domingo, 24 de novembro de 2019

Reportagem: Joseph Shabason + Zzzzzzzzzzzzzzzzzp! [Saint George’s Church, Lisboa]


Sexta-feira, 15 de novembro, e o nosso destino é a Saint George’s Church, na Estrela, em Lisboa. É lá que, nesta noite bem gelada na capital, Joseph Shabason se vai estrear no nosso país, com a primeira parte a ficar a cargo do duo de eletrónica nacional Zzzzzzzzzzzzzzzzzp!.

Ainda com pouco público presente e quando já passavam 15 minutos após as 22 horas, subiram ao altar os Zzzzzzzzzzzzzzzzzp!, dupla formada por Miguel Sá e Miguel Carvalhais, o qual não pôde estar presente, sendo substituído por Duarte Amorim nas projeções.

Os Zzzzzzzzzzzzzzzzzp!, oriundos do Porto, formaram-se em 1991 e inicialmente apresentavam-se como um quarteto composto por José Moura Barbosa, Manuel A. Dias, Miguel Carvalhais e Miguel Sá. Dotados de uma sonoridade que aborda os vários caminhos da eletrónica característica da década de 90, englobam o ambientalismo, o drum’n’bass e a techno e envolvem-nos numa atitude inconformista, como nos conta Rui Eduardo Paes no seu livro Cyber-Parker (Hugin, 1999). É também possível encontrar nos trabalhos do grupo algumas influências de electroacústica e concretismo.

Editaram o disco de estreia Ficta 003 em 1998, com o selo da AnAnAnA, seguindo-se nos anos seguintes, já em formato duo - Miguel Sá e Miguel Carvalhais – mais dois trabalhos, Fb56 Urbanlab (Ananana, 2001) e Disseminações, pela austríaca Falsch em 2001. O projeto cessou actividades em 2002, voltando a reunir-se em 2011, em formato duo, para celebrar os 20 anos de existência com dois concertos, o primeiro integrado na programação do evento VÍDEO HOME SYSTEM no Espaço Nimas em Lisboa e o segundo na Casa da Música no Porto. 


O ano de 2019 funcionou como ano de regresso dos Zzzzzzzzzzzzzzzzzp! às atuações ao vivo, desta feita na Saint George’s Church, em Lisboa. Dividido em quatro momentos, o concerto começou com sons maioritariamente graves a preencherem a atmosfera negra e misteriosa que se fazia sentir, intercalados por texturas da natureza. O som apresentava-se em comunhão com as projeções minimalistas expostas no altar da igreja, que podiam ser interpretadas como fluxos de matéria e energia. 

À medida que concerto avançava, a atmosfera sonora tornava-se mais intensa, com alguma estática no fundo, e as projeções iam “mutando”, passando da cor branca para o vermelho. O ruído e a distorção foram tomando conta dessa atmosfera, acompanhados por uma batida essencialmente tribal e por texturas mais sintéticas e interessantes. A atuação terminou no seu auge de intensidade, preenchida por uma batida bastante mais acelerada e intercalada por samples do que parecia ser um violino, um pouco ao jeito da sonoridade nostálgica de The Caretaker.  

Eram já 23h20 quando Joseph Shabason se apresentou ao público presente na Saint George’s Church e começou a sua atuação, fazendo-se acompanhar pelo baterista Kieran Adams. “Long Swim” foi o primeiro tema a ecoar na igreja, tema esse como uma forte ligação marítima, em que Joseph manipula pedais de loop para criar um efeito de marés com o seu saxofone, complementado por uma percussão bastante suave e minimal. 

Joseph Shabason é mais conhecido pelo seu trabalho colaborativo do que pelas edições em nome próprio. O saxofonista-compositor canadiano é colaborador frequente de Dan Bejar e do projeto Destroyer – participou nos álbuns Kaputt (2011) e Poison Season (2015), desempenhou um papel essencial na composição do disco Lost in the Dream dos The War On Drugs, tendo ainda tocado, gravado e participado em tour com Andre Ethier e com a sua outra banda, DIANA, da qual também fazem parte Kieran Adams e Carmen Elle


Foi apenas em 2017 que o artista natural de Toronto começou a sua carreira a solo, afirmando-se com numa sonoridade que funde o jazz com a música ambiente. Nesse mesmo ano Joseph Shabason editou o primeiro álbum de originais, Aytche, pela Western Vinyl, seguindo-se um ano depois Anne, álbum intitulado com o nome da mãe do multi-instrumentalista. Anne gira em torno de uma série de entrevistas da mãe de Joseph sobre a  sua batalha contra a doença de Parkinson e procura sensibilizar o público para as doenças degenerativas, transformando essas entrevistas em composições sonoras de texturas delicadas e emotivas.  Foi precisamente deste disco que foi retirada a música seguinte a ser tocada na igreja, “I Thought I Could Get Away With It”.

“Broken Hearted Kota” foi o tema que se seguiu na atuação de Joseph Shabason, com uma batida eletrónica bem contemporânea a iniciar. Este tema foi escrito para o documentário Omega Man: A Wrestling Love Story, sobre os wrestlers Kenny Omega e Kota Ibushi, parceiros da tag team Golden Lovers, os quais protagonizaram possivelmente, segundo o artista, a primeira história de amor queer em wrestling profissional. "Broken Hearted Kota" faz parte de Anne, EP, trabalho editado este ano pelo artista e que conta com a voz de Dan Bejar no tema "I Don't Want to Be Your Love".

Escutaram-se ainda na igreja anglicana dois temas pertencentes a Anne: “November”, o qual conta com a colaboração de Gigi Masin, artista italiano de culto que se dedica à composição com sintetizadores e com quem Joseph iniciou uma amizade online; e a suave e serena “Treat it Like a Wine Bar”,  interpretada com recurso a flauta, em que Joseph convidou o público apenas a relaxar e a sentir o ambiente. 


Esta foi mais uma excelente experiência proporcionada pela Nariz Entupido ao apresentar-nos um dos grupos mais influentes na eletrónica nacional na década de 90 e um artista que já “emprestou” o seu saxofone e o seu talento a tantas bandas, e que recentemente se aventurou a solo nos caminhos do ambiente e do minimalismo bafejados pelo jazz. Pena mesmo foi o frio que sentiu dentro e fora da Igreja. 

Joseph Shabason passou também pelo IRL, no Porto, a 17 de novembro.

Fotografia: Mario Mar

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