terça-feira, 10 de março de 2020

[Review] Tisiphone - Koma Forte


Koma Forte | Icy Cold Records / Automate Records / Atomic Folik | fevereiro de 2020
8.0/10

Os Tisiphone - trio francês que tem ganho uma acarinhada reputação nacional muito à conta das absolutamente marcantes prestações ao vivo que garantiu em Portugal - regressou este ano às edições após um período de quatro anos a refinar ideias. Sempre propensos à exploração de sonoridades mais escuras, bastante ecléticas e sem se prenderem a conceções únicas, os Tisiphone apresentam-nos agora uma breve injeção de adrenalina esculpida entre traços dinâmicos e uma certa veia humorista. Num conjunto de seis temas com uma duração aproximada a cerca de 30 minutos de duração, a banda mostra uma maturidade notória e toda uma sede em explorar uma vasta gama de estilos complementares entre si.

Estávamos em 2016 quando o trio composto por Léonard, Clara e Susanne lançou o primeiro esforço longa-duração, o homónimo Tisiphone que rapidamente os colocou na ribalta dos novos projetos franceses a ter em consideração nos tempos vindouros. Tal feito conduziu-os a uma estreia absoluta nacional inserida no festival MONITOR e, um ano mais tarde, em 2017 na segunda edição do Post-Punk Strikes Back Again, altura em que já traziam na bagagem o intenso e amplamente absorto "Hereux Je Suis", tema que serve de abertura a este Koma Forte. Numa criação musical onde a percussão funciona como o principal fio condutor da experimentação sonora concebida, os Tisiphone apresentam a público uma das suas melhores criações: uma música teatral envolvida por guitarras abrasivas e uma percussão violenta onde Clara se emancipa para aquele que é uma das suas melhores criações. Uma Nina Hagen renascida e redescoberta em territórios onde reina a francofonia. Poderosa deusa francesa das emoções impetuosas. E depois de um "temaço" destes, como não ser feliz? 



Segue-se no alinhamento "Nasty Kids", faixa inaugurada por calmas paisagens rítmicas onde Clara nos canta e suspira as primeiras letras em inglês. Esta é também uma das composições que inicia numa aura mais nítida e sonhadora do que as edições anteriores, mas que rapidamente se transforma num mundo explorativo de caos contido entre sintetizadores marciais, guitarras robustas e a conjugação sedutora dos gritos de Clara com a imperativa voz de Léonard Stefanica. "Who is a deserter?" pergunta-nos Clara enquanto nos consciencializamos que os Tisiphone certamente não serão. 

"Atomic Tissue (Paulin)", o tema que serviu de apresentação a este novo Koma Forte é o último single do Lado A do LP e instaura todo um novo ambiente de energia teatral com as ondas sonoras a adquirirem um ritmo acelerado, caracterizado pelo baixo sumptuoso e todo um carácter de puro entretenimento que é explorado em detalhe no trabalho audiovisual que o acompanha. 



Com o lado B colocado começamos por ouvir "Exil" aquela que é a faixa mais experimental na discografia do trio de Lyon. Uma produção tipicamente punk, com guitarras cruas que se destaca pelas primeiras experimentações da banda em Auto-Tune. Clara digitaliza-se na voz e os Tisiphone apresentam-nos todo um admirável mundo futurista a conduzir-nos para um ambiente cinematográfico envolto em neons, numa cidade densamente populada e envolta pelo cenário de diversão já anteriormente explorado em "Atomic Tissue (Paulin)". 

"Bully" segue as pisadas iniciais de "Nasty Kids" ao envolver-se com ambiências mais calmas e sintetizadores progressivos, que fazem entrar em ação o lado mais tépido do trio francês. Naquele que é o tema mais longo deste Koma Forte, os Tisiphone constroem uma paisagem libertadora nas entrelinhas dos ritmos mais badalados, enquanto nos preparam de forma sossegada para a mais incendiária faixa deste Koma Forte, a despedida com "Rageux". Caixas de ritmo efervescentes são acompanhadas por sintetizadores descoordenados e todo um clima cru, que dão início àquela que é definitivamente uma das pérolas do álbum. Poderosos cinco minutos de som que viajam entre o minimalismo sintético, o impulso do punk, a insobriedade do art-rock, a potência da eletrónica e a abrasividade dos vocais em revolta. Mistura altamente irada, mas sonicamente estimulante.



Numa performance que em palco prima pela personalidade cénica e teatral, é já na versão em estúdio, que podemos tomar um certo gosto do vasto espectro sonoro que rodeia as produções dos Tisiphone e que é fortemente marcado pela exploração ao nível rítmico, num disco que junta humor, adrenalina e sons badalados na mesma panela. Koma Forte apresenta-se um EP bastante diverso em harmonias áudio onde sobressaem elementos lo-fi, a percussão por vezes espelhada com ritmos tribais (que confere um claro toque ancestral à música resultante) e claro, todo o jogo de vozes e manipulação vocal que se apresenta em grande destaque. Koma Forte é uma edição interessante, ao mostrar uma certa imprevisibilidade nos sons que aborda e por apontar uma nova direção eclética no trabalho musical dos Tisiphone. A banda lança um conjunto de seis faixas ambiciosas que, embora não esperadas pelos ouvintes, resultam numa sintonia vigorosa e num registo bastante peculiar e criativo dentro das ambiências que lhe deram origem.



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