segunda-feira, 30 de março de 2020

Unsafe Space Garden em entrevista: "Muito facilmente se começa a levar tudo demasiado a sério"


Os Unsafe Space Garden são o filho de Nuno Duarte, apadrinhados por Alexandra Saldanha e Diogo Costa. O trio presenteou-nos a 13 de março com o seu primeiro longa duração com o selo da recém-criada Discos de Platão. Guilty Measures traz consigo dez melodias pop bem caóticas e bem-humoradas.

Um ano depois da sua estreia com o EP Bubble Burst e com a natural maturação da chegada à idade adulta, a composição e execução deste disco foi o processo de aceitar o caos na descoberta do que é a vida terrena.

Em entrevista por e-mail, falámos com os Unsafe Space Garden sobre a sua origem, as suas influências e o processo de composição em Guilty Measures, entre outras temáticas. Leiam a entrevista completa em baixo.


De onde surgiu o nome Unsafe Space Garden?

Unsafe Space Garden (USG) - Unsafe Space vem da crença de que devemos aceitar o caos e o Garden é a relvinha maravilhosa onde um gajo se deita e colhe as flores do ter sido capaz de enfrentar o dito caos.

Podem-nos contar a história por detrás do vosso projeto?

USG - Tudo começou com uma amizade, depois um raio numa testa, seguido de uns papiros em tinta vermelha que nos trouxeram, depois de muitas aventuras, até ao preciso momento em que respondemos a estas perguntas.

Como funcionou o processo de composição de Guilty Measures? Houve alguma diferença relativamente ao EP de estreia, Bubbleburst?

USG - Foi ligeiramente diferente. Primeiro porque levou foi mais tempo por ter surgido muito mais material. Em vez de cinco temas, como no EP, havia uns treze e desses treze ficaram dez. Ainda assim, cada um deles passou por um processo de maturação, houve uma pausa entre compor e produzir, o que gerou um certo distanciamento. Houve músicas que foram completamente alteradas após esse período, como é o caso da "You Broke My Shell", e outras que apareceram só após esse período, como é o caso da “The Nonsensical Tsunami”. No EP, não houve esse tempo nem a coragem para isso tudo.



Há alguma temática associada a este novo disco?

USG - Sim. O disco é uma reflexão sobre o sentimento de culpa, sobre as emoções no seu auge e a possibilidade de se tornarem prisões.  É sobre o ser-se humano, e andar aqui, sem saber bem porquê nem como.

Que discos é que andaram a ouvir durante a gravação de Guilty Measures?

USG - Ouvimos muitos discos como limpa sabores durante as gravações, assim como a novela do R. Kelly, sugestões do Pedro Ribeiro, que nos gravou e misturou e masterizou o disco.

O que vos motivou a compor músicas tão caóticas, teatrais e, acima de tudo, divertidas e descomprometidas?

USG - Uma vez que se passou aquele limite de decência num momento de criação mais corajoso, o nome que se tem no cartão de cidadão deixa um bocado de fazer sentido. Depois ris-te muito de ti mesmo e do que tu achas serem problemas. Há uma liberdade muito grande nisso, que leva ao absurdo e a gostar muito dele como meio para transmitir ideias. Depois entra na mesma aquele medo de se parecer parvo/ruidoso/dramático e é preciso voltar a saber não ter medo quando se sobe ao palco ou quando se lança algo novo. Muito facilmente se começa a levar tudo demasiado a sério. Ao fazer um projeto assim, não se pode nunca cair nesse erro, caso contrário torna-se contraditório e desonesto.



Neste disco de estreia podemos escutar dez canções bastante diferentes entre si, mas que têm em comum a psicadelia e o experimentalismo. Que instrumentos é que usaram para as gravar?

USG - A formação normal: bateria, baixo, guitarra elétrica, guitarra acústica, synths e vozes. Depois alguns instrumentos de percussão, incluindo um ao qual decidimos chamar de João Miguel porque não conhecíamos o nome. É basicamente um pau com um fio numa das pontas o qual segura um engenho qualquer de madeira. Ao rodar, produz um som muito caricato, usado por duas vezes no disco.

Podem falar-nos sobre a música “Balcony Panoramics”? Há alguma música que queiram destacar?

USG - É acerca do perspetivar o que se está a passar e surgiu porque vivíamos num sótão que tinha uma varanda com vista sobre a cidade. Sempre que tudo parecia assustador, bastava lá ir para perceber que tudo é apenas uma grande coisa estranha e que está a acontecer sempre das mais pequenas formas. De algum modo, assistir ao modo como os dias se desenrolam numa varanda muito alta, coloca em perspetiva o que quer que seja que estejamos a passar. É uma música sobre esperança e um bocado um apelo para que nos dirijamos às mais variadas varandas, que podem ser o que nos apetecer, de modo a cairmos na terra.
Gostamos particularmente da “Confessing My Lila”, por ser tão especial para nós de diferentes maneiras, e por ter sido a que mais dores de cabeça criou.


Já têm concertos marcados para apresentarem o novo disco?

USG - Sim, e não. Com o Covid-19 ninguém sabe bem o rumo dos próximos meses. Mas se alguém nos quiser convidar para tocar quando a poeira assentar, estamos cheios de vontade.

Quais os artistas e/ou álbuns que têm ouvido nas últimas semanas?

USG - O novo disco do King Krule, Erykah Badu, D’Angelo, Le Mystère des Voix Bulgares, Anna Meredith, DakhaBrakha, Jorge Ben JorA Tábua de Esmeralda, Andy ShaufThe Party.


Gravado e masterizado por Pedro Ribeiro, Guilty Measures está disponível para audição integral no Bandcamp dos Unsafe Space Garden, podendo ser adquirido em formato digital.

+

Cinco Discos, Cinco Críticas #55



Do Japão ao Brasil, passando pela Polónia, Escócia e América do Norte, a 55ª edição do Cinco Discos, Cinco Críticas coloca no radar os novos trabalhos de Gezan, com o disco KLUE (2020, 13th records); Haroldo Nono, com We're Almost Home (2020, Bearsuit Records); Michał Olczak com o seu marcante zgubiłem się (2020, 𝓰𝓵𝓪𝓶𝓸𝓾𝓻.𝓁𝒶𝒷𝑒𝓁); Wasted Shirt - o novo projeto criativo de Ty Segall com Brian Chippendale do qual nasce Fungus II (2020, Famous Class) e, por fim, VRUUMM projeto sediado em São Paulo que traz o segundo disco Tony Brizza (2020, Freak) à calha.

Os mencionados discos estão em revisão abaixo, acompanhados dos respetivos players para que tirem as vossas próprias conclusões:


KLUE | 13th records | janeiro de 2020 

7.5/10 

A banda de shamans do noise rock frito Gezan lançou no passado mês de janeiro o seu quinto álbum de originais de seu nome KLUE. O álbum, a contar total de treze faixas, é toda uma espécie de ópera psicadélica trippy com toda uma paleta cromática que se estende dos sons mais obscuros até ao mais vibrantes, e surpreendentemente, como que fluem bastante bem entre elas para formar uma faixa longa e coesa no seu todo. A confeção sonora consiste basicamente numa orgia de main vocals bizarros (que rangem de passagens mais nasaladas até growls mais intensos) e ritmos marciais intercalados com cânticos que parecem vindos de rituais todos marados (nomeadamente em faixas como "EXTACY", "Kunkoku" e "TOKYO") e sons com ADN que deve muito ao hardcore punk ("Sekiyoubi") que casam bem com uma temática bastante virada para intervenção sociopolítica (como explicitamente descrito em "Free the Refugees", por exemplo). 
Enquanto que algo desta envergadura é certamente ambicioso e urgente, infelizmente perde alguma pedalada em algumas partes chave do álbum devido a um punhado de faixas mais fracas. Ainda assim, este álbum é certamente uma experiência com momentos interessantes, tendo argumentos suficientes para ser considerado por aqueles que querem sonoridades desafiantes e/ou que simplesmente soam a fritaria pura e dura para o ouvido humano.
Ruben Leite



We're Almost Home | Bearsuit Records | março de 2020 

7.5/10 

Harold Nono não é um nome novo dentro do panorama da produção musical. O músico sediado em Edimburgo, conta com uma discografia pomposa e bastante dinâmica que inclui cinco álbuns a solo até o momento entre outras séries de edições, que gravou com artistas em projetos colaborativos. A sua música desafiadora, explora a essência do classicismo, juntamente com elementos de vanguarda do jazz e uma eletrónica bastante camuflada em efeitos e tendências estéticas. Quatro anos depois do seu último esforço em nome próprio, Ideeit (2016), o músico escocês regressa com We're Almost Home, uma coleção de 13 temas que exploram desde sensações mais vigorosas e brutais a sonoridades calmas e contemplativas. 
São quase 20 anos que solidificam a sua experiência como produtor. Desde 2002 o produtor também juntou-se a nomes como Eric Cosentino - com quem lançou Plenty Time (2013) sob o moniker Jikan Ga Nai; Hidekazu Wakabayashi com quem lançou um disco self-titled em parceria; o projeto electro-acústico Taub; e ainda com a dupla japonesa N-qia onde surgiu o projeto Haq - do qual resultou o álbum mais recente Evaporator (2019). Ao longo dos anos Harold Nono foi adquirindo uma certa sensibilidade para a composição que se encontra fortemente estratificada em We're Almost Home. Há espaço para explorar sensações desde o desconforto, inerência, contemplação e a decadência das máquinas. 
Num exercício de sound-design, onde entram em ação os elementos futuristas, sci-fi e uma certa poesia na conjugação de elementos experimentais, We're Almost Home apresenta-se como um disco de relevância afincada, onde cada pormenor sonoro é embutido com um sentido muito focado: conduzir o ouvinte a um mundo novo onde a era industrial, clássica e romântica são revisitadas e imersas num cenário contemporâneo.
Sónia Felizardo



zgubiłem się | 𝓰𝓵𝓪𝓶𝓸𝓾𝓻.𝓁𝒶𝒷𝑒𝓁 | fevereiro de 2020 

8.7/10 

Michał Olczak é um jovem músico polaco que lançou o mês passado zgubiłem się, o seu novo álbum, pela 𝓰𝓵𝓪𝓶𝓸𝓾𝓻.𝓁𝒶𝒷𝑒𝓁. Este navega pelos mares da música eletrónica mais progressiva, mas inclui ingredientes muito variados que dão origem a paisagens sonoras densas e admiráveis. Para além de gravações de campo feitas em estações ferroviárias e os locais que as circundam, inclui instrumentos acústicos e eletrónicos, desde o saxofone, que é aproveitado na faceta mais jazzística do disco, aos elementos mais glitchy e assumidamente digitais. 
zgubiłem się significa "estou perdido", e a verdade é que este álbum, tão dinâmico e imprevisível, faz com que nos percamos dentro dele. "pociąg do białegostoku" começa com um ambiente misterioso que vai descendo de intensidade e culmina num solo de saxofone envolto em sons distorcidos; "nocny bieg" apresenta um drone que se dissolve num desabafo jazz com uma bateria explosiva; "za dużo", pela sua progressão de acordes e pela nova presença da bateria, tem o seu quê de triunfante e épico, mas termina com uma batida eletrónica quase dançável. 
Todas as partes encaixam, algumas tão distintas das antecedentes que é impressionante como as transições são tão subtis. Este é um álbum de sensações opostas, onde a paz e a agitação estão sempre de mãos dadas, surgindo uma de cada vez em primeiro plano.
Rui Santos



Fungus II | Famous Class | fevereiro de 2020 

7.0/10 

Ty Segall dispensa introduções. Brian Chippendale pode não ser um nome que todos os amantes de música alternativa reconheçam, mas se dissermos que é o senhor mascarado responsável pela bateria dos Lightining Bolt, talvez desperte um clique. Apesar das diferenças entre o loirinho, um dos mais prolíficos guerreiros do garage rock no Séc. XXI, e o touro que comanda os ritmos maníacos e caóticos do duo de noise rock baseado em Providence, Rhode Island, os dois juntaram-se neste casamento, de nome Wasted Shirt, e podemos afirmar que é um casamento bem barulhento. 
O seu primeiro filho é Fungus II, que se tivesse uma forma física bem que podia ser o bebé do filme Eraserhead de David Lynch, e é uma experiência que leva os dois músicos a testarem os seus limites. A grande maioria das músicas apresentam-nos descargas energéticas, tanto da guitarra como da bateria que nos fazem sentir no meio de uma batalha onde nenhum dos músicos quer admitir a exaustão. Por isso, no meio deste despique, tanto Ty como Brian martelam os seus instrumentos até o primeiro desistir e cair no chão exausto. Felizmente, isso não acontece e somos prendados com nove faixas delirantes em excesso de velocidade. Em "Zepellin 5" a bateria é espancada sem piadade enquanto a guitarra distorcida apresenta uma melodia e ritmo hipnótico, tudo isto acompanhado por back vocals alegres e catchy (desta vez é Segall a cantar, mas Chippendale também empresta a sua maníaca voz em diversas faixas). Na última faixa, "Four Strangers Enter the Cement at Dusk", os Wasted Shirt, mais uma vez a surpreender, optam por uma marcha instrumental, lenta e sinistra, num stoner doom que deixaria os Melvins orgulhosos para encerrar o disco. 
Este super-grupo faz jus ao seu nome e é uma das experiências musicais mais alucinantes do ano. É uma incógnita se este projeto vai ter uma sequela ou se vai ser apresentado ao vivo, mas, até lá, ficamos com uma banda sonora ótima para correr a maratona ou para quando precisarmos de destruir uma das paredes de nossa casa com uma marreta.
Hugo Geada



Tony Brizza | Freak | fevereiro de 2020 

7.0/10

Corria o ano de 2014 quando o saxofonista Anderson Quevedo (que acompanha artistas como Criolo, Bixiga 70, Otto, Emicida e Trupe Chá de Boldo) fundou os VRUUMM, um projeto musical com um objetivo bem claro: transportar a cultura dos samples para o universo do jazz de conceção moderna. Desde então a banda passou a desenvolver as suas paisagens sonoras características com a integração de samples melódicas, batidas suaves e uma presença dominadora do saxofone na essência. 2015 viu o primeiro álbum ser lançado, ao qual sucederiam posteriormente os EP’s RAGGAVRUUMM (2017); Segue no Caminho (2017) e Gomes Smit é o Terror! (2018). Agora, 5 anos depois da estreia, os VRUUMM regressam ao ativo com Tony Brizza, um conjunto de oito faixas que combinam elementos do jazz com soul, funk e disco, para criar um disco arrojado e artístico. 
Com o objetivo de "criar paisagens sonoras tanto para a alma como para o corpo", os VRUUMM apresentam em Tony Brizza um conjunto movimentado de acid jazz que inclui vertentes tradicionais da música popular brasileira, da música erudita e uma certa cultura hip-hop na conceção de oito faixas puramente instrumentais. O resultado traz à memória uma junção entre Bad Bad Not Good, Kamasi Washington, David Bruno e Bruma, sem nunca descurar das influências que Anderson Quevedo deixa claras: desde Miles Davis a James Brown, passando por Eumir Deodato e King Crimson (cujo disco VROOOM VROOOM serviu de inspiração ao nome da banda). 
Deste Tony Brizza destaque para faixas como "The Ditch Dimension" - a elevar o pedestal do saxofone; “Brizzas Também Amam" - onde entram no ataque os riffs românticos da guitarra elétrica; o brutal "Fake News" e ainda "Peraí" - a mostrar uma progressão rítmica de excelência com cunho VRUUMM.
Sónia Felizardo


+

ATA OWWO + GUILLIO editam álbum de estreia


Songs for Green Tea and Peppermint Pope é um álbum cuja composição se baseia na intermitência atual entre estados de calma e ansiedade entrópica. Em fevereiro de 2019, durante quatro dias, protegidos pela paisagem sonora do meio rural, ATA OWWO + GUILLIO decidiram criar alguns temas que traduzissem as suas preocupações emocionais com o máximo de transparência possível. Neste contexto, afastados da ironia e da competição social, nasceram, rapidamente, sons desagarrados da seriedade imposta pelos ciclos contemporâneos. 

Acompanhados pelo calor aconchegante de chá acabado de fazer e dois gatos curiosos, os dois músicos fizeram deste retiro uma sessão quase ininterrupta de trabalho descomprometido, pronto a falhar em tudo, acabando por ser bem sucedido; na aprendizagem da escuta da noite, na dinâmica dos dias, no frio do sangue e no calor das raízes. É a agitação desmedida que nos afasta para o retiro e, ao mesmo tempo, nos atrai para o regresso. Um vício da comunidade na era da informação. Estados de confusão e drogas de controlo, paradigmas, em todos. Como nos faria bem parar e olhar pela janela, acabados de despertar, despenteados, prontos a beijar uma chávena de chá e cheirar os aromas da madrugada.

Iniciado em 2015, ATA OWWO é o projeto musical de Henrik Ferrara. Inspirado no Witch House e na música experimental improvisada, editou álbuns que se focavam em pequenas narrativas sonorizadas com uma estética lo-fi. Após o lançamento do terceiro álbum, Henrik deixou o projeto em repouso, investindo em colaborações como LickSickDick e Laboratório Sónico.

GUILLIO é o projeto de música experimental de Guilherme Correia, baseado na improvisação em conjunto com músicos convidados, repleto de texturas caóticas e progressivas. Guilherme integra também projetos como Penumbra, LickSickDick e compõe música em nome próprio. Tem vindo a mergulhar no campo da música eletrónica, sem descurar a sua atração pelos sons acústicos de instrumentos e objetos mais simples como flautas e pequenas percussões.

Songs for Green Tea and Peppermint Pope já pode ser ouvido no Spotify e no Bandcamp.

+

NOS Primavera Sound adiado para setembro



O NOS Primavera Sound foi adiado para os dias 3, 4 e 5 de setembro, comunicou esta segunda-feira a organização do festival do Porto. 

Tyler, the Creator, FKA Twigs, Lana Del Rey, Beck, Bad Bunny, Pavement, King Krule, Earl Sweatshirt, Kim Gordon, Chromatics, Mura Masa, Dinosaur Jr., Weyes Blood e Black Midi são alguns dos nomes confirmados para a nona edição do festival, que este ano se realizava nos dias 11, 12 e 13 de junho.

"A nona edição do NOS Primavera Sound acontece de 3 a 5 Setembro.  Atendendo ao estado de emergência resultado do surto do novo coronavírus - COVID-19, o mundo tal como o conhecemos foi aos poucos tomando um novo rumo. Perante este cenário tão diferente e face às restrições impostas pelas autoridades à celebração de eventos públicos e à livre circulação de pessoas – em muitos casos dificultando a participação dos artistas anunciados -, vemo-nos forçados a adiar a próxima edição do NOS Primavera Sound, por motivos de força maior, em plena coordenação com a Câmara Municipal do Porto, que se tem suplantado para nos apoiar", pode ler-se no comunicado oficial

A organização afirma ainda que os bilhetes já adquiridos para a nona edição do NOS Primavera Sound 2020 são válidos para as referidas datas, e acrescenta que, quando ultrapassado o estado de emergência e todas as suas prorrogações, irá partilhar mais informações e retomar a venda de bilhetes.

O anúncio surge dias depois do festival homólogo catalão ter anunciado o seu adiamento para o fim de agosto.

Fotografia: Ana Carvalho dos Santos

+

domingo, 29 de março de 2020

Andrew Jünger estreia-se num desabafo eletrónico de melancolia inerte



Andrew Jünger é o novo projeto criativo do bracarense Sandro Menino (mentor de projetos como: Suicide Echoes, Cotard Delusion, Sid Suicide e Sid & The Fall) que se estreia agora com novo disco sob o cunho de Nigredo. Fruto de uma aventura sonora que percorre diferentes texturas, ambiente e emoções é, na voz melancólico-espacial que Andrew Jünger nos chama a atenção. Num cruzamento entre o arrojo de Nick Wade (Alien Sex Fiend) a decadência de um Rozz Williams (Christian Death) e a timidez de Ronny Moorings (Clan Of Xymox), Andrew Jünger pinta um retrato vocal bastante estimulante para os fãs das estruturas mais góticas da corrente underground. A acompanhar pauta toda uma eletrónica singular que é densa, emocional e altamente contemplativa.

Segundo o produtor, "Nigredo nasce nas páginas da vida, entre o introvertido sol e as luzes neon da lua", apresentando um conjunto de oito temas "que abordam o tempo, muitas vezes contado entre bafos de nicotina, as estações, com as suas díspares flores de diferentes humores, e o espaço, em fotografias mentais de locais ou momentos". 

Num acompanhamento eletrónico que vai beber influências a vastas gamas de géneros, desde o industrial ao glitch, sem nunca descurar das vertentes do techno dark e da espontaneidade dançante da darkwave, Andrew Jünger apresenta uma estreia que pauta essencialmente por nunca cair na monotonia. A eletrónica é camuflada por sintetizadores espaciais com traços abatidos e uma certa natureza que aporta esperança e que nunca deixa de surpreender a cada música volvida. Temas como "God Walks With Me", "Sweet", o poderoso "Shine" e mesmo o tema de encerramento "Closing The Circle" mostram bem vívido e presente todo este desabafo de melancolia inerte. Aproveitem para o ouvir na íntegra abaixo.

Nigredo foi editado em formato digital e self-released no passado dia 5 de fevereiro. Podem descarregar o álbum completo na modalidade name your own price aqui.


+

Dela Marmy fala-nos sobre o novo EP, Captured Fantasy


Joana Sequeira Duarte tem desenvolvido o seu trabalho artístico no cruzamento interdisciplinar entre a música e performance. Entre 2011 e 2017 integrou a banda The Happy Mess (synths e voz) e participou na criação de dois álbuns – Songs From The Backyard e Half Fiction. Foi apenas em 2019 que se estreou em nome próprio com o projecto Dela Marmy, onde reúne as sonoridades característica do dream pop e indie rock, editando no mesmo ano um conjunto de singles que viriam a resultar no EP homónimo (KPRecords).

O segundo EP da artista, Captured Fantasy, foi editado no passado dia 27 de março nas diversas plataformas digitais pela KPRecords*KillPerfection, e conta com a produção de Charlie Francis. Neste novo trabalho Joana pretendeu alargar as colaborações artísticas, por desejar sentir-se desafiada e livre com a partilha de experiências e ideias. Convidou, então, a escritora e poetisa Raquel Serejo Martins para a letra de “Flying Fishes” – tema de abertura do EP – e o lyricist galês TYTUN para participação no introspectivo “Take Me Back Home”. 

A cada um dos cincos temas do EP pode ser atribuído um dos cinco sentidos. Captured Fantasy é, entre outras hipóteses, um disco sensorial, um disco que regista/captura momentos e sensações.

Flying Fishes AUDIÇÃO

O tema é dado por um teclado agudo psicadélico, as sensações auditivas estão apuradas, a imagética das palavras (da Raquel) é forte, os sons dos instrumentos são enérgicos e distintos entre as partes; é possível ouvir o som dos peixes a voar e dos pássaros a mergulhar, tudo em espiral, num mantra. Precisamos de natureza, de irrealidade, de amor, do outro.


Tempest VISÃO

Não é uma boa visão, ou paisagem, aquela que temos tido sobre o nossa planeta-casa. Assistimos a tempestades furiosas, fogos intensos, temperaturas térmicas fora do normal, derretimento dos glaciares, cidades de plástico nos oceanos, vírus mortíferos, guerras de poder, capitalismo predador, xenofobia e racismo, refugiados em barcos e contentores – mortos. É preciso recuar, se ainda houver tempo para o recuar.


Old Human TACTO

O tema de maior intimidade. A pele é absorvente e está exposta, nua e crua. A voz principal, a voz dos coros, o teclado trémulo em cada pulsação/batimento, as mãos que arrumam estrelas, que as transportam. Sente-se em toda a composição a fragilidade, antiguidade, densidade, leveza e textura. As texturas, o vazio que impacta a pele, o sol que impacta a pele. Tudo através da pele, a apreensão do mundo e de si mesmo através da pele, do tacto.


Not Real OLFACTO

Farejar a intuição, seguir o rasto e o cheiro da imaginação, pode levar-nos por qualquer lugar; precisam-se de vidas que não estas impostas, precisa-se da vida de cada um, que responda ao seu próprio tempo e às suas necessidades. Seguem-se as pistas, perfuram-se as brechas, quebram-se estereótipos e padrões sócio-políticos. É que, na realidade, a realidade não existe.


Take Me Back Home PALADAR

A contemplação do tempo em que se imagina regressar a casa; o conforto gerado por esse estado emotivo e, consequentemente, sentimentos: pertença, solidão, bravura, tristeza, ansiedade, conquista, amor. Saborear a memória, a ideia de casa, a nostalgia de quem está longe e a paisagem idílica do regresso.



Captured Fantasy está disponível no Bandcamp de Dela Marmy para audição integral e gratuita, podendo também ser adquirida a sua versão digital.

+

sábado, 28 de março de 2020

NNHMN lançam novo vídeo para "Der Unweise"


Quase quatro meses depois da edição de Shadow In The Dark (2019, Oráculo Records / K-dreams Records) os NNHMN - uma das duplas mais atrativas do novo cenário da darkwave - está de regresso com novo trabalho audiovisual para o tema "Der Unweise". Há cerca de duas semanas o projeto que junta Lee Margot e Michal Laudarg pediu aos fãs para escolherem entre os temas "Der Unweise" e "Shadow", qual o que queriam ver ilustrado num trabalho audiovisual. Ganhou a poderosa "Der Unweise" e o resultado filmográfico chegou esta sexta-feira aos radares.

Num cenário sinistro - tanto quanto a aura atmosférica da música - os NNHMN começam por nos apresentar uma mulher de branco a representar o lado celestial da essência humana, à qual juntam, em contraste, as filmagens de cenários apocalípticos e misteriosos. Pelo meio surge uma figura masculina de preto em contraste com imagens de uma natureza mais resplandecente. Mais para o fim a mulher de branco toca no homem de preto e o cenário vai-se tornando cada vez mais macabro. Aproveitem para visualizar o resultado abaixo e tirar as vossas próprias conclusões.

Shadow In The Dark foi editado a 5 de abril de 2019 em formato cassete pelo selo k-dreams e em formato vinil pelo selo Oráculo Records. Podem comprar a vossa cópia aqui.


+

STREAM: Gloria de Oliveira - Fascination


Gloria de Oliveira é um dos segredos mais bem guardados deste estranho 2020. A artista de nacionalidade alemã e brasileira, no ativo desde 2017 apresenta em Fascination, a sua primeira compilação disco de estúdio. Numa música de texturas almofadadas, tão decadente quanto saudosa, Gloria de Olivera traz à memória as paisagens atmosféricas de uma Lana Del Rey com os ecos sedosos de uma Marissa Nadler, mas num cenário mais influenciado pelas ondas da darkwave. O disco incorpora um conjunto de dez temas que se encontram originalmente presentes em edições como Lèvres de Sang (2019) ou La Rose De Fer (2019) entre temas soltos editados exclusivamente no formato de single. Juntamente com os temas de composição própria, Fascination vem ainda acrescido de sete remixes de autoria de nomes como Gudrun Gut, Fragrance., The Wide Eye, Box And The Twins, The Wide Eye, Tellavision e Elkks.

Desta nova compilação tem-se feito ouvir em alto e bom som o tema "The Only Witness" (que teve recentemente direito a um trabalho audiovisual, disponível aqui), faixa extremamente mágica a juntar os mais doces sintetizadores a uma voz celestial tão bonita quanto imersiva. Dentro desta aura encontramos também músicas como "The Field Where I Died" - tema onde ganham foco os monocromáticos ritmos da batida eletrónica juntamente com os conquistadores vocais etéreos de Gloria de Oliveira; "Black Violets" - a ganhar um desenvolvimento na linha temporal altamente estimulante; e a balada ostensiva presente em "The Dead". A compilação pode reproduzir-se na íntegra abaixo.

Fascination foi editado na passada sexta-feira (27 de março) em formato CD, vinil e digital numa co-produção entre os selos Reptile Music e Cargo Records Germany. Podem comprar a vossa cópia aqui.


+

Nils Frahm celebra Dia do Piano com álbum surpresa, Empty



"Para marcar o 88º dia do ano e como um reconhecimento a estas circunstâncias sem precedentes em que nos encontramos, o pianista, produtor e fundador do Dia do Piano Nils Frahm lança uma coleção de oito peças para piano intitulada Empty", pode ler-se no Bandcamp da Erased Tapes.

Originalmente escrito para a banda-sonora da curta-metragem que o músico alemão gravou com o amigo e realizador de cinema Benoit Toulemonde, o LP de oito faixas foi lançado este sábado, dia 28 de março, para coincidir com o Dia do Piano, que o mesmo fundou em 2015.

Empty marca o primeiro lançamento de Nils Frahm em 2020, dando sucessão ao tríptico de EPs lançados entre junho e setembro de 2019 e que foram posteriormente reúnidos na compilação All Encores.

O disco encontra-se disponível nas várias plataformas de streaming e soa assim:







+

STREAM: HØRD - Bodies


HØRD - um dos incendiários nomes da vanguarda da eletrónica com base em sintetizadores - regressou esta semana às edições de estúdio com Bodies, o terceiro disco da carreira que chega dois anos depois de Parallels (2018, Avant! Records). De volta às texturas ruidosas construídas ao redor de sintetizadores abrasivos, o projeto a solo do produtor francês Sebastien Carl apresenta, ao longo das oitos faixas que comprimem este novo longa-duração, um trabalho sonoro com forte aposta em sintetizadores etéreos, batidas analógicas profundas e uma voz arrastada. Num trabalho surpreendente de texturas assimiláveis HØRD volta a deixar evidente a razão pela qual o seu nome se tem visto rotulado com selo de qualidade no panorama da música underground.

Em Bodies HØRD compõem-nos uma banda sonora onde a synthwave vai buscar ténues influências aos anos 80, encontrando-se com ritmos eletrónicos e um ambiente sci-fi construído para que o ouvinte entre numa dimensão moderna de som arrastado. Deste novo trabalho já tinham anteriormente sido divulgados os temas "Bodies #14" - um convite hipnotizante à eletrónica de estética negra - e "Bodies #11" - uma faixa densa em emoções soturnas com um poder perspicaz altamente aditivo. Além das referidas, forte destaque ainda para "Bodies #02", "Bodies #04" e "Bodies #17" num disco que é psicologicamente imersivo e amplamente profundo.

Bodies foi editado na passada sexta-feira (27 de março) pelo selo Avant! Records em formato vinil e digital. Podem comprar a vossa cópia física aqui.


+

sexta-feira, 27 de março de 2020

STREAM: Window - Endless Cycle


Os Window, dupla que une Dylan Travis (Some Ember) a Reuben Sawyer (The Column, Anytime Cowboy) editam esta sexta-feira o seu novo curta-duração, Endless Cycle, trabalho de cinco sumptuosas malhas a operarem entre os territórios da EBM, industrial e dark techno. O projeto - que conta já com alguns anos de existência ao lado de editoras de culto do mundo underground, como é o caso da Total Black e da Fallow Field - junta agora forças à iminente editora da vanguarda, a Third Coming Records, para explorar as mais diversas aplicações das caixas de ritmo, numa eletrónica desafiante, dinâmica e bastante poderosa. Marcado pela onda negra que aporta - onde ganham especialmente destaque os vocais carregados em tons de ira e revolta, os Window trazem um ciclo (quase) interminável de agitação e angústia, retratados numa onda eletrónica minimalista e psicologicamente densa.

Deste Endless Cycle tinha sido já apresentado o primeiro tema de avanço "Ashen", uma das mais estimulantes faixas do disco, a apresentar um certo rigor abrasivo e cru altamente aditivo. A par das mencionadas faixas, destaque ainda para a imersão inerte de "Desert" -  uma das mais espaciais composições do disco -; "Carbon" - que, juntamente com "Ashen", volta a apostar numa onda de sintetizadores vibrantes e energéticos a elevarem as expectativas para aquele que deverá ser o resultado ao vivo emanado pela dupla; e ainda o tema de encerramento "The Stone" a levantar da penumbra o carácter imperativo dos Window. O disco pode ouvir-se na íntegra abaixo.

Endless Cycle EP foi editado esta sexta-feira (27 de março) em formato cassete e digital pelo selo Third Coming Records. Podem comorar a vossa cópia física aqui.


+

Dean Blunt regressa com nova compilação, Roaches 2012-2019



Estão definidas as primeiras coordenadas de Dean Blunt para 2020. O músico e produtor britânico, que ao lado de Inga Copeland formou os seminais Hype Williams, é conhecido pela sua pegada digital enigmática e, no jeito idiossincrático que tão bem o carateriza, partilhou esta semana dois novos lançamentos nas várias plataformas de streaming.

São eles Roaches 2012-2019, uma compilação que reúne material dos últimos setes anos (e que inclui o já conhecido tema “Benidorm”, aqui repartido em setes faixas), e Stalker, uma faixa de 60 minutos que consiste num loop contínuo de “Stalker 7”, originalmente partilhado como parte de uma das suas séries de videoarte.

Os novos lançamentos sucedem o anterior Zushi, mixtape de 2019 que contou com contribuições de Yung Lean, Panda Bear, Joanne Robertson (que também entra em Roaches) e A$AP Rocky, ele que já tinha colaborado com o britânico em Soul On Fire, de 2018.

Ainda este ano, Dean Blunt partilhou o tema "WAR REPORT Freestyle". A Hyperdub, editora com quem mantém uma relação profícua, chegou mesmo a anunciar uma performance com o mesmo nome no MAAT, em Lisboa, mas o evento ficou sem efeito.





+

Os pam risourié apresentam "Cinnamon Leaves"


Os parisienses pam risourié definem-se como uma banda de “bedroomgaze”, que mistura as estéticas do dreampop lo-fi com o shoegaze com letras intimistas (fãs dos Mazzy Star, dos Beach House e dos Drop Nineteens irão encontrar nesta banda vários pontos de interesse em comum).

O seu primeiro EP, Noctessa, tem data de lançamento prevista para o dia 29 de maio deste ano e será editado em conjunto pela Silico Records, pela Lofish Records e pela Araki Records. Tendo já divulgado o tema “Night Flowers” no final no ano passado, os pam risourié lançam hoje o vídeo para o tema “Cinnamon Leaves”, também presente no vindouro EP.

Enquanto esperam por Noctessa, podem visitar o bandcamp dos pam risourié, onde se encontram disponíveis todos os trabalhos do quinteto para download gratuito. 



+