terça-feira, 2 de julho de 2019

O admirável mundo novo de Jonathan Bree, no Musicbox


Com o Musicbox cheio, havia sido anunciado que a sala estava esgotada no mesmo dia, imaginei que o valor de uma canção, de várias canções, e por todo o visual cuidado e pensado ao pormenor que Jonathan Bree traz consigo, iriam surpreender e muito nessa noite. - Como transpor para o palco todo aquele imaginário colorido, e outras vezes até mais cinzento dos seus vídeos de um modo igualmente brilhante? - Jonathan Bree é já um velho conhecido nosso, de outras aventuras é um facto, como é o caso dos The Brunettes, banda que chegou a ter um relativo sucesso no Reino Unido, projecto editado também pela Sub Pop nos Estados Unidos, ou pela sua participação em discos de Princess Chelsea, gerindo também a sua própria editora, a Lil' Chief Records. Esta semana, Portugal teve finalmente a possibilidade de (re)encontrar o artista a viver numa outra re-encarnação mascarada, teatral e verdadeiramente surpreendente. - Pela qualidade das canções -, elas que no fundo, são o verdadeiro fio condutor da devoção do público português, devoção demonstrada pela enchente e pelos aplausos que se fizeram ouvir na sala uma após outra canção, mas aqui alinhadas de um modo diferente do disco. As máscaras de spandex (feitas de elastano e lycra), material que cobre na totalidade o rosto do artista e dos seus companheiros em palco e nos diversos videoclips que acompanham a promoção de Sleepwalking, tiveram e confirmaram o impacto na adesão e devoção que o público tem vindo a demonstrar ao seu mais recente trabalho. 



No Musicbox, sente-se que algo de realmente diferente está por acontecer. Poucos minutos depois da hora marcada, ali estão eles a posicionarem-se com a figura central de Jonathan Bree e as suas bonecas dançarinas, que também cantam de uma forma genial num todo de sincronismo absoluto. Jonathan Bree, (o quase... homem estátua), elevou o público para um outro planeta, totalmente fora desta constelação solar, ou de qualquer outra. Quase estático na maior parte das vezes com ligeiros gestos operativos a segurar o seu microfone (faltou levitar, fez levitar), lançou a sua voz quente e simultaneamente frágil com pose estudada entre as duas “bonecas” -, oriundas de um imaginário que não sendo deste mundo, ali estava. E o espectáculo começou com a canção que dá o título ao seu terceiro álbum, “Sleepwalking”, numa actuação curta de quase uma hora que passou tāo depressa como um relâmpago, atravessou as colunas do PA do Musicbox com lotação esgotada aos olhos e ouvidos atentos de uma audiência em estado de contemplação. Toda esta plateia maravilhada pelas cordas sampladas que em pano de fundo adornavam algumas das canções, sendo no entanto a voz e a secção rítmica (“encarapuçada”), a base da vertente ao vivo desta actuação. - Jonathan Bree num registo simultaneamente soturno, a fazer lembrar a semântica de Scott Walker, mas num tipo de “distúrbio” diferente. De cores monocromáticas, à semelhança dos vídeos que dele conhecemos, projectados em grande destaque na tela do palco íam ilustrando no fundo as bonitas canções: “Sleepwalking”, “Say You Love Me Too”, “Roller Disco”, “Valentine”, e claro, o inevitável e já glorificado “You´re Soo Cool”, aqui com uma guitarra baixo deveras pulsante a dar ainda mais, e maior vida ao magnífico arranjo desta canção. 



Foi uma noite que passou depressa, Jonathan Bree em slow motion, a soltar pétalas, pétalas a caírem do palco, a boneca dançarina, que passou a baixista, houve danças com leques, guitarras de badminton a fazer de guitarras e janelas dos desenhos animados de onde se via um céu apinhado de estrelas em movimento -, um portal para outro mundo, é o que eles fizeram sentir -, noutra dimensão e, levaram-nos com eles.

Desapareceram do palco quando baixaram as luzes, sem encore, “Can't Help Falling In Love” -, Elvis Presley a ecoar pela sala. Foi com a plateia invadida por um repentino e intenso brilho de luzes raiadas a vermelho e cor de prata, que surgiram inesperadamente cinco minutos ou menos depois, Jonathan Bree e uma das bonecas dançarinas ainda vestidos a preceito, cruzaram a plateia rumo à porta da entrada do Musicbox e por ali ficaram, a distribuir autógrafos, e havia mãos no ar que seguravam discos num corredor apertado de gente. De gente contente e visivelmente feliz.



Redação: Lucinda Sebastião
Fotografia: Ana Viotti

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