terça-feira, 14 de maio de 2019

Kara Konchar em entrevista: "a música consegue criar muita empatia entre as pessoas"


No passado dia 14 de abril fomos até à Quinta da Regaleira, em Sintra, para nos encontrarmos com Miguel Béco de Almeida (ex-ATILA) em função de conhecer melhor o seu novo projeto de música, Kara Konchar. Numa conversa onde a música serviu como principal pano de fundo, ficámos a saber como surgiu a génese de Kara Konchar, as principais influências, os desafios e benefícios de se ser um produtor de música eletrónica e todos os sonhos que passam pela cabeça de alguém que focaliza o amor naquilo que faz.

A entrevista dos temas abordados nessa solarenga tarde de domingo, pode ler-se agora na íntegra.

Oi Miguel! Antes de mais obrigada por teres aceitado o convite para esta entrevista. Sei que começaste agora um novo projeto, Kara Konchar, pelo que gostava de saber como é que decidiste colocar término ao projeto que te deu visibilidade no panorama da música eletrónica nacional, o ATILA, e os motivos que fundamentaram a criação deste novo trabalho? 

Kara Konchar – Os motivos foram vários. Em primeiro lugar, o ATILA nunca foi uma coisa muito pensada desde o início. Eu comecei a fazer aquilo, dei um nome porque sim, mas na altura comecei a fazer aquilo em casa, não tinha Bandcamp nem nenhum propósito específico. Entretanto a coisa cresceu e tornou-se em algo minimamente relevante. Eu queria começar um trabalho com um pouco mais de cabeça, uma mitologia e ideias próprias associadas e com um conceito. Depois também me queria dissociar numa coisa que sinto que ATILA caiu, que não é necessariamente mau, mas pelos sítios onde toquei e com quem toquei, ficou um pouco associado à cena da eletrónica para metaleiros e queria fugir um pouco desta vaga e ficar apenas só na eletrónica. E depois, foi também um motivo prático, porque há imensos ATILAs. Aconteceu no Bandcamp aparecer que eu tinha um concerto em Londres porque havia um gajo com o exato mesmo nome a tocar em Londres, também há uma banda e mais projetos com um nomes parecidos e achei que isso podia  gerar confusão. Além disso surge ainda de um cansaço com o projeto, no último disco que saiu, depois desliguei-me um bocado da música por motivos pessoais. Mas agora quis voltar e quis fazer o começo fresco, por assim dizer. 

Porque é que escolheste Kara Konchar, como nome? 

Kara Konchar – O nome veio de um livro que eu li, do autor Vasily Yan, o romance chamado Genghis Khan que é sobre o imperador Mongol. Aquilo passa-se na Corásmia, que é um império dissidente do império persa mas que agora equivale à zona toda do Uzbequistão, Quirguistão, Turcomenistão, Tajiquistão e Afeganistão, na Ásia Central. No livro surge uma personagem chamada Kara Konchar, que nem sequer é um nome verdadeiro de pessoa, mas uma alcunha do turco-mongol, que se traduz em algo como cavaleiro negro. Negro/corajoso, é uma palavra dúbia, Kara. Ele no livro é apresentado como um mercenário, uma pessoa sem princípios de quem as pessoas têm um certo medo, mas que depois se torna numa espécie de herói ou anti-herói ao mesmo tempo porque antes da invasão ele é esse mercenário que faz as coisas só por ele mas depois torna-se num mini-líder de uma rebelião, porque os líderes desapareceram e então eu interpretei isso quase como um ícone, como um anti-herói anárquico mas que está a fazer as coisas bem de alguma forma. 

Esse anti-herói anárquico, tens influências dessa personagem nas músicas deste novo disco? Por exemplo no conceito do disco? 

Kara Konchar – Mais ou menos. Eu sinto que Kara Konchar e o que eu quis fazer pelo menos com este primeiro disco é um bocado uma homenagem a isso e a essas personagens da mitologia que não são heróis assumidos, mas que estão lá e que são símbolos e sintomas da decadência, mas que vivem por isso mesmo. Acho que é um bocado essa parte, um símbolo e sintoma da decadência e não por isso negativo. Ou seja, haver uma certa positividade nas consequências da decadência. 


Sentes que a tua música é decadente, mas tem esse lado positivo? 

Kara Konchar – Não sei se tem esse lado positivo, mas é uma música que está bastante ok com a decadência e celebra um pouco o contexto da decadência. Imagina que pensas naquelas iluminuras medievais e assim, a dança e a morte, as pessoas estarem a dançar e a morrer na altura da peste negra e é um bocado isso. "Opá, já que isto não faz sentido e vamos todos morrer e a vida não tem propósito então bora dançar e curtir enquanto aqui estamos". Acho que é um bocado por aí que a música vai e que o sentido de Kara Konchar prossegue. 

Depois do processo da seleção do nome, já tinhas alguma música feita? 

Kara Konchar – Já tinha algumas coisas feitas, sim. Na realidade isto foi um processo um pouco longo, porque há músicas que já tinham começado a ser feitas há mais de dois anos, outras mais recentemente. Foram coisas que eu fui fazendo e depois decidi construir e juntar e fazer o álbum. Na parte de limar as coisas e finalizar, tentar perceber sobre o que é que o álbum ia ser, fui juntando as peças e tentar fazer disso um produto final. 

Foi nessa altura que decidiste dar término ao ATILA? Não fazia sentido continuar com os dois projetos? 

Kara Konchar – Sim. Não fazia sentido porque a linguagem não é assim tão distante e eu queria, e quero, a partir de agora ser assumidamente isto e os trabalhos que eu fizer serem como Kara Konchar

E as músicas deste álbum, escolheste quantas querias utilizar? Colocaste-as numa ordem específica, por exemplo da primeira para a segunda e vice-versa? Há algum historial? 

Kara Konchar – As músicas já estavam feitas e faziam sentido, não foi bem uma seleção. Relativamente à ordem das músicas, acho que foi mais pelo som, ou seja, por uma questão de intensidade do disco e do tipo de sonoridades. É uma narrativa, mas é uma só narrativa sonora, até porque não há letras, não há nada a não ser os títulos que nos pudessem guiar, mas nem os títulos têm necessariamente ligação entre eles, alguns têm outros não. 

Sentes que o teu estado espírito influencia a produção das tuas composições? 

Kara Konchar – Sim. Fundamentalmente faço música porque é a coisa que me dá alento e, de certa forma, a única maneira que tenho de manifestar um propósito enquanto cá estou. É uma forma de expurgar certas sensações que eu tenho, sejam de raiva e violência, de tristeza ou felicidade, todas acabam por ir para lá conforme eu me estou a sentir quando estou a fazer as coisas. Obviamente isso é filtrado, porque é um processo muito racional ao mesmo tempo, mas acaba sempre por ir para lá. 

Quais são as tuas principais influências musicais neste projeto? 

Kara Konchar – É uma pergunta que é sempre difícil porque se resume um bocado a quase tudo o que eu oiço e vou buscar ideias, ou seja, tu aqui tanto podes ir ouvir coisas que soam quase a post-punk, techno, electro, tipo Helena Hauff ou assim, podes ir buscar grime, a cena do UK underground, como por exemplo o The Bug, as cenas novas dentro deste tipo de eletrónica como Tsuzing, Amnesia Scanner, etc., mas são mesmo muitas coisas, é difícil dizer um caminho porque eu acho que o próprio disco tem várias linguagens que estão misturadas e se fundem. Imagina tens sons que são industriais mas estão com cadências rítmicas que são muito dub, por exemplo. 


Pretendes utilizar voz num futuro próximo? 

Kara Konchar – É uma coisa que está a ser trabalhada, em princípio. Não consigo garantir que vá sair nada, mas estou a tentar colaborar com voz para algumas coisas no futuro, sim. 

Tu próprio a fazer a voz? 

Kara Konchar – Não. Convidar outras pessoas para fazer voz porque eu sou terrível a cantar. Kara Konchar começa aqui, com Dungeon Rave.

Quais são as tuas perspetivas para o futuro com este projeto? 

Kara Konchar – É continuar. Começar a fazer para a coisa aparecer e ser ouvida porque acho que isso é um pouco o propósito destas coisas e o que dá um pouco alento. Gostava de entrar num circuito, obviamente sempre underground, mas mais internacional. Tentar trabalhar com labels diferentes também é um dos objetivos que tenho, editoras internacionais, mas para já não consigo prever nada. 

Pretendes lançar o Dungeon Rave em vinil ou para já não? 

Kara Konchar – Se surgir uma oportunidade que faça sentido sim, mas para já não. Com a Capital Decay estamos a trabalhar o formato CD por ter caído um pouco em desuso, te- se dado pouca importância. Tanto que a edição é com a caixa transparente, estamos mesmo a dar ênfase ao CD enquanto objeto. Acho que para já é o que faz sentido. Pode eventualmente surgir outra edição, se houver um convite é possível. 

Tu vais dar agora o teu primeiro concerto de sempre como Kara Konchar, no festival Impulso nas Caldas da Rainha, como é que te sentes em relação a isso? 

Kara Konchar – Não vamos necessariamente tocar para o nosso público alvo - ouvintes que se focam mais na música eletrónica de componentes industrial, techno e por aí, não sei bem definir o género - mas não estou muito preocupado. Vamos tocar um pouco tarde – eu estou a dizer vamos porque é com o pessoal da Capital Decay – mas espero que estejam lá pessoas interessadas ou só ébrias o suficiente para se divertirem. 

Qual era o festival de sonho onde gostarias de tocar? 

Kara Konchar – Não sei se há um festival, mas sei lá, por exemplo o Atonal em Berlim, ou festivais como o Dekmantel ou o Le Guess Who? que são festivais que estão abertos – o Le Guess Who? nem tanto, mas os outros dois sim – até à música eletrónica de uma forma exploratória. Também há o Super Sonic em Inglaterra, onde gostava de tocar. Este ano por exemplo tem nomes lá que eu gosto muito, mas não sei, eu ainda não penso muito nesses festivais. 

Quais são os processos mais complicados que tens de enfrentar como produtor de música eletrónica? 

Kara Konchar – Acho que o mais difícil, pelo menos para mim, é fazer com que uma ideia que está a soar bem se transforme numa música. É fácil chegares a um loop que te está a soar mesmo bem, mas como é que dás uma volta àquilo para se tornar uma narrativa e para não se tornar nem repetitivo nem previsível? Por exemplo para mim não tem interesse que as coisas sejam previsíveis ou repetitivas, neste momento. 

Quais são as coisas mais recompensantes que tens sentido como produtor de música eletrónica nos últimos anos? 

Kara Konchar – Acho que isso é transversal a qualquer tipo de música. É saberes que estás a fazer um produto que é teu e que está a mostrar grande parte da tua personalidade, daquilo que tu sentes, como manifestas emoções ou dás a conhecer emoções ao mundo e saber que alguém se está a rever naquilo, alguém está a sentir coisas positivas com aquilo. Esse tipo de momentos acho que é o que faz valer a pena. No geral é isso, um reconhecimento e criação de empatia. Acho que a música consegue criar muita empatia entre as pessoas e, por muito que possa soar macabra ou negativa, acaba sempre por ser sobre essa empatia, por as pessoas se reverem, porque mais pessoas sentem o que tu sentes e acho que essa é a parte bonita. 

Planeias com Kara Konchar permanecer a solo ou se surgir a oportunidade de colaborares com alguém estás aberto? 

Kara Konchar – Acho que vou ser sempre eu sozinho. Agora estou e espero no futuro colaborar com outras pessoas. Lançar discos colaborativos com outras pessoas. Estou aberto a tocar com percussionistas que era uma coisa que eu gostava de fazer no futuro, para já ainda não está pensado sequer. Acima de tudo experimentar coisas novas e não estagnar, sempre com o drive focado em mim, mas sim, trabalhar com outras pessoas. 

Gostavas de trabalhar com algum produtor de sonho? Pode ser no contexto de ídolo. 

Kara Konchar – O Dominick Fernow, que é Prurient, Vatican Shadow e Rainforest Spiritual Enslavement, porque adoro tudo o que ele faz, adoro a label dele e acho que é por aí. Numa perspectiva mais real estou a tentar trabalhar com pessoas também da música cá em Portugal e próximas a mim, mas prefiro para já não dizer nada porque depois posso prometer coisas que não sei se vão acontecer. 


Para finalizar, qual foi o último disco que ouviste e o último concerto a que foste? 

Kara Konchar – O último concerto que fui foi CZN, uma colaboração de João Pais Filipe com a Valentina Magaletti, dois percussionistas. Gosto muito do trabalho deles, nomeadamente o João eu conheço, cheguei a tocar com ele uma vez. O último álbum que ouvi é o novo dos DIAT, Positive Disintegration, que saiu pela Blackest Ever Black. É tipo post-punk barulhento com uma vibe extremamente pessimista, um bocadinho irónica, mas muito bem tocado, muito bem cantado, eu gosto mesmo daquilo. E também o White Rats de Broken English Club que vai buscar influências ao techno, EBM, é muito sobre decadência urbana e sim, é um disco incrível, recomendo a toda a gente. 

Muito obrigada!


Entrevista: Sónia Felizardo


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