quinta-feira, 6 de junho de 2019

Reportagem: The Mystery of the Bulgarian Voices With Lisa Gerrard [Aula Magna, Lisboa]


As vozes búlgaras e os seus insondáveis mistérios foram reveladas ao mundo ocidental pelo etnomusicólogo suíço Marcel Cellier, numa das suas incursões pela Europa de Leste, munido com seu gravador Telefunken de 35kg, Cellier captou o coro no seu habitat natural e lançou um LP pela sua editora (Disques Cellier) em 1975, álbum esse que nunca saiu do circuito restrito da world music da altura. 

Mas o resto da história ao redor do álbum ainda estava por escrever, em meados dos anos 80, Peter Murphy estava a gravar o seu primeiro disco solo para a 4AD e na companhia de Ivo Watts-Russell (o mastermind da editora) escutavam no fim das sessões uma cassete que tinha sido oferecida a Murphy e que continha gravações mágicas de vozes, mas cuja origem não estava identificada. Depois de alguma pesquisa, Ivo Watts conseguiu identificar o álbum e prontamente iniciou contactos com Cellier para licenciar o álbum. Estava assim aberta a porta para um reconhecimento global do seu valor. O disco vendeu cerca de 100.000 cópias e chegou a um vasto público, que apesar de estar ligado às novas tendências que a 4AD irradiava, logo se rendeu ao encanto de sereia daquelas vozes. 

Regressando à 4AD, a descoberta das vozes búlgaras e seus mistérios acabaria por se tornar umas das grandes fontes de inspiração das cantoras que eram o expoente máximo da editora, Elizabeth Frazer (Cocteau Twins) e Lisa Gerrard (Dead Can Dance). Ao longo dos anos Lisa Gerrard foi demonstrado a sua admiração pelo coro búlgaro até que, finalmente, os seus caminhos se uniram dando origem ao álbum Boocheemish (2018) que seria esta noite apresentado em Lisboa. 



Esta seria a minha terceira presença num dos concertos das Vozes Búlgaras, a primeira havia sido em 2004 em Palmela e a segunda há 2 anos em Utrech no Festival Le Guess Who (onde atuaram numa belíssima igreja no centro de cidade). Desta vez a expectativa era diferente, pois além do repertório incidir sobre o novo álbum que ainda não havia ouvido (haveria alguma pérola do calibre de "Pritouritze Planinata"?), a noite trazia a presença de Lisa Gerrard que havia participado no álbum. 

Entrámos na Aula Magna e ainda ecoavam pela sala as vozes de Lisa Gerrard e Brendan Perry, como estilhaços do memorável concerto dado pelos Dead Can Dance no passado 23 de maio. Os primeiros a entrar no palco foram um grupo de 4 músicos e um beatboxer, percussão, cordas e sopros foram o ponto de partida para a viagem que se seguiria. Após alguns temas instrumentais entrava no palco o coro búlgaro liderado por Dora Hristova, presença discreta mas fundamental na fluidez com que as vozes nos oferecem as suas lendas folclóricas. Intercalando as solistas, o mistério de vozes búlgaras revelou músicas do seu novo álbum em que se descortinaram algumas investidas mais rítmicas do que é habitual, adornadas pelo quarteto de músicos e pelo beatboxer búlgaro, Alexander Deyanov, mais conhecido como SkilleR, que viria a protagonizar um dos momentos altos da noite com um solo de beatbox que impressionou todos os presentes pela multiplicidade do timbre e a capacidade rítmica desconcertante. 



Era chegado o momento alto da noite, Lisa Gerrard com seu visual imponente, juntava-se ao coro búlgaro para interpretar as músicas do álbum em que participa e após um início algo desequilibrado em termos dos volumes das vozes, somos transportados para uma dimensão onírica difícil de explicar por palavras. O universo das vozes búlgaras estava lá, mas adornado pela mística da voz de Lisa Gerrard, por vezes transportando-nos mesmo para a vertente mais oriental das músicas dos DCD, foram cerca de 6 músicas que culminaram no momento avassalador em que interpretaram "Mani Yanni ", se anteriormente havia referido se haveria alguma pérola à altura de "Pritouritze Planinata" (a minha música favorita das Vozes Búlgaras), a resposta positiva estava dada e foi recebida com uma longa ovação em pé por todos os presentes. No fim, ainda tive a sorte de ter alguns dos meus álbuns dos DCD assinados pela Lisa Gerrard, o final perfeito para uma noite a recordar.




Reportagem: João Branco Kyron
Fotografias: Virgílio Santos

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