quarta-feira, 9 de setembro de 2020

“Um admirável mundo novo”


Os Ghost Hunt apresentaram no passado mês de julho, em Lisboa, o seu segundo álbum - II - encerrando assim o conjunto de sessões Takeover #1, uma parceria do Musicbox e do Teatro São Luiz.

Violeta Azevedo estendeu o tapete sonoro da noite. Com a sua flauta transversal, intercalou momentos de suavidade com outros de exuberância que, numa combinação com o keyboard (uma “verdadeira” orquestra de pedais dirigida por pés descalços), resultaram numa envolvência de paisagens musicais e  num labirinto de ambientes surreais. 

Ao longo da sua performance, o “som é esmagado por processos eletrónicos no limiar do seu propósito, a monofonia da flauta desaparece, a tessitura expande para além do imaginável”. Violeta recria um mundo fantástico de florestas encantadas, mas também de ambientes mais sombrios preenchidos por seres imaginários, fantasmagóricos, criaturas de um outro mundo, onde o bailado das luzes a incidir sobre o palco ajudou a moldar estas visões. 

O planar no mundo de “tapeçarias sonoras” de Violeta (que aposta agora numa carreira a solo, tendo colaborado com músicos como JasmimharaemFilipe SambadoSavage Ohms) foi um magnifico preâmbulo à alquimia musical dos Ghost Hunt


Depois de uma curta pausa, o duo composto por Pedro Chau (baixista dos The Parkinsons) e Pedro Oliveira (ex. Monomoy), posicionaram-se em palco para nos conduzirem, com a velocidade warp da eletrónica dos sintetizadores e do baixo, numa viagem distópica, iludindo o espaço e o tempo com as suas coordenadas sonoras. A impressão que provocam é o de sermos projetados (com esta amalgama acústica) para um filme de ficção científica, com cenários de natureza pós-apocalíptica. 

Depois do primeiro disco homónimo (Lux Records, 2016), os Ghost Hunt trouxeram, ao São Luiz, o II (LOVERS & LOLLYPOPS, 2020), uma “projeção imaginada a ganhar estranha realidade” ou não fossem os tempos que vivemos marcados por vivências de uma estranheza desconfortável, tão distante de qualquer futuro expectável. 

Com “Numbers Station” inicia-se a descolagem. Ouve-se uma voz radiofónica, a partir de uma “estação de números” que emite uma espécie de códigos numéricos, remetendo-nos para o período conspiratório, de “tonalidades cinzentas” e obscuras, do período das duas grandes guerras mundiais e da Guerra Fria. Ao longo da noite o alinhamento foi ditado, quase na integra, pelos temas do último álbum, à exceção de “Red Zone” que encerrou um deambular por um espaço sideral desconhecido, um imaginário cinematográfico de um mundo paralelo, mas que nunca esteve tão próximo da nossa realidade.


A partir das suas fontes de inspiração e influências que vão desde o krautrock, synthpop, post-punk..., os “caça-fantasmas” desenham, com mestria, uma estrutura rítmica repetitiva e hipnótica de sonâncias a devolverem-nos o passado glorioso, não distante, da eletrónica analógica, numa viagem cósmica ao amanhã. 

Os vários temas escutados perspetivam um outro mundo; um mundo preenchido por sonoridades que assentam numa dicotomia que oscila entre atmosferas densas e inabitáveis, e o flutuar num espaço melodioso de grande beleza auditiva e visual. 

À música, Pedro Chau e Pedro Oliveira, aliaram a projeção em tela de imagens espaciais. Este formato multimédia intensificou o ambiente vivido por um público que se deixou conduzir nesta viagem a um “Admirável Mundo Novo” em que, ao longo de quase uma hora, nos foram administradas doses de “soma” mantendo-nos, sempre, num elevado nível de felicidade. E agora?... 


Texto: Armandina Heleno
Fotografia: Virgílio Santos

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