sábado, 19 de outubro de 2019

Reportagem: Jay-Jay Johanson [Auditório de Espinho]

"De regresso ao rodopio da eterna saudade" - Jay-Jay Johanson deu concerto único em Espinho

© Auditório de Espinho | Academia

Depois de uns longos 12 anos, Jay-Jay Johanson voltou ao palco do Auditório de Espinho, no passado dia 12 de outubro, para um concerto exclusivo em Portugal, já que o espetáculo agendado para Lisboa, para o final de setembro, foi adiado para 2020. 

A figura esguia, vestida de preto e de cabelo claro (que quase se confundia com a pele), de gestos elegantes, lânguidos e dóceis, entrou em palco debaixo de fortes aplausos, inundando a sala de sonoridades emocionais, pontuadas por jazz e alguma improvisação, que nos contaram enredos sobre chegadas e partidas, corações quebrados, melancolia e solidão. Num ambiente sóbrio e intimista, Jay-Jay (acompanhado por Erik Jansson nas teclas) revisitou algumas das suas composições mais emblemáticas. Apresentou-nos um alinhamento com músicas do novo disco pincelado por "best ofs" que passaram por "So Tell the Girls That I Am Back in Town", "Far Away", "She Doesn’t Live Here Anymore","I’m Older Now", entre outras. 

Ao longo da sua performance, Jay-Jay foi tecendo uma teia em que cada fio nos ia dando conta do contínuo processo de amadurecimento do seu trajeto musical, mesclando canções antigas com temas do seu mais recente álbum, Kings Cross (2019). Foi este conjunto de músicas tão melancólicas quanto harmoniosas, revestidas do pop sintético tão característico deste músico, que cativou a audiência, de uma sala cheia, e que se deslocou a Espinho numa noite de um outono sereno e de temperatura amena. 

Sobre a sua voz, Jay-Jay cantou mais alto, mais baixo e sussurrado, mas o registo de sempre teimou em não o abandonar. Genuinamente, cantou-nos que "o amor é o início. O amor é o meio. O amor é o fim" (Joaquim Pessoa) e que para o ser humano não existe fuga possível. O cenário sonoro complementou-se com um cenário visual de projeção de ambientes urbanos, alguns taciturnos, violentos (como uma bomba atómica, porta-aviões…), a descolagem de uma nave espacial, paisagens inóspitas, desfiladeiros, desertos, que nos transportavam para uma América ficcional, mas com contornos bem reais. Existia um verdadeiro contraste entre a frieza, a impessoalidade dos ambientes projetados em pano de fundo e o intimismo e sentimento da sonoridade e da palavra. Elementos projetados em reverse mode acentuaram o spleen de que se revestem estas paisagens sonoras e, não sabendo a sua origem, jamais alguém diria que Jay-Jay é escandinavo, de um país de vastas florestas boreais e montanhas glaciais (Suécia). 

© Auditório de Espinho | Academia

Ao longo do concerto Jay-Jay esbanjou generosidade, agradecendo largamente a presença de todos os que ali se tinham deslocado, expressando a sua felicidade por rever o público português que sempre o acarinhou. Muitos dos presentes já tinham assistido a vários dos seus concertos, nas diversas passagens por Portugal. Houve espaço para um inesperado "Happy Birthday" saído da audiência, ao qual Jay-Jay, sorrindo, replicou que tinha sido no dia anterior, assim como um pedido para cantar a intemporal "Love Will Tear Us Apart" dos lendários Joy Divison e que faz parte do seu EP Smoke (ao qual não atendeu). Quem o escutava, ouvia-o em silêncio atento, intercalado com um cantarolar de letras de algumas das canções, e ao silêncio enquanto cantava, contrapunham-se os fortes aplausos no final de cada música. "Tell the girls that I’m Back in Town" foi recebida com um fortíssimo aplauso. "Heard Somebody Whistle" foi acompanhada por assobios tímidos, por quem na sala sabia assobiar, em resposta ao convite de Jay-Jay

O encore foi habilmente repartido por três músicas e uma descida à plateia para cumprimentar, abraçar quem mais próximo estava do palco, para alegria de muitos que já lhe conhecem este gesto e uma agradável surpresa para os que não o esperavam. Quando entoou "I’m Older Now", saiu surpreendentemente do palco e veio sentar-se numa das escadas que ladeavam a sala. 

O concerto terminou com "Bobby Brown", música de Frank Zappa, com Jay-Jay, já no meio da plateia, que fez coro com ele a viva voz. Foi uma noite de encantamento, de contentamento, de embalos para regozijo de uma sala com lotação esgotada. No final do concerto, o músico "diluiu-se" no meio dos fãs, abraçou-os, deixou-se fotografar em poses provocadoras e afetuosas. Também eu fui contemplada com um caloroso abraço e um sorriso largo que lhe tocava os cantos do olhar, quando o parabenizei pelo espetáculo. 

© Auditório de Espinho | Academia

"You'll miss me when I'm gone". Com toda a certeza que sim, afinal, foi em Portugal e em França que tudo começou, há 23 anos! 

Reconforta-nos a ideia de que será apenas um Até Já! 

Texto: Armandina Heleno

Setlist: 
The girl I love is gone 
Not Time Yet
It Hurts Me So 
You'll Miss Me When I'm Gone 
Dilemma 
So Tell the Girls That I Am Back in Town 
Smoke 
75.07.05 
Far Away 
Old dog Kings Cross 
She Doesn't Live Here Anymore 
She's Mine But I'm Not Hers 
Milan Madrid Chicago Paris 
Paranoid 
Tomorrow 
Quel Dommage 
Heard Somebody Whistle 
On the Radio 
I'm Older Now Believe in Us 
Encore 
Whispering Words (a capella) 
On The Other Side 
Rocks in Pockets 
Bobby Brown 

0 comentários:

Enviar um comentário