terça-feira, 29 de dezembro de 2020

[Review] Offermose - Stilhedens Tårn

[Review] Offermose - Stilhedens Tårn


Stilhedens Tårn | Third Coming Records | outubro de 2020
8.0/10

Em outubro chegou às prateleiras mais uma edição de renome no catálogo Third Coming Records - Stilhedens Tårn - o último esforço longa duração do produtor dinamarquês Offermose. O álbum, anunciado oficialmente em agosto, chegou às prateleiras dois anos após a estreia com Mørkt Forår (2018, Third Coming Records, Pomperipossa) e ganhou amplo destaque internacional pela edição peculiar que recebeu - que, além do tradicional vinil preto e versão CD, deu fruto a uma tiragem em vinil azul limitada, onde 100 das 200 unidades incluíam um jogo de tabuleiro desenhado exclusivamente para o lançamento da obra. Com uma força de projeção que se expande além das ondas sonoras, Offermose enriquece o seu pobre mundo lírico com uma expressiva aposta visual que além do design atraente e packaging inovador, se reforça também no campo audiovisual, com vídeos repletos de idealizações do imaginário humano (como foi o caso de "Sjælens Ruin"). 

Numa abordagem mais retro futurista que no disco antecessor, em Stilhedens Tårn Offermose não se desprende do rótulo dungeon synth que o descreve e aposta numa eletrónica cinematográfica que explora desde o suspense a territórios de sinistra amargura. Aqui há espaço para misturar ondas ambient com camadas suspensas de ficção científica, num retrato decadente e insípido da natureza que nos circunda. Influenciado pela escola alemã e por clássicos filmes dos anos 70/80, na abordagem sonora que esculpe, Offermose consegue conduzir o ouvinte a uma viagem aos campos da eletrónica ligeira e contemplativa, de forma mais afincada que nas edições anteriores. Para o produtor, criar sensações que divergem no sentido - com base numa eletrónica minimal e progressista - é uma das características peculiares que tem explorado desde o EP de estreia Bag De Hvide Tinder (2016). Desde então o produtor dinamarquês tem apresentado uma mestria singular no controlo dos sintetizadores e pretende cada vez mais afirmar-se na cena underground através dos seus retratos sonoros soturnos e cabisbaixos, ainda assim envoltos por uma aura poética profundamente contagiante. 


[Review] Offermose - Stilhedens Tårn

Stilhedens Tårn
é sem margem para dúvidas o registo mais intenso e futurista de Offermose, por desprender-se de alguma monotonia sentida em abordagens passadas e focar-se na experiência imersiva do som. Ao redor todo um exercício sonoro slow motion pronto para desacelerar um mundo em agonia, Stilhedens Tårn é uma viagem profundamente envolvente e marcante que se complementa a cada minuto volvido. A primeira prova dessa difusão tão acarinhada chegou ao mercado em maio com "Sjælens Ruin" no posto de escuta. Numa apoteose eletrónica de sci-fi Offermose oferecia-nos uma primeira amostra da sua cave inundada por sintetizadores e reverberações, num tema com forte impulso e abordagem maturada. Já com agosto nos dias finais, Offermose retomaria ação com "Korrupt Tradition", uma amálgama sonora de desenvolvimento arrastado, caracterizada por um corpo nostálgico e emocionalmente contagiante. Através do toque do suspense iminente, "Korrupt Tradition" fez-nos viajar aos limites invisíveis entre diferentes estados de emoção, numa experiência quase psicótica, endeusada pelos órgãos de tubos em consistência com a eletrónica explorativa e algures espiritual. Avizinhava-se aqui um lançamento promissor. 

[Review] Offermose - Stilhedens Tårn

Seria então, nas semanas anteriores ao lançamento oficial do disco, com o tema homónimo "Stilhedens Tårn" que o produtor dinamarquês deixava claro que no novo disco tinha crescido brutalmente e preparava-se para oferecer um bom produto de consumo. O comprovativo chegaria a meio de outubro num disco encorpado, vigoroso e profundamente arquitetado para os fãs de
soundtracks. Desde a abertura com "Seklernes Nat" à despedida dissonante com "Tvillingeflamme", Offermose cria um universo poético sem qualquer palavra declamada claramente focado na experiência do ouvinte. Há espaço para oferecer conforto numa mescla de som amplamente contagiante - mesmo que, por vezes, sinistro - além de toda uma rota sensacionalista ao mundo dos sintetizadores das cavernas. 

Numa dimensão mais retro e de produção afunilada, neste novo Stilhedens Tårn Offermose volta a mostrar as luzes insípidas dos seus trabalhos antecessores, esculpindo um retrato sonoro escultural com o desenrolar da narrativa sonora. Composto por seis temas altamente concisos, Stilhedens Tårn é sem dúvida um disco denso, envolto em emoções quase catárticas (e abismalmente conquistadoras) que se quer ouvir em loop sem nunca cansar. Naquele que é o trabalho mais auspicioso na carreira, Offermose deixa espaço para se lhe tecerem rasgados elogios, enquanto ilumina as almas perdidas numa onda etérea, sonante e característica do vazio cósmico.

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