quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Estação Mercado - "Há uma festa aqui ao lado"


João Morais, músico desde os finais dos anos 80, integrou, entre outras bandas, os Gazua, criando em 2016 o alter-ego O Gajo, por forma a explorar caminhos alternativos e criativos com a viola campaniça, instrumento igualmente conhecido como viola alentejana. Em 2017, lançou o álbum de estreia Longe do Chão (Rastilho Records), seguido de quatro EPs, quatro viagens com partida de quatro estações (Rossio, Santa Apolónia, Cais do Sodré, Alcântara – Terra), onde apresenta vinte músicas inéditas, editadas em quatro momentos de 2019, correspondendo a cada uma das quatro estações do ano: inverno, primavera, verão e outono, a fazer lembrar uma das mais importantes obras da música clássica - "Le Quattro Stagioni” de Antonio Vivaldi.

Iniciando-se no metal e no punk, com Corrosão Caótica, circulou no mundo do punk-rock, mas deixou-se seduzir pelas ambiências da world music, jazz e blues. Esta mescla de sonoridades confluiu numa procura de mistura com a viola campaniça, mas com influências mais rockeiras. O “casamento” das ideias com este instrumento foi “ouro sobre azul” como o próprio o afirma, encaixando-se na perfeição no que procurava: sons crus, sem loops ou layers.



Foi nas sombras vagas do final da tarde, de um sábado soalheiro, que nos recebeu na sua “sala de estar”, acolhedoramente adornada por uma telefonia antiga (coroada por um despertador), acompanhada por dois candeeiros de mesa e um bengaleiro, cenário ao qual se juntaram as teclas, as guitarras e o bombo. Ladeado por bancadas de “venda”, transformou o espaço compassado pela habitual azáfama de um mercado de bairro, onde os pregões das vendedeiras deram lugar ao universo d’O Gajo que nos tocou histórias citadinas como “Rua Da Felicidade”, “Miradouro Da Batucada”, alusivo ao Miradouro do Adamastor, onde há sempre alguém a marcar o ritmo.

Num espaço improvável, mas que se enquadrava perfeitamente no que o inspira (a cidade de Lisboa) João Morais encantou-nos, no Mercado de Sapadores, com os sons que "arranca” da campaniça, conduzindo-nos para um imaginário de paisagens campestres alternadas com paisagens mais urbanas, povoadas com personagens que dão nome a alguns dos temas como o “Varredor”, “A Carteirista” ou ainda referências ribeirinhas da cidade como o “Cacilheiro”.

 
A participação de Carlos Rosten (músico de Martinica, atualmente a viver em Portugal) em o “Homem do Saco”, “Doutor Bouro”, “Rio Das Pérolas”, “O Caminho É O Poema” (que inicia com voz off de José Anjos a declamar o poema) e "The Model" (dos alemães Kraftwerk) trouxe o calor da música do Caribe para os sons acústicos de João Morais.



O Gajo tem nome e pose de punk, mas do seu instrumento sai a tradição, não sendo música tradicional. É numa mistura hibrida de ambiências sonoras que se encontra “a voz” do músico que se situa num cenário já repleto de guitarristas a solo nacionais, mas que se distingue sem qualquer dúvida de todos os outros. João Morais toca música do mundo e para o mundo!


Texto, fotografia e vídeo: Armandina Heleno

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