quinta-feira, 10 de outubro de 2019

[Review] Danny Brown - uknowhatimsayin

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uknowhatimsayin | Warp Records/Fool's Gold Records | outubro de 2019 
8.3/10 

Instalando-se desde o início da sua carreira como uma personalidade audaciosa e com humor a rodos, e tendo evoluído da cena underground até ao panorama mainstream atual do hip-hop, o artista de Detroit Danny Brown dispensa apresentações. Contando com tiros certeiros na sua discografia como o colossal XXX ou o sufocante Atrocity Exhibition, o rapper de 38 anos tem-se cimentado cada vez mais como um espalha-brasas desmesurado e sem igual, ao mesmo tempo que demonstra uma adaptabilidade invejável a beats com estilos sonoros e disposições díspares a cada disco lançado. É seguro dizer que essa tendência se mantém intacta neste seu sexto álbum de originais, uknowhatimsayin, que conta com onze faixas no seu todo. 

Na cadeira de produtor executivo, Danny Brown conta sobretudo com o auxílio do histórico membro dos A Tribe Called Quest e histórico fabricante de beats Q-Tip, que é dono de um cunho sonoro de cânones mais soulful, enquadrando-o num panorama mais boom-bap, mas ainda assim com uma dose controlada de texturas leftfield pelo caminho, e que serve de veículo para a quantidade imensurável de bravado expressada pela voz caracteristicamente anasalada de Brown ao longo deste disco. Para além de Q-Tip, o rapper conta com o auxílio de mais alquimistas de som, como o colaborador de longa data Paul White, o mestre em aventuras alucinantes sonoras Flying Lotus, e um dos valores emergentes do hip-hop em recente memória, JPEGMAFIA

Quanto às faixas em si, preparem-se porque os temas vulgares tão característicos do homem estão, como sempre, em força, vindo, por exemplo, de vivências carnais que ele teve ao longo da vida, amalgamados com a anteriormente referida basófia, descrita em versos como “I ignore a whore like an email from LinkedIn” (“Savage Beast”) “I eat so many shrimp I got iodine poison” e “Got a foursome with four fours and I called it a twelve/One was chubby, one was ugly, wack as hell” (“Belly of the Beast”), entre muitos outros exemplos. Todavia, neste disco também há imenso espaço para outras temáticas de cariz mais sério, como referências a duras realidades outrora vividas de perto nas ruas, nomeadamente em “Combat” (“It’s the life that we chose, friends become foes/Nobody to trust, that’s the way life goes”) e “Change Up” (“Every other day, always some shit/I'm the underdog but I'm never over it”), mas também lembra o ouvinte de que se tem que persistir face às dificuldades que a vida traz, como no tema-título “uknowhatimsayin” (“My guy, just hol' your composure/And when you're down, it gets cold, I know, ah”) e no single “Best Life” (“'Cause ain't no next life, so now I'm tryna live my best life/I'm livin' my best life”). 



Como não podia deixar de ser, o delivery sempre polivalente de Danny Brown torna a jornada vivida e cativante do início ao fim, e o mesmo se pode dizer dos feats convidados que trazem o seu cunho inerente. Como resultado, tornam-se uma mais-valia à experiência do álbum no geral, como a participação de Blood Orange em “Shine”, que quase torna a faixa em algo saído de um álbum dos Brockhampton, ou o brand mais próprio de ostentação dos Run the Jewels demonstrado em todo o seu esplendor, casado com os beats versáteis de JPEGMAFIA, em “3 Tearz”. E falando em JPEGMAFIA, ele dá o ar da sua graça enquanto convidado de honra no refrão do assertivo “Negro Spiritual” produzido pelo alucinante Flying Lotus. Por fim, os vocais roucos do artista afrobeat Obongjayer são aquele remate inesperado, mas certeiro às faixas "uknowhatimsayin" e "Belly of the Beast".

Seguramente, uknowhatimsayin é no fim de contas um registo digno do progresso alucinante que Danny Brown tem tido ao longo desta sua aventura. Pode-se talvez argumentar que o revamp sonoro aqui tomado a cargo empalidece um bocado em comparação com diligências criativas anteriores como Atrocity Exhibition, mas todavia tem o seu próprio charme irreplicável, além de que compensa bastante com uma inesperada leveza que bate mais certo com o delivery desenfreado do Danny Brown, para não falar dos feats convidados a fazerem parte da jornada. Expectavelmente, uma coisa é certa, sendo essa de que este álbum tem já o lugar cimentado na lista dos melhores do hip-hop feito este ano.

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