quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Os melhores álbuns nacionais de 2020

Os melhores álbuns nacionais de 2020


Ao chegarmos ao final do ano bastante conturbado que foi 2020, também andámos de volta da rigorosa tarefa de recapitular o percurso musical português, selecionando aqueles que foram os registos nacionais que mais se destacaram este ano. Com nomes tão díspares e icónicos como os veteranos Pop Dell’ Arte ou o sedutor David Bruno, apresentamo-vos os melhores álbuns nacionais segundo a nossa redação.



25- TristanyMeia Riba Kalxa

24- UNITEDSTATESOFSelections 1 

23- Filipe Sambado – Revezo 

22- João Pais FilipeSun Oddly Quiet 

21- Van Ayres – Final Spirit 

20- Superalma ProjectThe Endeavor to Understand 

19- ATA OWWO + GUILLIO – Songs for Green Tea and Peppermint Pope 

18- Swan PalaceNo Miracles 

17- Scúru Fitchádu – Un Kuza Runhu 

16- Vaiapraia – 100% Carisma 

15- Clã – Véspera 

14- SreyaCãezinha Gatinha 

13- BardinoCentelha 

12- Império Pacífico – Exílio 

11- ben yoseiLuz 


10- Nídia – Não Fales Nela Que A Mentes 










Com o inconfundível Nídia É Má, Nídia É Fudida, a produtora Nídia Sukulbembe recebeu críticas extremamente positivas em referências internacionais como The Guardian, Pitchfork, The Quietus, Tiny Mix Tapes ou The Wire, e, agora, com o seu segundo álbum, Não Fales Nela Que A Mentes, com selo da Príncipe Discos, conseguiu repetir o mesmo sucesso crítico. Criado durante o regresso de Nídia a Portugal - a produtora vivia em França desde o seu sétimo ano - este representa uma fase da vida da artista em que esta se encontrava desiludida com a sociedade racista e machista em que vivia. A vontade continua presente entre os ritmos de kizomba, tarraxo ou kuduro, mas este é um disco mais recatado e de reflexão. Menos de “discoteca” e mais para ouvir sozinho em casa enquanto se abana os pezinhos. Hugo Geada


9- HHY & The MacumbasCamouflage Vector: Edits From Live Actions 2017-2019



Foi com o selo da Nyege Nyege Tapes, coletivo sediado em Kampala, Uganda, e um dos mais interessantes no que a toca à produção de música africana eletrónica dos últimos anos, que saiu o último registo dos portuenses HHY & The Macumbas. Depois de em 2018 nos terem transportado para o mundo ritualista de Beheaded Totem (House of Mythology), Camouflage Vector: Edits From Live Action 2017-2019 veio aprimorar a toada litúrgica e oculta do ensemble, compilando um conjunto de gravações ao vivo, entre 2017 e 2019, carregadas de intensidade e ancestralidade. Gravado entre Barcelos, Porto e Tenerife, Camouflage Vector contou com o contributo do consagrado produtor britânico Adrian Sherwood na mistura, e foi finalizado pelo mentor dos Macumbas, Jonathan Uliel Saldanha, em Kampala, durante o confinamento. HHY & The Macumbas são neste momento umas das maiores certezas da música experimental portuguesa e a sua internacionalização é já um dado adquirido. Rui Gameiro

 


8- Três Tristes Tigres – Mínima Luz 



Mais de 20 anos depois do lançamento do seu último disco, os Três Tristes Tigres renasceram. Quem conhece a banda através do seu feliz e descontraído pop-rock (quem nunca tentou imitar o timbre de Ana Deus da introdução à capela de "O Mundo a Meus Pés" que atire a primeira pedra), em Mínima Luz está perante um musculado monstro completamente diferente. As letras das canções adotam temas pesados, como o suicídio, e os instrumentais, com a ajuda de loops e distorção, criam uma parede de som que faria Kevin Shields dos My Bloody Valentine corar. O grupo, composto pela supracitada vocalista, Ana Deus, o guitarrista Alexandre Soares e a letrista Regina Guimarães, lançou-se de cabeça para este novo trabalho e criou aquele que é um dos mais ambiciosos e experimentais discos de música cantada em português no ano de 2020. Hugo Geada


7- Pop Dell'Arte – Transgressio Global 





A histórica banda lisboeta Pop Dell’Arte regressou este ano à ribalta em grande forma, muito graças ao seu novo registo pela Sony MusicTransgressio Global, que surge dez anos depois do último disco e que mostra uma faceta sociopolítica mais acentuada do que nunca. A palavra de ordem deste álbum é a mesma que se tem vindo a priorizar desde o início da banda, que tem sido dos porta-estandartes do vanguardismo tuga: quebrar todo e qualquer tipo de barreiras. Nas 22 faixas que compõem o álbum mais extenso dos Pop Dell'Arte, incluem-se obras poéticas de ilustres de várias nações (e por conseguinte, contribuem  para uma abordagem multilíngue) que foram adotadas pela banda, em conjunto com as suas músicas originais. Estas ganham forma vocal pela voz intensa e pronunciada de João Peste e são acompanhadas por uma investida instrumental de pop vanguardista eclética e fascinante, do início ao fim de Transgressio Global. Ruben Leite


6- FarwarmthMomentary Glow 




O produtor Afonso Ferreira divulgou o seu terceiro álbum sob o seu nome artístico Farwarmth, denominado Monumentary Glow, sob a chancela da Planet Mu. Monumentary Glow revela o som característico de Farwarmth, exponencialmente mais desenvolvido e mais desafiante, com recurso a uma imensidade de sons dinâmicos, que têm tanto de contemplativo como de arrasador, moldadas a partir de gravações de sessões de improvisação com pessoas próximas, resultantes de uma residência artística. O fio condutor deste álbum é a criação de composições sonoras que impulsionam a ideia de uma “ressonância emocional” entre o autor e o ouvinte, à base de constante adaptação de sons familiares até ao ponto de serem completamente estranhos, mas ao mesmo tempo, aliciantes. O ouvinte é levado numa travessia conceptual igualmente enérgica e severa, mas que o cativa pela aura misteriosa que se estende pelo álbum. Ruben Leite


5- Lina_Raül Refree – Lina_Raül Refree




Este álbum trata-se de uma colaboração entre o produtor catalão Refree – que já havia trabalhado com nomes como Rosalía ou Lee Ranaldo – e Lina, fadista residente da Casa de Fado e estudiosa do trabalho e legado de Amália Rodrigues. A dupla gravou este álbum com o objetivo de reinventar o Fado, fundindo-o com eletrónicas leves, que fazem das teclas a nova guitarra portuguesa. No fundo, Lina_Raül Refree põem o Fado nas suas mãos e modernizam-no, sem mudanças de tal forma drásticas que o torne totalmente irreconhecível às sonoridades de Amália de que Portugal tanto se orgulha. João Pedro Antunes


4- Luís PestanaRosa Pano




Foi pela mão de Rosa Pano que Luís Pestana se estreou em nome próprio. O produtor lisboeta, antigo guitarrista dos extintos LÖBO, juntou-se à família da americana Orange Milk Records, editora frequentemente associada ao vaporwave mais contemporâneo e à eletrónica gerada à base de colagens sonoras, para lançar este seu primeiro registo. Em Rosa Pano, Luís Pestana reúne oito faixas de cariz sonhador, “o seu próprio folclore inspirado pelas canções de embalar da mãe”, e ao mesmo tempo evidencia uma angústia imediata, muito por culpa da inexistência de quebras entre as faixas. À eletrónica progressiva, a evocar a obra de Oneohtrix Point Never e Tim Hecker, juntam-se elementos da música tradicional portuguesa – “Ao Romper da Bela Aurora” é uma reinterpretação do tema de mesmo título da autoria de Janita Salomé e Vitorino -, assim como ornamentos celebrativos da natureza e da vida rural. Rosa Pano é uma estreia bastante auspiciosa para Luís Pestana, esperemos que o futuro nos reserve novos trabalhos produzidos com o mesmo selo de qualidade. Rui Gameiro


3- David Bruno – Raiashopping

 

Depois de ter explorado a zona de Gaia, primeiro com os Conjunto Corona, onde assume o papel de produtor, e nos seus álbuns a solo, O Último Tango em Mafamude (2018) e Miramar Confidencial (2019), onde musicou as observações que fazia sobre os comportamentos que os seus conterrâneos adotavam em locais como o Restaurante Carpa, David Bruno aventurou-se numa zona geográfica nova. O produtor mudou de ares e no novo disco foi beber inspirações a Figueira de Castelo Rodrigo, vila portuguesa que pertence ao distrito da Guarda, onde nasceram os seus pais. Com o apoio da guitarra de Marco Duarte, que ora produz gentis dedilhados ou solos rebeldes, o produtor transporta-nos a cenários tão diferentes como as festas da discoteca Auritex, em "Festa da Espuma", ou para a cozinha da sua avó, na bela "Flan Chino Mandarim". Em Raiashopping, David Bruno cria o seu trabalho mais sério, uma ode nostálgica ao local onde passava férias durante a infância e a adolescência, e prova que, apesar da sua elevada produtividade (em três anos, o músico conseguiu colocar quatro trabalhos na lista de melhores discos nacionais da nossa redação), este tem o potencial de não se repetir temática e musicalmente. Hugo Geada


2- YAKUZA – Aileron 




YAKUZA é um trio lisboeta constituído por Afonso Serro (teclista), André Santos (baixista) e Alexandre Moniz (baterista), sendo AILERON o álbum de estreia do grupo. Nesta obra, podemos testemunhar uma sonoridade de nu jazz noturno e dançável que faz lembrar o groove da banda sonora de GTA III e de alguns RPG’s dos anos 90. Aconselhável tanto para fãs de jazz como de música eletrónica, mas especialmente para quem tem um ponto fraco por artistas como BADBADNOTGOOD, Kamaal Williams ou Amon Tobin. João Pedro Antunes


1- HHY & The Kampala Unit – Lithium Blast 


Jonathan Saldanha tornou-se rapidamente num nome incontornável da música electrónica experimental a nível internacional. Sob HHY, alterego que usou ao longo da sua carreira, trouxe-nos com The Macumbas a sua receita única e contagiante de transe-feito-música. Agora, Lithium Blast, uma colaboração com The Kampala Unit e fruto em parte da sua residência com o colectivo ugandense Nyege Nyege, é a nova exploração sonora apresentada por HHY. A ele juntam-se Omutaba nas percussões e tambores híbridos e Florence lugemwa no trompete, contando ainda com secções de sopro adicionais protagonizadas pela banda de metais da prisão de Kampala. O produto final é uma intensa ofensiva de dub, techno e trance, com uma boa dose de elementos de percussão tradicionais capaz de se tornar num dançável tónico hipnótico nos primeiros minutos. HHY volta a demonstrar uma versatilidade já comprovada e testada na produção e experimentação, contando novamente com colaboradores capazes de brilhar e contagiar no meio da sua densidade estética. José Almeida

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terça-feira, 29 de dezembro de 2020

[Review] Offermose - Stilhedens Tårn

[Review] Offermose - Stilhedens Tårn


Stilhedens Tårn | Third Coming Records | outubro de 2020
8.0/10

Em outubro chegou às prateleiras mais uma edição de renome no catálogo Third Coming Records - Stilhedens Tårn - o último esforço longa duração do produtor dinamarquês Offermose. O álbum, anunciado oficialmente em agosto, chegou às prateleiras dois anos após a estreia com Mørkt Forår (2018, Third Coming Records, Pomperipossa) e ganhou amplo destaque internacional pela edição peculiar que recebeu - que, além do tradicional vinil preto e versão CD, deu fruto a uma tiragem em vinil azul limitada, onde 100 das 200 unidades incluíam um jogo de tabuleiro desenhado exclusivamente para o lançamento da obra. Com uma força de projeção que se expande além das ondas sonoras, Offermose enriquece o seu pobre mundo lírico com uma expressiva aposta visual que além do design atraente e packaging inovador, se reforça também no campo audiovisual, com vídeos repletos de idealizações do imaginário humano (como foi o caso de "Sjælens Ruin"). 

Numa abordagem mais retro futurista que no disco antecessor, em Stilhedens Tårn Offermose não se desprende do rótulo dungeon synth que o descreve e aposta numa eletrónica cinematográfica que explora desde o suspense a territórios de sinistra amargura. Aqui há espaço para misturar ondas ambient com camadas suspensas de ficção científica, num retrato decadente e insípido da natureza que nos circunda. Influenciado pela escola alemã e por clássicos filmes dos anos 70/80, na abordagem sonora que esculpe, Offermose consegue conduzir o ouvinte a uma viagem aos campos da eletrónica ligeira e contemplativa, de forma mais afincada que nas edições anteriores. Para o produtor, criar sensações que divergem no sentido - com base numa eletrónica minimal e progressista - é uma das características peculiares que tem explorado desde o EP de estreia Bag De Hvide Tinder (2016). Desde então o produtor dinamarquês tem apresentado uma mestria singular no controlo dos sintetizadores e pretende cada vez mais afirmar-se na cena underground através dos seus retratos sonoros soturnos e cabisbaixos, ainda assim envoltos por uma aura poética profundamente contagiante. 


[Review] Offermose - Stilhedens Tårn

Stilhedens Tårn
é sem margem para dúvidas o registo mais intenso e futurista de Offermose, por desprender-se de alguma monotonia sentida em abordagens passadas e focar-se na experiência imersiva do som. Ao redor todo um exercício sonoro slow motion pronto para desacelerar um mundo em agonia, Stilhedens Tårn é uma viagem profundamente envolvente e marcante que se complementa a cada minuto volvido. A primeira prova dessa difusão tão acarinhada chegou ao mercado em maio com "Sjælens Ruin" no posto de escuta. Numa apoteose eletrónica de sci-fi Offermose oferecia-nos uma primeira amostra da sua cave inundada por sintetizadores e reverberações, num tema com forte impulso e abordagem maturada. Já com agosto nos dias finais, Offermose retomaria ação com "Korrupt Tradition", uma amálgama sonora de desenvolvimento arrastado, caracterizada por um corpo nostálgico e emocionalmente contagiante. Através do toque do suspense iminente, "Korrupt Tradition" fez-nos viajar aos limites invisíveis entre diferentes estados de emoção, numa experiência quase psicótica, endeusada pelos órgãos de tubos em consistência com a eletrónica explorativa e algures espiritual. Avizinhava-se aqui um lançamento promissor. 

[Review] Offermose - Stilhedens Tårn

Seria então, nas semanas anteriores ao lançamento oficial do disco, com o tema homónimo "Stilhedens Tårn" que o produtor dinamarquês deixava claro que no novo disco tinha crescido brutalmente e preparava-se para oferecer um bom produto de consumo. O comprovativo chegaria a meio de outubro num disco encorpado, vigoroso e profundamente arquitetado para os fãs de
soundtracks. Desde a abertura com "Seklernes Nat" à despedida dissonante com "Tvillingeflamme", Offermose cria um universo poético sem qualquer palavra declamada claramente focado na experiência do ouvinte. Há espaço para oferecer conforto numa mescla de som amplamente contagiante - mesmo que, por vezes, sinistro - além de toda uma rota sensacionalista ao mundo dos sintetizadores das cavernas. 

Numa dimensão mais retro e de produção afunilada, neste novo Stilhedens Tårn Offermose volta a mostrar as luzes insípidas dos seus trabalhos antecessores, esculpindo um retrato sonoro escultural com o desenrolar da narrativa sonora. Composto por seis temas altamente concisos, Stilhedens Tårn é sem dúvida um disco denso, envolto em emoções quase catárticas (e abismalmente conquistadoras) que se quer ouvir em loop sem nunca cansar. Naquele que é o trabalho mais auspicioso na carreira, Offermose deixa espaço para se lhe tecerem rasgados elogios, enquanto ilumina as almas perdidas numa onda etérea, sonante e característica do vazio cósmico.

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sábado, 26 de dezembro de 2020

STREAM: Mind Orchestra - "You Flourish Before You Die"


Mind Orchestra é o alter-ego de si!va, sendo You Flourish Before You Die o primeiro fruto desse mesmo projeto, lançado em pleno dia de natal. Composto por cinco faixas, este lançamento afasta-se bastante do hip-hop instrumental, zona de conforto do artista português, para abraçar fortemente a música de dança, em especial o drum-n-bass e o breakbeat.

Ao longo de quase vinte minutos de eletrónica dançante, Mind Orchestra transiciona-se constantemente entre os ritmos violentos, como em “pple”, para segmentos mais melódicos verificados em “acht”, restando também espaço para alguns vestígios do hip-hop instrumental em “instrumental”.

O EP está disponível em formato digital, no YouTube e no SoundCloud, podendo ser ouvido na íntegra abaixo:

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quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Agora é oficial. "Whole Lotta Red" anunciado para dia 25 de dezembro

 

Após 2 anos de espera com os fãs a falar de leaks, suposições e tudo mais... O rapper americano Playboi Carti finalmente confirma que Whole Lotta Red existe e mais, vai ser lançado nesta quadra natalícia como agradecimento aos seus seguidores.

Depois do sucesso de Die Lit em 2018, pouco se sabe ainda sobre este segundo álbum de Carti. Especula-se que Kanye West e Mathew Williams da Givenchy serão os produtores executivos de Whole Lotta Red, de acordo com o leak de DJ Akademiks, que também acertou no dia de lançamento deste álbum num tweet de há duas semanas. O mais perto que temos de ter um avanço oficial a WLR está no instagram de Playboi Carti, numa suposta música com participação de Kanye West, que podem ver abaixo.



Além disto, Playboi Carti também deu a entender que Travis Scott vai participar numa faixa de Whole Lotta Red. Todo o álbum está envolto em mistério, com informações (como esta última) a terem de ser decifradas na conta de Twitter do Carti. 

Resta a nós esperar até o dia de Natal para finalmente abrirmos esta 'prenda'.

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[Review] Babe, Terror - Horizogon

Review_Babe Terror_Horizogon

Horizogon | edição de autor | setembro de 2020
9.0/10

Considerado pelo jornal inglês The Guardian como o Global Album Of The Month do mês de setembro, Horizogon apresenta-se ao mundo como o décimo primeiro registo de Claudio Szynkier. Este artista, oriundo de São Paulo, dá forma ao projeto de eletrónica experimental e hauntológica Babe, Terror

Com uma carreira iniciada em 2008, Babe, Terror lançou o seu disco de estreia no ano seguinte - Weekend - trabalho que é descrito nas tags de bandcamp como “Wrong Dance Music”. Por esta altura, o método de composição de Babe, Terror baseava-se em criar com a sua voz refrões melódicos e a partir daí modelar e gerar repetições numa toada distorcida, de forma a tornar irreconhecível a melodia original. Com o avançar dos anos, o artista foi ampliando os seus métodos de criação e começou a ensaiar com linhas mais complexas, que surgiram de descobertas e experiências com a decomposição de formas originais - Szynkier passou a compor com outros elementos sonoros além da voz, recorrendo ao piano e a técnicas de sampling de diferentes fontes. 

O registo seguinte de Babe, Terror, intitulado Knights, saiu em 2012 com o selo da Phantasy - editora fundada por Erol Alkan que tem no seu catálogo edições de Daniel Avery, Connan Mockasin - e invocou sonoridades características do clubbing, tal como o IDM, o ambient techno e a house mais lo-fi. O ano de 2013 trouxe College Clash, um dos registos menos conseguidos do artista onde sonorizou uma homenagem ao basquetebol universitário e a todo um conjunto de atividade de caráter estudantil numa versão bem sinistra. Ancient M'ocean veio consolidar a aposta nas texturas mais dançáveis e surreais por parte de Babe, Terror, aproximando-se dos territórios de GAS e Boards of Canada. Editado em 2017 novamente com o selo da Phantasy, este disco levou aproximadamente quatro anos a ser composto, fazendo-se acompanhar por uma banda desenhada conceptualizada pelo próprio e realizada por Michael Crook, a qual tão bem retrata a submersão e o sentimento cinemático por detrás do disco. 

Aindo no ano de 2017 surgiu talvez a oportunidade mais inesperada para o artista. A pedido dos Ride, uma das bandas mais icónicas do shoegaze, Babe, Terror reimaginou o tema “Home is a Feeling”, retirado de Weather Diaries (2017). O resultado foi “A Creamy Crambled Suite For a Ride”, peça de 25 minutos que pode ser encontrada na versão japonesa do disco e também no álbum de remisturas Waking Up In Another Town (2018), na companhia de nomes como Mogwai, Jefre Cantu-Ledesma e Oren Ambarchi. Com o selo da editora de Los Angeles Glue Moon, o ano de 2018 trouxe consigo Fadechase Marathon, disco que foi eleito um dos melhores registos eletrónicos para o Bandcamp nesse mesmo ano e que apresenta uma atmosfera campestre e noturna, mais acolhedora para o ouvinte que em registos anteriores.

Falta de ambição é algo que não podemos apontar à carreira de Babe, Terror, e Horizogon é a prova viva disso. No ano de 2019, Claudio Szynkier dedicou-se ainda mais à experimentação, aliando os habituais elementos eletrónicos a instrumentos normalmente associados ao jazz e a arranjos orquestrais desenhados pelo próprio, os quais conferem um cariz cinemático às suas composições. Com essa experimentação na mente, o produtor vagueou pelas partes mais deterioradas, vivas e brilhantes de São Paulo ao amanhecer e daí resultou o trabalho mais ambicioso que Babe, Terror já produziu até à data, segundo o próprio artista e o autor desta crítica. Inicialmente composto com o objetivo de sonorizar uma cidade de São Paulo a viver um apocalipse calmo e utópico, uma forma catártica de Szynkier “sobreviver” ao apocalipse interno que estava a atravessar, Horizogon revelou-se como a materialização de um sonho bem estranho. Apesar de ter sido elaborado inteiramente em 2019, este disco é dotado de um carater profético e premonitório, feito para se ouvir num ano pandémico como este, em cidades completamente paralisadas e desertas, repletas de harmonias sublimes e invisíveis, algo que julgávamos ser impossível. Essa qualidade longínqua e eremítica de Horizogon muito se deve a uma antiga doença auto-imune de Szynkier, que afeta a sua audição e o obrigou a estar confinado no seu apartamento, realidade que agora nos é bastante familiar. Este impedimento clínico leva a que a produção e a composição por parte de Babe, Terror seja refém dos momentos em que a sua saúde se apresenta em melhores condições, representando uma total incógnita no que diz respeito a registos futuros.

Horizogon é constituído por seis longas faixas que se estendem para lá dos oito minutos de duração e vagueiam pela dark ambient e drone music, ornamentados de elementos do free jazz. “Scalar Velodromeda” é o tema que dá o pontapé de saída ao disco numa toada taciturna, comandada pelo piano e pelo coro de vozes distorcidas e assombrosas, ocasionalmente interpelados pelos ritmos errantes do contrabaixo. O segundo tema “Alcalis” vem dar seguimento à atmosfera lamentosa e críptica, mas de um modo mais sintético. O otimismo e a nostalgia marcam também presença em Horizogon, principalmente na terceira faixa “Horizogon Squadra”, onde reina o sentimento cinemático e jazzístico protagonizado pela combinação suave do piano, contrabaixo e saxofone. “Estuário Transurânia” apresenta-se como a melhor faixa do registo, com alguns laivos da eletrónica progressiva de Oneohtrix Point Never a pontilharem as camadas sintéticas. A obra de William Basinski é uma clara influência nos registos de Babe, Terror, e é na faixa “Salina Lúmen” que essa influência desorientadora da tape music é bem notória. Percorrendo a mesma onda distópica, “Horizogon Catalase” encerra o disco com uma mensagem confiante e esperançosa.

Aliado à vertente sonora, Horizogon assume-se também como um projeto multimédia. Lançado a 4 de dezembro, o filme Os Pólos ("The Poles") foi realizado pelo próprio produtor e por Cauê Dias Baptista, retratando o estado de solidão em que a cidade de São Paulo se encontrava nos primeiros dias da pandemia. As seis músicas que fazem parte de Horizogon ganham aqui uma nova roupagem visual imersiva, intensificando a sua matriz cinemática. 

Além de refletir intensivamente sobre a situação sombria que estamos a viver, Horizogon é também um trabalho que se alimenta e inspira na situação de desespero e a ansiedade provocada pelo atual regime político autoritário que vigora no Brazil. Pelas palavras do artista, este disco “sintetiza tudo o que somos e o que passamos agora como um coletivo, como uma cultura de nação mestiça. É, portanto, um trabalho muito forte e dramático para mim, pessoalmente. É um registro de dor, revolução e reinvenção do Brasil pela arte. Ou seja, tudo o que sentimos e precisamos agora”.

Horizogon foi o disco que todos nós mais escutámos este ano, apesar de não o sabermos identificar. Ouvimo-lo no dia-a-dia, quando estamos perante a ameaça de um novo vírus que veio rasgar a normalidade a que estávamos habituados, que veio questionar a nossa saúde mental e o bom senso das populações e governantes, reformulando em grande parte o nosso modo de sociabilizar e sentir. 

Editado a 15 de setembro em nome próprio apenas em formato digital, Horizogon terá direito no futuro a uma edição física com o selo da Glue Moon. Podem escutá-lo em baixo.

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STREAM: Midnight Ambassor - Fragile Igloo

STREAM: Midnight Ambassor - Fragile Igloo

Lançado no passado dia 20 de novembro, Fragile Igloo é o mais recente EP de André Graça, mais conhecido por Midnight AmbassorO músico português, que estudou diversos instrumentos em Beja, mudou-se posteriormente para o Reino Unido, onde continuou os seus estudos musicais e desenvolveu a sonoridade deste seu projeto a solo. Influenciado por artistas como Childish Gambino, Glass Animals e Alt-Jprocura juntar uma musicalidade sofisticada a uma destreza lírica e grande atenção a ritmos e batidas.

Fragile Igloo conta a história da sua difícil mudança para Londres, abordando temas como o amor, a saúde mental e os trabalhos precários que o músico teve para sustentar o seu sonho.

O EP pode ser ouvido em diversas plataformas de streaming e está à venda em formato digital no Bandcamp. Ouçam-no aqui:

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segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

DARKSIDE estão de volta com novo disco

© Jed DeMoss

Muitos são aqueles que se arrependem de terem trocado DARKSIDE pelos Mogwai no NOS Primavera Sound de 2014. Afinal de contas o conjunto escocês que se consolidou como um dos nomes mais fortes do pós-rock já regressou ao nosso país pelo menos umas três vezes, ao passo que a dupla formada por Dave Harrington e Nicolas Jaar entrou em hiato no final desse mesmo ano

A parte positiva dos arrependimento é que estes nem sempre são definitivos e o anúncio de um novo disco dos DARKSIDE pode servir como emenda (e uma possível tour de apresentação, quando isto tudo acalmar). O duo recomeçou a compor discretamente por volta de 2018, tendo finalizado as gravações já no final de 2019. Intitulado Spiral, este novo trabalho dos DARKSIDE tem data de edição prevista para a primavera de 2021, com o selo da Matador Records, e vem suceder o aclamado disco de 2014, Psychic, um verdadeira ode à música de dança minimal e hipnótica.

"Liberty Bell" é o primeiro avanço de Spiral e pode ser escutado em baixo.

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Vlimmer encerra o projeto de 18 EP's com XIIIIIIII

Vlimmer encerra o projeto de 18 EP's com XIIIIIIII


Estávamos em 2015 quando Vlimmer - o projeto a solo do autodidata Alexander Leonard Donat (Blackjack Illuminist Records, Feverdreamt, WHOLE) - se auto propôs a lançar um capítulo de narrativas composto por 18 EP's. Cinco ano depois do início e, num crescimento conciso edição após edição, Vlimmer despede-se com objetivo cumprido em XIIIIIIII, a cereja no topo do bolo. Naquela que é talvez a melhor edição da "narrativa", o produtor alemão mostra um crescimento notório ao nível da produção construindo um universo musical composto por cinco canções sonhadoras, estimulantes e altamente maleáveis pelo corpo humano. 

No core da música esteve sempre o protagonista Jagmoor Cynewulf que, nos primeiros anos operou a partir das catacumbas de um laboratório obscuro numa mansão centenária que jazia semidestruída no nevoeiro. Com os anos ambientou-se ao meio urbano, o que se reflete na musicalidade mais cativante e cintilante. As primeiras quatro músicas deste XIIIIIIII provam isso mesmo, combinando ondas oníricas obscuras com a veia independente dos anos 90.

Caracterizado pela sua abordagem eletrónica, vasta e multifacetada, Vlimmer consolida no novo EP a sua motivação imparável na produção de elementos sonoros que bebem influências dos ambientes soturnos da darkgaze, dos ambientes camuflados da dream pop e das tendências divertidas da synthpopXIIIIIIII é aditivo, luminoso e ainda assim invadido por uma veia de texturas negras. Do novo disco - que pode reproduzir-se na íntegra abaixo - forte destaque para temas como "Nacktheit", "Vorwehen" e o incrível tema de encerramento "Kern".

XIIIIIIII foi editado no passado dia 4 de dezembro em formato CD, cassete e digital. Podem comprar a vossa cópia aqui.



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STREAM: N X P T N E - Quantumnaut

STREAM- N X P T N E - MO7: Quantumnaut


A jovem produtora N X P T N E estreia-se esta segunda-feira nas edições de estúdio com o primeiro disco oficial de carreira oficial, Quantumnaut, que vem dar sucessão ao single duplo "ZERO" e a uma discografia extensa e fragmentada pelo YouTube. No novo disco, N X P T N E apresenta-nos o seu universo estranho e misterioso rico em ritmos artificiais e atmosferas fluidas que nos projetam para uma viagem interior em jeito de exploração do subsconsciente. Na estreia destaca-se essencialmente a sua vivacidade composicional num mundo sonoro fortificado pela paleta experimental.

Ao criar um paralelismo entre uma viagem de aventura pelo cosmos, dentro de vigorosos ambientes contemplativos - em Quantumnaut sublinhados pelos vocais sem corpo e as melodias etéreas - N X P T N E cria um disco de estruturas delicadas e envoltas em tragédia numa atitude que faz lembrar o trabalho vocal de Anika, em algumas instâncias. Enriquecendo a sua composição com paisagens pós-industriais, onde samples agudos e texturas estranhas interagem com construções ligeiramente desafinadas, mas melódicas, Quantumnaut apresenta-se como um disco de eletrónica experimental recheado em tonalidades negras e exercícios sonoros impetuosos. Todas as faixas foram escritas e gravadas por N X P T N E e, deste Quantumnaut destacam-se temas como o sonhador "Heavy Sustain", o derretido "When The Sun" e o homónimo "Quantumnaut".

Quantumnaut foi editado esta segunda-feira (21 de dezembro) em formato digital pelo selo italiano MUSICA ORIZZONTALE. Podem descarregar o álbum através da modalidade name your own price aqui.


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O festival Independencia Sónica acontece online a 26 de dezembro

O festival Independência Sónica acontece online a 26 de dezembro

O festival Independencia Sónica - que celebra os movimentos shoegaze, psych, post-punk e dream pop - acontece no próximo sábado 26 de dezembro no formato online, com alguns dos nomes latino americanos em ascensão dentro do panorama. Depois de um ano atípico, a organização decidiu apostar numa versão online do festival (à semelhança do que tem vindo a ser recurso para outras organizações como o Gothicat Festival), incluindo artistas consagrados nos acima mencionados géneros. 

Entre os nomes que mostrarão as suas performances no festival latino americano, no certame encontram-se também bandas estrangeiras como Singapore Sling (Islândia) - projeto do catálogo Fuzz Records que conta com uma discografia viciante a enfatizar o neo psych, shoegaze e noise pop -; Aerofall (Rússia) - uma referência atual do shoegaze russo -; The City Gates (Canadá), com a sua distorção made in Canada e ainda Jaguar Sun (Canadá) a focar-se numa dream pop elegante e intimista.

O alinhamento é completado por bandas como Seatemples (Chile) - que conseguiram posicionar seu elegante shoegaze / post-punk no cenário europeu -; Lasitud (México) - a com o seu post-gaze asteca de vocais versáteis -; Nax (Argentina) - a representar em pleno o som da região -, Anajunno (Argentina) - que consolidaram a sonoridade em Fuego Invierno com uma pop sonhadora e intimista -; Zorro de Estrellas (Argentina) que mostram uma dream pop rica e sedutora -; Loomer (Brasil) - projeto que tem uma carreira muito proeminente e aclamada nas ondas do legado dos My Bloody Valentine -; Rilev (México) - uma das bandas de rutura da cena shoegaze da Cidade do México -; e ainda The LS Days (México), outra banda jovem da cena mexicana.


A segunda edição do Independencia Sónica tem início às 7PM UTC, que corresponde às 19h00 em Portugal. Todas as informações adicionais podem encontrar-se aqui.

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sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

As 16 revelações nacionais de 2020



Não foi fácil, mas o longo pesadelo que tem sido 2020 está finalmente a chegar ao fim. Foi um ano especialmente difícil para músicos, que viram a sua principal forma de criar rendimento a ser limitada com a atual pandemia, e para inúmeros espaços de concertos que tiveram de fechar portas por não conseguir criar receitas para pagar as suas despesas. 

Neste espaço pretendemos homenagear aqueles que tiveram coragem de começar uma nova aventura musical e oferecer a todos os curiosos uma companhia para enfrentar o confinamento. Desde o jazz tuning dos Yakuza ao club distópico de Swan Palace, eis as revelações nacionais de 2020 para a Threshold Magazine.




Henrik Ferrara
e Guilherme Correia são ATA OWWO e GUILLIO, artistas que trabalham em música experimental e eletrónica que uniram esforços para a composição e gravação do seu álbum de estreia como dupla, Songs for Green Tea and Peppermint Pope. Desenvolvido durante quatro dias passados em retiro rural, este baseia-se no improviso e na experimentação, que deram origem a temas que atravessam territórios variados.

“Rico em Riscos de Ferrugem” e “Chá Frio/Chá Quente”, faixas de abertura, adivinham desde cedo as várias facetas do projeto. A primeira combina melodias robóticas sintetizadas a guitarras barulhentas e ritmos de bateria fluídos e dinâmicos, gerando um pandemónio musical de grande intensidade. A segunda apresenta um ambiente sonoro pormenorizado e suave, sobre o qual sintetizadores e flautas são tocados de forma hipnotizante, transportando-nos para uma floresta encantada de um mundo de fantasia. O resto do álbum continua a brincar com as nossas expetativas, passando por diferentes sonoridades e ambientes.

Songs for Green Tea and Peppermint Pope é a inevitável conclusão de um encontro entre músicos em consonância. Uma breve, mas forte explosão de criatividade e sabores que nos transporta para diferentes mundos e nunca nos deixa ficar confortáveis durante demasiado tempo. Rui Santos. 


Bonifácio

Já estávamos nos últimos dias de Verão quando o produtor portuense Bonifácio deu à margem, com o seu EP de estreia, Hanami. O disco, que guarda na essência uma série de experiências assimiladas por João Bonifácio aquando uma viagem ao Japão ganha destaque nas edições do ano e afirma-o como uma das revelações em tempos vindouros. 

É facto que a música ambiente é um dos grandes motores da produção nacional e Bonifácio aproveita esse mercado emergente para projetar o seu nome no meio. A aposta vem claro da Regulator Records, um ninho para a acensão de novos projetos, como foi o caso de Forest Fires e Misfit Trauma Queen no ano passado e agora de Bonifácio. Ao longo de quatro temas - nos quais forja o seu rumo muito próprio, ao condensar camadas luminosas, sintetizadores despretensiosos e uma bateria tão suave quanto hipnotizante – Bonifácio aposta na exploração de ambiências sonoras situadas entre a doçura da pop eletrónica e os sentimentos alucinogénios da correria social evidenciada no séc. XXI. Dinâmico na abordagem, com este Hanami, Bonifácio tece um disco suave, translúcido e sedutor pronto para o fazer efervescer. Sónia Felizardo


Cátia Sá

Da Barriga, o primeiro trabalho de Cátia Sá em nome próprio, nasce de um desejo de superação e da vontade da cantora escrever, compor, gravar e produzir o seu próprio disco. Para o efeito, a vocalista dos extintos Guta Naki serviu-se do material que tinha à mão e de um pequeno theremin que a própria construiu para elaborar preciosas canções de uma electrónica tropical e onírica. Introduzindo uma abordagem mais exploratória que nos seus projetos anteriores, Cátia Sá constrói um universo sedutor de samples e batidas fragmentadas, melodias luminosas e texturas atmosféricas que dão corpo a um trabalho que tem na voz o seu principal elemento – ora limpa e graciosa como em “Mareh”, ora metálica e processada como em “Freirinha”, num misto entre a canção popular de B Fachada e a devoção espiritual de EartheaterFilipe Costa




Intenção é o trabalho de estreia de EVAYA, nome artístico de Beatriz Bronze. A cantora, produtora e compositora utiliza elementos pop combinados com música eletrónica, composta por sons que a rodeiam no dia-a-dia. EVAYA tenta dar a mão ao ouvinte, para que este a acompanhe numa viagem onde aborda temas como a natureza, a guerra, a paz e a esperança. Enquanto procura despertar neste o interesse de se tornar íntimo com a dinâmica das suas emoções.

Beatriz Bronze apresenta-se ao público com um trabalho conceptual, em que o registo vocal terno se envolve amiúde com uma melodia eletrónica, formada pela heterogeneidade de sons do quotidiano da artista. Os conceitos de intenção guiada pelas emoções, progresso pessoal e a atual dinâmica de grupo vivida mundialmente são temas que se encontram intrinsecamente presentes nas músicas de EVAYADavid Madeira


Fashion Eternal

Da união entre o produtor Vítor Bruno Pereira (Aires, Shikabala) e o baterista João Valinho nasceu Fashion Eternal. Fashion is Never Finished é o primeiro esforço desta entusiasmante sinergia, uma peça de 18 minutos que propõe interrogar os limites da música ambiente através de um diálogo provocador entre eletrónicas abstratas e palpitações rítmicas em forma de percussão. Através de um processo exaustivo de reapropriação – feito de cortes, colagens e repetição – Fashion is Never Finished explora "a integração (e desintegração) dos efeitos e manifestações da cultura popular sónica no quotidiano", sublinha-se nas notas de edição, orientando o ouvinte por uma narrativa debordiana em tempo real que pretende desconstruir o “estímulo musical viciado ao qual estamos sujeitos por esta sociedade espectacular". Filipe Costa


himalion

O álbum EGRESS - an introduction to himalion, uma edição de autor, é a estreia nos discos em nome próprio do músico aveirense Diogo Sarabando com a sua nova identidade artística himalion. EGRESS é, acima de tudo, um registo que retrata uma jornada - que tipo de jornada, isso depende da interpretação de cada um - que é retratada pelas oito faixas que compõem o seu alinhamento, e que possuem uma aura mais introspectiva e esotérica na sua narrativa lírica. A sua sonoridade denota um apego a sonoridades mais etéreas e pastorais próprias do indie/alternative folk (com um leve teor a sons reminiscentes do ambient) que transportam o ouvinte para um imaginário similar ao de nomes como Sufjan Stevens. Os singles “Around the Mend” e “(海岸) Hour + Glass” são um cartão-de-visita bastante atrativo para o resto do conceito de EGRESSRuben Leite


João Vairinhos

O menino prodígio da bateria dedica-se agora à produção a solo com Vénia, o seu primeiro esforço que pauta pela toada instrumental dinâmica, tão familiar em certas instâncias, como distante e surreal, noutras. 

Depois de anos a tocar em palcos nacionais, escondido dos holofotes, João Vairinhos dá a cara num EP de excelência rico em atmosferas negras e psicologicamente densas. Ao equilibrar ambientes inertes de ritmo a cenários sonoros energéticos e de profunda catarse, João Vairinhos constrói um disco conciso que, apesar da sua curta duração já o consagra como um dos grandes nomes da produção nacional na componente dark da música eletrónica.

O disco de três temas vai beber inspiração a várias obras de ficção científica nascendo entre o negrume da existência e a própria redutibilidade do ser. Sem medo de recriar na mente do ouvinte um estado de surrealismo inerte, João Vairinhos apresenta um disco que cai bem nos estranhos tempos que caracterizam o novo modernismo e que bem reflete os seus traços promissores na produção nacional. Uma vénia. Sónia Felizardo


Lorr No

Nuno Loureiro deixou de ser um nome novo há algum tempo: o membro integrante de grupos como Fugly ou Solar Corona e a cara por detrás de Mada Treku não é uma presença invulgar na cena musical portuguesa. Lorr No é o seu novo projecto e vemo-lo a envergar por caminhos distintos daqueles que tem traçado. Desta vez, em Alergia, escolhe retratar novas paisagens sonoras armado por sons sintetizados e etéreos, trazendo à memória ecos distantes de Tangerine Dream e Vangelis em melhores dias. A electrónica progressiva de Lorr No cria um bom contraponto com o que Nuno desenvolveu enquanto Mada Treku, deixando no passado o ambient negro e cru que Learning Exercises on How to Move On tão bem mostrou. As peças compostas em Alergia têm espaço para brilhar e criar a sua própria voz, não deixando que essa singularidade evite os momentos em que comparações ao trabalho de Daniel Lopatin se tornam inevitáveis. José Almeida




Rosa Pano, a estreia de Luís Pestana em longa-duração, encontrou casa no lugar mais improvável. A americana Orange Milk Records, conhecida por albergar alguns dos mais inventivos documentos da música eletrónica progressiva moderna, é responsável por selar o mais recente trabalho do guitarrista dos extintos LÖBO, que apresenta no seu primeiro álbum um tratado de eletrónicas pastorais inspiradas nas canções de embalar que a sua mãe lhe cantava em pequeno. Composto por oito faixas que balançam entre a insustentável beleza do drone e as qualidades renovadoras da música tradicional portuguesa, Rosa Pano distancia-se das paisagens oníricas da editora americana - que tem em Foodman, Giant Claw e Machine Girl alguns dos seus maiores representantes -, apostando nas potencialidades da composição eletroacústica para construir o seu próprio folclore. Filipe Costa



Night Princess


O ano é 2020 e o sabor do momento é o autêntico festival de incertezas e alienação que projecta uma reestruturação da maneira como vemos o mundo. Talvez seja isso que motiva Night Princess. Talvez não. O que é certo é que o álbum homónimo que editou em Junho deste ano é uma ode à hiperactividade, ao apelo orgânico que a incerteza e distorção conseguem ter. Night Princess, editado pelo Dismiss Yourself Archive, é uma força da natureza movida a chiptune e BPMs altos, sintetizando combinações orelhudas de vozes manipuladas e batidas distorcidas em sequência. Os canones da música de dança revelam-se regularmente neste frenesim enterrados numa produção hyperpópica, com especial destaque para o drum and bass elevado a um quase drill and bass, para as visões/ficções de Xanopticon a canalizar os grandes êxitos de goreshit e 100gecs. Talvez o melhor seja simplesmente descrever toda esta agressão cativante como glitch lolicore hiper-saturado e criativo e ficar por aqui. Talvez não. O que é certo é que Night Princess soa àquilo que espero do futuro e isso - talvez - baste. 
José Almeida


Noiva

Após a sua participação na coletânea RIP 2020, do Coletivo Colunas, Noiva, projeto a solo de Sara Vigário, tem em Condominium o seu primeiro EP. Este é composto por quatro faixas que aliam os sintetizadores a uma série de samples, vários deles retirados de vídeos ou filmes, como a popular comédia de ação ugandesa Who Killed Captain Alex?

Os sons provenientes de diferentes fontes encaixam todos de forma coerente, integrando texturas sonoras e ritmos incomuns, mas dançáveis. “Foreign” é o melhor exemplo disto, com as suas variadas melodias, associadas a diferentes timbres, que aparecem e desaparecem continuamente, gerando uma agitação muito cativante que é segurada pela percussão constante. Esta e as restantes composições navegam pelos caminhos da música eletrónica progressiva, do glitch e da música de dança eletrónica mais alternativa.Condominium é um lançamento totalmente independente, digital e gratuito que pode ser encontrado no Bandcamp da artista. Rui Santos




O duo de produtores Rúben Silva e João Coutinho, conhecidos por Satha Lovek, lançam-se nos registos em nome próprio com o EP PT Malacca pela chancela do Coletivo Farra. O EP demonstra uma ausência acentuada de sentimento patriótico, transportando o ouvinte a um percurso entre Portugal e o bairro português de Malacca, com o propósito de demonstrar uma mensagem satírica ao ultranacionalismo. Tendo isso em mente, a sonoridade que caracteriza a identidade dos Satha Lovek demonstra uma ofensiva caótica mas bastante aliciante que envolve free-jazz, plunderphonics e IDM e que demonstra um espírito bastante sinistro por via de sons de drone tenebroso, batidas ofegantes e samples miscelâneos que não deixam ninguém indiferente. Tudo isto para, ao fim dos 22 minutos que preenchem PT Malacca, ilustrar uma devastadora desconstrução das ornamentadas lendas do império colonial. Ruben Leite


Swan Palace

Depois de anos a aprimorar um corpo de trabalho tão celestial quanto cibernético, com várias composições esporádicas lançadas de forma independente, Swan Palace prossegue a sua missão pelos mundos distópicos da club futurista com No Miracles, tratado alquémico de eletrónicas rarefeitas que assinala a estreia em longa-duração de Pedro Menezes. Composto por seis faixas originais e três remisturas de Odete, UNITEDSTATESOF e Concrete Fantasies, No Miracles é o retrato de uma nova geração de produtores que não olha a géneros e que encontra nas potencialidades dos graves e dos ritmos quebrados o material sónico necessário para exteriorizar os seus sentimentos. Alternando entre a deriva ambiental e a força bruta do noise, do metal e das power eletronics, e com o auxílio de figuras familiares como FARWARMTH e DRVGジラ, que prestam preciosos contributos nas faixas “Rose Gold Skin” e “7777 Angels”, respetivamente, No Miracles carimba a posição do músico sediado em Lisboa na sempre efervescente cena eletrónica da cidade. Filipe Costa






Das periferias de Sintra vem Tristany, artista multidisciplinar que tem no seu Meia Riba Kalxa um dos mais admiráveis álbuns de 2020. Música sem rótulos, dotada de um sincretismo raro nas esferas do hip-hop português: aqui há fado e dor na entrega, combate e resiliência na rima, calor e morna na cadência, afrofuturismo no horizonte. Há, acima de tudo, uma vontade visível de testar, sem medos, qualquer tipo de cânones – Meia Riba Kalxa é um verdadeiro alien na produção nacional. É Frank Ocean nos momentos mais vulneráveis, Valete na hora do combate. É música “apátrida”, como explica na entrevista que concedeu ao Rimas e Batidas, influenciada tanto pelos círculos que frequentava em Mem Martins, quando ainda assinava enquanto Tristany Time Old, como pela música da diáspora africana (o rap crioulo está bem representado nas participações de Chullage e Julinho KSD). É, enfim, um bálsamo, uma obra carregada de emoção e esperança que, não sendo o antídoto, é o escape necessário para estes tempos conturbados. Filipe Costa


Vitor J. Moreira


Engrama é o primeiro disco a solo de Vitor J. Moreira, na vertente mais erudita da sua formação, e é de notar que paralelamente à sua formação clássica, o pianista é teclista dos IAMTHESHADOW, Hot Pink Abuse e membro fundador dos Haus En Factor.

Engrama é um álbum de piano a solo que promete e cumpre exactamente o que expõe, uma colecção de dez canções, quanto a mim belíssimas e que por isso não desiludem. Desde o tom melancólico mas esperançoso de “Amor Maior”, peça que abre o disco, e até ao “Amanhecer” que o encerra, somos transportados para uma viagem íntima ao mundo das teclas brancas e pretas, aos tons maiores, aos sustenidos, à interpretação (sempre tão difícil de registar) de um só instrumento tocado na perfeição onde uma inflexão errada pode desvirtuar todo um sentimento que se quer perfeito. O equilíbrio entre as teclas graves e os registos mais luminosos da mão direita fazem-nos viajar, e é nesse sentido que o disco em questão é sublime. Lucinda Sebastião


YAKUZA

YAKUZA é um trio lisboeta que apresenta em AILERON, o seu álbum de estreia, uma sonoridade nu jazz muito groovy e dançável, repleta de ritmos irresistíveis.  As primeiras três faixas mantêm uma pulsação constante e progridem de forma muito natural, tendo mudanças de secção tão fluídas que podem ser impercetíveis. Onde poderiam ser tocados solos ou melodias adicionais, a banda deixa espaços abertos. O foco está no groove, nas interações dinâmicas entre os membros da banda, que vão introduzindo pormenores deliciosos no meio dos riffs e das batidas.

É nas colaborações com outros músicos que se encontram alguns elementos mais tradicionais do jazz, como solos e o uso de piano em vez de sintetizador. A composição que mais avança nessa direção é a brilhante “PICHELEIRA”, mas até esta conta com o som mais característico do trio nos seus minutos finais, durante os quais os timbres do sintetizador passam para primeiro plano. O primeiro disco dos YAKUZA é uma excelente surpresa que alia o jazz à música eletrónica, recomendável a fãs de artistas como BADBADNOTGOOD ou Kamaal WilliamsRui Santos

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