quinta-feira, 23 de maio de 2019

Reportagem: SWR Barroselas Metalfest


Passei-me ao aço e meti-me entre as estradas do verde Minho em direção a Barroselas logo no dia 25 de abril, o dia 0 do festival. Afinal, foi para isto que também se fez o 25 de Abril. Para que muitos amantes da música extrema tenham a liberdade de muitas vezes, em esforços extremos, se dirigirem aquela vila que para a maioria é recôndita, mas que todos os anos faz o deleite de qualquer metaleiro que se preze, num período no fim de abril, onde a aprazível e sossegada (nos restantes dias do ano) terra de Barroselas se torna num manancial de sucessivas apresentações de bom metal. 

O dia 0 talvez não tenha sido o melhor dia para estar atento aos concertos, não pela falta de qualidade (muito pelo contrário) das bandas que combateram naquela arena do SWR por um lugar no estrondoso Wacken Open Air, mas porque o rever de amigos, que também faz parte deste Natal do metaleiro, fez com que alguma parte do tempo fosse dedicada a meter a conversa em dia enquanto o metal ia rasgando as colunas e servia de música de fundo. Quanto ao concurso de bandas, cabe aos Grog prepararem a viagem para a Alemanha. 


Dia 1

No dia anterior reparamos nas melhorias físicas com o calcetamento do local do SWR Arena, mas só neste dia reparamos na melhoria da organização deste, em que as pulseiras com chip serviam de controlo das entradas e saídas do recinto composto pelos palcos Warriors Abyss e Loud! Dungeon, e claro, também servia para pagarem finos com steels virtuais. Agora só falta uma criptomoeda própria. 

Foi a tomar lugar em Analepsy com o seu perfeito brutal death metal que comecei o festival propriamente dito. Foi sem dúvida um excelente começo de festival, com os lisboetas a demonstrarem porque cada vez mais são reconhecidos no nosso país e além fronteiras. Também de Lisboa, os Morte Incandescente foram a banda que se seguiu. Se o sol ainda brilhava fora do recinto dos palcos, lá dentro a escuridão era total. Portanto a privação de luz era perfeita para receber o black metal cantado em português de uma banda que sabíamos que podíamos confiar neles com o som negro e cru. O mundo ainda não morreu, mas mostraram esse futuro diante dos nossos olhos. Abram os túmulos esquecidos e preparem os caixões. 

O death metal dos Venenum e o contínuo abanar de cabeças ao ritmo do sludge/doom dos Grime foram uma boa forma de preparar a jarda que seria Midnight. E apesar de ainda faltar duas horas para a meia-noite, o público reagiu como se realmente fosse essa a hora (é normalmente quando o pessoal costuma ficar mais alcoolizado). Contudo, não era preciso álcool para o pessoal começar a se mexer quando se tem uma banda enérgica a aplicar um metal como se este próprio estivesse a beber uma cerveja minada de speed. Um concerto perfeito que englobou também a "You Can´t Stoop Steel", uma música que acaba por definir o festival. Ninguém consegue parar os guerreiros de aço, tal como foi possível comprovar no resto do festival. 

Os Sublime Cadaveric Decomposition apresentaram-se com uma mistura obviamente sublime entre death metal e grind, mas foi com os The Black Dahlia Murder que fui atingido por um concerto de verdadeiras máquinas. Estes regressaram a Portugal para trazerem o seu death metal melódico tocado na perfeição. Skull Fist nunca será o tipo de metal que mais me cativa, por isso deu para ao longe e entre duas de treta, descansar novamente um pouco antes do último concerto no palco principal.   

Tomai e bebei, isto é o meu corpo. Era agora altura de em carne e osso se apresentarem os Godflesh, compostos por Justin K. Broadrick, G. C. Green e o computador Mac para fazer as batidas, o que poderá não ter agradado a alguns metaleiros. Nem sei como foi a reação do público porque durante o concerto nunca consegui desviar a cabeça da direção do palco, o que para mim demonstra que não é preciso bateria para o metal ser incrível e perturbador. Um concerto percorrido de fúria, violência e niilismo. Em relação ao tempo, soube a pouco (e saberia mesmo se fossem várias horas), mas acabaram com a "Like Rats". Há melhor forma de terminar um concerto? Apesar do avançar da noite, ainda houve tempo de ver o duo Acid Cannibals a entregar-se com energia ao seu punk misturado com rock and roll. 



Dia 2 

No festival é suposto a restante vida desaparecer, mas nem sempre é assim, o que fez com que tivesse de perder alguns concertos nas primeiras horas do início ou fim dos dias do festival. Foi o que logo aconteceu neste dia, em que só cheguei a tempo para ouvir e contemplar um pouco do stooner/doom dos Dopelord para logo depois passarem o testemunho para o death metal dos Benediction

Os Imperial Triumphant (que visualmente são uns Slipknot em versão black metal) demonstraram que o próprio nome da banda corresponde ao concerto que deram, graças ao black metal urbano tecnicamente bem tocado, muito graças às fusões de experimentação que fazem com o jazz. Apesar disso, não perdem a essência de um black metal escuro. Claramente algo de inovador e refrescante no género não só em estúdio como em concerto. 

Serem história e continuarem a fazer parte da construção dela é o que acontece com os pioneiros do doom, os Saint Vitus. Tanto que até lançaram há poucos dias um novo álbum, tal como tinham prometido no concerto. Eles não estavam para enganar ninguém e continuam consistentes e sem prazo de validade à vista, pois os característicos riffs e vocais estiveram presentes.

Era agora altura de ascender a um nível superior. Não ao céu, é certo, mas a um momento de agressividade feroz e cheio de intensidade do black metal oculto dos Ascension que cativaram na perfeição durante todo o concerto. Uma boa forma de acabar a noite no festival até porque os Birdflesh acabaram por cancelar a sua apresentação devido a uma greve em aeroportos e eu acabei numa de vamos tão a Braga para terminar o fim da noite no open day do gnration. 



Dia 3 

Novamente a ter que perder os primeiros concertos, cheguei a tempo de ainda ouvir o death metal dos vizinhos espanhóis Wormed e logo novamente pude deslumbrar um ambiente sombrio, cruel e explosivo com o pesado black metal dos blasfêmicos e zangados Arkhon Infaustus. Intenso foi também o concerto de Vomitory, com um death metal agressivo. Um concerto estrondoso e para muitos o último porque era visível que algum público começara a zarpar do festival no fim deste concerto. 

Ainda não tinha ficado surdo e apesar de isso também não acontecer em Deaf Kids, estes deram um refrescante concerto de cacofonia ruidosa a ecoar num festival em que não é normal esta vertente musical. Os suecos e veteranos Craft demonstraram porque são uma instituição de culto e estarão sempre na lista dos nomes maiores do black metal da velha escola. Se dúvidas havia se iriam dar um concerto incrível do mesmo nível que a sua sólida discografia, rapidamente isso se dissipou logo nos primeiros momentos. Com este concerto e todos os outros de black metal que pude ver antes, fica bem perceptível a superioridade do black metal em relação a todos os outros géneros de música. 

Era agora altura de restabelecer o curso ordinário da vida, e assim perder o metal em feminino das Nervosa e o ambiente festivo que certamente foi o concerto de Serrabulho, pois já bem antes do concerto o recinto estava cada vez mais a ficar colorido graças aos fãs da banda que se vestiam com fatos de fantasias fazendo-os sobressair no meio das roupas pretas. Foi pena, deve ter sido bonita a festa, pá. 



Texto:  Óscar Santos
Fotografia: Helena Granjo

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