quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

The Waterboys em Portugal, fortes foram os aplausos no Campo Pequeno


As luzes do Campo Pequeno nesta noite em Lisboa brilham mais forte. 

Imaginava eu, um grupo de músicos, prodigiosos e druidas das canções de saber anglo-saxónico, viessem transportados como se de um feitiço do mago Merlin fosse, dele e da sua habilidade de ler as estrelas e de manipular o destino que elas previam e de como se de magia se tratasse, tocarem para nós. 

Mike Scott e restantes 'bardos' entraram em palco pelas 21h45 e rapidamente o clima de festa instalou-se quando, após a canção inicial “When Ye Go Away”, tocou em todos. Tocaram logo de seguida, “Fisherman's Blues”, arrecadando a primeira grande ovação da noite seguido de um: «boua nouite Luisboa» por Mike Scott, que seguiu cantando acompanhado pelas duas vozes femininas a entoar em coro harmonias num crescendo deslumbrante e… arrepiante, numa altura em que o violino de Steve Wickham elevou as notas que subiram até à recém restaurada cúpula do Campo Pequeno. 


”Medicine Bow”, de toada mais 'roqueira' em ritmo animado… e os The Waterboys seguiram tocando e cantando o “Ladbroke Grove Symphony”, do álbum Where The Action Is, o mais recente trabalho da banda. Tocaram mesmo a faixa título, com os coros em regime gospel e as teclas com o som Hammond (o órgão eléctrico criado por Laurens Hammond em 1935) ao modo dos anos 70. Os solos de guitarra de Mike Scott que (e)levaram o blues n’ rock ao repertório dos The Waterboys desta noite, fizeram o resto. "Old England” e o público no emaranhado de sons a sentir-se confortavelmente um familiar da banda, enquanto que “Still A Freak” os (e)levou para onde Mike Scott quis, a nível da sua mais recente criação musical, ao blues (hard) rock. “Nashville, Tennessee”, do disco Out Of All This Blue, seguiu pelo mesmo caminho com destaque para os solos de teclas de Brother Paul (nome artístico do Sr. que toma conta das teclas sozinho quando Scott está na guitarra, e também numa divertida analogia aos (!) Kiss) e que belas notas tocou de seguida em ''This Is The Sea’', num registo mais intimista, e ainda bem, pois é através das canções intemporais de arranjos mais despidos que a voz de Mike Scott nos toca verdadeiramente e tem espaço para brilhar na sua melhor conveniência. 

E brilhou de forma magnífica em “We Will Not Be Lovers”, os coros ao bom e velho estilo gospel da dupla feminina (uma novidade neste regresso a Portugal), a dançar e a mostrar que as canções do disco Fisherman's Blues são para serem servidas em regime live até atingirem um clímax, numa… (como dizer outra vez?) ligação aos céus - é lá que a música chega, de lá para aqui, daqui para lá, o som - o único que consegue cruzar o céu e a terra sem os habituais problemas da gravidade e do oxigénio, seja em baixa ou em alta altitude. 


Foi o som que ali esteve. Mas ainda há vida e eloquência nas letras de Mike Scott e nas mais recentes canções como pude constatar em “Morning Came Too Soon”, de Out Of This Blue. A canção “The Pan Within”, foi, a seguir, realmente muito especial. Somente com Mike Scott e Steve Wickham em palco, os dois com a canção despida de quaisquer teclas ou secção rítmica (foi esta a primeira canção que Wickham gravou com os The Waterboys, e que o levou ao seu ingresso na banda). Só um pouco depois o nível do aplauso se tornou a repetir no encore com “A Girl Called Johnny” e a inesperada versão de “Purple Rain” de Prince, a fechar a noite com os coros das duas vocalistas em uníssono com a guitarra e voz de Mike Scott e a banda em pleno ajuste sonoro para esta versão realmente lindíssima que tocou sem dúvida o coração de todos. 


Naquela noite, no Campo Pequeno, foi assim que estiveram os The Waterboys: ambivalentes, entre o passado e um outro lado virado para as novas canções, talvez menos europeias, com um som mais vintage, ora mais norte-americano. Afinal, Mike Scott, agora actua de chapéu à cowboy, é o rock n' blues norte-americano e a música de inspiração irlandesa, ou escocesa, fundidos num concerto que teve nos momentos de revisitação do passado da banda os seus momentos mais fortes, e fortes foram os aplausos.

Texto: Lucinda Sebastião

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