sábado, 9 de novembro de 2019

Sieben e The Manchesters na inumerável lista de noites surpreendentes no Sabotage Club


Um dia depois do Halloween. É sexta-feira e já libertas dos mascarados da noite anterior, estão mais tranquilas as ruas, agora com a movimentação nocturna habitual. Já no Sabotage, há uma certa curiosidade aguçada para ouvir The Manchesters e Sieben, numa noite que promete ser bem diversificada de sons de mistura eclética que se espera, brotar do pequeno palco deste grande clube do Cais do Sodré. Palco de sonhos concretizados e de muitos concertos que nunca deixaram de surpreender.

Esta noite não seria diferente com os The Manchesters a apresentarem uma digna actuação com: músicos experientes, teimosos mesmo, a apresentarem canções apoiadas em referências indie assumidamente de Manchester, reformulando-as com um toque de actualidade e tomando de assalto o palco com uma dinâmica que nunca viria a abrandar, mesmo num tema mais calmo com alguma influência reggae, sincopado, e mais à frente no concerto, uma urbanidade que se apresenta na música da banda e que vai mesmo buscar de forma subtil algo ao que de melhor foi feito por terras de sua majestade ou, por terras do Brexit, nos dias de hoje.


Melodiosos e bem ritmados estes The Manchesters, um grupo que conta com músicos experientes de outras formações como os Raindogs, The Fishtails ou Radio Macau, têm canções que vão buscar sim influências à musica de Manchester, cidade que lhes dá o nome, e são canções refrescantes e até alegres, diria, com um cunho pop rock, onde os arranjos de estética indie e a forma entusiasmada de o vocalista as abordar são mais fáceis de digerir e é claro que rapidamente estamos a bater o pé, com o público a aderir à festa no Sabotage. Com títulos como “Camouflage Helicopters" ou "Falling Outta Love”, percebemos de onde vêm e para onde querem ir e também no cuidado que têm com os arranjos e da forma profissional e convincente com que entregam as canções em palco. Ficámos convencidos que chegam lá. Aguardemos pelo primeiro longa duração deste grupo para ouvirmos de certo um registo convincente como o foram nesta noite aquelas dez canções no palco do Sabotage. Surpreendente foi também a presença de Matt Howden (Sieben), chamado ao palco na penúltima canção para com o seu violino abrilhantar "Seven Days”. Houve “Fire” na despedida. The Manchesters, são de Lisboa, soam a Manchester e acrescentam muito mais a tudo o que já se se fez.

O que se passou a seguir não terá sido surpresa para quem conhecia de avanço o trabalho de Sieben mas certamente terá deixado os mais incautos de boca aberta, certamente espantados com a miríade de sons que foram harmoniosamente projectados pelo PA do Sabotage ao longo de uma hora. Sieben cantou, tocou violino, gravou vozes em directo e todos os sons repercutidos em cima de bases simples ou gravadas no momento, era vê-lo carregar em pedais e tocar solos de violino, por vezes uns em cima dos outros, gravando vozes sussurradas que serviam de ritmo às canções. Canções com títulos como "Crumbs", "Kickstart The Empire!", "Jigsaw Chainsaw" ou "Ohgam The Sun”, são lindíssimas, monumentos ao virtuosismo e elegância vocal de Sieben, são sentidas em especial de cada vez que Sieben toca mais uma melodia por cima da orquestra e da camada de sons, um facto comprovado de arrepio crescente que provoca na audiência, juntando-se a ela quando tem uma folga de carregar nos seus pedais. Essa 'cacofonia' de sons elevou-se a um outro nível com o convite feito à violinista Maria Côrte (A Jigsaw), interpretando mais duas belíssimas canções a dois violinos, um momento muito especial para nós, o público, e também para a violinista portuguesa como a própria depois confessou. Foi assim esta noite com o indie rock dos The Manchesters e o surpreendente concerto de Sieben, “O Homem Orquestra". Dois bons momentos para recordar nesta já inumerável lista de noites surpreendentes no Sabotage Club.


Texto: Lucinda Sebastião

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