quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Mick Harvey recordou e revisitou Serge Gainsbourg na Casa da Música


Foi em janeiro 2017 (mais vale tarde que nunca) que tive o primeiro contacto com o trabalho a solo de Mick Harvey com o disco Intoxicated Woman, o seu 4º e último volume da coleção de traduções e reinterpretações de Serge Gainsbourg (que à data eu também desconhecia). Conhecia apenas o seu excelente trabalho com Nick Cave & The Bad Seeds e a sua participação, no ano anterior, no disco excelente disco da PJ Harvey, The Hope Six Demolition Project, e pareceu-me um excelente momento para conhecer este músico. O resultado foi um dos meus discos preferidos desse ano com alguns temas como “The Homely Little Ones”, “Eyes To Cry” e “Puppet Of Wax, Puppet Of Song” que me fascinaram imediatamente.

 Em 2019, Mick Harvey era um músico que eu não esperava ver ao vivo, porém, a tour Mick Harvey plays Serge Gainsbourg fez uma paragem pelo Porto pelas mãos da House Of Fun num concerto obrigatório. Mick Harvey é um músico extraordinário e rodeia-se dos melhores na enorme banda constituída por James Johnston, Toby Dammit, Yoyo Röhm, JP Shilo e Xanthe Waite (sobrinha de Mick), alguns dos quais antigos membros de Nick Cave & The Bad Seeds e da banda de PJ Harvey.

O concerto teve início com uma pequena introdução do músico protagonista da noite explicando que, numa primeira parte, os músicos do quarteto de cordas iriam apenas observar e posteriormente participariam em algumas músicas. Ouviu-se, então, “Requiem (Requiem Pour Un Con)” a primeira amostra do talento dos músicos em palco que homenageiam da melhor maneira Serge Gainsbourg através da reinterpretação e tradução dos seus temas. Durante “The Barrel Of My 45 (Quand Mon 6.35 Me Fait Les Yeux Doux) subiu ao palco Xanthe Waite, neste tema, como guitarrista e vocais no seguinte, “69 Year Of Love (69 Année Érotique), abandonando o palco para reaparecer esporadicamente em temas que requerem uma voz feminina. Entre grande parte das canções Mick Harvey faz questão em dar um ar da sua graça mostrando um à vontade tremendo (fruto de 40 anos de palco) e um sentido de humor apurado.

Uma das canções que eu mais queria ouvir foi anunciada pelo australiano como sendo “a canção vencedora da eurovisão 1964, pelo Luxemburgo…mas numa versão um pouco diferente” e, assim, voltou Xanthe Waite para interpretar “Puppet Of Wax, Puppet Of Song (Poupée de Cire, Poupée de Son)” tema originalmente interpretado por France Gall e cantado pela sobrinha de Mick, também, no disco Intoxicated Woman. Em alguns temas, como por exemplo, “Coffee Colour (Coleur Cofe)” Xanthe foi acompanhada por uma segunda voz feminina.

Entre clássicos como “Bonnie and Clyde”, “Dedly Tedium (Ce Mortel Ennui)” e “Harley Davidson”, a banda, tocou 19 canções apresentando “Inicials B.B.” como o fim do espetáculo numa performance que faz jus à imponência do tema. Com alguma insistência do público, assim como alguma dispersão, houve um regresso para encore sem o quarteto de cordas. A revisita à obra do francês por parte de Mick Harvey terminou, então, com mais três canções, “Scenic Railway”, “Contact” e “J’Envisage” de Alain Bashung. Pouco depois do final do concerto o protagonista da noite aproveitou para partilhar umas palavras com os seus fãs e assinar discos com a maior simpatia possível.

Os temas do homenageado Serge Gainsbourg, mesmo traduzidos para inglês, mantêm a sua alma e são facilmente reconhecidos por quem apenas conhece as versões originais. Todos os músicos em palco demonstraram grande experiência e proporcionaram um excelente serão com um concerto imperdível. O humor e comunicação de Mick, embora não fossem algo essencial, ajudaram ao bem-estar geral e felicidade de toda a sala e ajudaram a cimentar este concerto como um dos melhores que assisti neste ano.



Texto: Francisco Lobo de Ávila 
Fotografia: Edu Silva

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