancolia, animada por um certo espírito cabaret no deambular pelas canções onde João Rui, figura central a meio do palco, a fazer ali um concerto do princípio até ao fim sentado e muito compenetrado nas canções e na alma que é preciso entregar (e entregou!), a tocar acordes sentidos que no fundo, são o esqueleto das canções dos A Jigsaw. Canções que fazem lembrar uma viagem por mar agitado, de ondas crispadas, cujo timoneiro ao seu lado poderia muito bem ser… Nick Cave, num navio com espaço para Tom Waits… e  talvez Leonard Cohen, aqui com uma musa inspiradora e doce no canto, Tracy Vandal.


Madrugada



Entrámos por uma segunda vez no Lisboa ao Vivo (LAV) para tomar conhecimento do que já sabíamos: os Madrugada são uma banda de palco, não fazem música para mera recriação institucional das canções ao vivo. Trazem toda a alma e mais alguma que ouvimos em disco e ainda há algo mais. No fundo, é a entrega e a comunicação pela música, pelo modo de estar, que distingue as boas bandas das bandas medianas. E os Madrugada são das boas bandas, que entregam e entregaram tudo o que tinham para dar. E só faltou “Honey Bee”, uma das preferidas de todos ou quase todos, mas de resto foram excepcionais e para lá de competentes.  Com a lotação esgotada no dia seguinte no Porto, pouco faltou também para que o LAV enchesse por completo aqui em Lisboa. Sivert Høyem e companheiros surgiram pontualmente em palco e abriram com “Vocal” o que deixou claro que o alinhamento seria semelhante aos concertos já tocados nesta digressão europeia.

Os Madrugada desfilaram canções entusiamantes como “Belladona” “Higher”, a bonita “Sirens”, “Strange Colour Blue”, “Salt”, “Terraplane”, de entre outras que constituem o espólio desta regressada banda, que havia acabado demasiado cedo antes do virar da década. Sivert Høyem foi um mestre de cerimónias ímpar, sempre comunicativo, dizendo: "… e ainda temos muitas canções para tocar" - cada uma delas foi recebida com uma chuva de aplausos, eram evidentes os sorrisos no rosto dos músicos e nas pessoas que se deslocaram ao LAV.

No final, após um extenso encore de sete músicas, onde os momentos de maior beleza incluiriam “Only When You´re Gone” e a derradeira “Valley of Deception”, saímos todos felizes após uma singular despedida da banda a distribuir sorrisos e acenos, enquanto das colunas saía também um canção festiva a anunciar que era o fim… do concerto. Parecia o fim de uma missa gospel, de braços no ar, acenando adeus, espraiando alegria e de onde saímos todos, nós e eles, com o espírito elevado.



Texto: Lucinda Sebastião
Fotografia: Virgílio Santos

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