quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Mucho Flow: Um festival eclético que celebra o melhor da música contemporânea


A 7ª edição do Mucho Flow decorreu em 2 dias, ocupou 3 espaços diferentes e contou com atuações de 21 artistas. O festival organizado pela Revolve, promotora que comemorou este ano o seu 10º aniversário, é marcado por um enorme ecleticismo. Nomes de campos diferentes da música contemporânea reuniram-se em Guimarães nos dias 1 e 2 de novembro num cartaz para todos os gostos. Três dos nomes presentes (CTM, Croatian Amor e Damien Dubrovnik) integram a editora Posh Isolation, que também celebrou os seus 10 anos.

O CIAJG (Centro Internacional das Artes José de Guimarães) recebeu os primeiros concertos de cada dia, divididos entre uma sala do museu, onde os artistas e a audiência se encontravam rodeados pelas obras lá expostas, e a blackbox do mesmo edifício. Foi no museu que tocaram o pianista Marco Franco e a cantautora CTM. Esta apresentou o seu pop experimental a solo, servindo-se de um sintetizador e um computador. Juntou sons acústicos e eletrónicos muito limpos de forma imprevisível, criando uma atmosfera fria e serena. Foi uma pena quase todos os instrumentos terem sido reproduzidos em faixas pré-gravadas.

Na blackbox ouviu-se o goregrind dos Holocausto Canibal e o sintetizador modular de Hiro Kone. O seu concerto foi um dos mais dinâmicos do festival, havendo espaço para ambientes calmos e envolventes, mas também para momentos dançáveis de grande intensidade. A artista, impossível de enquadrar numa só caixa, levou o público numa fascinante viagem pelo mundo abrangente da música eletrónica, com passagens pelo IDM, o industrial e o techno. No dia seguinte, o quarteto português brindou um público pouco energético, mas bastante recetivo à sua música extrema, com uma grande dose de faixas de toda a sua discografia. Fizeram-se acompanhar de imagens sexuais ou violentas de diversos filmes e demonstraram um bom sentido de humor perante a falta de atividade e mosh pits. “Esta roda está espetacular”, comentou o vocalista a certa altura.



Foi num antigo edifício dos CTT que tocaram vários dos artistas mais esperados do festival. O rés-do-chão do espaço funcionou como uma pequena zona de restauração, com os concertos a realizar-se numa sala espaçosa alguns andares acima. Loke Rahbek, mais conhecido por Croatian Amor, foi o primeiro a subir ao palco. O co-fundador da Posh Isolation apresentou o seu mais recente álbum, Isa, cuja sonoridade pós-industrial incorpora sintetizadores etéreos e vozes robóticas. De seguida, subiram ao palco os Heavy Lungs, jovem banda britânica de pós-punk que lançou dois EP’s este ano. Num concerto especialmente intenso e energético, onde o vocalista chegou a cantar fora do palco e a guitarra passou pelas mãos das primeiras filas, o quarteto britânico deu tudo o que tinha e conquistou o público com singles como “Blood Brother” e "(A Bit of A) Birthday". Os Heavy Lungs não têm a criatividade e presença em palco dos seus amigos Idles, mas são uma banda em emergência que promete crescer nos próximos anos. Tocaram depois os muito ansiados Iceage, perante uma sala preenchida e umas primeiras filas especialmente entusiasmadas. A banda focou-se principalmente no seu último disco, Beyondless, e deu um concerto competente, marcado por alguns problemas de som. Destacaram-se as canções “The Lord’s Favorite” e “Catch It”, duas das melhores amostras do som atual da banda, sempre à volta do pós-punk e do punk rock.

No segundo dia foi no mesmo palco que se ouviu Chinaskee, BbyMutha e o trio Montanhas Azuis, composto por Norberto Lobo, Bruno Pernadas e Marco Franco. As composições da banda são tocadas em três sintetizadores ou dois deles e uma guitarra. A bateria eletrónica utilizada ocasionalmente e os sons dos sintetizadores são bastante retro, fazendo lembrar em certos momentos as bandas sonoras dos videojogos 16-bit. A atuação da banda foi calma e suave, repleta de improvisações por parte dos três membros. Por vezes parecia que as canções perdiam o seu rumo, com melodias intermináveis a estendê-las mais do que seria necessário, e um dos sintetizadores esteve exageradamente alto em comparação com os restantes instrumentos, mas o concerto foi uma boa amostra dos talentos deste supergrupo da Revolve.


As noites terminaram no Centro de Artes e Espetáculos São Mamede, onde ocorreram as performances mais tardias, a maior parte delas DJ sets. Foi aqui que tocaram os Damien Dubrovnik, dos quais é membro Loke Rahbek, neste caso também no papel de vocalista. Com os seus gritos poderosos e distorcidos a transmitir uma sensação de angústia, acompanhados por instrumentais densos e desorientadores que reforçaram esta ansiedade, o concerto foi ruidoso e intenso. Um dos mais surpreendentes do festival.

No entanto, o melhor ficou para o fim. Foi na reta final do segundo dia de festival que subiram ao palco os Amnesia Scanner. Autores de verdadeiros bangers como “AS Too Wrong” e “AS Chaos”, estão entre os artistas mais criativos e marcantes da música eletrónica atual e a sua atuação foi impressionante. Escondido por luzes fortes e acompanhado por dois pequenos ecrãs com visuais distorcidos e saturados, o duo finlandês criou um ambiente espetacular onde tanto os visuais como a música foram excessivos. Ouviu-se variações do seu trabalho de estúdio, com a incorporação recorrente do que pareceram ser samples de voz em português muito distorcidos. É nesses sons que se nota um dos maiores talentos do grupo, a desfiguração de samples e sintetizadores até estes se tornarem caóticos e ruidosos, criando timbres futuristas e ásperos que utilizam em composições dançáveis onde até podem ser incorporados ritmos de reggaeton.

O Mucho Flow 2019 contou com um cartaz multifacetado que é muito pertinente nos dias de hoje. As barreiras entre géneros musicais são ultrapassadas por muitos artistas contemporâneos e pelos seus ouvintes, fazendo todo o sentido existir um festival com tamanha variedade de sonoridades. Esperamos repetir a experiência em 2020.


Texto: Rui Santos
Fotografia: Ana Carvalho dos Santos

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