quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Noite épica no Hard Club com os Efterklang


Depois de uma passagem por Lisboa, foi a vez da “Invicta” receber os dinamarqueses Efterklang para o segundo concerto em Portugal, onde apresentaram temas do seu novo álbum Altid Sammen. O espetáculo teve lugar no dia 24 de outubro, no Hard Club, sob a chancela da Gig Club, tendo ficado o warm up da noite a cargo dos portugueses First Breath After Coma.

Foi com grande expectativa que cheguei ao Hard Club para ver os First Breath After Coma e os “cavaleiros” da Dinamarca - Efterklang. Ao entrar na icónica sala para amantes de música ao vivo, a expectativa deu lugar à surpresa devido ao escasso número de pessoas presente, já que faltavam poucos minutos para a entrada em palco da banda que faria a abertura da noite. Contrastando com a sala, ainda pouco preenchida, o palco estava majestosamente equipado e repleto de instrumentos musicais. Tudo isto se tornaria irrelevante para o que iriamos assistir nas 3 horas seguintes, em que a noite foi evoluindo num crescendo musical apoteótico.

Após um ligeiro compasso de espera, eis que o palco é “tomado” pelos First Breath After Coma. Os cinco elementos da banda de Leiria posicionaram-se alinhados, por detrás dos instrumentos, bem próximos do público, iniciando a sua performance, sob um contido aplauso. Sendo uma das bandas portuguesas mais promissoras do momento, era visível o entusiasmo do público que se deixou envolver e “desnudar” pelas sonoridades de NU (álbum editado a 1 de março de 2019, pela Omnichord Records depois dos singles "HEAVY" e "Change"). Oito faixas – descritas como oito telas – que “foram sendo pintadas por um, por outros e por uns e outros, nem sempre ao mesmo tempo. Cada um com o seu pincel, mas todos com a mesma ideia para o quadro final”, os First Breath After Coma assumem um formato mais eletrónico do que o registo inicial post-rock que os caracterizava. 


Durante cerca de 45 minutos, acompanhados pela harmonia das cordas, dos teclados e dos sintetizadores, interpretaram com uma intensidade contagiante temas como “The Upsetters”, “Change”, “Please Don’t Leave”, criando uma atmosfera que não deixou ninguém indiferente, convidando muitos dos que ali estavam ao movimentar dos corpos. Despediram-se com “I Don’t Want Nobody”, escutado por uma sala silenciosa, mas que no final reagiu com vigorosa ovação. 

Terminada a atuação da banda portuguesa, prepara-se o cenário para os senhores da noite: os Efterklang (que em português significa reverberação). A banda de origem dinamarquesa, com sede em Copenhaga e cuja criação remonta a 2000, é composta por Casper Clausen (vocais), Mads Brauer (sintetizadores, eletrónicos) e Rasmus Stolberg (baixo), mais músicos quando se apresentam ao vivo. Com vários álbuns de estúdio e EPs editados (o primeiro em 2004, Tripper), pode dizer-se que a sua música para além de eclética é ambiciosa e aventureira, sendo muitas vezes rotulada como art pop, math rock ou pós-rock, o que não é de todo incorreto, mas também não é uma verdade absoluta. Nas suas músicas, que parecem hinos cheios de emoção, combinam ritmos eletrónicos inteligentes e limpos ao lado de instrumentos “orgânicos” com arranjos frondentes, confortavelmente alinhados, onde podemos reconhecer ou ligar estas sonoridades a músicos como Bon Iver, Sigur Rós ou mesmo Matthew Dear.

Após a pausa “forçada” (que nos deixa sempre impacientes) e o fim do “rodopio” dos técnicos em palco, fez-se silêncio e os olhares viraram-se para o cenário onde iriamos assistir a momentos de pura magia.  No palco, vão ocupando posições os famosos “sete”, preenchendo, por completo, o espaço. Ao trio original juntaram-se Siv Øyunn na bateria, Christian Balvig na guitarra, Tatu Rönkkö e ainda Indrė Jurgelevičiūtė no kantele (instrumento típico finlandês que faz lembrar uma “arpa horizontal”). O líder da banda, Casper Clausen (a residir há 3 anos em Lisboa), começou a entoar, na sua língua materna e numa perfeita atitude de sedução com o público, o tema de abertura “Verden Forsvinder”. Ouvem-se aplausos e é em momentos como este que percebemos que a música não tem fronteiras linguísticas. Se entendi uma palavra do que cantou? Não, mas para mim, como para todos os que o escutavam, isso não era importante. O entendimento era sensorial, não linguístico.  Segue-se “Supertanker” em que à voz de Caspar se vão juntando em coro, as vozes cristalinas da baterista e da “kantelista”, como se de um canto de sereias se tratasse. No final soaram os tão merecidos aplausos com o vocalista a agradecer e a expressar a sua enorme satisfação por estar de volta ao Hard Club, seis anos depois.


Um dos momentos mais emocionantes da noite surgiu com “Vi er uendelig” onde o frontman dos Efterklang deposita toda a sua “arrepiante” capacidade vocal e o público, que apesar de não falar dinamarquês, o acompanha trauteando a letra. Foram momentos de grande beleza e encantamento que transpareciam no olhar de todos os que se deixaram envolver pela voz, a melodia e o sorriso cativante de Casper. O público foi saboreando temas como “Uden ansigt”, “I dine øjne” e “Havet løfter sig”. Mas foi com “Hold mine hænder” que se deu a simbiose perfeita entre a banda e o público. Casper avança até à primeira linha e entoa cada palavra como se todos as entendessem. A emoção tomou conta da sala quando a audiência começou a repetir as palavras à medida que ele as ia proferindo. Casper, emocionado, não se conteve em dizer que tinha sido um dos momentos mais belos que viveu e perguntou se havia algum coro na sala. Este momento de emoção alucinante ficou registado na página oficial dos Efterklang, onde no dia seguinte se podia ler: "The singing along in Porto yesterday especially blew our minds. Sounded like a stadium". Foi com este momento épico que terminou a primeira parte do concerto.

Instantes depois, regressam, agora em inglês, com “Alike” (Magic Chairs, 2010) e o vocalista, já sem casaco (peça do guarda-roupa que nos saltou à vista na sua entrada inicial em placo), põe uma plateia inteira a dançar quebrando assim a sonoridade mais acústica e introspetiva da primeira parte. Talvez um dos momentos mais altos e celebrados da noite aconteceu com “Modern Drift”, que, tal como em mim, deve ter “impactado” em arrepios nos que ali se encontravam. Seguiu-se-lhe a não menos emblemática “Cutting Ice to Snow”, tema do álbum Parades (2007). Casper pede silêncio e o público acede. O concerto prossegue com os Efterklang a revisitarem êxitos como a belíssima “Sedna” e “Monopolist” do seu primeiro álbum (Tripper, 2004). Com “The Ghost” (Piramida, 2012), a banda deu por terminada a sua atuação, alinhados na frontline para um agradecimento coletivo. A chuva de aplausos teimou em não abrandar o que os fez regressar para o derradeiro tema “Dreams Today” (Piramida, 2012).


Um público delirante acompanhou com palmas ritmadas o som do piano. Este seria o final de um concerto que ficará na memória de todos os que tiveram o privilégio de o “viver” in loco, numa sala que apesar de não ter atingido a sua capacidade máxima, nos pareceu a todos “sobrelotada”. A banda dinamarquesa encarregou-se de a preencher com a sua entrega e notável prestação. Os Efterklang, assim como todos os que ao Hard Club se deslocaram nessa noite, foram a prova viva que salas de lotação esgotada não são condição sine qua non para espetáculos de excelência. Estes acontecem com a mestria de grandes performers que conseguem envolver e “agarrar” os presentes até ao último milésimo de segundo e deixar marcas para memória futura. Foi isso que aconteceu com os Efterklang

Resta-nos agradecer noite inesquecível que nos proporcionaram, na esperança de um Até Breve!

Texto: Armandina Heleno
Fotografia: Ah!PHOTO

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