quarta-feira, 12 de junho de 2019

NOS Primavera Sound 2019 - Dia 1: Noite de génios e dilúvios



O primeiro dia do NOS Primavera Sound começou de forma atribulada. A nova promessa soul londrina Ama Lou cancelou a atuação no Parque da Cidade por motivos de saúde, e o cancelamento tardio da dj e produtora sul-coreana Peggy Gou, que atuaria umas horas depois no Palco Pull & Bear, veio fragilizar ainda mais um dia marcado por breves mas ameaçadores dilúvios.

Os efeitos da tempestade Miguel fizeram-se sentir, e bem, e as portas do recinto acabariam por abrir um pouco mais tarde. A coisa acalmou, felizmente, e os concertos iniciariam com normalidade. Dino D’Santiago abriu as hostes do festival e a canadiana Men I Trust seguiu-se com a sua pop doce e sofisticada, mas foram os americanos Built To Spill que nos chamaram primeiro a atenção. A banda de Doug Martsch, que atuara um dia antes em Lisboa, na ZDB, revisitou os temas do quarto e acarinhado disco de estúdio Keep It Like a Secret, que comemorou duas décadas em fevereiro último. O registo foi simples: recuperar os 10 temas que compõem o disco, com algumas boas surpresas pelo meio (a interpretação de “Harborcoat”, dos gigantes R.E.M., também integrou o alinhamento). A performance não foi a mais marcante, no entanto, e o desempenho cansado dos veteranos acabaria por não servir muito mais do que a nostalgia.  



Melhor esteve Jarvis Cocker, que consumou  o primeiro grande momento da noite. O homem que dança mais do que canta, e fala mais do que dança, apresentou o seu mais recente espetáculo, JARV IS, acompanhado de uma banda magistral que alinhava guitarras, teclados, saxofone, harpa e bateria. O charme do nativo de Sheffield, que desenvolve há 55 anos, tende em não envelhecer, e a atitude presunçosa mas intrigante do crooner continua igualmente apaixonante. Vestido a rigor e com um palco equipado com uma bola de espelhos, o vocalista e líder dos históricos Pulp, nome maior da britpop, cantou e encantou o público com novas e velhas canções, histórias e episódios de vida e desabafos de humor sofisticado. Glam requintado, teatral e elegante.

O palco NOS apresentava um diferente tipo de besta. Daniel Dewan Sewell, conhecido pelo burgo como Danny Brown, estreou-se finalmente em terras lusas para apresentar os temas que compõem uma das discografias mais arrojadas do universo recente das rimas e batidas. Acompanhado somente pelo cúmplice dj Skywlker, e com arte de Braúlio Amado como pano de fundo, o rapper de Detroit atirou-se aos beats contagiantes da sua fascinante trilogia de discos – XXX, Old e o mais recente Atrocity Exhibition. Entre a folia e o desconcerto, Danny Brown reinou num palco longe da enchente, mas a entrega do americano não deixou ninguém indiferente. “Really Doe” e “Ain’t It Funny” serviram como exemplos máximos de uma performance eletrizante que contou também com alguns inéditos, incluindo um tema com produção assinada por Q-Tip (uknowwhatimsayin? deverá chegar ainda este ano). 



Do outro lado, no Palco Super Bock, encontrávamos Tommy Cash. O horário crítico não pareceu afetar o rapper estónio, que atuou ao mesmo tempo que os reformados Stereolab (foram 10 longos anos longe dos palcos). Acompanhado apenas por uma dj, Cash cantou-nos a sua visão distorcida e surrealista da cultura pop, num inglês sujo e desalinhado que é tão acutilante quanto provocador. As imagens pareciam uma busca pelos fóruns mais recônditos da internet: mulheres nuas a segurar peixes, modelos siameses ou gatos que passeiam porcos, tudo isto parece fascinar a mente intrigante do jovem de 27 anos. Os cavalos são mais uma das paixões de Cash, que não pôde deixar de nos cantar em “HORSE B4 PORSCHE” (com cavalos como pano de fundo, claro). Mas o momento insólito chegaria com “Winaloto”, que o rapper guarda na memória como tendo sido partilhada na sua primeira passagem pelo Porto, em 2016, onde fez o upload do tema que iria catapultar a sua carreira. As imagens explicitamente pornográficas deixaram qualquer um embaraçado, mas a festa tendeu em não cessar com a epifania trance de “Baba Yaga” ou a euforia digital de “X-Ray” a soltar espasmódicos movimentos por parte do público. 

“Rap pós-soviético”, atravessado e altamente contagiante.



De regresso ao palco maior, finalizavam-se os preparos para a última grande atuação da noite. Solange, a mais nova das irmãs Knowles, estreava-se finalmente em Portugal com o meritório estatuto de cabeça de cartaz da primeira noite. 

O cenário apresentado em palco é simples, mas majestoso, com uma plataforma branca encimada por uma escadaria onde dançarinas se movimentam numa marcha que grita empoderamento. As vestes são igualmente simples, com o preto num bonito contraste com o branco da plataforma onde Solange se desloca com uma graciosidade do tamanho do mundo. É notória a humildade da cantora americana, que sorri e canta para e com o público, mesmo quando um curto mas intenso dilúvio se abate sobre o mesmo. 

O seu mais recente álbum, When I Get Home, é um festim de géneros e abordagens idiossincráticas perante os terrenos comumente designados como pop, mas a sua música vai muito para além disso. A soul e o R&B estão na base das suas canções, que exploram ainda o jazz, o funk ou o psicadelismo. “Way to the Show”, “Down With The Click” ou “Almeda” (que não deixou de parte o verso de Playboi Carti) integram o alinhamento e demonstram o poderio subtil do último disco, enquanto “Cranes In The Sky” nos leva de volta ao essencial A Seat at The Table, de 2016.

Esteja a cantar, a dançar ou a comunicar, a sensação é sempre a mesma: a do arrepio. A performance de quinta-feira venceu pela sensibilidade e minimalismo, tão estético quanto sónico.





Texto: Filipe Costa
Fotografia: Ana Carvalho dos Santos

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