quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Os melhores álbuns internacionais de 2019



A colheita de 2019 foi vasta e proporcionou uma dieta equilibrada de géneros e combinações que fizeram do último ano da década um deleite para qualquer amante de música. De regressos em plena forma a novidades emergentes, da pop mais efervescente até à eletrónica mais nebulosa e ao rock mais penetrante, este é a seleção dos registos internacionais que mais se destacaram para a redação da Threshold Magazine em 2019.




30- Hannah Diamond - Reflections


29- Julius Gabriel - ÆTHERHALLEN


28- Bill Orcutt - Odds Against Tomorrow


27- Lana Del Rey - Norman Fucking Rockwell


26- Jambinai - ONDA


25- Malibu Ken - Malibu Ken


24- Charli XCX - Charli


23- KOKOKO! - Fongola


22- Pile - Green and Grey


21- Holly Herndon - Proto


20- (Sandy) Alex G - House of Sugar


19- Kelsey Lu - Blood


18- Thom Yorke - ANIMA


17- Kai Whiston - No World as Good as Mine


16- King Gizzard and the Lizard Wizard - Infest The Rats’ Nest


15- Flying Lotus - Flamagra


14- Jenny Hval - The Practice of Love


13- Swans - leaving meaning.


12- The Comet is Coming - Trust in the Lifeforce of the Deep Mystery


11- Tyler, The Creator - Igor


10- Liturgy - H.A.Q.Q.


9- Freddie Gibbs and Madlib - Bandana


8- Solange - When I Get Home


7- Nick Cave & The Bad Seeds - Ghosteen


6- JPEGMAFIA - All My Heroes Are Cornballs


5- Lingua Ignota - CALIGULA


Lingua Ignota é o projeto artístico a que compositora Kristin Hayter dá voz. Depois do disco injustamente esquecido All Bitches Die, editado em 2017, surgiu em 2019 o seu sucessor, Caligula, registo extremamente pessoal e catártico, onde a artista volta a abordar da maneira crua e brutal os temas de violência e vingança, desta vez na perspetiva de sobrevivente ao abuso doméstico. O ouvinte, ao escutar Caligula, torna-se numa espécie de testemunha destes traumas, sendo “forçado” a confrontar os demónios da artista ao lado dela e deliciar-se com a sua vingança impiedosa. Caligula é dominado essencialmente por uma fusão de influências provenientes da música de ópera, black metal e noise, criando algo completamente diferente para os nossos ouvidos. Hayter contou neste trabalho com a colaboração de elementos dos The Body, Uniform, Full of Hell, entre outros. Por vezes, a confusão sonora dá lugar a momentos mais melódicos e baladeiros, como é exemplo a faixa "Fragrant Is My Many Flower'd Crown", com os seus arranjos de cordas e piano. Neste disco é de audição obrigatória os temas “Do You Doubt Me Traitor”, em que a artista canta de modo angustiante “How do I break you before you break me?”, e “Butcher Of The World”, onde os gritos de Hayter e a pesada distorção envolvem o sample de “Funeral Music For Queen Mary” de Henry Purcell, mais conhecido por ser parte integrante da banda sonora de Laranja Mecânica de Stanley Kubrick. Rui Gameiro


4- Waste of Space Orchestra - Syntheosis


Depois do bem sucedido casamento que ocorreu no festival Roadburn em 2018, a super banda que une os finlandeses Oranssi Pazuzu, banda de black metal psicadélico, com os conterrâneos Dark Buddha Rising, mestres na arte de um doom metal tão lento quanto contemplativo e meditativo com uma estética de ritual xamanístico, decidiu ir para estúdio e fazer aquele que é um dos mais interessantes álbuns de música pesada de 2019. A junção de dois mundos, que aparentemente pareciam incompatíveis, resultou em Syntheosis, uma ópera de stoner doom psicadélico sobre três personagens, “The Shaman”, “The Seeker” e “The Possessor”, que se encontram em confronto, mas no final encontram uma resolução e convergência para os seus problemas. Narrativas cósmicas à parte, Syntheosis é um dos álbuns mais impressionantes que podem ouvir este ano pela brilhante composição de temas que, pacientemente, desenvolvem e acumulam tensões até um satisfatório e pesadíssimo climax. Apesar do inegável e absurdo talento das entidades que formam este projeto, deixo aqui um apelo para que continuem a surpreender o mundo da musica com mais projetos e que não se esqueçam das terras portuguesas quando marcarem a sua próxima tour europeia. Hugo Geada



3- Black Midi - Schlagenheim


Os londrinos Black Midi foram autores de um estrondo cacofónico que teve bastante repercussão na comunidade indie ao longo de 2019, e isso deve-se à edição do álbum de estreia Schlagenheim. O registo da banda demonstrou uma propensão para uma sonoridade surpreendentemente abrangente e que segue apenas as suas próprias regras - quaisquer que elas sejam - mesmo até dentro da categoria onde se inserem, um turbilhão experimental de math/noise rock com melodias caóticas e trabalho rítmico imprevisível. Pode-se dizer que Schlagenheim serve não só de uma homenagem a bandas antigas do género (pensem Fugazi, ou até mesmo Big Black ou Tortoise ou algo ainda mais obscuro) mas também como um pilar representante do futuro risonho para as sonoridades mais devastadoras vindas das profundezas do post-hardcore. Ruben Leite



2- FKA twigs - MAGDALENE


MAGDALENE, o segundo álbum de twigs, é uma experiência interdimensional de efeitos terapêuticos que usa a música como antídoto para um período marcado por efemérides. A remoção urgente dos miomas do seu útero, um contratempo que a obrigou a fazer uma pausa de cinco anos entre álbuns, assim como o fim de um relacionamento publicamente escrutinado, que twigs reflete em temas como “Thousand Eyes” ou o desarmante single de avanço “Cellophane”, estão na base de MAGDALENE, um disco que coloca a voz da britânica no centro de uma obra que volta a desafiar as coordenadas da música pop.  Se LP1, o álbum de estreia de 2014, mostrou o lado mais elástico e mutante de twigs, MAGDALENE revela a sua faceta mais tenra, sôfrega e emocionalmente vulnerável, não descurando o carácter radical do seu antecessor. Aos laivos teatrais de twigs junta-se a eletrónica oblíqua de Nicolas Jaar, que divide os créditos de produção com a música britânica. Jack Antonoff, Skrillex e Daniel Lopatin figuram também na lista estelar de produtores que contribuem para a produção do disco, mas é na afinidade entre twigs e Jaar que se encontram os resultados mais recompensadores, com linhas de sintetizadores planantes e uma panóplia de ritmos e batidas quebradas a servirem como alicerces para a visão sónica de twigs, que encerra a década com a sua obra mais poética até à data. Filipe Costa



1- Weyes Blood – Titanic Rising


Depois de uma origem na música noise e lo-fi, o mais recente álbum de Weyes Blood, Titanic Rising, viu a cantautora natural da California a abraçar as orquestrações e alcançar um álbum que, apesar de ter menos de um ano, pode ser considerado um clássico moderno, com destaque suficiente para merecer um destaque nos melhores álbuns da década do nosso site. Com um conceito que parte da sequela falhada do filme do Titanic de James Cameron, Natalie Mering criou um álbum que reflecte as ansiedades de viver na década de 2010, abordando não só as relações pessoais e paixões, mas oferecendo também um contexto repleto da ansiedade que as consequências ambientais trazem para uma geração que ainda não sabe ao certo quais as consequências que este desastre pode implicar. Faixas desarmantes assentes na simplicidade de uma guitarra acústica, "Wild Time", ou firmadas em magnânimas orquestrações, "Movies", fazem com que este trabalho seja uma das mais agradáveis surpresas de 2019, e, com o passar do tempo, apenas irá crescer em importância e significado. Hugo Geada

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