terça-feira, 10 de novembro de 2020

Lucrecia Dalt no gnration: a eletrónica como meio para reivindicar o corpo

Fotografia: Hugo Sousa / gnration 2020




Num ano particularmente alarmante para o setor das artes e da cultura, a cidade de Braga tem servido como ponto privilegiado para a elaboração de eventos voltados para as artes digitais e intermedia. Exemplo disso foi a décima edição do Semibreve, festival de música eletrónica e arte digital que, face ao atual contexto de pandemia, foi forçado a redesenhar o seu formato, equilibrando a dimensão física que o carateriza com as tecnologias do streaming.  

O gnration, por outro lado, é um dos poucos espaços no país onde ainda é possível usufruir de uma programação cultural regular e de cariz mais experimental. O espaço bracarense tem conseguido manter um volume de atividade semelhante ao período pré-pandémico, com um programa admirável que integra música, som, arte e tecnologia, cinema e conferências sob uma periodicidade bimestral.    

O concerto de Lucrecia Dalt, que aconteceu no passado dia 7 de novembro, foi o primeiro do plano internacional do bimestre novembro-dezembro (o sérvio Abul Mogard é o próximo, a 4 de dezembro) e marcou o regresso da cantora-compositora e artista sonora colombiana à sala que a acolheu pela primeira vez há seis anos, em 2014, em noite partilhada com os americanos Pere Ubu.    

No era sólida, sétimo e último disco de Dalt, foi o mote para a apresentação de sábado. Novamente editado pela americana RVNG intl. – que já havia selado o anterior Anticlines, de 2018 – o mais recente álbum da artista natural de Medelín baseia-se numa personagem fictícia, de nome Lia, que tem neste trabalho o primeiro ponto de encontro com a colombiana.  

Em palco, Dalt apresenta-se sozinha, munida de um computador e uma imensidão de cabos e caixas de som enquanto uma luz forte de tom alaranjado, que aponta mais para o público do que para si, revela ténues contornos da sua enigmática silhueta. A disposição é sóbria e contrasta com a complexidade conceptual do seu último disco, mas o intenso contraste entre luz e sombra confere um caracter elusivo que se adequa às suas canções. 

Com recurso a uma panóplia de sintetizadores e processadores, Dalt concebe elaborados cenários sónicos que se situam entre o experimentalismo concreto e a spoken word – e por isso Laurie Anderson e Robert Ashley saltam imediatamente à memória – e os universos aparentemente distantes da música tradicional sul-americana e da composição contemporânea, usando a repetição não como uma forma de encantamento, mas sim como forma de criar tensão e desconforto.   

O uso de desconcertantes vozes espectrais e samples em loop na reta final da performance – amplificado através de um inquietante sistema de som surround, onde se escutam gravações de campo e da natureza – dão corpo ao ser senciente que está na base de No era sólida, transportando o ouvinte para um plano que não é o seu, mas do qual não pretende sair tão cedo; um labirinto surrealista, musicado pela poesia eletrónica dos nossos sonhos.  




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