sábado, 21 de março de 2020

The Mission & Gene Loves Jezebel no LAV, as duas últimas noites de uma digressão que chegou ao fim antes do tempo


Temperatura amena no ar, afinal o dia foi quente e de sol, a noite esteve mais fresca mas... nem por isso deixou de se fazer sentir a ameaça pandémica que paira(va) numa Lisboa de atmosfera a adivinhar-se poucos dias depois, diferente. Apenas a paisagem urbana me fez sentir que tudo, que afinal tudo estava igual: a brisa, a arquitectura urbana, o lusco-fusco da cidade…

Dia 11, a noite ímpar

E vamos lá. Chegada a altura de assistir aos espectáculos dos britânicos The Mission e Gene Loves Jezebel no Lisboa Ao Vivo (LAV), envoltos num clima de incerteza quanto à sua realização… e se iam ou não iam acontecer perante o alarme por toda a parte generalizado… E foi com muito gosto que entrei na sala, de mãos lavadas de preocupações, assisti à actuação dos Gene Loves Jezebel nesta primeira noite, reduzidos ao formato power trio devido à ausência do guitarrista de sempre James Stevenson, que por compromissos anteriormente assumidos com a banda Holy Holy, um projecto seu que fui depois descobrir, onde toca também Tony Visconti, o lendário produtor de Heroes de Bowie e o baterista Woody Woodmansey dos The Spiders From Mars. Percebe-se mesmo neste formato electrónico despido, somente com as guitarras de Jay Aston e Peter Rizzo e do baterista Smiley dos The Alarm, que a música dos Gene Loves Jezebel é isso mesmo: glam rock efusiva e descontraída. Jay Aston comandou com a sua voz que ecoava pela sala todo um recital onde, mesmo em trio, não desiludiram e apresentaram um outro lado da banda, mais intimista e com bases electrónicas new wave: “Love keeps Dragging Me Down”, “Flying”, “ Motion Of Love”, “Any Anxious Colour”, “Desire”, foram algumas das canções apresentadas e nesta primeira noite só ficou a faltar “Break The Chain” que ficaria para a noite seguinte (mais “rockeira”), com o guitarrista James Stevenson já presente para completar a formação em palco.


Já os The Mission nesta noite, não desiludiram. Nunca desiludem porque sabe-se sempre ao que se vai, ao que fomos. Foi um concerto onde vimos o lado mais folk de Hussey bem demonstrado na sua ainda recente passagem a solo por Lisboa há uns meses atrás, onde deu um extenso concerto de quase três horas sozinho com as suas guitarras, lado folk aqui mascarado pela música dos The Mission que eleva com a sua magnitude sinfónica nas guitarras a coesa secção rítmica. São rápidos a conquistar a audiência, e nesta noite sem grandes cerimónias entregaram o repertório dos discos: God’s Own Medicine, Carved In Sand, Masque, Blue, God Is A Bullet, Another Fall From Grace, ou seja, os lançamentos ímpares da carreira, na noite seguinte sabia-se que iriam buscar o repertório par a: First Chapter, Children, Grains Of Sand, Neverland, Aura, The Brightest Light, para já a impressão foi muito positiva. Wayne Hussey mais comunicativo para o final depois de bebericar a sua (habitual) garrafa de vinho tinto e a oferecer a uma fã, esperemos que vazia dadas as circunstâncias. Entregaram as músicas clássicas desses discos, tais como “Wasteland”, “Butterfly On The Wheel”, e “Like a Child Again”, passearam por “Marian” dos Sisters of Mercy e tiveram o seu melhor momento nesta noite com “Deliverance”.



Dia 12, a noite par

Já na segunda noite, receei que nada houvesse de condigno em termos de público para fazer (continuar) a festa, mas apesar de (algum) menor número de presentes devido ao crescente alarme social, foi tudo, no geral, melhor: o som, os Gene Loves Jezebel em formato completo a fazerem a prometida festa a quatro, saindo em auge após “Break The Chain”, encaixando canções do recente disco Dance Underwater com os clássicos “Desire”, “Jealous“ ou “Motion Of Love”, de entre outros e sem grandes pressas e com tempo para interagirem com o público fazendo do palco do LAV a sua casa.

Na noite que por força das circunstâncias seria a última da anunciada tour europeia, os The Mission deram uma performance séria com tempo para os agradecimentos a todos os envolvidos e é claro, o público, que nas palavras de Hussey é a razão da existência da banda. Tocaram melhor ainda do que na primeira noite, penso, as canções soaram mais atmosféricas, com as guitarras características do período de ouro da banda. Logo ao início sentimos em “Beyond The Pale” que o som estava perfeito e do principio até ao fim assim se manteve, com o público presente ainda mais efusivo do que na noite anterior. Nota ainda para os Eskimos (fans ingleses, ruidosos e acérrimos da banda) que muito bem dispostos contagiaram ainda mais o resto do público. Foi com “Crystal Ocean”, e depois com um ainda mais potente “Tower Of Strenght” que se despediram, tivemos “Wasteland”, tal como na noite anterior mas ainda a soar melhor e enfim, são pormenores que antecipam que o culto dado a estes músicos por cá, nunca há-de morrer. Uma salva de palmas a todos em especial à promotora House Of Fun pelo modo responsável com que cuidou de nós, do gel desinfectante de mãos disponibilizado a todos, o comunicado da Direção-Geral da Saúde afixado à entrada do LAV para quem quis ler, músicos, público, e a toda a equipa que nos garantiu dois bons serões passados à beira rio no LAV. Nunca esqueceremos estes dois dias certamente numa ocasião tão inesperada de pré-pandemia. Para lembrar daqui a muito tempo, estejamos todos vivos e a festejar de novo, juntos.


Texto: Lucinda Sebastião

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