segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Joan as Police Woman em Ponte de Lima ou uma história de pontes que resgatam


Era a manhã de um sábado que iria ser tomado por uma longa tarde de trabalho e em que da noite só se esperava um ansiado abrigo doméstico. Os discretos plim do telemóvel davam conta do casual e relaxado vaivém de mensagens e nem Madrid, do outro lado do “éternauta”, adivinhava o doce frenesim que estava prestes a instalar-se no Porto quando o écran disparou as palavras de Joan Wasser anunciando o concerto em Ponte de Lima nessa noite.

Joan Wasser tem em mim um despertar antigo e lento, anterior ao conhecimento que a liga pessoal e artisticamente a Jeff Buckley e a Rufus Wainwright, um daqueles instalares que não vem de conceitos e escolhas musicais explicitamente informados, mas daquela matéria mais visceral que não muitas vozes transportam em si de forma suficiente. Não conheço a fundo a sua vasta discografia (sete álbuns desde o seu primeiro Real Life e 15 anos de canções), mas o mundo que esta voz transporta foi-se adensando na minha perceção ao longo do tempo e este screenshot explicitou definitivamente esse crescendo de implícitos, materializando a urgência de ver Joan ao vivo. E foi assim que, entre telefonemas, reservas, correrias, persuasões e a generosa cumplicidade de uma grande companheira de literais viagens musicais, nos pusemos em Ponte de Lima numa noite precoce, fria e chuvosa de novembro.

O Teatro Diogo Bernardes foi uma belíssima surpresa, tem tudo o que se deseja para aqueles concertos especiais, de músicos que amamos tanto que fingimos conscientemente que tocam só para nós. Lindíssimo e pequeníssimo (capaz de acolher 310 pessoas) e com aquela atmosfera de “circo punk” que transporta o glamoroso classicismo dos grandes teatros e o misterioso desalinho das caves do rock (vem-me à memória o concerto de Tricky no Coliseu dos Recreios em 1997). O sítio de onde Joan não queria ir embora, como escreveu no dia seguinte.


Uma plateia cheia, um palco minimalisticamente vestido com um piano, uma guitarra e o que Joan nos apresentou mais tarde como a sua banda, uma beatbox. Joan entrou de vestido preto comprido, ombros nus, figura concreta, compacta, quase atlética, traços de rosto bem definidos. Tudo parecia contrastar com a atitude quase tímida e insegura, saudou-nos brevemente, lançou um sorriso discreto e seguiu direta ao piano. Foi assim resoluta que disparou aquela voz dolente, gritante, pungente, tão afirmativa e tão etérea ao mesmo tempo. Tão presente que se entranha nos músculos, ferida e a querer ferir, mas que se esvai de nós antes disso, numa sucessão quase frenética de sons e tons que fogem quando quase os agarrámos.

E poderia ser isto o resumo do concerto porque a voz foi a estrela do Norte nesta noite. Baralhou qualquer setlist que a nossa mente pudesse empunhar. Joan encontra-se em digressão para promover o seu Joanthology, uma antologia que reúne alguns momentos do seu percurso e que inclui inéditos, uma versão de Prince e uma secção “Live at the BBC”, mas da atmosfera fortemente pop e dançável de grande parte das canções que mais a popularizaram, parecia quase não ficar tom sobre tom nesta noite. Quantas vezes dei por mim atordoada no meio das agridoces tempestades sonoras, querendo agarrar os ondulantes e fugidios fios da memória. Mas Joan estava lá para nos salvar. Do diálogo intimista inicial consigo própria ao piano, foi-nos conduzindo até ao centro do seu mundo, passeando-nos espantados pelas canções que em nós residem em ritmos marcados e sedutores, mas agora despidos de si mesmos, nus nas palavras robustas e delicadas, concretas e etéreas, presentes e fugidias, e no esplendor dos arranjos de piano, guitarra e ritmos apenas com a exata medida do essencial. Da intemporalmente sedutora “The Magic” à pungente “Forever and a Year”, que colocou a mais ínfima célula da sala em estado de comoção, passando pela espantosa versão de “Kiss” de Prince, restou-nos a rendição ao terramoto a que submeteu a arquitetura das suas canções. Se quiséssemos explicar a um amigo, não familiarizado com o seu universo musical, o que ela faz às músicas, acredito que bastaria colocá-lo na sala para receber “Kiss”. 

Mas não só de diálogo musical se fez a cumplicidade na sala do Teatro Diogo Bernardes. Com as palavras cantadas foram crescendo as palavras faladas e num instante estávamos nós também a dar voz à noite, respondendo às perguntas e provocações de Joan, sorrindo por vezes baralhados com o seu humor subtil, perguntando, sugerindo, cantando, porque, sim, também estávamos lá para a salvar, como ela própria nos transmitiu dizendo que “estava a precisar de nós”, depois de nos ter pedido coro em “Human Condition”. E foi pela graça desta condição humana que se recebeu e ofereceu a mais divina e real das salvações e que no final do concerto Joan desceu definitiva e literalmente à terra para misturar, no átrio do teatro, o seu sorriso fácil, o olhar intenso e a atenção plena à nossa incontida alegria e excitação. Foi um dos momentos mais divinamente mundanos em que me foi dado participar no que à dessacralização artística diz respeito. E quando isto acontece, o nosso mundo enche-se mais de amor e de esperança.  


Acordei no dia seguinte com a homenagem de Joan a um seu e nosso grande amor. Era 17 de novembro, Jeff Buckley tinha nascido há 53 anos e ela quis fazer-lhe chegar a sua pungente prece junto a um outro rio.

Texto: Armandina Heleno
Fotografias gentilmente cedidas por: Luisa Rodrigues

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