domingo, 16 de fevereiro de 2020

“Tudo Bons Rapazes”... mas em alta voltagem


Os britânicos Fat White Family incendiaram o Hard Club, na noite de 4 de fevereiro, com concerto "curto circuito", em que a música queimou por dentro, desafiou o espírito com choques elétricos e transbordou em descargas de alta voltagem, estimulando energicamente o corpo.  A abrir as hostes estiveram os Cancro.

Nove anos depois de tudo começar (2011), o sexteto do sul de Londres composto por Saul Adamczewski (guitarra e voz), Nathan Saoudi (teclados), Sam Toms (bateria), Adam Brennan (baixo), Alex White (teclados, saxofone e voz) e o frenético e provocador Lias Saoudi (voz) continuam explosivos musicalmente. Difíceis de encaixar num único género musical, iniciaram-se no punk de garagem e numa fúria cuspida de som, desaguando, atualmente, num ecletismo de sonoridades com influências eletrónicas (como Lias referiu numa recente entrevista).  

O percurso inicial conturbado e pautado por consumos excessivos, de onde emergem os dois primeiros álbuns, Champagne Holocaust (2013) e Songs for Our Mothers (2016), deu lugar a alguma calmaria com a mudança para Sheffield, uma espécie de "exílio espiritual" de onde resultou Serfs Up! (2019), descrito pela critica como "triunfante" e "transcendente", e o mote para a atual tour.  

Pouco passava das 22:00h quando a "família” furacão tomou conta do palco. Assistiríamos a mais de uma hora de um frenesim que foi crescendo e intensificando, à medida que os temas dos vários trabalhos editados iam sendo catapultados. Lias Saoudi apresentou-se, em cena, num fato "mal-ajambrado", em pose de rapaz bem-comportado, que se foi alterando ao longo da atuação, num striptease compassado, terminando o concerto em tronco nu e calças descosidas.  



“Auto Neutron”  fez as honras de abertura, seguida de “I Am Mark E. Smith” já com Lias sentado no palco, naquela ténue linha que o separava do público. Era o inicio de uma performance repleta de poses provocadoras e extravagantes, à qual a audiência reagiu com euforia. Com “Fringe Runner” o frontman da banda salta para o meio do público e dança aos encontrões, rebola no chão, regressando ao palco para entoar, em coro com os fãs, o refrão de “Touch The Leather”.   

Ouviu-se ainda, entre outras, “Cream Of The Young”, “I Believe In Something Better”, “Feet” (agitando ainda mais as hostes já que segundo Lias foi o “Apocalipse Now” do álbum, a mais dificil de concluir), “Whitest Boy On The Beach”, terminando com “Bomb Disneyland” com o vocalista, novamente, no meio da sala, numa loucura verdadeiramente alucinante. Lias fez jus ao seu gosto pela interação agressiva e intensa com os fãs, fazendo do Hard Club a sua “sala de estar”. 

Depois disto o público queria mais.... Fez finca pé, saindo de lá com um “Tastes Good With The Money”.  


Foi uma noite em que a música ecoou contestação social e política, não só por parte dos Fat White Family, pelo seu contexto sócio-cultural, pelas suas vivências numa cidade cosmopolita, onde a xenofobia e o racismo foram e continuam a ser, infelizmente, nódoas negras da sociedade. Mas também pela banda de abertura - Cancro - formada por Tiago Lopes, José Penacho e Fábio Jevelim, que nos apresentaram o seu primeiro álbum, +mais. Os temas deste recente trabalho constituem "alertas sonoros contra as doenças latentes” da sociedade em que vivemos. Extravasaram  irreverência e o seu compromisso na “denúncia de cancros sociais”. 

"Tudo Bons Rapazes" e um noite com muito power


Fat White Family setlist

Auto Neutron  
I Am Mark E. Smith  
Tinfoil Deathstar  
Fringe Runner  
Heaven On Earth  
Touch The Leather  
Hits Hits Hits  
Cream Of The Young  
When I Leave 
Bobby's Boyfriend  
Special Ape!  
I Believe in Something Better  
Feet  
Whitest Boy on the Beach  
Is It Raining in Your Mouth?  
Bomb Disneyland 
Encore : Tastes Good With The Money




Texto: Armandina Heleno
Fotografia: Ana Carvalho dos Santos/Armandina Heleno

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