quinta-feira, 19 de setembro de 2019

[Review] Buda XL - Arte de Propósito


Arte de Propósito | Contentor Records | maio de 2019
7.5/10

Numa espécie de reinvenção do homem do renascimento musical temos João Conde, um nome que é difícil de igualar no panorama do hip hop nacional - multi-instrumentalista com participações alargadas na Contentor Records e um aparente acesso a um sem fim de anacronismos musicais. No seu álbum a solo de estreia, Arte de Propósito, João Conde veste a sua pele de Buda XL, nome artístico que empunha e que tem usado para os projectos que incorpora. 
Arte de Propósito é um álbum que no enquadramento atual do hip hop tuga é raro. Instrumentalmente, há uma larga derivação de uma compreensível veneração dos anos 70, traduzida num calor que está presente ao longo de todo o disco - samples existem envolvidas de uma qualquer saturação ou ruído orgânico, numa emulação da produção que seria esperada num Pieces of a Man de Gil Scott Heron. As letras, para destoar do instrumental, não soam a velho - têm uma certa frescura que a voz compassada e quase rouca de Buda XL ajusta ao instrumental. 
Apesar de haver uma certa coesão na qualidade ao longo de todo o disco, é impossível não fazer o ocasional destaque de algumas faixas, em particular algumas que contam com a participação de Ricardo Pereira - Mano Hugo (com produção de spock) e Lugar Comum. A voz fora do comum usada num registo quase expectável cria a estranheza cativante que, apesar de presente ao longo de todo o álbum, realmente solidifica o álbum numa peça única. Noutra direção, HOPA combina Mr. Papz e Miguel Ablaira na produção numa ensemble de revivalismo psicadélico e reverberações, terminando num misto de krautrock e trip-hop. O Velho destaca-se por uma razão muito peculiar - não dava para esperar que um instrumental de grunge combina-se tão bem com um tema de hip hop, mas nesta curta viagem já devia ter percebido que Buda XL transita facilmente entre o previsível e o inesperado, operando nos espaços vazios que muitos músicos deixam por encher. 
O disco acaba com Reborn, uma sensação com a qual nos conseguimos identificar depois de ouvir este disco. Como um passeio por uma floresta, temos elementos que são velhos mas que não deixaram de crescer, e Buda XL construiu a sua própria floresta, não deixando que ela perdesse o seu carácter orgânico. A Arte é de propósito, mas não é por isso que perde o encanto.

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