quinta-feira, 12 de novembro de 2020

[Review] Declan McKenna - Zeros


Zeros | Columbia Records | setembro de 2020
8.0/10

Declan McKenna é um artista britâncio que já tem chamado à atenção da indústria desde muito cedo. Lançou em 2015 o single “Brazil”, que o catapultou para uma posição bastante promissora dentro do panorama musical do Reino Unido. Em 2017, lançou o seu primeiro álbum de estúdio, What Do You Think About the Car?, que mostrou um jovem compositor com uma ótima capacidade de compor faixas bastante orelhudas com inspirações mais retro, mas sempre com o seu toque modernista. Tudo isto lançou grande expetativa sobre o artista, que passou a ter em si a pressão de fazer um álbum sucessor que se pudesse equiparar aos seus trabalhos anteriores. É daí que nasce o segundo LP: Zeros.

Ora, este segundo LP tem pontos bastante interessantes: Declan abraçou ainda mais a sua face mais retro, tanto de David Bowie na sua idónea era do Ziggy Stardust como de Elton John no início da sua carreira. Porém, também se vêm inspirações de artistas mais recentes, destacando The Strokes, LCD Soundsystem e por vezes até mesmo Jack Stauber. Há que dar também crédito ao produtor Jay Joyce, que pôs em prática as mesmas técnicas que usou na produção dos discos dos Cage the Elephant para dar um toque bastante modernista no som da obra, fazendo com que não se torne somente numa revisita completa de tempos já passados. Tudo isto jogou a favor de Declan, que conseguiu fazer um álbum nostalgicamente moderno e até comercialmente amigável, quer seja a partir do super energético “Beautiful Faces” como na progressividade imensamente agradável e ambiciosa em “Be an Astronaut”. No fundo, há muito em comum com o seu antecessor.

Liricamente, “Zeros” segue um pouco a linha do álbum de estreia: temos um Declan bastante zangado com o mundo, transmitindo-o de forma bastante genuína. Contudo, eu creio que What Do You Think About the Car foca-se mais com o exterior, narrando o que ele pensa que se passa com o mundo e como tudo parece estar de pantanas, enquanto Zeros fala de uma forma muito mais pessoal: “The Key to Live on Earth” e “Daniel, You’re Still a Child” são os melhores exemplos disso mesmo.

A única faixa que eu diria ser dispensável é mesmo “Emily”. É uma música mais quieta, ao estilo de Bob Dylan, que não condiz muito com a obra em si. Sim, músicas quietas são uma boa ferramenta para fazer transições entre diferentes fases do álbum! No entanto, creio que - neste caso em específico - tratou-se somente de uma rutura súbita e injustificada. Além disso, apesar da boa construção do álbum, há faixas que poderiam ser um bocadinho mais apimentadas, como “Twice Your Size” ou “Sagittarius A*”. Não são más músicas, mas caem de boca, comparativamente ao resto da obra. Não é equiparável à energia de “Beautiful Faces”, à diversão de “You Better Make Believe!!!”, aos melodramas de “Be an Astronaut” ou ao contágio em “Eventually, Darling”. Tratam-se de músicas que caem um pouco no esquecimento quando postas lado-a-lado com o resto das faixas apresentadas.

No fundo, creio que este álbum foi um sucesso e um digno sucessor a What Do You Think About the Car?. Declan ainda sabe fazer faixas orelhudas, mas o que diferencia verdadeiramente os dois LPs é o dramatismo quase teatral que se verifica em Zeros. Todavia, tenho esperanças que Declan consegue fazer algo ainda melhor, quiçá até mais inovativo. Gostaria de o ver arriscar ainda mais, criar algo mais único. Creio que ele é capaz de usar as inspirações para uma experiência nova, com menos revisitações integrais de outros artistas. Talvez pegar em aspetos de alguns artistas e misturá-lo com ideias próprias. Por muito bem que tenha funcionado esta coletânea de inspirações para criar um Frankenstein da história do rock com aspetos modernos, creio que fazê-lo por três álbuns seguidos poderá ser cansativo. Por isso, por muito interessante que tenha sido este lançamento, espero algo mais único por parte de Declan McKenna, num terceiro álbum.

Texto escrito por João Pedro Antunes

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