sexta-feira, 14 de junho de 2019

NOS Primavera Sound 2019 - Dia 2: Novas caras, novos paradigmas


E depois da tempestade, vem a bonança. O segundo dia de NOS Primavera Sound arrancou a todo o gás, com o MC e entrepreneur do trap português Profjam a inaugurar o palco Super Bock. Às 17h, o recinto encontrava-se já bem mais composto em relação ao primeiro dia, com o cabecilha da Think Music Records a arrecadar um público considerável para a hora. As primeira enchentes chegariam mais tarde, motivadas em muito pela presença controversa da estrela reggaeton colombiana J Balvin, que juntamente com vinda da artista trans Sophie provocaram uma visível mudança no paradigma musical e social do festival. O NOS Primavera Sound está visivelmente mais diverso, e a pluralidade assistida neste segundo dia tomaria novas proporções com o último dia de festival.

No prado do Palco NOS sentia-se a calma e o conforto da voz de Aldous Harding, cantora e compositora neozelandesa que apresentou os temas do seu mais recente disco, Designer, juntamente com a sua banda. A expressão desvairada da cantora, que apresenta uns olhos abertos e desconcertantes, contrasta com a doçura da sua voz, que nos canta sob uma toada serena e reconfortante enquanto batalha com o volume estupidamente alto dos japoneses Jambinai, que  se encontravam a tocar à mesma hora no palco oposto, lá bem distantes no SEAT.



Já no palco Super Bock, logo a  seguir, uma das mais promissoras figuras do cancioneiro independente britânico marcava a sua estreia em terras lusas. Nilüfer Yanya, londrina de descendência turca e barbadiana, é um dos novos fenómenos da música indie de hoje, com Miss Universe, o aguardado álbum de estreia lançado em março a arrecadar valentes elogios por parte da crítica especializada. As razões estão à vista, tal como se comprovou na atuação de sexta. A voz carismática e ofegante de Yanya é revitalizante e destaca-se dos demais conterrâneos britânicos, mais aventureira e desafiante e com uma visão refrescante que é tão rock quanto pop.

Quem também arrebatou o público com uma valente coça de guitarra foi a australiana Courtney Barnett, que regressou ao festival que a acolheu na sua primeira passagem por Portugal. Ao som de “Rocket USA”, dos históricos Suicide, a australiana entrou em cena em registo power trio para um festim de brados e guitarras aguerridos. A aparência andrógena e atitude máscula da australiana, que escarra constantemente, é a de um verdadeiro herói de guitarra, uma quebra saudável e necessária com o estigma da mulher na indústria rock.



O Palco Pull & Bear foi lugar para muitas das mais arrojadas performances desta edição. A mais recente parceria com o festival português trouxe uma escolha eclética e desafiante, apostando nalguma da melhor produção emergente da atualidade. Os britânicos Sons of Kemet, porta-estandartes da nova e fervilhante cena jazz britânica, apresentaram-se nesse mesmo palco em formato XL, com os geniais Shabaka Hutchings (saxofone) e Theon Cross (tuba) alinhados por uma armada promissora de quatro baterias, e ainda um ocasional frontman (o poeta e performer Josh Idehen) nas vozes. A fusão poderosa entre a precursão e os instrumentos de sopro provocaram um efeito imediato no público, que não resistiu à contagiante secção rítmica do grupo. Jazz sem medos, embriagado mas incessante e que enfrenta as problemáticas de um país confuso. É sob a máxima de “My Queen is Doreen Lawrence” – “I wanna take my country forward” – que o grupo encerra uma das mais impactantes performances desta edição, com Josh Idehen nas lides de um momento tão festivo quanto interventivo.

Nem tudo mudou no ADN do festival. A missa anual Shellac continua a ser um acontecimento assíduo na história do evento, que recebe os americanos desde a primeira edição. São para muitos o único motivo para não se falhar uma edição, e a sua música só parece melhorar cada vez mais com a idade. Sempre iguais, sempre incríveis, não é difícil perceber porque são, para muitos, a melhor banda do mundo. Steve Albini, Todd Trainer  e Bob Weston continuam impetuosos e com o sarcasmo de sempre. O baixo de Weston ainda é o baixo tenso e impenetrável de sempre, a guitarra de Albini continua extremamente dissonante e metálica, e o ritual alienado de Trainer em “The End of Radio”, que encerra religiosamente as suas performances, continua igualmente fascinante. 

No Pull & Bear, continuava a olhar-se o passado pelo retrovisor. Liz Phair, 52 anos, veio ao Porto revisitar os temas que marcaram a carreira de um ícone da música alternativa americana. A autora do essencial Exile in Guyville apresentou-se ao lado de uma banda consideravelmente mais jovem, com quem interpretou os temas que influenciariam toda uma vaga de novos músicos e cantautores, de Cat Power a Fiona Apple, passando pelo caso próximo de Rodrigo Vaiapraia, que não podia deixar de estar presente (na front, claro). Um concerto essencialmente saudosista, mas fundamental para o melhor entendimento da música independente como a conhecemos hoje. 



No palco principal, a festa era outra. O presente (ou o futuro) da música encontrava-se de pés bem assentes no Palco NOS, com o enfant terrible da edição a proporcionar a maior enchente do dia. José Álvaro Osorio Balvin, conhecido por J Balvin, apresentou-se no festival portuense depois de, em 2018, ter atuado no MEO Sudoeste. A estrela reggaeton que converteu hipsters de todo o mundo ao revivalismo de um género dado como morto afirmou-se como um verdadeiro monstro de palco, ainda que a sua música não seja a mais apaixonante. Essa estaria, por exemplo, em Bad Bunny, colaborador frequente do colombiano, ou na catalã Bad Gyal, que brilhou na edição transata do festival. No entanto, a performance do autor de “Mi Gente” demonstrou-se exemplar (ainda que com alguns momentos notoriamente misóginos). Bonecada, disparos de fumo branco, lap dances, tudo isto coabitou num concerto que, apesar de deslocado, se apresentou eficaz. O povo pediu reggaeton, e J Balvin não o pôde negar.

Quanto aos Interpol, foi apenas mais uma oportunidade para revisitar o bom material da banda de Paul Banks. É sabido que as performances dos americanos deixam sempre um travo amargo, não representando o verdadeiro potencial dos temas que marcaram a música independente do início do século. A fórmula repete-se com os sucessivos discos, cada vez mais congelados no tempo, e a pose cansada não encaixa na visão desafiante do festival.

Desafiante é, também, a palavra que melhor descreve JPEGMAFIA. O veterano de 29 anos não esteve com rodeios, e abriu o concerto ao som de “Real Nega”, tema que integra o excelente e mais recente disco Veteran, que apresentou nesta sua primeira passagem pelo país. O culto à volta do rapper e produtor nova-iorquino palpita na visível agitação do público, que dança, salta e canta cada verso em uníssono, enquanto Peggy (assim gosta que lhe chamem) se atira com ímpeto a temas como “Thug Tears”, “1539 N. Calvert” ou a rebelde “Baby I’m Bleeding”, que instaurou o caos no palco Pull & Bear. Pânico em forma de emoji.

De fora não poderia ficar o rant ao músico que o rapper mais odeia, Morrisey. “I Cannot Fucking Wait Til Morrissey Dies” chegou com o seu instrumental contagiante para acabar tão rápido quanto começou, uma manifestação de raiva que tem tanto de troll quanto de politizado.



Enquanto nesse palco se viviam momentos de apoteose punk, no principal sentia-se a acalmia de James Blake. O músico e compositor londrino regressou ao festival que o acolheu em 2012 na sua primeira edição, desta vez para encerrar o palco maior. Percorrendo um pouco de toda a sua discografia, James Blake fez-se acompanhado por um baterista e um multinstrumentista, encarregado dos sintetizadores (uma parede assustadora de modulares) e guitarras. Os temas do seu mais recente disco, Assume Form, não poderiam ficar de fora, com “Barefoot In The Dark”, cantada por Rosalía (sem a presença da catalã, no entanto), “Mile High” ou “Where’s The Catch” a integrar o alinhamento. As explorações disco de “Voyeur” seriam interpoladas por uma breve rendição de “CMYK”,  transformando o ambiente instrospetivo que pautou a grande maioria da performance numa autêntica pista de dança, livre e musculada. Mas foi a calma enternecedora “Don’t Miss Me” que encerrou “contratualmente” o concerto. Solene e arrebatador.

O último grande momento da noite esteve nas mãos de Sophie. A artista britânica encerrou o programa de concertos com mais uma poderosa performance no palco Pull & Bear, que foi lugar para uma celebração livre e não binária de composições apocalípticas. As bandeiras trans e queer levantaram-se para dançar ao som de “Take Me To Dubai” ou “Burn Rubber”, com remisturas de “Whole New World/Pretend World” e “Faceshopping”, do fabuloso álbum de estreia OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES, de 2018, a integrarem um alinhamento pautado pela experimentação. O equilíbrio entre a tensão e a alegria é uma das ferramentas de Sophie, que utiliza a seu bel-prazer para efeitos de pura catarse. No final, Tzef Montana, com quem a produtora mantém uma relação amorosa, subiu ao palco para um dos momentos mais enternecedores desta edição. Ao som de “It’s Your Life/Reason Why”, o casal dançou adoravelmente perante um público claramente deslumbrado com os encantos de uma das figuras mais transgressivas da indústria. Em pleno mês do orgulho LGBT+, Sophie serviu como o antídoto perfeito para uma campanha submersa em capitalismo bacoco.
  


Texto: Filipe Costa
Fotografia: Ana Carvalho dos Santos

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