domingo, 13 de outubro de 2019

Reportagem: Blixa Bargeld - Salón Teatro [Festival Curtocircuíto - Galicia]


A convite do aclamado Curtocircuito International Film Festival, Santiago de Compostela recebeu Blixa Bargeld no seu super intimista Salón Teatro do Patio de Butacas. 

Se já é um desafio fazer a redacção de um concerto do Blixa, ainda mais se tornou quando percebi que ira ser tudo, menos um concerto normal. 

Depois de pedir a todos que não tirassem fotografias durante o concerto (Obrigado, Blixa; já não me lembrava de ver um concerto sem as luzes parasitas dos telemóveis alheios), explicou que actuaria sozinho, apenas com recurso a um microfone e a dois pedais, através dos quais iria explorar loops dos sons por ele emitidos. 

E foi aquilo que bastou para que se sentisse capaz de criar (imaginem!) um Sistema Solar. 

Passo a passo, foi acrescentando, legendando e sobrepondo cada um dos corpos celestes, através de camadas sonoras ora mais ambientais, ora mais estridentes, ora mais viscerais, até obter toda a complexidade sonora de algo tão magnânimo como um Sistema Solar. E pronto, em alguns minutos já nos sentíamos na presença do Todo Poderoso Criador Blixa! 

Depois, como que de um sorvete para limpar o palato se tratasse, brindou-nos com dois temas cantados, preparando-nos para o que aí viria: Da transcendência daquela divina criação sonoro-espacial, eis que somos transportados para uma viagem na Autobahn, com o Blixa ao volante do seu Tesla, enquanto, a alta velocidade, pisava o traço descontinuo desenhado no asfalto, marcando o ritmo. A monotonia da estrada, obriga-o a ligar o rádio. Tudo muda. Agora dedica-se a desconstruir de forma genérica e transversal, numa fórmula só, todas aquelas músicas vazias e supérfluas com que somos fustigados sempre que ligamos o rádio (salvo raras excepções), envolvendo-nos, novamente, em texturas sonoras de patente única. 

Apesar de ter havido mais apontamentos, o que tornou esta "solo vocal performance" realmente especial e inesquecível, foram, essencialmente, estes dois momentos, trazendo até nós toda a capacidade vocal e vanguardista, bem como a genialidade de um autêntico monstro criativo que, após 40 anos de carreira, teima em não parar de surpreender e arrepiar o seu público, por muito calejado que possa ser. É um ser absolutamente admirável! 

Por opção do autor, este artigo não segue o  novo Acordo Ortográfico.

Texto: Pedro Araújo

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