domingo, 25 de agosto de 2019

Vodafone Paredes de Coura - 15 de agosto: O encanto de Stella Donnelly e a celebração dos New Order


Dia 15 a música começou no palco Jazz na Relva, com Gobi Bear a substituir Mathilda, indisponível por motivos de saúde. O cantautor subiu sozinho ao palco com a sua guitarra e serviu-se de um pedal de loops para gravar e sobrepor camadas em cada música. Sucedeu-se o concerto dos Melquiades, que apresentaram um rock progressivo bastante trabalhado e tecnicamente exigente.

No recinto vimos em primeiro lugar o trio americano Khruangbin, em estreia no nosso país. A banda do Texas inspirou-se na música tailandesa dos anos 60 e 70 e no funk e soul do Mediterrâneo e do Médio Oriente para compor músicas psicadélicas e exóticas maioritariamente instrumentais. Apresentaram-nas no que foi um concerto muito calmo e relaxante, mas também algo repetitivo. Solos longos e variações dos mesmos riffs de guitarra por cima de ritmos repetidos tornavam-se por vezes cansativos ou aborrecidos. Muitos dos momentos mais arrebatadores surgiram com a incorporação de vozes a acompanhar os instrumentais, como no caso de “August 10”. Foi um concerto agradável e suave, adequado para um fim de tarde solarengo.


Uma das estrelas do dia e do festival foi Stella Donnelly, uma adição tardia ao cartaz devido ao cancelamento dos concertos de Julien Baker e Yellow Days. Com muito humor, uma fantástica presença em palco e excelentes canções, a cantautora galesa e australiana brilhou com um indie pop exuberante e divertido. Interagiu muito com o público e fez piadas entre e durante as suas canções. Foi uma performance incrível, onde cada comentário ou interação realizada pela cantautora acrescentou algo ao concerto, tornando-o especialmente memorável.

Perguntou se havia alguma “cerveja de m…” em Portugal e o público respondeu “Sagres” com entusiasmo. Elogiou os Khruangbin, que ainda tocavam, falou da reação da sua mãe à música “Mosquito” quando esta passou na rádio e citou-a, imitando a pronúncia do País de Gales. Referindo-se a “Bistro”, disse que tocou com uma drum machine uma vez e que, portanto, tinha feito EDM. “Darude, piss off!” Ainda ouve tempo para um “drop the bass” no fim do primeiro verso. De seguida, mostrou uma coreografia cómica durante uma das melhores canções do concerto, “Die” (composta originalmente para ouvir enquanto fazia jogging), referiu a importância de se falar sobre assédio sexual antes de tocar “Boys Will be Boys” e terminou o concerto com a excelente e viciante “Tricks”. Saímos do palco secundário com vontade de repetir a experiência o mais cedo possível e esperamos vê-la num concerto em nome próprio em breve.

Chegámos ao palco principal, onde tocavam os Alvvays, mesmo a tempo de ouvir a espetacular “In Undertow”. Apenas “Archie, Marry Me” teve o mesmo impacto, mas a banda canadiana mostrou-se consistente e habilidosa, exibindo boas canções e navegando entre o indie pop, indie rock e até mesmo shoegaze.


Ouviu-se mais tarde o indie rock dos Car Seat Headrest. Estiveram melhor do que há dois anos, no mesmo palco, mas voltaram a não atingir o encanto do concerto de 2016 no NOS Primavera Sound. A banda de Will Toledo, que passou os primeiros minutos com um teclado ao ombro, abriu o concerto com “Can’t Cool Me Down”, uma música nova. Levantou-se o pó a partir da segunda canção: “Bodys”, de Twin Fantasy. Os fãs estiveram ao rubro e cheios de energia ao som de um dos projetos mais marcantes da música indie atual. “Fill in the Blank”, “Drunk Drivers / Killer Whales” e “Beach Life-In-Death” são autênticos hinos e muitos fãs mostraram saber as letras de cor, cantando-as com grande entusiasmo. Faltou alguma intensidade em palco, mas os Car Seat Headrest conquistaram o público e voltaram a mostrar o poder das suas canções.


Num concerto impressionante, os New Order tocaram um pouco de cada fase da sua carreira. Ouviram-se clássicos como “Temptation”, “Blue Monday”, "Bizarre Love Triangle" e "True Faith", músicas do último álbum, entre elas “Tutti Frutti”, e faixas de discos diferentes, incluindo "Your Silent Face" e "Waiting for the Sirens' Call". Foi uma celebração da obra de uma das bandas mais importantes e influentes da música pop. Já sem Peter Hook no baixo, aos New Order mostraram ainda estar em grande forma e puseram toda a gente dançar durante mais de uma hora. Houve também espaço para recordar os Joy Division, tendo sido tocadas quatro canções do projeto anterior de Bernard Sumner e Stephen Morris. Na primeira metade do concerto ouviu-se “She’s Lost Control” e “Transmission”, com toda a sua pujança e influência punk, e no fim, num encore que serviu de homenagem a Ian Curtis, foram tocadas “Love Will Tear Us Apart” e “Atmosphere”. Estas duas foram especialmente emocionantes e memoráveis. Apesar da voz de Bernard Sumner não ser a melhor ou mais adequada para substituir o vazio deixado por Ian Curtis, foi impossível resistir a estas versões. A acompanhar a banda foram exibidos vídeos com variadas estéticas, alguns deles muito adequados ou peculiares e outros menos criativos, a fazer lembrar presets pouco originais de programas de animação ou VJing.

Estranhamente, foram os portugueses Capitão Fausto a fechar o palco principal. A banda tocou maioritariamente o seu último álbum, A Invenção do Dia Claro, apesar de ter passado por todos os discos. As novas canções, com um som pop rock ligeiro, transportam os ouvintes para um ambiente alegre que relembra bandas sonoras de séries infantis, sem a intensidade das músicas de antigamente. A sua falta foi sentida após o espetáculo impressionante dos New Order. “Teresa” e ainda mais “Santa Ana”, ambas do primeiro álbum da banda, foram as músicas mais cativantes de um concerto que não mostrou o melhor dos Capitão Fausto e seria melhor aproveitado noutro horário.


Texto: Rui Santos
Fotografia: Hugo Lima

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