quinta-feira, 13 de junho de 2019

The Underground Youth, concerto puro e duro no Musicbox Lisboa


A música deles é uma mistura saudável de tantas coisas. À primeira escuta, soam a The Velvet Underground (por causa da bateria), à segunda, até fazem lembrar os The Cramps (o "timbre" sonoro ao vivo), são rockabilly (pela postura), são indie (têm estilo - próprio), punk pela atitude, rock musculoso, e... ou uma mistura de tudo isto. Conheci-os através dos discos, de intensas reverberações, outros de um som mais cru, como o mais recente Montage Images Of Lust & Fear. No concerto que deram na última quinta-feira no Musicbox, já era esperada uma mistura saudável das canções que fazem parte do seu repertório que já leva dez anos de actividade e que já passou pela fase das borbulhas e ainda é jovem mas já não é adolescente.

São repetentes em palcos nacionais e ainda bem, e tendo eu perdido a oportunidade de os ver noutras noites em que por cá tocaram, é hoje! The Underground Youth. No Musicbox, após a entrada da banda em palco, reparei desde logo e desde a primeira canção uma entrega e uma aposta no material novo da banda, e que não iria haver ali lugar para desilusão alguma. Gosto de reflectir sobre isso ou o que seja em noites como esta, enquanto observo toda a movimentação que por alí se faz -, noutra época seriam tão grandes como The Jesus & The Mary Chain, ora aqui e agora em 2019, são uma forte banda (já) considerada de culto, que se, não encheu por completo o Musicbox, esteve lá perto. 

Lembro-me de os ouvir pela primeira vez (com especial atenção) numa compilação da editora brasileira The Blog That Celebrates Itself, disco de homenagem aos The Chameleons, a canção “Second Skin”; ou no disco Mademoiselle em que também já nessa altura me fizeram lembrar coisas como Spacemen 3 ou Lou Reed na sua fase inicial pós-The Velvet Underground… Caminhando no tempo para a frente em What Kind Of Dystopian Hellhole Is This? (2017), já se apresentavam mais rudes, mas igualmente melódicos. 

As canções do novo disco ficam-lhes tão bem. É ainda mais directo e negro que os anteriores, a visceralidade de canções como “This Is But a Dream” ou “Death Of An Author”, que do palco para audiência, aterrou literalmente de forma abrupta como ao que parece, já é costume desta banda, ou seja, levar as guitarras, microfones e a eles próprios para o meio do público. 


Não deixei de reparar que Max James, o baixista, dava um certo ar a um certo Nicolas Cage na pele de Sailor do Wild At Heart de David Lynch, aquela personagem rebelde com um casaco de pele (de cobra)… E tamanha foi a agitação deste músico em palco, de camisa preta salpintada de bolas brancas, que necessitou por várias vezes de fita-cola para consertar a sua guitarra baixo. E tocou com um dos dedos remendado, fruto de alguma lesão, das intémperies da vida na estrada que, a julgar pelo poster da actual digressão, tem sido tão intensa, com pouco ou quase nenhum tempo para descansar. 

Os The Underground Youth portaram-se muito bem, sempre certeiros na sua execução musical e numa fase em que já são tantos os concertos nesta tour, que os dedos, magoados ou não, não falharam nenhuma nota e mesmo com acenos ao técnico para melhorar o som do timbalão de chão de Olya Dyer, a baterista que toca em pé com duas ou três peças de bateria… Não perderam tempo com isso e rapidamente em modo automático e cheios de garra, deram à audiência canções tão díspares na sua essência como “Morning Sun”, “Last Exit To Nowhere” ou a bonita “I Need You”. Recuando na sala uns bons passos mais atrás, ouvi “Fill The Void” e reparei que apesar da intensa distorção sónica o som deste concerto já estava bem mais equilibrado do que quando começou. 

As canções dos The Underground Youth, são por vezes tristes mas se o são, também se apresentam bonitas, é o caso de “Too Innocent To Be True” -, e houve espaço para muitas mais, e outras (algumas) que me fizeram lembrar tantas e boas referências, incluindo Tav Falco, o Joey Ramone, o Lou Reed, Suicide... E coisas muito mais do agora -, como eles próprios. Nota ainda para a voz e a postura de Craig Dyer (a fazer lembrar o "intemporal" Lux Interior...). E afinal, são guitarras como as que ouvimos em canções raras de singularidade única, como “I Need You”, que (e)levam a escrita para  um outro patamar. 

Pouco passava da meia-noite quando acabou, satisfação à saída do Musicbox, a ausência de chuva na rua, e de quaisquer queixas de um concerto linear na sua energia e musicalidade, muito bem conseguido. Um até á próxima, The Underground Youth.


Redação: Lucinda Sebastião
Fotografia: Virgílio Santos

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