sábado, 30 de novembro de 2019

Lisboa fria, coração quente de Robert Forster, no Musicbox


O ar está gelado, é uma Lisboa friorenta, a Lisboa desta noite.  A passo tranquilo a caminho do Musicbox, pela Rua Nova do Carvalho, eleita pelo New York Times como 'uma das favoritas do Velho Continente, a par de Paris, Londres e Milão', e hoje não está assim tão apinhada de pessoas, mas já é habitual no tempo frio. Aconchegante, a sala do Musicbox e quente, para receber e ouvir Robert Forster

Passeiam-se pelo chão as habituais rodelas de luz vermelho vivo lançadas das cúpulas em forma de arco, é o tom da sala com os focos coloridos de igual.  Aguardando Robert Forster, pela perspectiva de ouvir canções da sua carreira a solo e outras da sua carreira nos The Go-Betweens, encontrei uma sala composta por metade da lotação que foi crescendo à espera que Robert Forster entrasse em palco com a sua guitarra e encantasse com as suas canções, e como vinha anunciado no poster, acompanhado com a sua esposa Karin Baeumler, no violino. Surpreendentemente, e como o próprio explicou depois, pedindo humildes desculpas, por motivos de saúde do pai, Karin não pôde estar presente nos concertos em Portugal e Espanha, o que tornaria à partida mais difícil a Robert Forster, a tarefa de manter interessada uma plateia durante praticamente hora e meia, num concerto só com a sua voz e a sua guitarra acústica. 

Nada de mais errado. Robert Forster entrou em palco, interrompeu a primeira canção logo ao início, dando claras instruções ao técnico de som que o som não estava como ele queria na munição de palco e rapidamente indicou que a partir daí, "tudo iria correr excelentemente”, gracejando. Ganhou logo à partida a simpatia do público, simpatia esta ser já um dado adquirido numa noite em que Forster compôs bem a sala do Musicbox e com tantos concertos a acontecer em simultâneo em Lisboa, incluindo o Super Bock em Stock. Robert Forster, ele e somente com a sua guitarra, 'armado' de charme australiano, do continente de onde vêm 'coisas' tão boas como Nick Cave & The Bad Seeds ou… como The Go-Betweens, claro. 


Rodeado de fãs acérrimos, Robert Forster entregou um set longo, competente e cumpriu a tarefa heróica de tocar cerca vinte canções, ou mais, se contarmos com o encore em que não saiu de palco. Anunciou que ía ficar ali a tocar mais, porque "já não faz essas coisas (sair de palco e esperar que as pessoas peçam mais)”. Foi portanto de uma simplicidade elegante, ele, Robert Foster, grato por finalmente estar a tocar em Portugal (na noite anterior já tinha tocado no Passos Manuel, no Porto). O público também estava agradecido por ter esta oportunidade, tamanha a devoção que a plateia lhe prestou, também ele não fez por menos e introduziu logo com o tiro certeiro as canções dos The Go-Betweens. “Born To a Family” pode perder impacto em relação ao original de estúdio com a sua secção rítmica pujante e até aos arranjos de guitarras, mas ganha pontos nesta versão folk, pela simplicidade e despida de artifícios, foi uma boa entrada para este concerto, todo ele como referi, só com voz e guitarra. “I've got tickets to the best show in town, If you want to come on down and listen, I'm ready” (tenho bilhetes para o melhor concerto da cidade, se vierem até cá, estou pronto), canta Forster na belíssima “Spirit" do disco The Friends of Rachel Worth, o primeiro que os The Go-Betweens gravaram na 'América' e o sétimo da carreira, já na segunda fase da banda. 

Centrado no presente, não renegando o seu passado mas abraçando-o numa mistura coerente nos dias de hoje, ouvimos da sua carreira a solo “Let me Imagine You”, do disco com o mesmo nome, onde reconhecemos em Forster o mesmo talento de sempre de criar melodias com a sua voz simples canções evocativas de sentimentos especiais, como pudemos também confirmar na muito bonita “One Bird In The Sky” do seu álbum, Inferno. Ouvimos "Here Comes The City”, que em modo acústico gostei mais do que na gravação de estúdio pelo ritmo estrondoso que a guitarra de Robert imprimiu junto com sua voz. E no fundo, tivemos um set dividido entre canções dos The Go-Betweens, e as belíssimas canções da sua carreira a solo. "Inferno (Brisbane in the Summer)”, o single do mais recente disco (Inferno), é um exemplo disso, uma canção com fulgor e a única em que senti falta de uma banda a acompanhar Robert Forster

Mais para frente e já perto do final, um momento bonito em que o artista em plena ‘comunhão’ se fez acompanhar pelo público no refrão, nessa canção simples de bonita que é “Surfing Magazines” dos The Go-Betweens. Vão ouvir e se não estiveram lá naquela noite no Musicbox, arrependam-se. Robert Forster despediu-se com ”Rock 'n' Roll Friend”, do álbum a solo Warm Nights. Uma noite de rock n' roll, 'à la' guitarra acústica com um carismático intérprete, confortável na sua tarefa de só ele e as suas canções, num espectáculo coerente, bonito e cheio de boas memórias, levantando o véu para quem ainda (por cá) não conhece a fundo a sua carreira a solo como intérprete e compositor. Nesta noite, Robert Forster tocou para os seus amigos, para os seus ouvintes, para aqueles que o conhecem, e fez as pessoas presentes felizes de o terem por cá. 

Texto: Lucinda Sebastião
Fotografia: Ah!PHOTO

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