terça-feira, 4 de junho de 2019

Nova Normalidade: Esta é a nova cara do NOS Primavera Sound



A paridade é o novo normal do NOS Primavera SoundDe 6 a 8 de junho, cerca de 70 artistas irão passar pelo Parque da Cidade do Porto para a oitava edição do festival em Portugal, que este ano se destaca pelo forte equilíbrio entre géneros no cartaz. Mais ainda, a nova cara do festival apresenta-se mais eclética e refrescante que nunca, com um olhar virado para o presente e para o futuro, mas sem nunca esquecer o passado. A música independente como matriz basilar do festival tem vindo a verificar uma progressiva derivação para a música urbana, verificando-se uma maior aposta em estilos como o hip hop, o R&B ou o reggaeton, mas também a música electrónica. 

Os nomes cimeiros desta edição são os primeiros a contemplar esta evolução: Solange e Erykah Badu trazem o luxo da nova soul americana, enquanto J Balvin e Rosalía assumem as suas posições como nomes maiores de uma aparente descentralização do ingles como língua padrão. James Blake, Interpol e Stereolab, que regressam aos palcos após um hiatus de dez anos, completam as primeiras filas do cartaz. Há ainda o novo jazz britânico de Nubya Garcia e Sons of Kemet (do genial Shabaka Hutchings), os novos mundos de Yves Tumor, Sophie ou Let’s Eat Grandma, o segredo bem guardado de Tirzah e o estilo idiossincrático de Tommy Cash

As rimas e as batidas estão asseguradas com o flow fulminante de JPEGMAFIA, as visões psicotrópicas de Danny Brown e as novas e velhas histórias do veterano Allen Halloween

A electrónica também não podia faltar. Entre o palco e a pista, a festa faz-se com as escolhas de Nina Kraviz, Jasss, Yaeji, Peggy Gou ou Helena HauffJá o cancioneiro independente, continua presente, e bem: Hop Along, Big Thief, Snail Mail, Lucy Dacus e Tomberlin representam uma nova vaga indie cantada por mulheres, enquanto  a australiana Courtney Barnett (que atuou pela primeira vez em Portugal neste festival) e a neo-zelandeza Aldous Harding nos contam as suas aventuras do outro lado do globo. 

O passado, esse, também não é esquecido: Guided By Voices e Liz Phair dão as suas primeiras atuações em Portugal, Built to Spill comemoram 20 anos do acarinhado disco Keep It Like a Secret, Low apresentam uma renovada e imperativa faceta e Neneh Cherry mostra-nos a sua nova aventura política, não esquecendo, claro, a presença assídua dos muito acarinhados Shellac. Por último, mas não menos importante, o contingente nacional, que este ano se faz composto por Profjam, Violet ou Lena D’Água e Primeira Dama.

Em baixo, deixámo-vos com um pequeno roteiro dos artistas que considerámos essenciais nesta edição do festival.

Solange

Solange viveu muitos anos enquanto a irmã de Beyoncé. Mesmo em 2016, quando foi editado o primeiro álbum de longa duração a solo em 8 anos, A Seat at the Table, Solange continuou a dever parte da sua popularidade à sua herança fraternal, algo que na altura era compreensível: Beyoncé ainda vinha embalada por um Lemonade que muito em muito contou para deixar que a super-estrela americana entrasse nos corações da comunidade mais alternativa. Contudo, já não é 2016 e os ânimos que A Seat at the Table conjurou foram bem complementados por When I Get Home, o último álbum de Solange editado março. Nele temos o soul e R&B que sempre caracterizaram a cantora, mas vemos também o psicadelismo e a art pop a reclamarem um lugar bem merecido à mesa, bem como um número e teor admirável de colaborações com músicos tão diversos como Metro Boomin ou Panda Bear. Ela já não é "a irmã de Beyoncé" - Solange está em forma e sente-se em casa com When I Get Home.



JPEGMAFIA

Peggy, Devon Hendryx ou JPEGMAFIA são alguns dos nomes pelo qual é conhecido Barrington Devaughn Hendricks, veterano da Guerra do Iraque que sobreviveu para nos cantar as muitas inquietações que intrigam esta mente de apenas 29 anos. Veteran, o segundo e aclamado segundo disco de Hendricks, juntou-o ao catálogo da editora norte-americana Deathbomb Arc, casa-mãe para atos como Death Grips, Clipping ou SB The Moor. Aqui, o rapper que é também jornalista doutorado atira-se com garra e afinco à rima mais hostil e politizada, apresentando um flow e delivery invejáveis com gravilha na voz. Johny Rotten, Morrissey, Donald Trump, ninguém escapa à crítica acutilante de Peggy, que reclama cada vez mais a sua posição como novo embaixador da música hip hop com carimbo industrial (ou não fossem os Throbbing Gristle uma das suas maiores referências). Peggy é um provocador, Peggy é violento, Peggy é um sentimental. Peggy é isto e muito mais, e a aguardada estreia no próximo dia 7 marcará, com certeza, um dos momentos mais suados e memoráveis da agenda musical de 2019. O punk também vive aqui.



Rosalía

Quando Rosalía subir ao palco maior do NOS Primavera Sound, já não serão precisas grandes apresentações. No espaço de 3 anos, a carreira da cantora catalã catapultou de um modo exponencial, muito devido ao lançamento do segundo e sensacional disco de originais, El Mal Querer.  Co-produzido pelo músico e produtor espanhol El Guincho, El Mal Querer assume-se como um marco definitivo na ainda curta carreira de Rosalía, mudando em muito o rosto da música flamenca. A visão audaz e apaixonada da catalã é dotada de uma enorme porosidade, conjugando o melhor da música urbana com as tradições do género andaluz, que desconstrói num organismo eclético e fascinante. Inspirado na novela anónima do século XIV, Flamenca, o disco retrata a história de uma mulher aprisionada pelo marido, que gradualmente se liberta da sua condição. É uma representação vívida da opressão feminina, mas também do seu empoderamento. As coreografias, os telediscos e o jogo inteligente com a cultura popular fizeram de Rosalía um objeto viral e irresistível. Agora, a 8 de junho, cedemos novamente aos encantos da jovem que nos fará gritar “tra tra” em uníssono. 



Danny Brown

Com uma mente irrequieta e uma personalidade singular, Danny Brown rapidamente se tornou numa autoridade criativa a ter em conta no panorama mainstream do hip-hop moderno. O seu ar esgazeado e até mesmo vagamente tresloucado esconde um génio em termos de delivery determinado, mas folião, e wordplay que pode ser, por vezes, vulgar, mas acaba por ser sempre engenhoso, além de contar com alguma da melhor produção de beats para rematar a cena dele. Durante esta última década, a jornada do rapper de Detroit tem ganho reconhecimento gradual no panorama musical, sendo que começou a ganhar notoriedade com o álbum XXX, um grande desfile de vários highlights da sua irreverência que só tem evoluído de forma orgânica ao longo da carreira, dando azo a mais experiências leftfield que refletem perfeitamente a atitude abrasiva natural de Danny Brown. O seu génio foi eventualmente aceite de forma unânime com o álbum de 2016, Atrocity Exhibition, em que o rapper demonstra a sua disposição alarve que casa de forma brilhante com sonoridades industriais mais sombrias. Em vésperas de lançar novo álbum (uknowhatimsayin está previsto para este ano), este será certamente um dos concertos a não perder no NOS Primavera Sound.



Sophie  

Sophie já não é mais o vulto misterioso que intrigava as pistas de dança britânicas. Depois de desafiar as leis do maximalismo com um apanhado de composições pop elásticas e mutantes, que compilou cuidadosamente no maravilhoso PRODUCT, e de se juntar à estrela pop inglesa Charlie XCX para a produção de um muito singular EP colaborativo em 2016, a produtora escocesa revelou, finalmente, a sua verdadeira faceta. O momento deu-se com “It’s Okay to Cry”, single de avanço daquele que seria a sua estreia nos longa-duração, OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES, de 2018. Mas este não se tratou de um simples single de avanço. Sophie revelou o seu rosto pela primeira vez, a fisionomia ossuda e frágil a demonstrar um momento tão vulnerável quanto poderoso. As suas músicas, autênticos hinos rejuvenescedores, gritados em vozes artificiais e deformadas, representam uma nova geração de músicos e artistas trans e queer que exploram a identidade, o género e a sexualidade de forma subversiva e não binária. A conquista de Sophie nos circuitos mais mainstream também já deu os primeiros passos: , Madonna ou Vince Staples não resistiram aos encantos da escocesa, que se regressa a Portugal dia 7 de junho.



Tommy Cash

Tomas Tammemets é Tommy Cash, rapper, artista e bon vivant estónio de apenas 28 anos. A dança é a sua maior paixão, mas é como músico que a carreira de Tommy acabaria por vingar, com a lírica polémica e altamente contagiante de “Pussy Money Weed” a catapultá-lo para os corações da comunidade mais alternativa. Euroz Dollaz Yeniz, o álbum de estreia de 2014, introduziu a abordagem idiossincrática do estónio às rimas e batidas. Agora, com o lançamento do segundo e mais recente longa-duração, a visão de Tommy tornou-se ainda mais abrangente e eclética. ¥€$ juntou-o a uma armada estelar de músicos e produtores: do caos apocalíptico dos finlandeses Amnesia Scanner à euforia digital de Danny L. Harle ou A.G. Cook, passando pelas contribuições de Charli XCX, Caroline Polachek ou o estilista americano Rick Owens nas vozes, ¥€$ chegou de rompante para marcar de forma indelével o calendário musical de 2018. Nele encontrámos o universo hedonista de um jovem que vive pelas suas próprias regras, num misto camaleónico que tem tanto de Bowie como de Die Antwoord. 

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