sábado, 6 de julho de 2019

Fotogaleria: Molly Burch [Pérola Negra, Porto]


Depois de ter passado por Portugal em 2017, eis que finalmente Molly Burch nos visitou novamente na semana passada. Foi no Pérola Negra que tivemos oportunidade de ver a compositora norte-americana e a sua banda ao vivo. Após um considerável atraso que provavelmente se deveu ao facto que a afluência à sala era enorme (e que talvez por isso a Gig Club quisesse "aguentar" um pouco mais de forma a dar a todos a hipótese de verem o concerto na integra) eis que Molly Burch e a sua banda finalmente pisam o palco do Pérola Negra. O concerto durou sensivelmente uma hora e meia, durante a qual houve tempo para re-visitar temas do Please Be Mine — o seu álbum de estreia de 2017 — assim como músicas de First Flowers (o seu segundo LP, editado no ano transacto) e do fresquíssimo Ballads, um EP lançado este ano via Captured Tracks.

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sexta-feira, 5 de julho de 2019

GOLD apresentam novo álbum em Portugal em setembro


Dois anos após terem apresentado Optimist (2017) no extinto Cave 45, no Porto (e ainda no Under The Doom, em Lisboa), a banda holandesa GOLD está de regresso ao país este ano para uma data única agendada para 26 de setembro, também no Porto, desta vez  a tomar lugar no Maus Hábitos. Na bagagem a banda traz o seu mais recente e quarto álbum de estúdio Why Aren't you Laughing? (2019, Artoffact Records) e um concerto que promete muito barulho.

Numa sonoridade situada entre o experimentalismo de nomes como Godspeed You! Black Emperor ou a beleza sombria e doce de Kristin Hersh, é numa tonalidade post-metal altamente característica que os GOLD apresentam em Why Aren't You Laughing uma vibe deliciosa e verdadeiramente característica. Experienciar a apresentação destas novas músicas ao vivo, com a brutalidade e o rigor profissional que os GOLD encargam é um cenário terapêutico, no qual devem fortemente ponderar o vosso ingresso.


As datas completas da tour Would It Kill You To Smile? podem ser consultadas abaixo. Ainda não são conhecidas as informações relativas ao preço dos bilhetes.


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Chinaskee compra nova "Mobília" para a sua banda


Miguel Gomes é Chinaskee. Mas isso já todos o que ouviram música nacional nos últimos 2 anos deveriam saber. Antes fazia acompanhar-se pelos Camponeses, tendo editado o álbum Malmequeres e os EPs Campo e Metro e Meio. Agora, apresenta-se só como Chinaskee (voz, guitarra e beat) e a sua banda tem uma nova formação - Bernardo Ramos na guitarra, Ricardo Oliveira na bateria, João Figueiras no baixo e Primeira Dama nas teclas e coros.

"Mobília" mostra-nos Chinaskee a abraçar uma electrónica interessante na sua sonoridade, algo notório logo nos primeiros segundos da música. A baixa fidelidade dos trabalhos anteriores dá lugar a uma produção exímia e expansiva, da responsabilidade do próprio e Filipe Sambado. A matriz psicadélica de Chinaskee, essa, continua lá bem presente no núcleo. "Mobília" é o primeiro avanço e single de Bochechas, LP que será editado com o selo da Revolve, e foi gravado no Estúdio da Maternidade na Interpress e masterizada por Steve Berson no Total Sonic Media Studios nos Estados Unidos da América.



Quanto aos próximas concertos, Chinaskee tem duas atuaçõesa agendadas para 24 de Agosto:

24 de Agosto (solo, à tarde) @ Vai-m’à Banda, Guimarães
24 de Agosto (banda, à noite) @ ZigurFest, Lamego

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quinta-feira, 4 de julho de 2019

Thurston Moore, Montanhas Azuis e The Heliocentrics no 27º Curtas Vila do Conde


O Festival Curtas está de regresso a Vila do Conde entre os dias 6 e 14 de Julho para a sua 27ª edição e volta a ter uma secção dedicada a filmes-concerto, onde se anunciaram, este ano, a presença de Thurston Moore, Montanhas Azuis, The Heliocentrics e Tiago Cutileiro & Marta Navarro

Thurston Moore vai apresentar-se a solo e vai musicar uma selecção de curtas de Maya Deren, uma das mais icónicas cineastas do cinema de vanguarda americano e uma das primeiras mulheres a construir uma carreira na realização. Witch Cradle, At Land, Ritual in Transfigured Time e Meshes of the Afternoon são os filmes que integrarão este filme-concerto. 

Por sua vez os The Heliocentrics vão musicar ao vivo Heaven and Magic, um dos mais significativos registos de Harry Smith. Cineasta de vanguarda, Smith coleccionou, ao longo de décadas, milhares de gravuras de revistas vitorianas para, com elas, criar algumas das mais criativas animações que o cinema americano conhece. Tapeçarias a lembrarem as colagens de Max Ernst, onde espaços em transformação, compostos por antiguidades, artefactos e criaturas servem de pano de fundo para as histórias de heróis e heroínas delirantes. 

Montanhas Azuis, trio formado por Bruno Pernadas, Marco Franco e Norberto Lobo, vêm apresentar Ilha de Plástico, disco editado em Janeiro deste ano, onde experimentam em torno de instrumentos analógicos, guitarras e sintetizadores. Ao vivo (nas raras apresentações que fazem) trilham o perene, ora acompanhados ora guiados pelas imagens de Pedro Maia, qual aventura excursionista entre a música e a imagem. 

A sessão de abertura do 27º Curtas ficará a cargo da violoncelista Marta Navarro e o compositor e artista sonoro Tiago Cutileiro, que irão musicar Cabinett Des Dr. Caligari, de Robert Wiene, uma das referências maiores do movimento expressionista alemão no cinema. Uma encomenda original do Curtas à dupla, que pretende construir um ambiente  sonoro para a história muda de um hipnotista que comete homicídios durante crises de sonambulismo. Este filme, cuja rodagem se iniciou no Outono de 1919, há quase 100 anos, dá o mote à exposição O Caso Caligari, que inaugura no dia de abertura do Festival na Solar – Galeria de Arte Cinemática. 

A par disso o festival integra um concurso paralelo dedicado a vídeos musicais com linguagem particularmente próxima do cinema que mostrará, por exemplo, as colaborações entre Leonor Teles e Sensible Soccers, Pedro Maia e Vessel, HHY & The Macumbas e Diogo Tudela, entre outros. O Curtas vai contar também com concertos dos Mão Morta, onde vão celebrar os 25º aniversário do mítico álbum Mutantes S.21 a 6 de julho, dos Sereias a 9 de julho e Rainer Kohlberger - Brainbows a 10 de julho.


Os bilhetes para estes espetáculos custam entre 7 e 16 euros e encontram-se à venda no Teatro Municipal de Vila do Conde e na rede da bilheteira online BOL. Todas as informações estão disponíveis em baixo.

PROGRAMAÇÃO STEREO

Tiago Cutileiro + Marta Navarro - Das Cabinett Des Dr. Caligari 
Data: Sábado, 6 de Julho, 17h30
Local: Teatro Municipal de Vila do Conde
Preço: €7 (pré-venda até 5 de Julho) / €8 (a partir de 6 de Julho) 

Thurston Moore com filmes de Maya Deren
Data: Quarta, 10 de Julho, 21h00
Local: Teatro Municipal de Vila do Conde
Preço: €14 (pré-venda até 5 de Julho) / €16 (a partir de 6 de Julho) 

The Heliocentrics – Heaven and Earth Magic
Data: Sexta, 12 de Julho, 23h45
Local: Teatro Municipal de Vila do Conde
Preço: €8 (pré-venda até 5 de Julho) / €10 (a partir de 6 de Julho) 

Montanhas Azuis
Data: Sábado, 13 de Julho, 23h45
Local: Teatro Municipal de Vila do Conde
Preço: €8 (pré-venda até 5 de Julho) / €10 (a partir de 6 de Julho) 

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Red Bull Music leva Aïsha Devi e Plaid ao Teatro Sá de Miranda



Red Bull Music está de regresso ao Teatro Sá de Miranda, em Viana do Castelo, para mais uma sessão inserida no festival Neopop. A premissa de levar o techno para além das muralhas onde decorre o festival mantém-se, com duas noites marcadas para os dias 9 e 10 de agosto.

Este ano, o programa conta a presença do aclamado duo britânico Plaid, figuras de proa da essencial Warp Records por onde editaram o mais recente disco Polymer. O projeto de Ed Handley e Andy Turner junta-se à Felix’s Machines, uma estrutura sonora idealizada pelo escultor e artista sonoro Felix Thorn, no dia 10 de agosto, dia em qua atuará também a música e produtora suíça Aïsha Devi (na foto), cabecilha da Danse Noire que se fará acompanhada por Emile Barret para um espetáculo audiovisual com manipulação de vídeo em tempo real. DNA Feelings é o mais recente longa-duração da produtora, um documento vital para o maximalismo digital e um dos mais admiráveis discos de 2018, que ganhará novas repercussões com o lançamento de S.L.F, dia 5 de julho via Houndstooth

Antes, a 9 de agosto, o estúdio Nonotak apresenta Shiro, dupla formada pelo ilustrador francês Noemi Schipfer e pelo arquiteto e músico japonês Takami Nakamoto. A noite abre com a estreia de SURTO, manifesto sonoro que junta Switchdance e Carlos Maria Trindade, nos sintetizadores, sequenciadores analógicos e piano, e o realizador João Botelho na manipulação de vídeo ao vivo. A desconstrução do espetáculo será também levada a cabo pela performance de Marta Viana.

O acesso aos concertos é gratuito para todos os portadores de bilhetes diários e passes do Neopop, limitado à lotação da sala. 



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Suzanne Ciani, Felicia Atkinson e Oren Ambarchi encerram o cartaz do Semibreve



O cartaz do festival Semibreve encontra-se oficialmente encerrado. Suzanne CianiMorton Subotnick + LillevanOren Ambarchi & Robert Aiki Aubrey Lowe, Kode 9, Felicia Atkinson, Drew McDowall + Florence To e Clothilde completam o programa da nona edição do festival dedicado ao melhor da música eletrónica e adiovisual, que regressa de 25 a 27 de outubro ao centro de Braga.

Suzanne Ciani, uma das mais bem-sucedidas compositoras de música eletrónica das últimas quatro décadas, é um dos grandes destaques da segunda e última vaga de confirmações. O currículo da americana conta cinco nomeações para os Grammy, 6 discos e atuações por todo o mundo. Concebeu ainda a identidade sonora da Coca-Cola e da consola de videojogos Atari. Em Braga apresentará o seu mais recente espetáculo para sintetizador buchla, Live Quadraphonic.

Morton Subotnick lançou o essencial álbum Silver Apples of the Moon, a primeiro peça electrónica a receber o selo de uma grande editora, a Nonesuch, que encomendou o disco de 1967. Fundador do histórico California Institute of the Arts, onde colaborou com Terry Riley e Pauline Oliveros, o compositor atuará juntamente com o artista vídeo alemão Lillevan.


Oren Ambarchi e Robert Aiki Aubrey Lowe, dois dos mais brilhantes músicos a operar na esfera da música eletrónica exploratória atualmente, apresentarão a sua estreia como duo no festival bracarense. Quem também passará pelo festival será Drew Mcdowell, ex-membro dos saudosos Coil com quem editou o magnífico Time Machine, peça essencial da música drone e industrial que deverá  ser revisitada durante o espetáculo. O escocês Florence To encarrega-se da componente audiovisual.

Felicia Atkinson é artista visual, compositora, poeta e fundadora da editora belga Shelter Press, onde edita grande parte do seu trabalho. As suas composições delicadas são talhadas por improvisação, música concreta, silêncios, ruídos e narrativas spoken word que redefinem os conceitos da música ambiente. The Flower and the Vessel, disco com data marcada para julho, é o mote para a apresentação em Braga.


Steve Goodman, que é como quem diz Kode 9, é o músico e produtor responsável pela fundação da Hyperdub, uma das mais importantes editoras da música bass britânica. A estreia no Semibreve marca também o regresso à cidade minhota, onde atuou pela última vez em 2016. Clothilde, o projeto de Sofia Mestre, apresentará um espetáculo construído a partir da maquinaria e modulares do seu parceiro Zé Diogo, também conhecido como hobo & the birds. Twitcher é o mais recente álbum da música e compositora e recebeu edição pela Labareda em 2018. 

Alessandro Cortini, Scanner + Miguel C. Tavares, Avalon Emerson, Nik Void, Ipek Gorgun, Rian Treanor e Deaf Center, confirmados no primeiro anúncio, em fevereiro, completam o cartaz da nona edição do festival. Os bilhetes já se encontram disponíveis e podem ser adquirido aqui por 39€. 

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quarta-feira, 3 de julho de 2019

Tranz It e The Black Koi na 6ª edição do Sons na Aldeia

The Black Koi
No próximo dia 1 de agosto a Aldeia de Paio Pires volta a receber mais uma edição do Sons na Aldeia. O evento cunhado pela CoopA - Associação Aldeia Cooperativa de Artes apresenta nesta sexta edição mais duas bandas portuguesas, Tranz It e The Black Koi que tocarão no primeiro dia do mês de agosto num evento inserido nas Festas Populares da Aldeia de Paio Pires. 

TRANZ IT


Os Tranz It formam-se em 1984 na Aldeia de Paio Pires e começam por tocar em formato acústico em bares e festas no concelho do Seixal. Em 1986 tocam 3 dias seguidos na Festa do Avante já no formato eléctrico. Em 1987 participaram no 4.º Concurso de Música Moderna do Rock Rendez Vous, onde chegaram inclusive à final. Nas várias prestações ao vivo, partilham palcos com a Go Grall Blues Band, UHF, Xutos & Pontapés, Pop Dell’Arte e muitos outros nomes da chamada Música Moderna Portuguesa. Os Tranz It terminam a sua atividade em 1989, e os seus membros deram origem a diversos projetos musicais. Em 2019, a convite da CoopA aceitam voltar para um concerto "especial" integrado nas Festas Populares da Aldeia de Paio Pires, com uma formação composta por Paulo Bonaparte (voz e guitarra acústica) Edgar Alfama (bateria), Nuno Diogo Ribeiro (guitarra baixo), José João Loureiro e Joaquim Falcão (guitarras eléctricas).


The Black Koi


Sonoridades energéticas com pinceladas de rock, de metal e com uma dose bem medida de experimentalismo à mistura. The Black Koi, projecto de David Figueira (guitarra), Pedro França (bateria) e João Felix (baixo), surgiu na Aldeia de Paio Pires no início de 2017, sendo que o seu primeiro EP, homónimo, foi disponibilizado nas várias plataformas, em novembro desse mesmo ano. Contam já com várias prestações ao vivo, tendo inclusivamente já actuado numa das edições do Sons na Aldeia.


Os concertos de Tranz It e The Black Koi têm início agendado por volta das 21h30 e todas as informações adicionais podem ser consultadas aqui.


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A Metropolis Records lançou uma compilação para os amigos góticos


A Metropolis Records juntou numa compilação um conjunto de 24 nomes, oriundos de diversos países do mundo com a partilha de algo em comum: um gosto pela escuridão. Enquanto a maioria dessas bandas ganha alicerces em géneros como o post-punk, industrial, synthwave, goth e darkwave, o objetivo da compilação Dark Nouveau passou por reunir esses diferentes subgéneros numa colectânea a juntar desde os nomes mais conhecidos aos menos famosos nas pistas de dança que melhor definem as novas direções do lado underground da música obscura.

Formada em 1993 a Metropolis Records rapidamente se tornou numa das principais editoras da música de toada negra, sendo incrivelmente bem-sucedida tanto na reedição de clássicos perdidos quanto na promoção da música moderna. Dark Nouveau, a nova compilação do selo americano reúne um total de 24 temas onde se incluem malhas de nomes como She Past Away, Twin Tribes, Hante., Ash Code, Antipole, FTR, IAMTHESHADOW e muito mais. Este lançamento digital exclusivo é dedicado ao falecido vocalista, compositor, poeta, letrista, dramaturgo e visionário Scott Walker (1943-2019) e pode ouvir-se na íntegra abaixo.

Dark Nouveau foi editado no passado dia 21 de junho pelo selo Metropolis Records. Podem comprar a vossa cópia aqui.


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Cinco Discos, Cinco Críticas #47



Antes de partir para o segundo semestre de 2019 relembramos as edições que foram editadas nos primeiros seis meses do ano, entre as quais se incluem o disco de estreia das Otoboke Beaver - Itekoma Hits (Damnably, 2019); o segundo EP de estúdio de Sierra - Gone (Lazerdiscs Records, 2019); o disco de estreia dos aveirenses Troll's Troy - 18:05 (FLOP Records, 2019); o EP de estreia de Panther Modern - Los Angeles 2020 (self-released, 2019) e o também LP de estreia da dupla 100 Gecs - 1000 Gecs (Dog Show Records, 2019).

As opiniões aos referidos discos podem agora ser lidas abaixo, integradas na 47ª edição do Cinco Discos, Cinco Críticas.


Itekoma Hits | Damnably | abril de 2019 

8.3/10 

Otoboke Beaver é um quarteto de punk japonês com origem em Kyoto. Dez anos após a sua formação apresentam-nos o seu primeiro álbum de longa-duração, Itekoma Hits. O disco inclui, para além de novas músicas, temas dos últimos dois EPs, Love is Short e Bakuro Book, e novas gravações de faixas lançadas anteriormente. O culminar desta combinação é um álbum surpreendentemente coerente, composto por uma rajada de curtas doses de punk agressivo e divertido. Os temas não ultrapassam os três minutos de duração e quase não dão tempo para respirar, mas no fim fica a vontade de repetir a experiência. 
O baixo e a bateria são incansáveis e as guitarras trazem muitas vezes riffs viciantes a que nos podemos agarrar no meio do caos. As quatro vozes brilham quando respondem umas às outras ou complementam-se em partes cantadas em grupo, transmitindo muita personalidade e energia. Em alguns dos momentos mais caóticos perde-se a originalidade das composições, privilegiando-se a agressividade e rapidez, mas a banda mostra-se totalmente competente a tocar em ritmos mais acelerados. Há que destacar também a inclusão de secções imprevisíveis, que são lufadas de ar fresco no meio de canções como "Bad Luck" e "Anata Watashi Daita Ato Yome No Meshi". As transições entre diferentes abordagens são rápidas e fluídas, fazendo com que os momentos mais variados estejam integrados de forma homogénea. 
Entre as faixas a destacar estão "S'il Vous Plait", com as suas melodias instrumentais contagiantes que obrigam qualquer um a abanar a cabeça, e "Bakuro Book", cujo refrão é especialmente melódico e pop. Itekoma Hits são 27 minutos de punk barulhento e criativo que valem bem a pena. 
Rui Santos





Gone | Lazerdiscs Records | maio de 2019 

7.5/10 

Sierra, a produtora sediada em Paris, regressou este ano aos holofotes das paradas musicais com novo trabalho, o EP Gone que chega às prateleiras dois anos após a edição de Strange Valley EP (Lazerdiscs Records, 2017). Desde a estreia que Sierra nos tem vindo a mostrar que a synthwave, darkwave, eletrónica poderosa e com um toque francês lhe são bastante familiares, mas é com este Gone que esta se afirma mais longe. Através de um ritmo caleidoscópico, uma aura altamente abrasiva e um charme sensual Sierra apresenta em Gone um disco que vai muito mais além do que já tinha sido explorado em Strange Valley, abraçando mais concretamente géneros como a EBM, techno e darksynth
Sierra soube bem escolher o primeiro tema de avanço do disco, o homónimo "Gone" que, além de uma faixa facilmente aditiva e propícia a uma dança imediata é daqueles temas que dá uma vontade imediata de se fazer ouvir em loop. O disco prossegue com "Unbroken", um tema cujo início traz alguns alicerces dentro das paisagens da retrowave que rapidamente se desenvolvem entre ritmos do techno e camadas sintetizadas da synthwave. Segue-se "Leftover" (cujo início relembra a estética dos comparsas franceses Potochkine no tema "Jumeaux"), que avança para uma marcha de exploração experimental; a balada "A Matter Of Time" e, para finalizar, um tema que vai beber influências à minimal-wave, "She". 
Num disco com uma duração aproximada a 21 minutos Sierra oferece-nos uma viagem de aprendizagem e exploração aos vastos mundos da música eletrónica. Um disco que vale a pena explorar.
Sónia Felizardo





18:05 | FLOP Records | abril de 2019 

8.2/10 

O saxofonista Gabriel Neves, o guitarrista Jorge Loura e o baterista João Martins, o trio veterano com origem em Aveiro e que forma o conjunto Troll's Toy, lançou este ano o seu primeiro longa-duração de seu nome 18:05. A identidade sonora do grupo é descrita como se - e passa-se a citar - "Frank Zappa, Wayne Shorter, Richard Wagner e Egberto Gismonti se encontrassem num concerto de Tool e formassem uma banda"; ou seja, espera-se uma exibição de instrumentação jazzy com tendências experimentais e progressivas, nunca descurando os imensos desvarios virtuosos que se querem sempre de bom gosto. 
Quanto ao conceito do álbum em si, esse tende a explorar o sentimento de desordem e impotência pela qual uma pessoa pode passar durante um simples minuto - talvez um episódio aleatório de ansiedade, ou um acontecimento traumático - sendo que esse mesmo sentimento é transmitido pela banda por via de passagens em que o espírito de jam improvisada é rei e senhor, com trabalho rítmico esquizofrénico - ora mais ortodoxo, ora completamente caótico - e melodias que refletem ambientes que têm tanto de tenebroso como de atmosférico. No entanto, ao longo das nove faixas deste registo, não há como negar as conotações sonoras que se revelam de cariz elegante, e com uns motifs mais leftfield misturados aqui e ali para dar aquela textura mais peculiar. Há espaço para faixas mais tropicais como a "Khat", músicas mais eletrizantes como "Neurotransmissor", sons mais espaciais como "Derrota" ou "Azrail", tudo aglomerado numa só unidade de forma a dar corpo a uma experiência dinamicamente avolumada como a que 18:05 proporciona.
Ruben Leite





Los Angeles 2020 | self-released | maio de 2019

7.0/10 

O antigo vocalista e guitarrista dos agora extintos Sextile Brady Keehn – lançou-se este ano a solo sob o alter-ego Panther Modern, do qual emergiu em maio a primeira amostra desta introspeção a solo, Los Angeles 2020. Despindo-se de preconceitos e do post-punk revolucionário e de teor político que desenvolveu enquanto membro dos Sextile, Panther Modern é, de facto, uma pantera moderna dos sintetizadores e das caixas de ritmos. Se a eletrónica fica cada vez mais em voga Brady Keehn faz questão de o sublinhar, apostando em quatro malhas que se interligam entre si, mas que são criativamente distintas e bastante individuais em termos de personalidade (se o pudermos definir assim). 
Mas atenção que nem tudo é uma novidade, alguma da aura punk electro que já tínhamos sido convidados a ouvir no último EP que os Sextile editaram - 3 - volta aqui a ser consultada, mas num trabalho que a integra com o desenvolvimento monocórdico do techno, os beats da house music e alguns traços ligeiros da EBM. O disco, que abre com a quebra pistas de dança "Tasting Static", vai-se tornando mais orelhudo em temas como o incendiário "Take Me Of" e a industrial inspired "Creep" até chegar a "Body//reaction", tema que dá encerramento a esta estreia e que será talvez o mais propício a uma divergência de opiniões. 
Dono das pistas de dança ao invés dos clubes de punk Panther Modern pode vir a mostrar um futuro promissor. Los Angeles 2020 é um bom pontapé de avanço para um novo capítulo na carreira de Brady Keehn. A ver o que o futuro reserva.
Sónia Felizardo





1000 Gecs | Dog Show Records | maio de 2019

8.5/10

100 Gecs é o duo composto por Laura Les (aka Osno1) e Dylan Brady, produtor frequente de Night Lovell que remisturou o mais recente single da super estrela pop Charli XCX. A união entre os naturais de St. Louis é já de longa data e os primeiros trabalhos como duo começaram a circular em 2016, ano em que editaram o EP de estreia homónimo. O falatório a nível global chegaria este ano e de rompante, com um estonteante longa-duração a desafiar todas as leis possíveis do maximalismo. 
1000 gecs, assim se chama o disco, é detentor de um som grande, de produção berrante e vozes deformadas que nos cantam num tom vibrante e apoteótico. A abordagem bruta e caótica, por vezes desengonçada, com que se atiram aos 10 temas que compõem o disco pode aproximar-se, por vezes, às produções do coletivo britânico PC Music, com Sophie a remeter de imediato para os trabalhos dos americanos. No entanto, onde as músicas da escocesa se apresentam pristinas, as do duo aventuram-se por terrenos mais desalinhados. São orgulhosamente felizes com o erro, e é na incoerência que se encontra o verdadeiro encanto do disco, assim como a coragem e ousadia com que fundem estilos sem critério aparente. Há aqui guitarras, distorção, batidas arrítmicas, grindcore regurgitado, aventuras pelo ska, um rasgo imprevisível de brostep e baixos, muitos baixos. Pensem no Adoro Bolos e acrescentem-lhe mais dez estilos. 
1000 gecs é, talvez, a audição mais contagiante do presente ano, um disco peculiar produzido por um grupo que só sabe jogar pelas suas próprias regras e que só poderia existir numa época como esta.
Filipe Costa



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Reportagem: ZANIAS + BUZZ KULL [Stereogun, Leiria]


No passado domingo, 30 de junho, regressámos à Stereogun em Leiria para partilhar mais um caloroso momento inserido em novo episódio relâmpago do FadeInFestival 2019: a poderosa performance do australiano Buzz Kull e o hipnotizante concerto de Zanias. Se, por um lado, Marc Dwyer - o mentor do projeto Buzz Kull - trazia até à Stereogun o disco que o afirmou pela Europa como um dos nomes relevantes do novo cenário da darkwave e EBM, New Kind Of Cross (2018, Avant! Records), por outro, Alison Lewis regressava a Leiria para se estrear sob o moniker Zanias e apresentar o seu primeiro disco de carreira a solo, Into The All (2018, Candela Rising), além da vasta gama de experiência que adquiriu noutros projetos dos quais fez parte: Linea Aspera e Keluar. Neste cenário de antecipação, a Stereogun abriu extraordinariamente as portas a um domingo, para acolher um novo episódio do FadeInFestival 2019, numa casa bastante povoada. 

BUZZ KULL 


Buzz Kull abriu concerto por volta das 17h27 tendo começado por desinibir o público presente com "Tomorrow’s Ghost", tema retirado do seu disco de estreia Chroma (2017, Burning Rose Records). Sem contacto verbal com o público, nem pausas entre as notas que fazia ecoar através da sua "maquinaria sonora", Buzz Kull prosseguiu a performance para apresentar um novo tema, que se deverá a vir chamar algo como "Lost In The Club", a julgar pelo que ouvimos Marc evocar em sala. Com uma carreira que começou como um projeto de quarto até se ter refinado em algo maior, Buzz Kull apresentou em Leiria o resultado de cerca de 10 anos de exploração musical e o facto de que nem sempre nos podemos auxiliar nas máquinas, como o próprio admitiu após ter evidenciado alguns problemas técnicos no finalizar da malha nova. "(...) Let's see how it goes", disse Dwyer, enquanto fazia público ouvir as primeiras notas de "Existence", tema retirado de New Kind Of Cross (2018). 

Por volta dos 14 minutos de concerto Buzz Kull apresentou-nos uma nova versão do seu hit de carreira, "Dreams", carregado por uma toada de sintetizadores sinistros e bastante obscuros que rapidamente foram convidando o público a ficar mais entusiasmado e a cantar o refrão juntamente com Marc Dwyer. Ainda na apresentação de Chroma (2017) Buzz Kull fez escutar-se na pista de dança da Stereogun "Nausea", além de temas como "We Were Lovers" e "Into The Void". 


Num concerto que, retirando os problemas técnicos, soube ser bastante competente, em Leiria Buzz Kull apresentou-se com uma energia ainda mais brutal que aquela que já conhecíamos em estúdio. Trazendo na bagagem um novo disco que lida explicitamente com temas como o isolamento, introversão e às vezes raiva, a música que ouvimos na Stereogun foi frutiferamente pesada, mas altamente aditiva e terapêutica. Além dos já referidos temas de New Kind Of Cross na cidade do Lis ouvimos ainda o bastante aplaudido "Avoiding The Light", "Ode To Hate" - numa versão ao vivo com um poder incrível - e o tema da despedida do primeiro concerto da tarde, "New Kind Of Cross" que, antes de se fazer escutar, levou Marc Dwyer a dirigir as últimas palavras ao público "Thank you so much Leiria, this was wonderful (…) thank you guys". Foi maravilhoso sim, pena não termos ouvido "Time" ou "Bodies", mas como não havia Kill Shelter no cartaz não se pode ter tudo. Pode ser que venha numa próxima! 

Buzz Kull deu o adeus a Leiria por volta das 18h12. 


ZANIAS 


O relógio marcava as 18h24 quando Zanias fez soar na Stereogun o tema de abertura da sua performance - "Rise" - retirado do mais recente disco de estreia Into The All (2018). Numa nuvem de fumo e vento, luzes azuis e uma Alison Lewis situada entre os sintetizadores e a bateria digital, o público começou por ser convidado a entrar no mundo multidisciplinar que Zanias engloba neste disco de estreia sem, contudo, esquecer os temas que deram azo ao início de carreira, como foi o caso de "In Eternal Return", a segunda música que se fez ouvir em sala. Into the All - que teve recurso a gravações de campo na Malásia e Austrália, além da inclusão de instrumentos oriundos da Indonésia, Arménia e Suméria - mostra que Zanias é uma artista em constante evolução e progresso e Alison Lewis soube mostrá-lo em Leiria. O concerto foi-se moldando no tempo através da performance de temas como "Aletheia", "Exuvia" até chegar a uma fase mais techno-inspired onde as luzes, num strobe contido, iam fazendo o acompanhamento certeiro. 


Depois de ter marcado presença em Leiria, na edição de 2015 do Entremuralhas (na altura com o seu ex-projeto Keluar), Zanias estava ali de regresso naquela que era a sua estreia na Stereogun. Acompanhada ainda de dois microfones para criação de diferentes efeitos vocais em pontuais músicas durante a performance - que foi bastante modular - Zanias explorou desde os ritmos mais lentos e contemplativos às paisagens mais movimentadas e preenchidas em cores além dos níveis de cinza. Ainda em Leiria fomos recebidos com uma performance bastante emotiva de "Follow The Body", aquele hit de carreira retirado do EP To The Core (2016, Noiztank); "Division" - numa versão ao vivo com uma presença de voz bem mais poderosa - e, ainda, o bastante aditivo "Idoru". 


Já a chegar cada vez mais perto do fim, numa performance onde Zanias comunicou apenas de forma indireta com o público, as atmosferas negras e os sintetizadores sinistros tomaram posse do palco, para projetar o espetador a um ambiente de experimentações sonoras com influências orientais. Zanias manteve-se sempre muito ativa em palco durante toda a execução desta estreia em Leiria, aproveitando ainda os momentos em que não tocava para dançar, ou vir até mais junto ao público. Além das faixas já editadas, o concerto em Leiria garantiu ainda a oportunidade de ouvir alguns temas novos. Alison Lewis deu por terminada a sua performance por volta das 19h24, hora em que abandonou o palco, deixando as atenções restantes para a música de fundo. 


Num evento que rendeu a Portugal duas estreias muito aguardadas, a Fade In voltou a mostrar o seu rigor e profissionalismo, garantindo uma matiné de domingo muito bem passada. Em ambiente familiar - como sempre temos sido recebidos - o último episódio do FadeInFestival 2019 voltou a conceber dois espetáculos que, mais uma vez, deixaram o coração cheio àqueles que marcaram presença em Leiria. Agora é esperar pelo próximo!


Texto: Sónia Felizardo
Fotografias: Virgílio Santos

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