segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Nouvelle Vague na Casa da Música - 15 anos a “trocar as voltas” aos clássicos


Chovia miudinho quando cheguei à Casa da Música, na noite de 8 de dezembro, para a Celebração dos 15 anos dos Nouvelle Vague. Já em cima da hora, levantei o convite e sorri... o lugar que me estava reservado situava-se no camarote. A perspetiva era excelente. No compasso de espera podia ver-se, na sala Suggia, o “formigar” do público que ia tomando os lugares e um palco despretensioso e minimalista, onde os instrumentos (teclas e guitarras) aguardavam mãos e vozes para lhes dar vida.  

Completando 15 anos desde a edição do álbum homónimo de estreia (2004), o concerto do Porto (o último no nosso país) fazia parte de uma tour muito especial, em formato acústico, do coletivo musical francês que tem como mentores Marc Collin (teclas) e Olivier Libaux (guitarras). O nome da banda resulta de um jogo de palavras entre Nouvelle Vague (movimento do cinema francês dos anos 60) e a origem das suas músicas (covers de temas punk rock, pós-punk e new wave dos anos 80), submetidas ao filtro da bossa nova.  Com as icónicas vocalistas - Mélanie Pain e Phoebe Killdeer - este projeto respira uma suave influência de chanson française e um leve toque de Caribe e lounge music. Recriando o género das bandas de covers trocam as voltas aos clássicos, vestindo-os com novas roupagens sonoras que resultam em temas, que pouco ou nada devem aos originais.  

Pouco passava da hora prevista quando entoaram os primeiros versos de “Fade To Grey” (Visage). Mélanie e Phoebe surgem entre o público, encaminhando-se para o palco, onde se juntam aos instrumentistas, envoltas numa névoa de luz. Davam assim início ao espetáculo, onde revisitariam algumas das covers mais célebres do seu acervo musical.  Continuam com “Blue Monday” (New Order), seguida de um “I Wanna Be Sedated” (Ramones) transbordando sensualidade e sedução, quer na sonoridade quer no swing do movimentar dos corpos. Excelente performance retribuída com fortes aplausos.  

Ao longo de todo o concerto a interação e a proximidade com o público foram uma constante. Ora espicaçando-o, ora provocando-o com frases como “are you in love with the right person? … lucky, because sometimes we fell in love with the wrong one”.  Bem ao jeito da bossa nova e do apelo à dança, “Ever Fallen In Love” (Buzzcocks) surge no momento certo. As cadeiras ficam vazias e o ambiente inicial, mais calmo, dá lugar à agitação dos corpos, ouvindo-se os primeiros “bravo”. “Blank Generation” (Richard Hell & The Voidoids) é acompanhada com o som estalado do movimento dos dedos e “Too Drunk To Fuck” (Dead Kennedys) é recebida com uma chuva de aplausos e com uma sala a não resistir, mais uma vez, ao convite à dança.   

O sopro de “Sweet And Tender Hooligan” (The Smiths) retoma a toada mais suave e acústica pela voz melódica de Mélanie Pain. Já em “Human Fly” (The Cramps) a performance da irreverente e contagiante Phoebe Killdeer tomou conta do palco, empolgando o público e incentivando-o a deixar novamente as cadeiras.   

O padrão de luzes e cores foi-se adaptando aos temas interpretados, em alternância, pelas duas vocalistas. Um espetáculo não se faz sem público. Quando se ouviu “Dance With Me” (The Lords of the New Church) e “Blisters Of The Sun” (Violent Femmes), a sala reage efusivamente acompanhando as músicas com palmas ritmadas. O volte face surge com um solo de piano, num palco escuro, minimal e um foco de luzes verdes, “congelado”, a incidir sobre as vocalistas, que cantam, de costas voltadas, o “Enola Gay” (OMD),  numa ambiência suave, acústica, não só diferente do original, como também distante do próprio projecto Nouvelle Vague. O alinhamento prossegue com “Road To Nowhere” (Talking Heads), “Friday Night, Saturday Morning” (The Specials) e “Guns Of Brixton” (The Clash).  

Talvez um dos pontos mais altos da noite tenha sido a “dramática” interpretação  de “Bela Lugosi’s Dead” (Bauhaus) em que a encenação acompanhou sublimemente a música. As luzes projetadas sobre o palco são agora vermelhas para “Love Will Tear Us Apart (Joy Division) que seria a derradeira. Cantada por Mélanie, descalça, o público acompanhou-a com palmas ritmadas, entoando em coro as cinco palavras do refrão eternizadas por Ian Curtis.  

Regressam ao palco para um contagiante e cativante encore: as melódicas e atmosféricas “The Killing Moon” (Echo & the Bunnymen) e “In A Manner Of Speaking” (Tuxedomoon), foram intervaladas pela batida dançante de “Just Can´t Get Enough” (Depeche Mode). O público aplaude-os de forma efusiva e visivelmente agradado com estas escolhas.   

O carinho, a proximidade, a relação intensa com Portugal estiveram sempre presentes ao longo da noite. Durante quase duas horas os Nouvelle Vague apresentaram um set minimal que nos transportou para as origens da banda e nos induziu no regresso à essência das canções, agora com uma coloração diferente. 

Despedem-se com um emocionante obrigado e... “We will see you again, I’m sure!”  

Texto: Armandina Heleno

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