segunda-feira, 6 de abril de 2020

[Review] Les Tétines Noires - Analog Anthomologies


Analog Anthomologies | Manic Depression Records / Icy Cold Records | dezembro de 2019
8.0/10

Após um período de cerca de 15 anos em hiatus, a banda de culto do underground francês, Les Tétines Noires, juntou-se em 2018 para uma mão cheia de concertos em celebração da reedição dos seus três primeiros álbuns de carreira, Fauvisme et pense-bête (1990), Brouettes (1991) e 12 têtes mortes (1995). A banda, formada em 1980 quando Emmanuelle Hubaut e Goliam tinham apenas 13 anos, lançaria o seu primeiro single oficial de carreira nove anos mais tarde, em 1989, intitulado de "Crazy Horse" e incluído na compilação La Relève da extinta editora Boucherie Productions. Com o segundo álbum na calha, Brouettes (1991), os Les Tétines Noires ingressaram numa tour mundial que faria não só elevar a sua música de estúdio a produto de qualidade, mas essencialmente erguer as suas performances ao vivo como um retrato de poder ativo: salas finalizadas em penas, açúcar, vapor de incenso, decibéis saturados e espectadores maioritariamente bêbados. 

Para encerrar 2019 de forma surpreendente o grupo francês apresentou já na despedida do passado ano, em dezembro, uma compilação que reúne uma seleção dos melhores temas do período de atividade compreendido entre 1980 a 1997 e ainda duas canções inéditas - "Head Hole" e "Lady Memory". Esta copilação - intitulada Analog Anthomologies - reúne exclusivamente o trabalho do grupo entre os supracitados anos e antes dos Les Tétines Noires mudarem o seu nome para LTNO, que além das iniciais para o nome original da banda, também apresentava um segundo significado - Limited Teen Noise Orgasm. Demorou um tempo para reconstruir os arquivos, escolher as músicas que fariam parte da edição e encontrar uma boa embalagem para uma compilação tão intensa como Analog Anthomologies, mas o resultado chegou e é altamente aditivo, além de revivalista. 

Numa base sonora inspirada por referências do art-rock, os primórdios do punk a energia do industrial e um maneirismo decadente do rock-gótico, os Les Tétines Noires preparam-nos para fazer viver nestes novos anos 20 o que não nos foi possível experienciar nos antigos anos 90. A sua sonoridade poderia ser facilmente descrita como um circo teatral, caótico e cru onde a experimentação e os ambientes avant-garde se encontram em força. Mas para perceberem melhor a sua essência interpretem este projeto como se os Cramps e os Alien Sex Fiend tivessem um filho com os traços histéricos de David Bowie e uma voz à la Sex Gang Children, tudo isto feito há cerca de 30 anos atrás e mantido numa certa penumbra dos radares comerciais. 



A nova compilação abre com o tema "Freaks" que, a julgar pela própria letra e denominação é uma clara referência ao clássico filme Freaks (1932), onde ficou popularizada a cena do casamento de figuras estranhas e a clássica frase "We accept you, one of us!". Aqui, na música dos Les Tétines Noires sem o "One Of Us" na letra, mas a deixar bem claro que quem os ouve também é um deles. Além de "Freaks" de Fauvisme et pense-bête (1990) foram ainda escolhidos para esta compilação os temas "Les Captains" - uma malha soturna com um trago bastante desenvolvido ao rock-gótico que os Christian Death popularizaram e sempre com a energia cinematográfica e teatral que os Lés Tétines Noires trazem à tona - e ainda "Crazy Horses", o primeiro tema oficial de carreira enquanto banda. 

No lado A encontramos ainda "Hill House" - a apresentar toda uma aura sinistra inicial que abre espaço para a exploração brutal da dimensão crua que os Les Tétines Noires abrangem - e "N&M (Histoire de Lady Na)" - uma intensa mistura entre elementos surrealistas, dissonâncias sonoras e uma voz gastricamente frustrada. Ambos estes temas fazem originalmente parte do segundo disco de carreira da banda Brouettes (1991) e abrem espaço para a apresentação do primeiro dos dois temas inéditos que incorporam a tracklist de Analog Anthomologies: "Lady Memory". Vigorosa no andamento e claramente gótica na essência. 



O lado B de Analog Anthomologies inicia com nova faixa inédita, "Head Hole", a apresentar fogosos sintetizadores emaranhados com a catarse apoteótica das guitarras e toda uma conjugação entre uma voz feminina operática (a proporcionar um dos momentos altos da presente compilação) e a voz cimentada de Emmanuelle Hubaut. Já as restantes composições que integram Analog Anthomologies são retiradas do último trabalho da banda sob o cognome Les Tétines Noires - 12 têtes mortes (1995). A viagem é inaugurada pela aragem surreal e amplamente industrial presente em "Head Horse", continuando rumo num conceito mais nonsense e com forte vínculo à música noise como é o caso de "Enver set contre tête". 

Em "Washing Head" os Les Tétines Noires vão mais a fundo explorando em detalhe uma vibe mais eletrónica com influências no rigor e virtuosismo poderoso da música industrial. Se o rock-gótico e as tonalidades surrealistas da música soturna pareciam até então o grande foco no produto da banda francesa, nesta faixa mostram claro que a eletrónica experimental contextualizada num ambiente industrial também lhes serve um bom pano para mangas. Talvez por isso, já a chegar à reta final, os Les Tétines Noires apostem em três faixas um pouco afastadas da abordagem inicial, ainda assim embebidas numa experimentação afincada com paisagens sonoras que vão do ensaio sonoro "Teo Tertem" até à lo-fi music, em foco na despedida com "Tête Molle". 

Analog Anthomologies é um excelente pontapé de partida para apresentar o trabalho dos Les Tétines Noires aos ouvintes que até então não estavam a par da discografia produzida pela banda. Ao longo de treze temas o grupo francês faz uma escolha rigorosa das faixas em que trabalhou durante a década mais fértil e consegue recriar na memória dos insipientes da sua existência até então, uma experiência auditiva conquistadora, surpreendente e acima de tudo bastante criativa. Redescobrir as faixas de Analog Anthomologies entre cerca de 25-30 anos após serem lançadas cria toda uma imagem mental de um cenário musical interessante e fervoroso perdido no negrume das luzes da ribalta. Agora reencontrado na alçada das editoras-irmãs Manic Depression Records e Icy Cold Records, Analog Anthomologies recria toda uma viagem entusiasmante relativa ao poder certo e absorvente das suas prestações ao vivo, que tão explícito se encontra nas gravações em estúdio.



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