Vodafone Paredes de Coura – 15 de agosto: O encanto de Stella Donnelly e a celebração dos New Order

Vodafone Paredes de Coura – 15 de agosto: O encanto de Stella Donnelly e a celebração dos New Order

| Agosto 25, 2019 4:48 pm

Vodafone Paredes de Coura – 15 de agosto: O encanto de Stella Donnelly e a celebração dos New Order

| Agosto 25, 2019 4:48 pm
Dia 15 a música começou no palco Jazz na Relva, com Gobi Bear a substituir Mathilda, indisponível por motivos de saúde. O
cantautor subiu sozinho ao palco com a sua guitarra e serviu-se de um pedal de
loops para gravar e sobrepor camadas em cada música. Sucedeu-se o concerto dos Melquiades,
que apresentaram um rock progressivo bastante trabalhado e tecnicamente
exigente.

No recinto vimos em primeiro lugar o trio americano Khruangbin,
em estreia no nosso país. A banda do Texas inspirou-se na música tailandesa dos
anos 60 e 70 e no funk e soul do Mediterrâneo e do Médio Oriente para compor músicas
psicadélicas e exóticas maioritariamente instrumentais. Apresentaram-nas no que
foi um concerto muito calmo e relaxante, mas também algo repetitivo. Solos
longos e variações dos mesmos riffs de guitarra por cima de ritmos repetidos
tornavam-se por vezes cansativos ou aborrecidos. Muitos dos momentos mais
arrebatadores surgiram com a incorporação de vozes a acompanhar os
instrumentais, como no caso de “August 10”. Foi um concerto agradável e suave,
adequado para um fim de tarde solarengo.

Uma das estrelas do dia e do festival foi Stella Donnelly,
uma adição tardia ao cartaz devido ao cancelamento dos concertos de Julien
Baker
e Yellow Days. Com muito humor, uma fantástica presença em
palco e excelentes canções, a cantautora galesa e australiana brilhou com um
indie pop exuberante e divertido. Interagiu muito com o público e fez piadas
entre e durante as suas canções. Foi uma performance incrível, onde cada
comentário ou interação realizada pela cantautora acrescentou algo ao concerto,
tornando-o especialmente memorável.

Perguntou se havia alguma “cerveja de m…” em Portugal e o
público respondeu “Sagres” com entusiasmo. Elogiou os Khruangbin, que
ainda tocavam, falou da reação da sua mãe à música “Mosquito” quando esta
passou na rádio e citou-a, imitando a pronúncia do País de Gales. Referindo-se
a “Bistro”, disse que tocou com uma drum machine uma vez e que,
portanto, tinha feito EDM. “Darude, piss off!” Ainda ouve tempo para um “drop
the bass” no fim do primeiro verso. De seguida, mostrou uma coreografia cómica durante
uma das melhores canções do concerto, “Die” (composta originalmente para ouvir
enquanto fazia jogging), referiu a importância de se falar sobre assédio sexual
antes de tocar “Boys Will be Boys” e terminou o concerto com a excelente e
viciante “Tricks”. Saímos do palco secundário com vontade de repetir a
experiência o mais cedo possível e esperamos vê-la num concerto em nome próprio
em breve.

Chegámos ao palco principal, onde tocavam os Alvvays,
mesmo a tempo de ouvir a espetacular “In Undertow”. Apenas “Archie, Marry Me” teve
o mesmo impacto, mas a banda canadiana mostrou-se consistente e habilidosa,
exibindo boas canções e navegando entre o indie pop, indie rock e até mesmo
shoegaze.

Ouviu-se mais tarde o indie rock dos Car Seat Headrest.
Estiveram melhor do que há dois anos, no mesmo palco, mas voltaram a não
atingir o encanto do concerto de 2016 no NOS Primavera Sound. A banda de
Will Toledo, que passou os primeiros minutos com um teclado ao ombro, abriu o
concerto com “Can’t Cool Me Down”, uma música nova. Levantou-se o pó a partir
da segunda canção: “Bodys”, de Twin Fantasy. Os fãs estiveram ao rubro e
cheios de energia ao som de um dos projetos mais marcantes da música indie
atual. “Fill in the Blank”, “Drunk Drivers / Killer Whales” e “Beach
Life-In-Death” são autênticos hinos e muitos fãs mostraram saber as letras de
cor, cantando-as com grande entusiasmo. Faltou alguma intensidade em palco, mas
os Car Seat Headrest conquistaram o público e voltaram a mostrar o poder
das suas canções.

Num concerto impressionante, os New Order tocaram um
pouco de cada fase da sua carreira. Ouviram-se clássicos como “Temptation”,
“Blue Monday”, “Bizarre Love Triangle” e “True Faith”,
músicas do último álbum, entre elas “Tutti Frutti”, e faixas de discos diferentes,
incluindo “Your Silent Face” e “Waiting for the Sirens’
Call”. Foi uma celebração da obra de uma das bandas mais importantes e
influentes da música pop. Já sem Peter Hook no baixo, aos New Order
mostraram ainda estar em grande forma e puseram toda a gente dançar durante
mais de uma hora. Houve também espaço para recordar os Joy Division,
tendo sido tocadas quatro canções do projeto anterior de Bernard Sumner e Stephen
Morris. Na primeira metade do concerto ouviu-se “She’s Lost Control” e
“Transmission”, com toda a sua pujança e influência punk, e no fim, num encore
que serviu de homenagem a Ian Curtis, foram tocadas “Love Will Tear Us Apart” e
“Atmosphere”. Estas duas foram especialmente emocionantes e memoráveis. Apesar
da voz de Bernard Sumner não ser a melhor ou mais adequada para substituir o
vazio deixado por Ian Curtis, foi impossível resistir a estas versões. A
acompanhar a banda foram exibidos vídeos com variadas estéticas, alguns deles muito
adequados ou peculiares e outros menos criativos, a fazer lembrar presets pouco
originais de programas de animação ou VJing.

Estranhamente, foram os portugueses Capitão Fausto a
fechar o palco principal. A banda tocou maioritariamente o seu último álbum, A
Invenção do Dia Claro
, apesar de ter passado por todos os discos. As novas
canções, com um som pop rock ligeiro, transportam os ouvintes para um ambiente
alegre que relembra bandas sonoras de séries infantis, sem a intensidade das
músicas de antigamente. A sua falta foi sentida após o espetáculo
impressionante dos New Order. “Teresa” e ainda mais “Santa Ana”, ambas
do primeiro álbum da banda, foram as músicas mais cativantes de um concerto que
não mostrou o melhor dos Capitão Fausto e seria melhor aproveitado
noutro horário.

Texto: Rui Santos
Fotografia: Hugo Lima
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