sábado, 19 de outubro de 2019

Color Sound Frames regressa a Serralves com Demdike Stare, Jerusalem In My Heart, entre outros



O programa Color Sound Frames, agendado para os dias 16 e 17 de Novembro em Serralves, no Porto, pretende expandir a relação entre imagem em movimento e som, explorando as suas potencialidades através da música, da performance e da instalação. Mantendo-se fiel a um caráter eminentemente exploratório, o Color Sound Frames dedica-se à divulgação de projetos nacionais e internacionais que seguem nesta linha de criação, com especial protagonismo para encontros entre o analógico e o digital e sua realização ao vivo, tanto do som como da imagem.

Este ano, o grande destaque desta edição vai para a performance conjunta do duo britânico de música eletrónica Demdike Stare com o artista visual e cineasta Michael England. Os primeiros, formados por Sean Canty e Miles Whittaker, têm o seu estatuto sedimentado nos subúrbios de Manchester, onde conjuram as suas produções opulentas que atravessam os caminhos mais sobrios da música de dança. São também responsáveis por um conjunto de edições essenciais com o seu próprio selo, DDS, que inclui trabalhos de Shinichi Atobe, Mica Levi e Equiknoxx. Michael England é conhecido pelo trabalho com editoras históricas de música eletrónica como a Skam e a Warp Records, incluindo design, logotipos e projeções ao vivo para artistas como Autechre, Bola, Meam, Mayming, Graham Massey ou Leila. Passion, o mais recente álbum de estúdio do duo, é o mote para a performance com o cineasta, que desenhou a capa do respetivo disco.

Os Jerusalem in My Heart passam também por Serralves com o mais recente disco Daqa'iq Tudaiq. O grupo, que nasceu em 2005 como projeto ao vivo do músico e produtor Radwan Ghazi Moumneh, de Montreal, foi primeiro ativado na forma de performance ao vivo site specific, envolvendo uma ampla variedade de elementos multimédia e teatrais. Em 2012, Moumneh começou a conceber o projeto enquanto dupla, com um foco na utilização de imagens de filmes, loops e projeções de filmes em 16 mm. A sua música é guiada pela fusão que Moumneh realiza do canto melismático "tradicional" (em árabe) com os sons do buzuk, de sintetizadores modulares, bancos de filtros, power electronics, gravações de campo etc., construindo uma homenagem intencional às distorções da cultura histórica árabe das cassetes, processada pelas correntes modernas da música eletrónica. Os três álbuns de JIMH editados até hoje - todos lançados pela seminal editora canadiana Constellation Records, que alberga projetos como Godspeed You! Black Emeperor, Eric Chenaux ou Jessica Moss – têm aparecido de forma consistente em listas de melhores do ano em publicações como The Quietus, The Wire ou A Closer Listen.

O programa conta ainda com uma performance audiovisual de António Caramelo, a estreia de Asterismo. Sequência para Piano, Guitarra e Projetor, que junta o artista visual Paulo Lisboa aos músicos Marco Franco e Francisco Cordovil, e ainda uma instalação da artista holandesa Mariska de Groot.

Os bilhetes para o evento encontram-se disponíveis em serralves.pt a custos que variam entre os 2,50€ e os 5€.





Programa: 

Instalação: 
16 e 17 de novembro 
Incident of Light, Mariska de Groot

Performances: 

16 de novembro
18h00 António Caramelo VS. Demónio António
19h30 Demdike Stare & Michael England

17 de novembro 
18h00 Asterismo. Sequência para Piano, Guitarra e Projetor, 
Paulo Lisboa (com Marco Franco e Francisco Cordovil
19h30 Jerusalem In My Heart

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Reportagem: Jay-Jay Johanson [Auditório de Espinho]

"De regresso ao rodopio da eterna saudade" - Jay-Jay Johanson deu concerto único em Espinho

© Auditório de Espinho | Academia

Depois de uns longos 12 anos, Jay-Jay Johanson voltou ao palco do Auditório de Espinho, no passado dia 12 de outubro, para um concerto exclusivo em Portugal, já que o espetáculo agendado para Lisboa, para o final de setembro, foi adiado para 2020. 

A figura esguia, vestida de preto e de cabelo claro (que quase se confundia com a pele), de gestos elegantes, lânguidos e dóceis, entrou em palco debaixo de fortes aplausos, inundando a sala de sonoridades emocionais, pontuadas por jazz e alguma improvisação, que nos contaram enredos sobre chegadas e partidas, corações quebrados, melancolia e solidão. Num ambiente sóbrio e intimista, Jay-Jay (acompanhado por Erik Jansson nas teclas) revisitou algumas das suas composições mais emblemáticas. Apresentou-nos um alinhamento com músicas do novo disco pincelado por "best ofs" que passaram por "So Tell the Girls That I Am Back in Town", "Far Away", "She Doesn’t Live Here Anymore","I’m Older Now", entre outras. 

Ao longo da sua performance, Jay-Jay foi tecendo uma teia em que cada fio nos ia dando conta do contínuo processo de amadurecimento do seu trajeto musical, mesclando canções antigas com temas do seu mais recente álbum, Kings Cross (2019). Foi este conjunto de músicas tão melancólicas quanto harmoniosas, revestidas do pop sintético tão característico deste músico, que cativou a audiência, de uma sala cheia, e que se deslocou a Espinho numa noite de um outono sereno e de temperatura amena. 

Sobre a sua voz, Jay-Jay cantou mais alto, mais baixo e sussurrado, mas o registo de sempre teimou em não o abandonar. Genuinamente, cantou-nos que "o amor é o início. O amor é o meio. O amor é o fim" (Joaquim Pessoa) e que para o ser humano não existe fuga possível. O cenário sonoro complementou-se com um cenário visual de projeção de ambientes urbanos, alguns taciturnos, violentos (como uma bomba atómica, porta-aviões…), a descolagem de uma nave espacial, paisagens inóspitas, desfiladeiros, desertos, que nos transportavam para uma América ficcional, mas com contornos bem reais. Existia um verdadeiro contraste entre a frieza, a impessoalidade dos ambientes projetados em pano de fundo e o intimismo e sentimento da sonoridade e da palavra. Elementos projetados em reverse mode acentuaram o spleen de que se revestem estas paisagens sonoras e, não sabendo a sua origem, jamais alguém diria que Jay-Jay é escandinavo, de um país de vastas florestas boreais e montanhas glaciais (Suécia). 

© Auditório de Espinho | Academia

Ao longo do concerto Jay-Jay esbanjou generosidade, agradecendo largamente a presença de todos os que ali se tinham deslocado, expressando a sua felicidade por rever o público português que sempre o acarinhou. Muitos dos presentes já tinham assistido a vários dos seus concertos, nas diversas passagens por Portugal. Houve espaço para um inesperado "Happy Birthday" saído da audiência, ao qual Jay-Jay, sorrindo, replicou que tinha sido no dia anterior, assim como um pedido para cantar a intemporal "Love Will Tear Us Apart" dos lendários Joy Divison e que faz parte do seu EP Smoke (ao qual não atendeu). Quem o escutava, ouvia-o em silêncio atento, intercalado com um cantarolar de letras de algumas das canções, e ao silêncio enquanto cantava, contrapunham-se os fortes aplausos no final de cada música. "Tell the girls that I’m Back in Town" foi recebida com um fortíssimo aplauso. "Heard Somebody Whistle" foi acompanhada por assobios tímidos, por quem na sala sabia assobiar, em resposta ao convite de Jay-Jay

O encore foi habilmente repartido por três músicas e uma descida à plateia para cumprimentar, abraçar quem mais próximo estava do palco, para alegria de muitos que já lhe conhecem este gesto e uma agradável surpresa para os que não o esperavam. Quando entoou "I’m Older Now", saiu surpreendentemente do palco e veio sentar-se numa das escadas que ladeavam a sala. 

O concerto terminou com "Bobby Brown", música de Frank Zappa, com Jay-Jay, já no meio da plateia, que fez coro com ele a viva voz. Foi uma noite de encantamento, de contentamento, de embalos para regozijo de uma sala com lotação esgotada. No final do concerto, o músico "diluiu-se" no meio dos fãs, abraçou-os, deixou-se fotografar em poses provocadoras e afetuosas. Também eu fui contemplada com um caloroso abraço e um sorriso largo que lhe tocava os cantos do olhar, quando o parabenizei pelo espetáculo. 

© Auditório de Espinho | Academia

"You'll miss me when I'm gone". Com toda a certeza que sim, afinal, foi em Portugal e em França que tudo começou, há 23 anos! 

Reconforta-nos a ideia de que será apenas um Até Já! 

Texto: Armandina Heleno

Setlist: 
The girl I love is gone 
Not Time Yet
It Hurts Me So 
You'll Miss Me When I'm Gone 
Dilemma 
So Tell the Girls That I Am Back in Town 
Smoke 
75.07.05 
Far Away 
Old dog Kings Cross 
She Doesn't Live Here Anymore 
She's Mine But I'm Not Hers 
Milan Madrid Chicago Paris 
Paranoid 
Tomorrow 
Quel Dommage 
Heard Somebody Whistle 
On the Radio 
I'm Older Now Believe in Us 
Encore 
Whispering Words (a capella) 
On The Other Side 
Rocks in Pockets 
Bobby Brown 

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10 000 Russos anunciam álbum e partilham novo single


Os portuenses 10 000 Russos anunciaram o seu terceiro álbum, Kompromat, com data de lançamento marcada para 8 de novembro. A primeira amostra do disco é o single "Runnin' Escapin'". Com uma linha de baixo constante, um ritmo dançável e ambientes de guitarra hipnotizantes, a música não esconde influências como Neu! e Faust, mas transmite a sonoridade própria da banda portuguesa.

O trio tem marcado o panorama internacional da música psicadélica e está atualmente em digressão. Hoje irão finalizar a sua longa visita ao México, mas nos próximos dias 25, 26 e 27 de outubro já estarão a atuar em Portugal, em Leiria (Stereogun), Lisboa (Sabotage) e Beja (Pracinha).

Kompromat será lançado via Fuzz Club Records. Ouçam "Runnin' Escapin'" aqui:

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Holly Herndon presents "PROTO" (with Aya)


Credit: Mark Allan/Barbican Centre
On the 16th of October, 2019, the Barbican Centre hosted a truly remarkable performance - the presentation of PROTO, Holly Herndon’s latest album. As the opening act, Aya gave a fabulous and quirky performance that bravely set the tone for the night’s experimentalism. With no doubt Life Rewired, the latest project by the Barbican Centre about how artists interact with the technology which surrounds them, is doing its job remarkably well.
The fact of the matter is the following: I have been actively preaching the music of Holly Herndon as gospel to a number of friends for a couple of years now. In 2015, during Jardins Efémeros, I lost the chance to see her by arriving late to what was justifiably a fairly crowded event. As such, the mystery around what Holly Herndon sounds like live and in colour had built up inside of me for what felt like a small eternity. The actualisation of this was nothing short of phenomenal, with a performance that rings of an uncanny futurism and that still echoes within me - Holly Herndon, without ever hearing about my expectation and anticipation, delivered whatever it was that I could have expected from any live performance from her. But before we talk about it, we need to talk about the opening act - the brutal intimacy of Aya Sinclair.
Aya Sinclair - Aya as she was mentioned in the programme, who is also behind Tri Angle’s own LOFT - delivers a performance that is hard to come to terms with. In fact, if it were not for the blanket deconstructed club genre, it would be nearly impossible to encompass all of it within a single, low attention span media-worthy article. Nonetheless, there are some key points which have to be mentioned about what I, naively, was not prepared to witness. 
The first presence of Aya in the stage is almost amorphic: both baggy pants and hoody cast a shadow of a human that quickly solves a faulty cable in her setup - this is not part of the performance, she mentions in the microphone. While this impromptu issue is solved, we can hear a glitched out Aphex Twin-like ambient club music - at this point I am already thinking how on nearth can I describe this? - and soon it settles in all that Aya encompasses. Casually, after this first tune fades away, she mentions that she’s going to watch a video with us on the massive screen prepared for Holly Herndon’s performance later - I have never seen it on a screen this big!, she tells us. The video begins and the music that goes with it is a weirdly captivating pastiche of syncopated club music à laAutechre, gabber and bass. The screen displayed a fit representation of all of this - a massive projection of glitched out skaters is being distorted and corrupted while riding around to match the beat.
The rest of Aya’s show never fails to maintain this luscious feeling of curiosity while being weirdly accessible and catchy - what I had heard about the Manchester-based producer and how she is better known for her kitsch-incorporating sets featuring twisted versions of Destiny’s Child and Carly Rae Jepsen certainly came to mind. Apart from this, the chopped and screwed vocal tinkering on some of the musics presented by Aya was sublime, with definite echoes of Machine Girl and Blanck Mass if both were mashed together with half of Tri Angle’s catalogue into a glorious new sound, while the mish mash of UK club scene’s canonical sounds - from UK bass to gabber - created a truly remarkable soundscape for the Barbican Centre’s seemingly tranquil room. 
Among the many references to pop culture - including one to the cult classic Pulp Fiction (think Samuel L. Jackson being recreated to ask if Aya Sinclair looks like a bitch to an individual which can only say, among other minor speech connectors, deconstructed club) - Aya redesigned herself. The baggy outfit was stripped slowly and revealed a beacon of independence and dance - Aya was, both in her own intimate space and to the public, herself. This is indeed a key aspect of her show - the voguing, the performative queerness, the melting of the deeply rooted gender-normative stereotypes, the repurposing and appropriation of convention as a weapon to dismistify canons. All of this contributed to what was, in the end, a truly powerful and memorable performance. 
Before ending her show, Aya asked if it was O.K. for her to read us a poem. Obviously, even if for curiosity’s sake, this would have been allowed by anyone in the crowd, but that was a big part of her playful interaction with the audience that lasted throughout the show and brought us all together in club/rave harmony while still sitting on our comfortable theater chairs (only a few people dared to stand up dance). The poem told us all, with nothing but silence as background, while criticising the way pride is appropriated by several enterprises for aesthetic purposes, about the quarrels of being out of the gender normativity, how the two bathroom icons are dated and not that useful anymore. It closed with an unwillfully accepting outcry: in all forms calling me mate/and insisting it would do the same regardless. Aya left the stage, proudly, having left her stamp in the Barbican Centre, which warmly and greatly welcomed and thanked her for her performance. 
After this, I was in awe. Not only because my ignorance about the act drove my little expectations, but also because Aya had already made it worth it for me to travel to London to see Holly Herndon. Certainly, Holly Herndon cannot be this surprising, I was thinking to myself, twiddling my thumbs while I waited for her show to begin. While everything was completely dark, their shadows appeared en suite - 5 ensemble members divide themselves between both sides, two on the left and three on the right, while Holly Herndon and her husband, Mat Dryhurst, take over the electronics. Holly has a microphone before her, she is ready to proclaim the word of PROTO, her A.I. baby-assisted album. 
Credit: Mark Allan/Barbican

Adequately, the entry song is Birth, which also opens the album, and immediately we are surrounded and envoloped in this magical world that Holly Herndon has created with the assistance of her ensemble and her husband. The projections are a surreal and procedurally generated scenery of idyll coupled with barren landscapes, serving as the perfect setting for Alienation, when the chorus of voices becomes not only a phenomenon per si, but also an incredibly sensitive choice by Herndon for her new album, where the more traditional harp ensemble and futuristic production create a sound that overlaps both what has long been over and what is soon to come. The American producer created a performance which looks at the past - such as was the beautiful rendition of Canaan by Evelyn Saylor and Franziska Aigner, two of the ensemble members - and draws with a steady hand the future. 
The great classics from Holly’s curriculum played on, including Eternal, which has certainly gained momentum as a quintessential 2019 track, and a rendition for ensemble of Chorus (from her 2015 album Platform), making the creation of an ensemble for these performances, as I cannot at any point grow tired of saying, a key step in making sense of this futuristic sound. We were also confronted with truly unique moments, such as the performance of Crawler, orchestrated by Colin Self, with Herndon’s growling distorted voice enhancing what is the backdrop for PROTO - the divide and integration of man and the illusive concept of modern artificiality. Frontier, which can be debated as one of the big tunes for this year, had the ensemble in the front of the stage, unamplified, singing the introductory sacred harp, with members from the London Sacred Harp joininig in from random places in the audience. As soon as the beat enters, Holly joins in with the main vocals and shares the protagonism with Evelyn Sailor, which shines on her own with a powerful and distinctive vocal performance. 
The arpeggiated voice of Herndon during Fear, Uncertainty, Doubt also created one of the most beautiful moments of the show, with Holly kneeling down on an electronics-filled table as the rest of the ensemble and Mat Dryhurst rest, almost immobile, together painting a truly peaceful picture. Before SWIM the public was invited to participate in a sing and response session with Colin Self. It was because of the absence of SPAWN, Holly and Mat’s A.I. baby, we were explained, and how we were to be part of its training dataset. While I am still brimming with curiosity to seeing SPAWN live, I have to admit that a certain paternal glow shines in me as I participate in this small construction of her learning experience. 
Credit: Mark Allan/Barbican

The end of the show - the encore (which, as Holly had announced, given enough clapping, would happen) - was a powerful rendition of Fade, which to this day holds as an absolute banger with its steady drum beat, off-beat snares and drum machine sample stravaganza. With Herndon, the entire ensemble and a fairly large part of the audience danced and sung with Mat Dryhurst leading the beat into the end of a well spent night. As a family, they, on stage, danced happily and with extravagance. We - the audience - could only try to match their harmony with our own dancing, creating a lovely environment to close yet another successful Life Rewired event.

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The Psychedelic Furs no Lisboa Ao Vivo (LAV) - Memória psicadélica de uma adolescência feliz


Chegada cedo ao LAV, deparo-me logo à entrada com um assinalável público já em fila para assistir ao concerto dos The Psychedelic Furs, banda de hinos/músicas que já cá anda desde 1980 e que nos levou a sair de casa a todos nesta quarta-feira, mesmo com a já anunciada previsão de descida de temperatura e claro, a migrar atenções para esta sala à beira do Tejo. Em Lisboa são mais do que suficientes os presentes para receber a banda dos irmãos Richard e Tim Butler, dispostos (esperávamos nós) a entregar um menu mainstream, denso e fascinante, com uma setlist que já se adivinhava incluir de “Pretty In Pink” a “Sister Europe”, assim como as canções essenciais, para não sair desiludida.

O vermelho dos focos, numa dança consonante com a intro que anunciou o início do concerto, sublimou de forma solene a entrada dos sete em palco. E entraram, entraram com muito estilo: Richard Butler (voz), Tim Butler (baixo), Rich Good (guitarra), Mars Williams (saxofone), Amanda Kramer (teclados) e Paul Garisto (bateria), com energia e pompa, a sorrir e logo a abrir com “Dumb Waiters”, com os teclados e a guitarra em surdina… e explodiram daí para a frente, levando-nos pela memória psicadélica de uma adolescência feliz. À terceira canção soltam o “Love My Way” e soltaram-se os cantores que, da plateia a plenos pulmões gritaram - “hahuuu”, “hahuuu” - quase uivo, a fazer sentir tão bem a música que brotava felicidade do palco e que se espraiou pelo LAV até à porta.

Os gestos e o sorriso de Richard Butler no “Sister Europe”, com as mãos a deslizar pela sua própria silhueta, a fazer lembrar uma dança sensual numa linguagem teatral descritiva da letra desta canção acompanhada do saxofone, que gritou e bem as notas, trazendo mais uma merecida grande ovação. Seguiu-se “Heaven” - em oração, Richard Butler prosseguiu de mãos cruzadas junto ao coração, acompanhado de um coro que soltou uma vez mais as vozes da plateia. Com a sala cheia, pouco espaço para dançar, um imenso abanar de cabeças que, de forma afirmativa e gestual como que a dizer sim, acompanhou numa extrema interacção os The Psychadelic Furs, sem parar do princípio até ao fim do concerto. 

São excelentes performers. Regressaram para o encore, com Mars Williams (ainda) a limpar o suor da cara com uma toalha preta, segurando com outra mão o saxofone, Richard Butler agora de boina, a boina de Amanda Kramer, entregou-a à teclista e recompostos, a postos, muito suados cantaram “India“, última canção da noite. Foi com o mesmo sorriso do início que terminaram o concerto, com a sala ao rubro. Houve acenos e beijos pelo ar, apertos de mão para quem estava mais chegado ao palco. Foi assim, muito bom este regresso dos Psychedelic Furs a Portugal. São excelentes performers, grande concerto.



Texto: Lucinda Sebastião
Fotografia: Virgílio Santos

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Sote apresenta Parallel Persia em Serralves



Em novembro, o músico e compositor germânico Sote passa pelo grande auditório de Serralves, no Porto, para apresentar o seu mais recente álbum, Parallel Persia. Os portugueses Black Bombaim juntam-se ao percussionista João Pais Filipe para uma colaboração encomendada pelo festival Curtas de Vila Conde.

Sote é Ata Ebtekar, músico, compositor e intérprete sediado em Tehran, no Irão, figura central da música eletrónica no Médio Oriente e um dos mais entusiasmantes na prática e união entre o elétrico e o acústico. A sua música é ora delicada ora abrasiva, alterando as caraterísticas modais da música tradicional persa para criar um admirável mundo novo de paisagens sintéticas e vívidas. Parallel Persia é o seu mais recente projeto, editado em maio pela Diagonal Records e que continua a busca incessante de Sote por esta experiência persa sintética. Em palco, Sote apresenta-se ao lado de Arash Bolouri (santour) e Pouya Damadi (tar).

Em julho, o power trio de Barcelos Black Bombaim convidou João Pais Filipe, baterista/ percussionista do Porto, para colaborar na criação da banda sonora do filme Dragonflies with Birds and Snake, do realizador Wolfgang Lehmann, cujo som - originalmente silêncio - contém um elemento rítmico omnipresente causado pelo corte e edição. Tal como o filme, também a a performance será dividida em três partes: nascimento, sexo e morte – o ciclo da vida.

Os concertos acontecem dia 24 de novembro pelas 18h00.


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sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Portugal 2018 segundo Tiago Vilhena



Tiago Vilhena é já um artista bem conhecido no panorama musical nacional. Os Savanna foram a sua primeira banda e por lá explorou as ramificações psicádelicas do rock de influências anglo-saxónicas. Depois seguiu-se George Marvinson, projeto a solo do artista onde explorou a escrita individual no mundo da pop rock. Agora em nome próprio, Tiago Vilhena prepara-se para lançar esta sexta-feira, 18 de outubro, a sua primeira experiência musical na língua de Camões,

Portugal 2018 tem o selo da Pontiaq e apresenta um conjunto de 10 músicas filosóficas e relaxadas, introspetivas e reveladoras que acrescentam ao Curriculum musical português uma nova expansão para a música de intervenção. Composto no ano de 2018, este novo trabalho de Tiago Vilhena, além do cunho ativista, envolve alguma fantasia, fala-nos de profetas, de dilemas da morte e da vida, de poções e de milagres, adoptando uma postura mais tradicional mas não apenas tradicional portuguesa. A música chilena e a música grega são também duas grandes influências para o estado de espirito presente em Portugal 2018.




Em conversa com o artista nacional ficámos a conhecer cada uma das músicas que compõem este Portugal 2018, primeiro registo discográfico de Tiago Vilhena. Ora leiam aqui em baixo:



1 - Elixir Do Bem Estar




Apesar de ter uma orquestração sem guitarra, esta música foi escrita nesse instrumento. A minha vontade de fugir à solução ou à orquestração mais fácil (guitarra, baixo, piano e voz), aumentou nesta música em específico porque me apercebi que é uma canção que entra tão facilmente no ouvido que chega até a parecer infantil. Não quero dizer que não gosto de músicas com um feeling infantil. Antes pelo contrário. Até costumo gostar. Mas nesta música a presença desse estado de espírito pareceu-me que a podia levar para o ridículo e para fugir a isso, decidi substituir os acordes da guitarra por acordes de vozes resultando no que se ouve. A decisão de usar contrabaixo em vez de baixo elétrico veio do facto de o refrão ter um walking bass e não há nada mais bonito do que um walking bass num contrabaixo. Estas foram as decisões que marcaram o rumo da produção da música e a partir do momento que as tomei, tudo se resolveu facilmente. Quanto às palavras que eu digo, não tenho grande coisa a acrescentar. A letra explica-se a ela própria. Não há por onde fugir. Eu normalmente tendo a escrever temas com caminhos de raciocínio um pouco labirínticos. Quando isso não acontece e o assunto foi transmitido, sinto que consegui.


2 - Quem Me Trouxe Ao Mundo


É das poucas músicas que compus ao piano. Gosto dela. Tem uma vibe revolucionária de esquerda e uma intenção forte na voz. Aqui não houve necessidade de substituir o piano por outro instrumento e então a decisão do rumo da produção foi bastante fácil. O que dificultou mais foi a bateria. Eu fiz este álbum com a intenção de não usar bateria. Não consegui. Mas não foi nesta música que usei. Substitui-a por um Cajon (um instrumento que a maioria das vezes é horroroso) e por umas vassouras de palha. A meio da música entro numa zona diferente, num mundo escondido com um compasso 6/8 e a fantasia vem à tona. Para me esgueirar deste sítio e voltar para a manifestação esquerdista que é esta música, fiz uma transição um pouco oriental e retomo com um acorde ligeiramente diferente para mostrar que nada se mantém da mesma forma depois de uma viagem.



3 - O Mar


O mar é o 3º single do álbum Portugal 2018. É a música que a maioria dos meus amigos prefere. Fico contente com isso porque também tenho um carinho especial por ela. Fiquei muito satisfeito pela forma como ficou a soar. Usei um udu, que é o instrumento percussivo que lhe dá aquele tom que por vezes se assemelha a uma bolha de água. Quando gravei a guitarra da secção do meio da música, apercebi me que não ia conseguir tocar sem se notar algum lixo das cordas. Para isto não se ouvir, toquei os acordes nota a nota com bastante vibrato. O resultado foi uma guitarra impossível de tocar a soar extremamente limpa, cristalina e angelical. Gravei esta música em Viseu. Fui lá passar uma semana sozinho para gravar algumas músicas. Como estava com tempo, enchi 12 copos de vinho com água com alturas diferentes para fazer 12 notas e toquei acordes com esses copos. Esse é o som que se ouve no final da música. Não faço a mínima ideia dos acordes que toquei porque com o entusiasmo comecei a adicionar notas e mais notas e estava sempre a soar-me bem. Feliz com o resultado, deixei ficar. Depois gravei uns sons de cordas a esticar (A corda onde o enforcado se enforcou) gravei uns passos e voilá, apareceu o Zeca Medeiros.




4 - Fujo para sempre


Mais uma música de esquerda. Penso que andava a ouvir Sérgio Godinho. A guitarra distorcida aconteceu numa tentativa de fazer algo como Unknown Mortal Orquestra. Penso que não ficou nada a ver. Mas pareceu me bem na mesma. É uma música simples onde digo que fujo para sempre e volto diferente. A questão é, se fujo para sempre, como é que volto? Quis fazer uma canção à volta desta ideia. Volto porque não volto o mesmo. Parte de mim ficou lá para sempre.




5 - D’esta vida




Foi a primeira música que escrevi em português e, portanto, foi a primeira música que escrevi para este álbum (há uns anos atrás fiz umas músicas kizomba em português na brincadeira, mas estou a assumir que isso não conta). Continuando, há dois anos atrás, cheguei de um festival à casa que tinha alugado com uns amigos, com uma perceção da realidade um pouco alterada. Foi uma experiência bastante fascinante e quando acalmou, quis escrever algumas palavras e o que escrevi foi: “Descalço numa via onde as garrafas de cerveja partem toda a noite e dia. Quatro horas passam a correr e eu, aos poucos, vejo o que acontece. Troca beija empurra salta bebe senta e dança. Fala olha trinca mija sente o dia a vir. Tem calma amigo a vida é longa aproveita o vento”. Assim comecei a escrever a letra que acabei mais tarde. Quando completei este verso, apercebi me que a música estava curta. Lembrei-me de a estender, falando de outras experiências fictícias, mas que podem e são de certeza reais para algumas pessoas. Assim, esta canção passou a abordar 3 vidas diferentes, de pessoas com 3 rumos diferentes e todas dizem que não vão dizer mal desta vida. Portanto, o que quer que seja, tass bem.


6 - Os Profetas


Neste momento é a minha música favorita deste álbum. É filosófica e é mística. Serena de certa forma e a meio torna-se agressiva resolvendo-se numa zona que podia ser uma cabana de palha com um xamã a ver o futuro no fumo. No final, acaba num lugar não físico. Onde só os mortos chegam e que só os mortos podem conhecer. Isto que eu disse foi talvez concreto demais para ser uma explicação de uma música. Mas é assim em que eu a vejo.




7 - Cabaço Vai Morrer


Mais uma música do mundo fantástico. Começo por dizer que alguns dizem que o mundo é grande e alguns dizem que o mundo é curto. Cada um tem noções diferentes e reações diferentes em relação a tudo. Tudo é tão relativo como outra coisa qualquer. Com isto, concluo que a compreensão é coisa de cabaço (Cabaço – inexperiente). Chego até a ir mais além. Digo que “se passa o cabaço, cabaço vai morrer”. Isto era uma frase que os bandidos da minha escola diziam quando os mais novos tinham de passar pelo corredor deles. Então nós passávamos e eles batiam-nos. É uma recordação bastante forte então quis registá-la numa música. E não só numa música. No próximo álbum, esta frase vai continuar a existir e vai ter uma relação com os profetas.



8 - Um pouco ao lado

Penso que é a música mais curta que já fiz.  Aqui eu incorporo um cão e ensino outro cão a ser cão. É tão específico quanto isto.



9 - Milagre Da Oportunidade


Mais uma música composta ao piano. Curiosamente é a música mais fácil de resultar ao vivo que já fiz até hoje. Não sei porquê. Mas ensaiar esta música é basicamente tocar uma vez e aperceber-me que está ensaiada. Para além desta característica curiosa, é uma canção que começa por falar de uma pessoa. Uma pessoa bastante chata, mas que é interessante ao mesmo tempo. Mas essa pessoa tem tanta vontade de estar sempre a falar e de estar sempre a fazer piadas que chega a ser inoportuna. Falta-lhe, portanto, ter noção da oportunidade. A partir deste tópico, exponencio a minha indignação e tento fazer uma proposta, ou pelo menos tento sugerir um mundo melhor. Um mundo de igualdade e de paz.




10 - Chill Wild Life


É a música que faz uma ligação com o George Marvinson. Tem uma intenção mais ligeira e descomprometida do que o resto do álbum. Não há muito para dizer sobre ela até porque não me lembro de a fazer. Não me lembro qual foi a minha intenção. Contudo, gosto dela. No fim, só porque sim, juntei-lhe uma micro-música que tinha feito. Achei que ficava bem e assim finalizei o meu álbum Portugal 2018. A falar em inglês! Isto não é suposto ter um propósito.


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