quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Missão cumprida: Wayne Hussey e Ashton Nyte no RCA Club, longa foi a noite em Lisboa


Com o crepúsculo típico do Outono, afinal a temperatura e a brisa que se faz sentir na face, e que nos faz abotoar um ou dois botões do casaco como que a sublinhar ainda mais a terceira estação do ano… e está sossegada, como sempre, Alvalade. E é já extensa a fila junto ao RCA Club, enquanto se espera pela hora certa numa esquina com candeeiros de luz fraca. E é já longa a noite ou pelo menos parece. As horas não perdoam, fechei a porta do taxi e entrei apressadamente para ouvir a já anunciada primeira parte do concerto do britânico Wayne Hussey.

Ashton Nyte, a voz dos sul-africanos The Awakening, que fez carreira a solo com a sua voz de barítono, de bonitas canções de toada invulgar. Já no interior da sala, quase lotada como seria de esperar, e subindo ao primeiro piso com uma visão geral da muralha humana que veste a sala, tornava-se mais difícil ainda a tarefa dos fotógrafos que pretendiam registar os momentos que ali se viviam em palco. Ashton Nyte, desenrolou de forma competente e sentida com a sua voz emotiva uma série de canções dos seus trabalhos a solo, incluindo as canções dos The Awakening. Entregou-se ali com um som equilibrado.  Quando entrei pareceu-me estar a ouvir um Johnny Cash de voz ainda mais grave… com uma singular diferença ampliada por um certo reverb e delay, quase similar à do Homem de Preto (assim era conhecido pelos seus fans, o rapaz do Tennessee, que se tivesse enveredado pelo gótico, soaria assim). Uma junção de Bowie e Cash (que influenciaram tanta gente), é o que dizem, e também foi o que me pareceu. Foram pelo menos umas boas dez canções a manter a curiosidade de as ouvir fora das suas versões acústicas, canções como “Upon The Water”, a melancolia que neste formato de guitarra e voz funcionaram tão bem, e surpresa foi ouvir a versão do “The Sound Of Silence” dos Simon & Garfunkel, uma das mais populares dos The Awakening na África do Sul.


Após este inesperado vislumbre, as canções de Ashton Nyte, são, como já disse, simples e desprovidas de arranjos mais elaborados e naquela noite em palco, prepararam bem o caminho para o que viria a seguir, e com idas ao balcão do bar ou cá fora para um cigarro, nada me fez pensar que com Wayne Hussey ainda seriam mais duas horas e quarenta minutos de um concerto acústico. Talvez que, nem a organização o esperasse, e muito menos o público. Foi uma agradável surpresa ver o célebre cantor que passou pelos The Sisters Of Mercy e que depois fundou os The Mission apresentar um concerto onde ninguém se poderia queixar da falta de empenho ou de entrega.  Bem disposto, apesar de algumas rabugices em palco com o técnico de som, mostrou-se comunicativo e brincalhão. Em jeito de celebração e sendo esta a tour de Salad Daze, livro que confesso ainda não li, mas que sei que em jeito de auto-biografia nos apresenta as suas aventuras e memórias da sua carreira musical. Goste-se muito ou não dos The Mission, foram várias e diversificadas as suas propostas musicais naquela noite, desde as inesperadas versões de “Hurt” dos Nine Inch Nails, “All along the Watchtower” de Jimmy Hendrix ou a mais previsível “Like a Hurricane” de Neil Young, que mais tarde de entre muitas outras integrou um extenso medley que incluíu a condessa descalça de Patti Smith lá mais para o final do concerto. Sentem-se os The Mission e… há algo de novo, há algo de mariachi na sua guitarra.


Ouvimos muitos clássicos dos The Mission, ou aquelas canções clássicas dos The Mission que julgávamos ter esquecido e que sabe sempre bem ouvir: “Butterfly On The Wheel” que dominou o éter radiofónico nos anos oitenta e ainda durante boa parte dos noventa (e ainda hoje); “Severina” cantada em plenos pulmões pelo próprio e pelo público, que tantas vezes coreografou os refrões, e outras que são mais próprias e pessoais para quem segue a sua banda de sempre e do parentesco com os The Sisters of Mercy. Soltou “Marian”, “Naked And Savage”, ”Mr. Pleasant”, “Garden of Delight”, ao piano ou na guitarra, Wayne Hussey desenrolou canções soturnas e mais algumas também familiares e luminosas como “Like A Child Again”. Revelou que consegue trazer as memórias de trás para a frente ou da frente para trás e trazer-nos para o agora naquele palco. Foram várias as soluções que arranjou para nos levar durante um concerto tão longo, lançando ele mesmo os ritmos pré-gravados que imprimiram a novidade e a toada mais rock ou ambiental que nos despertou do embalo das canções, que tal como no espectáculo de Ashton Nyte, se apresentaram despidas dos arranjos de banda e ali ganharam uma outra vida. No caso de Hussey, estrela maior do indie rock a escorrer de tinta (gótica), ele ali, duas horas e muito em palco sem aborrecer sobremaneira os mais fiéis, foi o que fez, juntando ainda mais quarenta minutos em cima disso. Um deleite para os fãs e para quem simplesmente lhe reconhece o valor na escrita e nas canções transversais a várias gerações e, embora longo, certamente um concerto que não se esquecerá tão cedo pela entrega. A noite em que Wayne Hussey tocou duas horas e pouco mais de meia no RCA Club, sozinho em palco perante o seu fiel público, sem os The Mission, a missão foi cumprida.



Texto: Lucinda Sebastião
Fotografia: Virgílio Santos

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