segunda-feira, 4 de maio de 2020

Cinco Discos, Cinco Críticas #56

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Abril foi pautado pela suspensão de concertos e se, não podemos experienciar a música ao vivo, nunca outrora foi tão estimulante explorá-la em estúdio. Na 56ª edição do Cinco Discos, Cinco Críticas - entre as edições que saíram este ano e as que fomos buscar ao baú - escolhemos opinar sobre os novos discos de  Elder - Omens (2020, Stickman Records), Kanaan - Double Sun (2020, El Paraiso Records); los halos - los halos (2001, Loveless Records); Mamaleek - Come and See (2020, Flenser Records) e Neon Lies - Loveless Adventures (2020, Black Verb Records, Wave Tension Records, Cosmic Brood, Cut Surface, Mental Healing, Peryphilla).

Numa viagem sonora que vai do rock matemático à conjugação entre free jazz, post-rock e space-rock, passando pelos territórios do indie rock, black metal e darkwave, esta é umas das mais ecléticas rubricas do nosso cardápio do Cinco Discos, Cinco Críticas. Ora explorem:


Elder-Omens-Review-Stickman-Records-april-2020
Omens | Stickman Records | abril de 2020 

8.9/10 

Donos de uma sensibilidade bastante aguçada em termos sonoros, os Elder retornam aos discos com o novo Omens editado este mês. No seguimento dos álbuns anteriores da banda de stoner (Lore e Reflections of a Floating World) e, tal como esses mesmos álbuns, o som denota uma evolução ainda mais dramática e imponente demonstrada no decorrer de Omens
Apesar de contar apenas com cinco faixas, as mesmas são longas o suficiente para a banda dar asas à sua imaginação e capacidade técnica e atirar-se assim a uma mão-cheia de jams instrumentais constantes e arrebatadoras que levam o ouvinte para mais uma aventura pelo cosmos sónico. A anteriormente mencionada evolução sonora dos Elder também conta com a inclusão mais intensa de sintetizadores que, ao proporcionar um travo mais kraut e jazzy no geral, acrescenta bastante à experiência alucinante com variadas texturas sonoras. O trabalho de riffs demonstra em pleno a direção mais progressiva e épica tomada a cabo neste álbum, assim como umas passagens mais discretas mas bonitas de violino (especificamente em "Omens", "Embers", e "One Light Retreating"). O único percalço sério é de que os vocais podem ser um gosto adquirido, no melhor dos casos, mas esse aspeto acaba por não ser muito relevante uma vez que a cantoria está praticamente relegada ao backseat. De resto, Omens é mais um capítulo bem-sucedido de uma banda de barba rija, que continua a fazer por desenvolver e amadurecer o seu som de forma a continuar na linha da frente do género.
Ruben Leite



Kanaan-Double-Sun-El-Paraiso-Records-april-2020
Double Sun | El Paraiso Records | abril de 2020

8.0/10 

O trio norueguês Kanaan, um dos muitos frutos que caiu da árvore da editora El Paraiso Records, tem dedicado a sua carreira a compor música que faça as mentes mortais transcender os seus corpos e nos leve a viajar por outras galáxias. Foi o que fizeram em Windborne, o seu excelente álbum de estreia de 2018, o que mantiveram em Odense Sessions, um aperitivo baseado em jam sessions lançado no início de fevereiro deste ano, mas agora, em Double Sun, lançado no dia 24 de abril, expandem este território com um disco bastante mais ambicioso a nível de instrumentação e produção, com mais camadas musicais oferecidas por guitarras acústicas e sintetizadores. A base de rock psicadélico, com raízes em bandas escandinavas como os suecos Träd, Gräs & Stenar ou uns mais contemporâneos Causa Sui, naturais da Suécia, é complementada e floreada com influências de free jazz e post-rock para criar longas faixas que fazem o ouvinte perder-se na sua audição. Estas músicas, com uma estrutura mais abstrata, são perfeitas para nos distrairmos de todos os problemas que têm surgido pelo mundo fora e para situarmos a nossa mente num ponto mais pacífico e relaxado sem necessitarmos de uma sessão de mindfulness.
Hugo Geada



Los-Halos-Los-Halos-Review-Loveless-Records-2001
los halos | Loveless Records | 2001

9.5/10 

Os los halos são uma banda norte-americana de indie rock formada no final dos anos 80 por Eli Wegner AKA Samezvous e uns amigos, que começaram a compor música no final dos anos 80 em Filadélfia e que, se basearam posteriormente em Phoenixville, Pensilvânia. O quarteto lançou um total de três álbuns ao longo da sua carreira, todos eles editados pela Loveless Records, uma editora baseada em Seattle, gerida por John Richards, dj, locutor e programador da reputada KEXP, e todos eles agora disponíveis gratuitamente no seu bandcamp: o homónimo los halos (2001); for ramona… (2002); leaving va. (2003). O seu primeiro disco, o homónimo los halos, é todo ele uma catarse emocional. Com 7 músicas e como mais ou menso 70 minutos de duração, abre com "you should've known by now", uma faixa que em crescendo, atinge o climax com as vozes exaltadas pelo refrão a trespassarem a cacofonia da instrumentação a lembrar uns Lift To Experience ou uns …And You Will Know Us by the Trail of Dead
No tema seguinte, a voz e a lírica vira-se para dentro - "it gets so lonely that you’re almost real/it gets so lonely that you’re almost real" - e faz lembrar Daniel Johnston e Smog. Depois "infinity bitch", outra faixa explosiva e depois "lucifer", outro momento de introspecção. "black thread" é uma balada - "the truth is such a simple lie/told on to a trusting eye/I trust you will not go away/trust me, I will always stay" -, "tornado" (a maior faixa do álbum com 18 minutos) é a derradeira explosão emocional - "for you I feel" - antes de "unending", a faixa que encerra o disco em decrescendo. 
Sobre os los halos, existe pouca informação relativamente a entrevistas, críticas e concertos que eles tenham dado durante a sua curta carreira. Não são uma das bandas mais citadas - possivelmente são uma das mais desconhecidas - e a sua pegada no panorama musical é, sejamos honestos, residual. Mas basta uma nova audição ao seu primeiro disco para me tornar a questionar como é que uma banda destas não desfruta de um estatuto de culto.
Edu Silva




Mamaleek-Come-and-see-review-flenser-records
Come & See | Flenser Records | março de 2020 

9.0/10 

Come & See é o mais recente lançamento de Mamaleek, banda que se apresenta como um projeto de black metal, mas cujas raízes nesse género se escondem num som eclético que escapa à rotulação por géneros, fruto do seu carácter experimental. Este duo anónimo é aqui acompanhado, pela primeira vez, por uma banda de suporte, o que permitiu a gravação ao vivo de todas as faixas, com o mínimo de overdubs. Através deste álbum, a banda propõe-se analisar, citando, "o impacto emocional dos espaços que ocupamos, as forças surreais por detrás da aparência da realidade física e os resíduos que estas deixam para trás". 
Este é um álbum pesado, barulhento e imprevisível, dono de uma agressividade arrasadora e estruturas pouco convencionais com mudanças de secção surpreendentes, como ilustrado pela caótica "Cabrini-Green". As letras, cantadas em rugidos agressivos que nos assombram a cada momento, são difíceis de desvendar, mas a voz poderosa sobressai por entre o caos. 
A instrumentação inclui uma série de melodias estranhas ou paredes de som tocadas em guitarras, ora limpas, ora completamente distorcidas. As linhas de baixo e os ritmos de bateria são incisivos e constantes, enquanto que o saxofone vai surgindo de vez em quando, sinistro e assombroso, protagonizando os momentos mais jazz do disco. Estas influências podem ser encontradas em "Elsewhere" ou na melodia de teclado do final de "White of the Eyes (Cowards)". Curiosamente, também há piscares de olho ao blues, nomeadamente nos solos de guitarra de "Eating Unblessed Meat" e "Street Nurse", e à música eletrónica, com alguns sons aparentemente sintetizados a surgir ocasionalmente. Todos estes elementos encontram-se em harmonia e equilíbrio. Os Mamaleek dão passos em várias direções garantido, no entanto, uma grande coesão ao longo das várias faixas. 
Come & See é obrigatório para fãs de música pesada e exploratória. Um álbum poderoso e multifacetado que merece ser ouvido atentamente.
Rui Santos




Neon-Lies-Loveless-Adventures-Review-Black-Verb-Records-Wave-Tension-Records-Cosmic-Brood-Cut-Surface-Mental-Healing-Peryphilla
Loveless AdventuresBlack Verb Records, Wave Tension Records, Cosmic BroodCut Surface, Mental Healing, Peryphilla | abril de 2020

7.0/10

Dois anos depois de II (2018) e quatro depois da estreia com Neon Lies (2016), o croata Goran Lautar está de regresso ao ativo na identidade de Neon Lies para nos oferecer mais um cocktail de darkwave recheado em ritmos fervorosos e toda uma energia abrasiva com foco nas estéticas obscuras. Numa edição que abraça novos traços sonoros relativamente aos anteriores trabalhos e que, se concebeu como o resultado das experiências obtidas em tour e estúdio no período de um ano, Neon Lies forja em Loveless Adventures uma sedosa abordagem ao mundo dos sintetizadores, salpicada por aromas bastante lo-fi e de tendências nostálgicas. 
Neon Lies começou em 2015 como um projeto de quarto - enquanto Goran Lautar ainda cantava e tocava guitarra nas bandas Modern Delusion e The Celetoids - uma tendência que ainda hoje é notória nas texturas de temas como "Insecurity" ou "Hands", onde vive em força e vigor uma abordagem aos ambientes espectrais da dream-pop, sem grande preocupação na produção resultante. Ao longo dos nove temas que incorporam o alinhamento de Loveless Adventures, Neon Lies cria uma narrativa onde os sintetizadores analógicos fantasiam um mundo altamente optimista no espírito, mas claramente soturno na essência. Ao juntar a visão synth-punk inicial com uma clara inibição no campo experimental da distorção, Neon Lies tece um disco romantizado, construído ao redor de ritmos assimiláveis e uma veia independente bastante denotada que certamente agradará a fãs de nomes como Black Marble ou Mannequin
Nos destaques de Loveless Adventures encontram-se o batcave-ish "Drugz" - tema que serviu de apresentação ao disco -; a injeção de adrenalina "Down" - que coloca os bpms num ritmo quase transumano juntamente com a ritmada "Alone" -; e ainda o irónico tema de encerramento "Light" - uma faixa densa e amplamente escura. Loveless Adventures é, sem dúvida, o registo mais assimilável de Neon Lies até à data. Ao abordar um lado mais amoroso e experimental na quantidade certa, Loveless Adventures consegue sem dúvida conquistar os corações mais solitários.
Sónia Felizardo




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