sábado, 8 de junho de 2019

Estes são os nomes que figuram o cartaz do Amphi Festival - Dia 1


Falta pouco mais de um mês para acontecer mais uma das icónicas edições do Amphi Festival, o festival de música underground mais vanguardista de Köln. Em mais um ano a apostar numa requintada ementa que conjuga dos mais emblemáticos nomes das vagas da música industrial, EBMpost-punk, rock gótico até aos mais emergentes, a edição do Amphi Festival deste ano promete fomentar memórias muito queridas do início do verão de 2019.

Já com a data cada vez mais de perto daquela que virá a ser a 15ª edição do Amphi é também tempo de começar a definir prioridades e selecionar aqueles concertos que não se podem mesmo perder. Para vos ajudar a organizar o trabalho, neste artigo focamo-nos no inaugural primeiro dia de festival que aterra em Tanzbrunnen, a 20 de julho de 2019 e nos artistas que incluem o seu cardápido.

AGENT SIDE GRINDER 


Os suecos Agent Side Grinder chegam à Alemanha para fazer ecoar o primeiro álbum de carreira desde a mudança do alinhamento da banda da formação original, marcada em 2018 - A/X (Progress Productions, 2019). Formada em 2005 a banda sueca apresenta em Köln a sua música eletrónica com foco nos sintetizadores e caixas de ritmo desta feita com Emanuel Åström a ocupar a posição de foco central como vocalista. Batidas metálicas, linhas de baixo contagiantes, melodias de synth arrebatadoras e faixas extremamente fortes.



ASH CODE 

Depois da estreia em 2014 com o disco Oblivion (Swiss Dark Nights), os Ash Code tonaram-se rapidamente num dos nomes influentes dentro do revivalismo da música gótica. O conceito do trabalho, focado na filosofia Nietzsche onde o esquecimento é descrito como uma força ativa para esquecer o que alguém sofre e nos aflige sem cairmos numa espiral de sentimentos negativos e depressão, chegou na altura certa após um estado de decadência que se prolongou uns bons anos. A banda apresenta no Amphi o mais recente disco de estúdio, Perspektive (Swiss Dark Nights / Manic Depression, 2018) e muito provavelmente novas canções a figurarem aquele que virá a ser o quarto disco de carreira da banda.



BLUTENGEL

Anunciados como um dos principais headliners do festival, os alemães Blutengel chegam a Köln para nos apresentarem a sua atmosfera sombria e melancólica com um atraente apelo da música pop. A banda de Chris Pohl - que desde o álbum de estreia Child Of Glass (1999) até aos sucessores e muito aclamados Angel Dust (2002) Demon Kiss (2004) e Labyrinth (2007) conseguiu chegar à atmosfera mainstream sem permitir que qualquer grande editora mudasse o seu estilo musical - traz ao Amphi o seu futurepop e EBM e mais de 20 anos de uma carreira concisa e produtiva. Na setlist farão escutar-se em foco os novos temas do mais recente disco de estúdio, Un:Gött (2019).



CHROM 

Formados em 2007 pelo amor aos sons eletrónicos partilhado entre Christian Marquis e Thomas Winters, os CHROM editariam o primeiro disco de estúdio, Electroscope (Fear Section, 2010) três anos depois. 
Numa sonoridade a misturar influências que vão desde a synth pop, EBM e club-electro, o concerto dos alemães CHROM, marcado para 20 de julho recairá sobre o mais recente disco de estúdio e o quarto LP na carreira, Peak & Decay (2016). Batidas volumosas e graves, guarnecidas com melodias cativantes, farão certamente, parte da ementa preparada para sábado.



DIVE 

O belga Dirk Ivens (ex - The Klinik / Absolute Body Control / Sonar) opera a solo sob alter-ego DIVE, num foco sonoro que mistura música eletrónica com letras que recaem na esperança, morte, amor e medo. Muito primitivo e experimental e com recurso à instrumentação mínima, Dirk Ivens cria um poder máximo com o seu desempenho individual. 
Armado com um minidisc e dois estroboscópios, DIVE mostra em sintonia plena que, com o recurso a poucos instrumentos também se consegue fazer uma obra grandiosa. Um concerto que reflete 30 anos de carreira e promete projetar o ouvinte para novas ambiências.



ERDLING 

Entre os nomes mais pequenos do cartaz encontra-se o dos alemães Erdling, banda formada em 2015 e que conta já com três discos de estúdio. 
Com uma sonoridade baseada no metal e em conjugação com as atmosferas eletrónicas do cyber-goth, os Erdling cantam-nos em alemão, apresentando ainda influências nórdico-mitológicas que deverão ser exploradas em pormenor com o lançamento do seu quarto disco de estúdio, esperado para janeiro do próximo ano. Até lá as músicas de Dämon (Out of Line, 2018) deverão estar em destaque na setlist preparada para o Amphi.



HAUJOBB 

Os Haujobb fazem parte da mais nova onda de artistas do panorama electro-industrial e IDM da Europa. Juntamente com outros notáveis nomes como :wumpscut: e VNV Nation, os Haujobb apresentam uma onda ainda mais nova de adrenalina para um género que cada vez mais se expande entre as pistas de dança noturnas. Originalmente formados como um trio em 1993 os Haujobb são, desde o lançamento de Freeze Fram Reality (Of Records, 1995), um duo composto por Dejan Samardzic e Daniel Myer. Depois de uma carreira de sucesso bastante consistente a nível nacional e internacional, a banda sediada em Leipzig apresentará no Amphi o seu mais recente disco de estúdio, Alive (2018).



HEARTS OF BLACK SCIENCE

Através da combinação de elementos do shoegaze, indie, post-rock e música eletrónica, com foco em melodias e letras sombrias, os suecos Hearts of Black Science, exploram uma sonoridade que se desenvolve à base de paisagens eletrónicas atmosféricas cruzadas com música pop de toada obscura.  A dupla sediada em Gotemburgo e formada em 2005, conta até à data com um total de três discos longa-duração aos quais se juntam alguns EP's e singles independentes. No concerto do Amphi deverão ainda ouvir-se temas novos, contando que o último disco da banda chegou às prateleiras em 2013.



HENRIC DE LA COUR 

O também sueco Henric de la Cour (ex - Yvonne; Strip Music), que tem ganho algum destaque dentro do panorama da darkwave e synthwave, pelos seus coerentes e muito bem produzidos discos de estúdio - além da colaboração com os Agent Side Grinder no "famoso" tema "Wolf Hour" - apresenta-se em Köln a 20 de julho. 
Henric de la Cour estreou-se a solo em 2011 com um disco homónimo ao qual sucederam Mandrills (2013) e Gimme Daggers (2018), este último a ganhar destaque na performance ao vivo no Amphi.



HOCICO 

Formados em 1993 pelos primos Erk Aircrag (letras; voz) e Racso Agroyam (programação; sintetizadores) os mexicanos Hocico são hoje uma das bandas mais importantes no panorama da música eletrónica industrial. A sua música agressiva e repleta de uma imagética com foco na escuridão marca presença em quase duas dezenas álbuns que deram origem a alguns dos temas mais rodados nas pistas de dança underground do mundo. 
Ao Amphi e neste cenário de descontração, a banda traz na bagagem o último e mais recente disco de estúdio, The Spell of the Spider (2017).



L'ÂME IMMORTELLE 

Formados na Áustria em 1996, os L'Âme Immortelle misturam batidas eletrónicas dançantes com traços melancólicos, juntamente com vocais ora masculinos e ásperos ora femininos e tristes. Atualmente compostos por Thomas RainerSonja Kraushofer e Ashley Dayour, os L'Âme Immortelle trazem até ao Amphi uma sonoridade que se categoriza entre os territórios do metal industrial e da futurepop. Entre os discos mais clássicos como Wenn der letzte Schatten fällt (1999) e Als die Liebe starb (2003), a banda apresenta com foco no Amphi o seu mais recente disco de estúdio, Hinter dem Horizont (2018, TRISOL).





LOGIC & OLIVIA 

A electropop dos alemães Logic & Olivia também marcará presença na 15ª edição do Amphi. Encontrando-se entre os nomes menos destacados do cartaz a banda formada por René Anke (voz/produção), Matthias Trompelt (teclados/piano) e Tino Weigel (guitarra) promete destacar-se sobretudo pela sua vasta experiência como músicos que começou em 1999 sob o epíteto de Darkcore
Num período de 10 anos sob este distintivo, a banda - que em 2010 mudaria o seu nome para Logic & Olivia - lançou um total de seis discos de estúdio. 2012 marca o ano de lançamento do primeiro LP da banda sob este novo nome: Playground of the Past. Ao Amphi a banda traz na mala lowder than words (2018).



LORD OF THE LOST

A banda de dark rock alemã, Lord Of The Lost pisa palco em Köln para apresentar o seu mais recente disco de estúdio, Thornstar (2018). Com um vocalista extremamente versátil, que pode facilmente alcançar toda a gama que inclui entre vozes claras e sinceras aos grunhidos de emanação da morte, bastante agressivos, os Lord Of The Lost são um dos talentos musicais mais prolíficos da Alemanha. 
Na carreira contam com cerca de 12 anos de experiência divididos entre uma discografia que integra um total de seis discos longa-duração e que no Amphi promete dissuadir os ouvidos dos espectadores numa mistura que engloba o industrial metal de traços góticos.



MASSIVE EGO 

Em Church For the Malfunctioned, o terceiro e novo disco da carreira dos Massive Ego - o grupo de culto britânico que fascina com os emocionantes batidas da electro-pop - podemos ouvir ritmos energéticos que conjugam o lado negro da música eletrónica com influências que vão desde a darkwave à EBM e ao industrial. 
A banda formada em 1996 e atualmente composta por Marc Massive (voz) Oliver Frost (percussão) e Scot Collins (teclados e programação) apresenta no Amphi a sua discografia que inclui três discos, de onde podemos encontrar hits como "Low Life", "I Idolize You" e "Dead Silence Rising".



NITZER EBB 

Os ingleses Nitzer Ebb haveriam de ficar conhecidos como um dos expoentes máximos da EBM - uma corrente musical a juntar o punk, a música industrial, o techno e house no mesmo tacho, com o intuito de criar uma mescla hardcore de música para as pistas de dança mais soturnas. Ligados à prestigiada Mute logo em 1987 (quatro anos após a formação original), os Nitzer Ebb lançaram trabalhos de sucesso como Belief (1989) e Showtime (1990) ou ainda Ebbhead (1991), hoje avaliados como verdadeiros marcos históricos. Depois de uma pausa em meados dos anos 90, o grupo regressou aos palcos e chega agora ao Amphi para apresentar In Order (2010) e o EP Join in the Rhythm of Machines (2011).


PINK TURNS BLUE 

Os Pink Turns Blue, a influente e conceituada banda darkwave formada na Alemanha, em 1985, apresenta-se na cidade natal com um impressionante currículo na carreira que é composto por cerca de duas dezenas de álbuns, de onde se retiram inúmeros temas clássicos como "Walking On Both Sides", "Your Master Is Calling", "If Two Worlds Kiss", "Walk Away", "Michelle", "Moon", entre outros tantos que se deverão fazer ouvir bem alto no Amphi. O último disco editado pela banda recebe o nome de The AERDT – Untold Stories (2016) e certamente se fará ecoar ao vivo carregado com as atmosferas decadentes que tão bem caracterizam a banda.



SAMSAS TRAUM 

Os Samsas Traum são mais uma das bandas históricas a contemplar o cartaz da 15ª edição do Amphi Festival. Formados em 1996 por Alexander Kaschte, a dupla alemã apresenta como conceito artístico uma mistura musical que inclui elementos do symphonic metal, neue deutsche härte, black metal e cantastoria
Desde a formação até à data, a banda, cujo nome foi influenciado pelo iconográfico livro "A Metamorfose" de Franz Kafka, já lançou um total de 14 discos de estúdio. A Köln a banda traz Poesie: Friedrichs Geschichte (2015, Trisol / DoCD).



SEELENNACHT 

A música de Seelennacht - o projeto a solo de Marc Ziegler - conduz-nos a uma jornada visionária com foco nas profundezas da consciência. Combinando a música eletrónica com um toque de romance sombrio, que fascina em associação com os vocais distintos do primeiro segundo, Marc Ziegler inclui no seu trabalho uma imensidão de elementos. Melodias cativantes, letras profundas cantadas ora em inglês ou em alemão, ritmos dançantes e aspirações artísticas promovem esta performance como uma experiência sonora do tipo notável. Synthpop e Steampunk apresentados em singles que refletem diversas temáticas entrançadas entre o existencialismo humano.



SOLITARY EXPERIMENTS

Os Solitary Experiments são mais uma das bandas que fazem parte do catálogo da editora Out Of Line. Descrevendo as suas músicas como "sólidas, cativantes, de alta qualidade e com atitude", a banda alemã prepara o público do Amphi para um concerto que reflete uma carreira baseada em géneros que contemplam desde os 80's, à new wave, new beat, EBM, darkwave, e claro, ao mundo gótico. 
Formados em 1994 por Michael Thielemann, Dennis Schober e Dana Apitz e, com 25 aos de carreira, os Solitary Experiments apresentar-se-ão no Amphi em formato quarteto e com Future Tense (2018) como personagem principal.



THE CASSANDRA COMPLEX 


O histórico grupo de música industrial e rock eletrónico formado por Rodney Orpheus e Paul Dillon em Leeds, na Inglaterra em 1980 - The Cassandra Complex - pisa o palco do Amphi no primeiro dia de festival. Ao longo dos anos, o som da banda incluiu elementos da EBM, industrial, gótico, new wave e synthpop, tendo o som da banda sido descrito como uma mistura entre Joy Division, The Ramones e KraftwerkDesde o ano 2000, com a edição de Wetware, que a banda não lança qualquer disco inédito de estúdio. Assim, esperam-se ouvir em Köln os grandes hits de uma aclamada carreira musical e que incluem "She Loves Me", "Moscow, Idaho", "Prairie Bitch" e/ou "One Millionth Happy Customer".



UNZUCHT


No mais recente álbum de carreira Akephalos (Out Of Line, 2018), em homenagem a um demónio sem cabeça, da antiga mitologia grega, os Unzucht criaram uma fusão efetiva entre o dark-rock, as sonoridades independentes e os ataques modernos do metal. 
O grupo, formado em Hannover no ano 2009, conta na carreira com um total de cinco discos longa-duração e três EP's que deverão ser revisitados no concerto agendado para o Amphi, no dia de inauguração do festival.



A edição de 2019 do Amphi Festival decorre nos dias 20 e 21 de julho em Tanzbrunnen, Köln, na Alemanha. Os passes para os dois dias têm um preço de 87€ e os bilhetes individuais têm um preço de 62€, podendo ser adquiridos aqui. Todas as informações adicionais relativas ao festival podem ser encontradas aqui.




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quinta-feira, 6 de junho de 2019

Reportagem: The Mystery of the Bulgarian Voices With Lisa Gerrard [Aula Magna, Lisboa]


As vozes búlgaras e os seus insondáveis mistérios foram reveladas ao mundo ocidental pelo etnomusicólogo suíço Marcel Cellier, numa das suas incursões pela Europa de Leste, munido com seu gravador Telefunken de 35kg, Cellier captou o coro no seu habitat natural e lançou um LP pela sua editora (Disques Cellier) em 1975, álbum esse que nunca saiu do circuito restrito da world music da altura. 

Mas o resto da história ao redor do álbum ainda estava por escrever, em meados dos anos 80, Peter Murphy estava a gravar o seu primeiro disco solo para a 4AD e na companhia de Ivo Watts-Russell (o mastermind da editora) escutavam no fim das sessões uma cassete que tinha sido oferecida a Murphy e que continha gravações mágicas de vozes, mas cuja origem não estava identificada. Depois de alguma pesquisa, Ivo Watts conseguiu identificar o álbum e prontamente iniciou contactos com Cellier para licenciar o álbum. Estava assim aberta a porta para um reconhecimento global do seu valor. O disco vendeu cerca de 100.000 cópias e chegou a um vasto público, que apesar de estar ligado às novas tendências que a 4AD irradiava, logo se rendeu ao encanto de sereia daquelas vozes. 

Regressando à 4AD, a descoberta das vozes búlgaras e seus mistérios acabaria por se tornar umas das grandes fontes de inspiração das cantoras que eram o expoente máximo da editora, Elizabeth Frazer (Cocteau Twins) e Lisa Gerrard (Dead Can Dance). Ao longo dos anos Lisa Gerrard foi demonstrado a sua admiração pelo coro búlgaro até que, finalmente, os seus caminhos se uniram dando origem ao álbum Boocheemish (2018) que seria esta noite apresentado em Lisboa. 



Esta seria a minha terceira presença num dos concertos das Vozes Búlgaras, a primeira havia sido em 2004 em Palmela e a segunda há 2 anos em Utrech no Festival Le Guess Who (onde atuaram numa belíssima igreja no centro de cidade). Desta vez a expectativa era diferente, pois além do repertório incidir sobre o novo álbum que ainda não havia ouvido (haveria alguma pérola do calibre de "Pritouritze Planinata"?), a noite trazia a presença de Lisa Gerrard que havia participado no álbum. 

Entrámos na Aula Magna e ainda ecoavam pela sala as vozes de Lisa Gerrard e Brendan Perry, como estilhaços do memorável concerto dado pelos Dead Can Dance no passado 23 de maio. Os primeiros a entrar no palco foram um grupo de 4 músicos e um beatboxer, percussão, cordas e sopros foram o ponto de partida para a viagem que se seguiria. Após alguns temas instrumentais entrava no palco o coro búlgaro liderado por Dora Hristova, presença discreta mas fundamental na fluidez com que as vozes nos oferecem as suas lendas folclóricas. Intercalando as solistas, o mistério de vozes búlgaras revelou músicas do seu novo álbum em que se descortinaram algumas investidas mais rítmicas do que é habitual, adornadas pelo quarteto de músicos e pelo beatboxer búlgaro, Alexander Deyanov, mais conhecido como SkilleR, que viria a protagonizar um dos momentos altos da noite com um solo de beatbox que impressionou todos os presentes pela multiplicidade do timbre e a capacidade rítmica desconcertante. 



Era chegado o momento alto da noite, Lisa Gerrard com seu visual imponente, juntava-se ao coro búlgaro para interpretar as músicas do álbum em que participa e após um início algo desequilibrado em termos dos volumes das vozes, somos transportados para uma dimensão onírica difícil de explicar por palavras. O universo das vozes búlgaras estava lá, mas adornado pela mística da voz de Lisa Gerrard, por vezes transportando-nos mesmo para a vertente mais oriental das músicas dos DCD, foram cerca de 6 músicas que culminaram no momento avassalador em que interpretaram "Mani Yanni ", se anteriormente havia referido se haveria alguma pérola à altura de "Pritouritze Planinata" (a minha música favorita das Vozes Búlgaras), a resposta positiva estava dada e foi recebida com uma longa ovação em pé por todos os presentes. No fim, ainda tive a sorte de ter alguns dos meus álbuns dos DCD assinados pela Lisa Gerrard, o final perfeito para uma noite a recordar.




Reportagem: João Branco Kyron
Fotografias: Virgílio Santos

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A estreia dos indignu no Theatro Circo acontece no próximo dia 21 de junho


Os barcelenses indignu [lat.] vão estrear-se no Pequeno Auditório do Theatro Circo, em Braga, no próximo dia 21 de junho. Tão importante quanto esse facto, é o de ser o 15º aniversário da banda, e celebrarem um ano do lançamento do seu último registo de originais Umbra.

Umbra, é inspirado nos trágicos eventos que ocorreram em junho e outubro de 2017: dois incêndios devastadores que consumiram não apenas a nossa floresta como também vidas humanas e, que deixaram o país e o mundo, num estado de profunda consternação, dor e impotência. Umbra, é um disco negro, penoso, assombrado que descreve a penumbra em que vive um homem imerso no caos obscuro, no Apocalipse. Rosto tapado, engolido por uma cortina de fumo e fogo, inspirando guitarras em fúria e orquestrações dilacerantes. Um disco em memória de todas as almas que ficaram na penumbra de uma tragédia incendiária. Da tristeza, da dor, da saudade. indignu [lat.] usa poucas palavras, mas em Umbra faz recurso ao verbo, e foi também, violentamente atrás dele, na voz de duas referências maiores da música portuguesa contemporânea: Manel Cruz e Ana Deus

Os bilhetes para este concerto tão especial já se encontram à venda aqui.

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quarta-feira, 5 de junho de 2019

Lost System - "State Of Reality" (single) [Threshold Premiere]


It was in 2016, the year that Lost System showed us their new fresh blend of the post-punk wave with their debut EP No Meaning No Culture. Their songs - composed of energetic, dynamic and dark rhythms - were lyrically inspired by the many frustrations of life and made Lost System position themselves as a really promising band within the underground scene. In that year that record spun a lot on our side.

Three years have passed since then and Lost System's sonority grew in a mature formula with a focus on songwriting that is now going to be expressed in their first ever long-player, Left Behind. Left Behind brings us a total of eight songs: two of them already known - "No Regrets" and "Discipline" - and the other six totally new. Today, in an exclusive premiere, we bring you the first advance of the album, "State Of Reality", which can be streamed below. 

With a wide variety of influences including post-punk, 80's goth and new wave in "State of Reality", Lost System invites us to dance between their unbreakable rhythms, sparkling synthesizers, and a deep and sorrowful voice that echoes their state of reality. You can now listen to it below. 


Left Behind is set to release on the 14th of June via Neck Chop Records and it will be available in the vinyl format. 

Left Behind Tracklist:

Side A 

1. Era Of Choice 
2. No Regrets 
3. State of Reality 
4. Condition
5. Over Myself

Sibe B 

1. You Won’t Find Me Now 
2. Discipline 
3. Left Behind

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terça-feira, 4 de junho de 2019

Nova Normalidade: Esta é a nova cara do NOS Primavera Sound



A paridade é o novo normal do NOS Primavera SoundDe 6 a 8 de junho, cerca de 70 artistas irão passar pelo Parque da Cidade do Porto para a oitava edição do festival em Portugal, que este ano se destaca pelo forte equilíbrio entre géneros no cartaz. Mais ainda, a nova cara do festival apresenta-se mais eclética e refrescante que nunca, com um olhar virado para o presente e para o futuro, mas sem nunca esquecer o passado. A música independente como matriz basilar do festival tem vindo a verificar uma progressiva derivação para a música urbana, verificando-se uma maior aposta em estilos como o hip hop, o R&B ou o reggaeton, mas também a música electrónica. 

Os nomes cimeiros desta edição são os primeiros a contemplar esta evolução: Solange e Erykah Badu trazem o luxo da nova soul americana, enquanto J Balvin e Rosalía assumem as suas posições como nomes maiores de uma aparente descentralização do ingles como língua padrão. James Blake, Interpol e Stereolab, que regressam aos palcos após um hiatus de dez anos, completam as primeiras filas do cartaz. Há ainda o novo jazz britânico de Nubya Garcia e Sons of Kemet (do genial Shabaka Hutchings), os novos mundos de Yves Tumor, Sophie ou Let’s Eat Grandma, o segredo bem guardado de Tirzah e o estilo idiossincrático de Tommy Cash

As rimas e as batidas estão asseguradas com o flow fulminante de JPEGMAFIA, as visões psicotrópicas de Danny Brown e as novas e velhas histórias do veterano Allen Halloween

A electrónica também não podia faltar. Entre o palco e a pista, a festa faz-se com as escolhas de Nina Kraviz, Jasss, Yaeji, Peggy Gou ou Helena HauffJá o cancioneiro independente, continua presente, e bem: Hop Along, Big Thief, Snail Mail, Lucy Dacus e Tomberlin representam uma nova vaga indie cantada por mulheres, enquanto  a australiana Courtney Barnett (que atuou pela primeira vez em Portugal neste festival) e a neo-zelandeza Aldous Harding nos contam as suas aventuras do outro lado do globo. 

O passado, esse, também não é esquecido: Guided By Voices e Liz Phair dão as suas primeiras atuações em Portugal, Built to Spill comemoram 20 anos do acarinhado disco Keep It Like a Secret, Low apresentam uma renovada e imperativa faceta e Neneh Cherry mostra-nos a sua nova aventura política, não esquecendo, claro, a presença assídua dos muito acarinhados Shellac. Por último, mas não menos importante, o contingente nacional, que este ano se faz composto por Profjam, Violet ou Lena D’Água e Primeira Dama.

Em baixo, deixámo-vos com um pequeno roteiro dos artistas que considerámos essenciais nesta edição do festival.

Solange

Solange viveu muitos anos enquanto a irmã de Beyoncé. Mesmo em 2016, quando foi editado o primeiro álbum de longa duração a solo em 8 anos, A Seat at the Table, Solange continuou a dever parte da sua popularidade à sua herança fraternal, algo que na altura era compreensível: Beyoncé ainda vinha embalada por um Lemonade que muito em muito contou para deixar que a super-estrela americana entrasse nos corações da comunidade mais alternativa. Contudo, já não é 2016 e os ânimos que A Seat at the Table conjurou foram bem complementados por When I Get Home, o último álbum de Solange editado março. Nele temos o soul e R&B que sempre caracterizaram a cantora, mas vemos também o psicadelismo e a art pop a reclamarem um lugar bem merecido à mesa, bem como um número e teor admirável de colaborações com músicos tão diversos como Metro Boomin ou Panda Bear. Ela já não é "a irmã de Beyoncé" - Solange está em forma e sente-se em casa com When I Get Home.



JPEGMAFIA

Peggy, Devon Hendryx ou JPEGMAFIA são alguns dos nomes pelo qual é conhecido Barrington Devaughn Hendricks, veterano da Guerra do Iraque que sobreviveu para nos cantar as muitas inquietações que intrigam esta mente de apenas 29 anos. Veteran, o segundo e aclamado segundo disco de Hendricks, juntou-o ao catálogo da editora norte-americana Deathbomb Arc, casa-mãe para atos como Death Grips, Clipping ou SB The Moor. Aqui, o rapper que é também jornalista doutorado atira-se com garra e afinco à rima mais hostil e politizada, apresentando um flow e delivery invejáveis com gravilha na voz. Johny Rotten, Morrissey, Donald Trump, ninguém escapa à crítica acutilante de Peggy, que reclama cada vez mais a sua posição como novo embaixador da música hip hop com carimbo industrial (ou não fossem os Throbbing Gristle uma das suas maiores referências). Peggy é um provocador, Peggy é violento, Peggy é um sentimental. Peggy é isto e muito mais, e a aguardada estreia no próximo dia 7 marcará, com certeza, um dos momentos mais suados e memoráveis da agenda musical de 2019. O punk também vive aqui.



Rosalía

Quando Rosalía subir ao palco maior do NOS Primavera Sound, já não serão precisas grandes apresentações. No espaço de 3 anos, a carreira da cantora catalã catapultou de um modo exponencial, muito devido ao lançamento do segundo e sensacional disco de originais, El Mal Querer.  Co-produzido pelo músico e produtor espanhol El Guincho, El Mal Querer assume-se como um marco definitivo na ainda curta carreira de Rosalía, mudando em muito o rosto da música flamenca. A visão audaz e apaixonada da catalã é dotada de uma enorme porosidade, conjugando o melhor da música urbana com as tradições do género andaluz, que desconstrói num organismo eclético e fascinante. Inspirado na novela anónima do século XIV, Flamenca, o disco retrata a história de uma mulher aprisionada pelo marido, que gradualmente se liberta da sua condição. É uma representação vívida da opressão feminina, mas também do seu empoderamento. As coreografias, os telediscos e o jogo inteligente com a cultura popular fizeram de Rosalía um objeto viral e irresistível. Agora, a 8 de junho, cedemos novamente aos encantos da jovem que nos fará gritar “tra tra” em uníssono. 



Danny Brown

Com uma mente irrequieta e uma personalidade singular, Danny Brown rapidamente se tornou numa autoridade criativa a ter em conta no panorama mainstream do hip-hop moderno. O seu ar esgazeado e até mesmo vagamente tresloucado esconde um génio em termos de delivery determinado, mas folião, e wordplay que pode ser, por vezes, vulgar, mas acaba por ser sempre engenhoso, além de contar com alguma da melhor produção de beats para rematar a cena dele. Durante esta última década, a jornada do rapper de Detroit tem ganho reconhecimento gradual no panorama musical, sendo que começou a ganhar notoriedade com o álbum XXX, um grande desfile de vários highlights da sua irreverência que só tem evoluído de forma orgânica ao longo da carreira, dando azo a mais experiências leftfield que refletem perfeitamente a atitude abrasiva natural de Danny Brown. O seu génio foi eventualmente aceite de forma unânime com o álbum de 2016, Atrocity Exhibition, em que o rapper demonstra a sua disposição alarve que casa de forma brilhante com sonoridades industriais mais sombrias. Em vésperas de lançar novo álbum (uknowhatimsayin está previsto para este ano), este será certamente um dos concertos a não perder no NOS Primavera Sound.



Sophie  

Sophie já não é mais o vulto misterioso que intrigava as pistas de dança britânicas. Depois de desafiar as leis do maximalismo com um apanhado de composições pop elásticas e mutantes, que compilou cuidadosamente no maravilhoso PRODUCT, e de se juntar à estrela pop inglesa Charlie XCX para a produção de um muito singular EP colaborativo em 2016, a produtora escocesa revelou, finalmente, a sua verdadeira faceta. O momento deu-se com “It’s Okay to Cry”, single de avanço daquele que seria a sua estreia nos longa-duração, OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES, de 2018. Mas este não se tratou de um simples single de avanço. Sophie revelou o seu rosto pela primeira vez, a fisionomia ossuda e frágil a demonstrar um momento tão vulnerável quanto poderoso. As suas músicas, autênticos hinos rejuvenescedores, gritados em vozes artificiais e deformadas, representam uma nova geração de músicos e artistas trans e queer que exploram a identidade, o género e a sexualidade de forma subversiva e não binária. A conquista de Sophie nos circuitos mais mainstream também já deu os primeiros passos: , Madonna ou Vince Staples não resistiram aos encantos da escocesa, que se regressa a Portugal dia 7 de junho.



Tommy Cash

Tomas Tammemets é Tommy Cash, rapper, artista e bon vivant estónio de apenas 28 anos. A dança é a sua maior paixão, mas é como músico que a carreira de Tommy acabaria por vingar, com a lírica polémica e altamente contagiante de “Pussy Money Weed” a catapultá-lo para os corações da comunidade mais alternativa. Euroz Dollaz Yeniz, o álbum de estreia de 2014, introduziu a abordagem idiossincrática do estónio às rimas e batidas. Agora, com o lançamento do segundo e mais recente longa-duração, a visão de Tommy tornou-se ainda mais abrangente e eclética. ¥€$ juntou-o a uma armada estelar de músicos e produtores: do caos apocalíptico dos finlandeses Amnesia Scanner à euforia digital de Danny L. Harle ou A.G. Cook, passando pelas contribuições de Charli XCX, Caroline Polachek ou o estilista americano Rick Owens nas vozes, ¥€$ chegou de rompante para marcar de forma indelével o calendário musical de 2018. Nele encontrámos o universo hedonista de um jovem que vive pelas suas próprias regras, num misto camaleónico que tem tanto de Bowie como de Die Antwoord. 

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