segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

10 000 riffs de pura adrenalina: The Parkinsons e Conan Castro and The Moonshine Piñatas no Sabotage


Na passada sexta-feira (20 de dezembro) rumámos ao Sabotage para uma noite em que o punk rock tomou conta do palco. Os responsáveis pela “alta voltagem” e pela adrenalina, que contagiou uma casa cheia, foram Conan Castro and The Moonshine Piñatas e The Parkinsons.

As boas-vindas estiveram a cargo dos barreirenses Conan Castro and The Moonshine Pinãtas, emergindo no cenário garage-punk-rock nacional em 2014, caracteriza-os uma sonoridade que nos conduz para um ambiente repleto de ritmos “febris” e riffs desvairadamente enérgicos. A banda composta por cinco elementos lançou o seu álbum de estreia, Cataplana América, em 2017 (Hey! Pachuco Records) e em 2018 um split LP com os Planeta Quadrado (Monotone/Groovie). Durante quase uma hora a bateria, as guitarras, o baixo e os “vocais raivosos” fizeram-nos esquecer que lá fora a “Elsa” tinha atacado em força. Era impossível ficar indiferente ao rasto sonoro que ressoava na sala, já que cada tema era um convite à dança, ao movimento e a fazer coro com a banda.



Os Castro conseguiram transportar-nos para um imaginário de sons hipnotizantes e elementos musicais cujas raízes remetem para uma fronteira México/Estados Unidos, dando corpo a uma banda sonora para todos os que ambicionam um dia cruzar ilegalmente a fronteira. A grande energia em palco transbordou efusivamente para o público, num “diálogo” bem sintonizado, em que o vocalista acabou por se juntar aos fãs, terminando o concerto debaixo de fortes aplausos e de grande furor.



Num momento em que já se respirava a humidade, fruto da exaltação dos corpos, que dançaram, cantaram e esbracejaram ao ritmo dos sons ferventes da primeira banda, era a vez dos The Parkinsons colocarem o Sabotage em pleno estado de “ebulição”. A banda de culto conimbricense surge em 2000 com Victor Torpedo (guitarras) e Pedro Chau (baixo), quando se mudam “temporariamente” para Londres, juntando-se-lhes Afonso Pinto (voz) e Chris Low (bateria, retirando-se da banda em 2002). Em constante mutação e irreverência lançam o primeiro álbum em 2002, A Long Way to Nowhere (Pierce Panda), Reason to Resist em 2004 (Curfew Records). Depois de um interregno de vários anos surge Back to life (2012, Garage) e The Shape of Nothing to Come (2018, Rastilho), contando este último com a participação de Ricardo Brito (bateria) na conceção da nova moldura sonora.

Quando os The Parkinsons entraram em cena, o ambiente aqueceu ainda mais. Mal começaram a sua atuação foi desde logo percetível como é que esta banda consegue conquistar os seus fãs. Envoltos numa energia física e sonora incomparáveis, o público não lhes resiste, deixa-se contagiar pela sua “insanidade” saudável; junta-se ao frenesim dançando e cantando como se não houvesse amanhã.



As incursões de Afonso Pinto pelo público adentro são como que mergulhos no mar, numa tentativa de agitar as águas. Começa a sentir-se o mosh e uma atmosfera húmida de suor de quem salta e dança ao ritmo da banda. A interação, a simbiose entre o público e os músicos é um crescendo ao longo de todo um alinhamento “desalinhado”. A barreira entre palco e sala não existe. Com o chão escorregadio, as paredes e posters molhados, no baterista podia ver-se o “fumegar” do tronco nu, no vocalista (também em tronco nu) o suor a escorrer-lhe pelo corpo. Sentia-se o “bafo” húmido no ar, o embaciar dos óculos e das lentes das câmaras fotográficas.

Numa envolvência eletrizante, terminam com o clássico “So Lonely”, onde se pôde presenciar tudo aquilo que os The Parkinsons são bons a fazer: transmitir energia e levar o público ao rubro, como qualquer boa atuação de rock'n roll o deve ser. Havia público no palco, músicos fora dele, com o refrão a ser cantado em uníssono. A banda despede-se, assim, depois de nos “provar” uma atitude e vigor nem sempre fácil de explicar, mas que toda a gente sente e que nos faz libertar de impulsos primitivos que guardamos para nós, e que ficam à espera de momentos como este para virem ao de cima. 

Vivemos uma noite ao som de um punk-rock feito, em igual medida, de caos e sorrisos e sobretudo de uma energia avassaladora. Foi uma grandiosa celebração pré-natalícia. A irreverência caótica, o “ambiente selvagem” que destrói qualquer fronteira entre banda e público, explicam porque é que muitos continuam a considerar os The Parkinsons uma das melhores bandas portuguesas ao vivo.



Texto: Armandina Heleno
Fotografias e vídeos: Virgílio Santos

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