sábado, 25 de abril de 2020

"Dice of Tenors" é o novo trabalho de César Cardoso

© David Sineiro
César Cardoso é um artista leiriense e professor de saxofone, teoria, combo e Big Band na Escola de Jazz do Hot Clube de Portugal e Saxofone Jazz na Universidade de Évora. No seu percurso apresenta 3 álbuns, todos com música original – Half Step (2010), Bottom Shelf (2015) e Interchange (2018) –, mais de 100 arranjos para Orquestras e Big Bands – escritos sobretudo para a Orquestra Jazz de Leiria e para a Orquestra Jazz do Hot Clube de Portugal – e ainda 2 livros sobre a teoria no Jazz – Teoria do Jazz (2016) e Teoria do Jazz – Exercícios (2018).

Tendo já vários projectos com formações em Quarteto e Quinteto e tendo escrito muitos arranjos para Big Band, César Cardoso procurou novas abordagens, caminhos e ideias de composição e arranjo, através de uma formação alargada. Desta formação constituída por 8 elementos, distribuídos por sopros – saxofone tenor (César Cardoso) , saxofone alto (Miguel Zenón), trompete (Jason Palmer) e trombone (Massimo Morganti) – e secção rítmica – vibrafone (Jeffery Davis), piano (Óscar Graça), contrabaixo (Demian Cabaud) e bateria (Marcos Cavaleiro), resultou o disco Dice of  Tenors.


Para este disco, César Cardoso escolheu 8 temas, 6 dos quais são standards do Jazz celebrizados por alguns dos maiores saxofonistas tenores – Hank Mobley, Benny Golson, John Coltrane, Dexter Gordon, Sonny Rollins e Joe Hendersone –, e compôs ainda 2 temas a completar o disco. Estes arranjos contêm abordagens e técnicas novas, recentemente estudadas, havendo a intenção de criar algo como se fosse um novo tema mas ao mesmo tempo sem perder a essência do original. Além disso, um dos pressupostos é o de elevar o nível musical através da sua complexidade harmónica, rítmica e métrica, sem perder o lado musical, tornando tudo o mais orgânico possível.

Dice of Tenors foi editado a 17 de abril e está disponível em baixo para escuta integral.
 

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"There Must Be Somebody" avança novo disco dos Selofan


Partners In Hell é o nome do disco que vem dar sucessão a Vitrioli (2018), o conceituado último esforço longa-duração de um dos maiores nomes do revivalismo gótico da atualidade, os Selofan. Ainda sem detalhes revelados o disco viu esta semana ser apresentado o primeiro tema de avanço, o fustigante e fervoroso "There Must Be Somebody". Quase dez anos depois de terem formado o projeto, Dimitris Pavlidis e Joanna Badtrip conduzem-nos a uma temática sinistra, através de uma plataforma sonora que suporta um forte cunho na utilização de sintetizadores prepotentes e ricos em vida, contrastados por uma voz quase sem vida e altamente absorta por uma certa indiferença.

"There Must Be Somebody" foi apresentado esta semana através de um trabalho audiovisual gravado entre a calma da floresta e agraciado pelo contraste entre o cisne branco e a presença marasmática dos Selofan. Num vídeo cuja data de gravação se posiciona há cerca de um ano atrás, a dupla grega arrisca agora, entre outros, na exploração do conceito de voodoo, ritualismo e uma imagética a aportar um certo surrealismo na essência. De Partners In Hell sabe-se ainda que é um disco com produção a cargo de Serafim Tsotsonis e masterização por Doruk Ozturkcan (She Past Away). O disco deverá chegar às prateleiras no outono deste ano na alçada da Fabrika Records.


Enquanto os pormenores adicionais do sucessor de Vitrioli (2018) não são revelados, aproveitem para ir ouvindo este sinistro "There Must Be Somebody" em loop. Se quiserem apoiar a banda é comprar a faixa no formato digital aqui.

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Christine Plays Viola têm novo álbum a caminho

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Os italianos Christine Plays Viola regressam este ano às edições de estúdio com o quarto disco de originais que recebe o nome de Fading e vem dar sucessão a Spooky Obsessions (2016). A chegar às prateleiras dois anos após a edição do The bonds should be only silver threads (2018), o EP que marcou o aniversário de celebração de 10 anos como banda, Fading marca um novo capítulo no rumo da carreira dos Christine Plays Viola. Num registo mais intimista - no qual é evidente o uso de sons menos angulares e tenuemente mais acústicos do que os utilizados nos anteriores trabalhos - os Christine Plays Viola nunca distorcem o ritmo evolutivo e mais maturo que, a cada ano, esculpem numa maior sintonia.

A trabalhar entre ambiências revivalistas com os 80's a surgirem como plano de foco, os Christine Plays Viola voltam a apostar nas atmosferas nostálgicas do som que tão bem os caracteriza, através de camadas densas, soturnas e tingidas entre um rock-gótico e um post-punk místico. Em jeito de antecipação do novo disco o quarteto italiano apresentou esta semana os dois primeiros temas de avanço "Still" e "You're No One", que podem agora reproduzir-se na íntegra abaixo.


Fading tem data de lançamento prevista para 18 de maio em formato CD e digital numa co-edição entre os selos Icy Cold Records e Manic Depression Records. Podem fazer a pre-oder do disco aqui.


Fading Tracklist:

01. The Earth Is Definitely Doomed 
02. Suicidal Cabaret 
03. Showdown At The Mirror 
04. Still 
05. Through The Night 
06. Run 
07. In The Dark 
08. I Belong 
09. You're No One

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STREAM: LUNACY - The Search For Fallen Field

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Ainda nem um ano se passou desde que LUNACY colocou cá para fora o marcante Age Of Truth, mas o produtor da Pensilvânia já está de regresso ao radar com mais um incendiário registo. Desta vez, em formato curta-duração, LUNACY compõem-nos quatro faixas altamente abrasivas, com foco na exploração do ruído como meio de difusão de uma mensagem. Com a reverberação a fazer sentir-se bem forte é, contudo, nos sintetizadores que uma das figuras mais sombrias do novo cenário underground nos tece uma narrativa altamente nebulada, mas grandiosamente enriquecida em emoções. Em The Search For Fallen Field, LUNACY apresenta ao ouvinte um lado mais suave nas suas composições de energia brusca, proporcionando um retrato sonoro denso e abrangente num universo abertamente explorativo.

Depois de nos ter dado a boa nova em março foi em abril que vimos os primeiros traços esculturais deste novo The Search For Fallen Field através de um vídeo para o primeiro tema de avanço "Clarity (Of Subconscious)". É certo e sabido que LUNACY, mais que um projeto musical, engloba toda uma metamorfose multimédia expansiva, com forte core na estética que aporta. Num trabalho onde a voz é deixada de parte para comunicar essencialmente através de elementos maquinizados, LUNACY oferece-nos uma excelente sobremesa depois do rico prato principal que experimentámos em Age Of Truth. Do EP - que pode agora reproduzir-se na íntegra abaixo - destaque para temas como o espesso "Crossing Of Malice" e o futurista "Past Present Future", a mostrar as novas tendências para o futuro da música eletrónica.

The Search For Fallen Field foi editado esta sexta-feira (24 de março) em formato cassete e digital pelos selos Somatic Records e Cold Moon Records. Podem comprar a vossa cópia física aqui.

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STREAM: First - First

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Depois de terem colocado cá para fora "To Long", a primeira extração do novo EP que agora apresentam a público, os belgas First tornaram-se rapidamente numa das novas atrações do cenário da nova música eletrónica. A banda, que se já tinha feito chegar ao radar aquando a edição de "Losing" - o primeiro single de carreira incorporando na primeira compilação da editora belga sentimental - compõe no cenário atual o primeiro aperitivo curta-duração de uma carreira que certamente virá a marcar o panorama da eletrónica escura de vanguarda. Como ferramentas de sucesso destaca-se em pano de foco a voz celestial da cantora Jasmin Smolders que é tão bem acompanhada pela eletrónica desafiante e condutora de Pieter Vochten

Deste novo EP já tinham sido anteriormente apresentados os temas "Losing" - o primeiro comprimido efervescente a denotar o contraste entre a beleza insípida vocal e a eletrónica assertiva tão presente no trabalho - e ainda "To Long", uma balada eletrónica enriquecida por uma carga emotiva altamente densa e bela, pronta para conquistar corações. Através de ambiências sonoras tipicamente inseridas no movimento minimalista, os First criam um trabalho altamente puro e dócil, ao qual incluem tenuemente traços de angústia, elementos de deceção e toda uma fragilidade inerte. Além das referidas faixas forte destaque para "You Lie", a grande surpresa do álbum: uma faixa esteticamente pomposa a incluir ritmos altamente aditivos e uma voz altamente honesta e rica em esperança. Um EP que não deve ficar fora do radar.

First EP foi editado esta sexta-feira (24 de abril) em formato self-released e digital. Podem comprar a vossa edição física aqui.


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sexta-feira, 24 de abril de 2020

Tri Angle Records chega ao fim



A Tri Angle Records chegou ao fim esta sexta-feira, após 10 anos de atividade e mais de duas dezenas de discos editados. O anúncio foi avançado pelo seu fundador, Robin Carolan, na sua conta de Twitter. “No passado, tomei uma decisão sobre o futuro da editora e demorou um pouco para resolver os aspectos práticos, mas queria que todos soubessem que hoje marca o fim da Tri Angle”, escreveu.  

Criada em 2010, entre Londres e Nova Iorque, a Tri Angle Records foi um importante catalisador das tendências eletrónicas da década passada. Robin Carolan, que chegou a escrever para o blog independente 20jazzfunkgreats, abriu a década com um projeto curatorial no mínimo imprevisível – Tri Angle Records Presents: Let Me Shine For You, uma compilação de covers experimentais de Lindsay Lohan, reúniu versões de Autre Ne Veut, Oneohtrix Point NeverLaurel Halo OoOoO. Desde então, a editora lançou trabalhos de The Haxan Cloak, Vessel, Evian Christ, serpentwithfeet, Balam Acab, Forest Swords, Holy Other, Lotic, Clams Casino entre outros.   

Apesar do foco nos terrenos mais desalinhados da música eletrónica, nomeadamente os campos da witch house (Balam Acab, OoOoO e Holy Hother foram porta-vozes de um género nem sempre bem recebido), a música da editora assistiu a um curioso crescimento para lá do “nicho” em que se especializou – Evian Christ assina créditos na produção de Yeezus, de Kanye West, The Haxan Cloak co-produziu Vulnicura, de Björk, e Clams Casino colaborou com artistas como FKA twigs, A$AP Rocky, The Weeknd e Lil Peep.    

Para assinalar o fim da editora, Carolan compilou 28 temas dos vários artistas que fizeram parte da história da Tri Angle numa playlist que pode agora ser escutada no Spotify.



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Músicos contornam quarentena e celebram a liberdade em tempos de pandemia


O tricicloum ciclo de concertos produzido pelo Município de Barcelos com a melhor música nacional e internacional, promoveu ligações inéditas entre artistas para criarem à distância canções sobre a liberdade. A iniciativa “Em cada casa um amigo” juntou 16 músicos para criarem seis canções originais, que foram compostas e gravadas de forma caseira. As músicas vão ser lançadas a partir de 25 de abril nas redes sociais na iniciativa. 

Para assinalar o 25 de abril, o triciclo desafiou vários artistas que já passaram pela sua programação para se juntarem e criarem canções sobre liberdade. A partir de casa, os artistas trocaram ideias, tocaram e gravaram músicas inéditas para celebrar a liberdade em tempos de pandemia. 

O resultado vai ser lançado a partir de 25 de abril nas redes sociais, através do lançamento de um videoclipe por dia, que incluirá uma canção original criada por dois diferentes projetos. As músicas são lançadas entre 25 de abril e 30 de abril, sempre às 21h00. 


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STREAM: The Love Coffin - Second Skin

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A fazer efervescer o cenário da música rock dinamarquesa nos últimos anos, os The Love Coffin regressam agora às edições com um disco tenro em reverberação e caracterizado por uma atitude marcante. Second Skin é o nome que identifica o segundo registo longa-duração do ensemble e que chega esta sexta-feira às prateleiras depois de cinco anos focados a agitar o panorama da cena rock underground pela Europa, num percurso iniciado com a edição do EP de estreia Veranda (2015). Depois seguiu-se Buffalo Thunder (2016), a emancipá-los entre o cenário dinamarquês e, posteriormente, Cloudlands (2018), a integrar elementos não só descontraídos, mas igualmente emotivos. Agora com este novo Second Skin os The Love Coffin tornam-se mais nostálgicos, oferecendo ao ouvinte um cocktail tingindo entre o arrojo do rock e os traços emotivos das vibrações voláteis.

Deste novo Second Skin já tinham sido anteriormente apresentados os temas "Nothing At All" - uma canção fortemente inspirada pelos traços calorosos de verão: onde ganham destaque os riffs de guitarra de estética sonhadora, batidas vigorosas e altamente cativantes e o revivalismo clássico entre o som do violino altamente esmagador - e "Mortalized" - malha progressiva entre os espectros do rock psicadélico de acordes carinhosos. Além dos referidos temas forte destaque para "A Shrinking Thing", a sétima canção do alinhamento que se foca na exploração de uma nova abordagem clássica, onde o piano e os sintetizadores dão aos mãos para criarem uma narrativa altamente envolvente. Num registo mais dinâmico surpreendem também temas como "Fall", "Seasick" e o tema de encerramento "Heaven Sent". Second Skin pode agora ouvir-se na íntegra abaixo.

Second Skin é editado esta sexta-feira (24 de abril) em formato digital e vinil numa co-edição entre os selos Third Coming Records e Bad Afro Records. Podem comprar a vossa cópia física aqui (Third Coming Records) ou aqui (Bad Afro Records).


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STREAM: João Pais Filipe - Sun Oddly Quiet


Fica hoje disponível, online, o segundo disco de originais do percussionista e escultor sonoro João Pais Filipe. Sun Oddly Quiet terá ainda edição em formato CD numa parceria entre a Lovers & Lollypops e a Holuzam. O novo longa duração já pode ser ouvido online no bandcamp da editora, onde está também já disponível a opção de encomenda do CD. Para assinalar o lançamento, o músico dará um concerto online hoje, pelas 18h00, onde apresenta pela primeira vez os 4 temas que compõem o disco. O mesmo estreará no YouTube da Lovers & Lollypops, com um apelo para o donativo consciente dos espectadores.

Ao longo das quatro composições de Sun Oddly Quiet, João Pais Filipe abre um diálogo com o ouvinte. Seja ele um regressado do álbum homónimo (Lovers & Lollypops, 2018), um conhecedor do envolvimento com os HHY & The Macumbas, CZN ou das colaborações com Evan Parker, Rafael Toral, Black Bombaim e Burnt Friedman. Ou mesmo alguém que se cruze pela primeira vez com os ritmos do músico nascido no Porto em 1980. A conversa entre o músico e o outro lado existe para João Pais Filipe abrir o portal do seu domínio e desafiar quem entrar a entender a singularidade dos intrincados ritmos que dão vida a XV, XIII, XI e V.

No primeiro álbum inspirou-se na electrónica/dança/techno que evoluiu da percussão do krautrock para espernear à vontade o talento. Em Sun Oddly Quiet, logo em "XV", abandona, com todo o voluntarismo, as preconcepções que existem e aventura-se por numa nova estrada sem qualquer mapa. Está a tactear terreno novo na carreira a solo, evidenciado que não quer uma única associação ao seu trabalho, e que o ouvinte o perceba como um compositor/percussionista e não apenas como uma só dessas partes. Só que João Pais Filipe sabe para onde vai esse novo e desconhecido, porque já fez esse caminho vezes e vezes sem conta. É um músico sem medo do que está além.

Essa expansão criativa – e também motivacional – é empurrada por outra relação que João Pais Filipe tem com os seus instrumentos, enquanto construtor de gongos e pratos. Um conhecedor da sua matéria-prima que ousa a que o instrumento soe mais do que o seu propósito e que possa cantar mantras através de ritmos.

Maturado pelas diferentes experiências que João Pais Filipe viveu ao longo dos últimos três anos, as colaborações que desenvolveu com outros músicos, a descoberta regular de enfrentar um público a solo e viagens a África, Ásia e América Latina que permitiram os seus músculos colaborar com outras linguagens percussivas, Sun Oddly Quiet ouve-se com a sensação de um álbum idealizado com a certeza de quem sabe o hoje e o amanhã. Para o ouvinte é um mapa de um lugar incerto; um, dois, três ou quatro mantras com coordenadas exactas sobre como fazer música percussiva em 2020.

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quarta-feira, 22 de abril de 2020

Superalma Project e Sofía Bertomeu juntam-se em novo EP, Universal Observer Device



Igor Almeida, conhecido pelos seus projetos enquanto Superalma Project e como fundador da editora "pós-género" The Spiritual Triangle, juntou-se pela primeira vez à produtora espanhola Sofía Bertomeu para um curto EP de apenas seis minutos. 

Universal Observer Device, lançado no passado dia 20 de abril pela italiana Brainstorm Lab, é composto por dois momentos distintos: "We’re Tiny Against The Towers And Brightly-Lit Flashing Advertising Hoardings”, a primeira peça do disco, foi composta por Superalma Project e destaca-se pelo recorte distorcido com que explora a música hipnagógica, descontruindo os lugares-comuns das composições escutadas em trabalhos de James Ferraro ou Daniel Lopatin; "At Your House, Don’t You Remember?", de Sofía Bertomeu, encerra o EP com um contraste direcional mais obtuso, denso e opaco, explorando melodias e timbres ominosos que acompanham um diálogo sinuoso entre duas figuras não identificadas.

Produzido à distância entre novembro e dezembro de 2019, o EP nasceu a partir do arquivo sonoro de ambos os artistas, que se serviram dos restos e esboços inacabados enquanto matéria basilar para a construção das composições.

Universal Observer Device encontra-se disponível em todas as plataformas digitais e pode ser escutado desde já em baixo.


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STREAM: Neon Lies - Loveless Adventures

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A minimal wave e o post-punk revival estão no pano de foco de Loveless Adventures, o terceiro disco de estúdio de Neon Lies. Dois anos depois de II (2018), o projeto do croata Goran Lautar volta agora ao ativo para amenizar os pensamentos menos felizes que avassalam as mentes mais frágeis com uma mescla de sons altamente dóceis. Ao longo de nove temas - onde os sintetizadores analógicos fantasiam um mundo envolto em vida, de aura apaixonante -, Neon Lies cria uma narrativa cativante e bastante próxima aos ambientes espectrais da dream-pop, sem nunca perder o apoio dos ritmos monocromáticos e acelerados do saudoso post-punk dos 80's.

Composto após um período extensivo em tour com prazo temporal aproximado a um ano, Neon Lies ganhou uma nova experiência que explora com afinco neste Loveless Adventures. Ao juntar a abordagem synth-punk iniciada com o disco de estreia Neon Lies (2016) com a inibição experimental de camadas de ruído e sons eletrónicos, Neon Lies apresenta um disco coerente, ritmado e facilmente assimilável por uma audiência alargada de fãs de diferentes backgrounds. Deste Loveless Adventures já tinham anteriormente sido apresentados o batcave "Drugz" e o cocktail de lo-fi "Insecurity". Além dos referidos temas forte destaque para a divertida "Down", a ritmada "Alone" e a ironicamente obscura "Light". O disco pode reproduzir-se na íntegra abaixo.

Loveless Adventures foi editado na passada segunda-feira (20 de abril) em formato vinil numa co-edição entre os selos Black Verb Records, Wave Tension Records, Cosmic Brood e Cut Surface. O álbum também foi lançado em cassete numa versão limitada com selo Mental Healing (podem comprar aqui) e em CD pela Periphyla (disponível aqui).


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terça-feira, 21 de abril de 2020

Father John Misery lança o seu primeiro EP


Father John Misery é João Martins, músico proveniente de Espinho e membro fundador do projecto Summer of Hate. Este novo projecto começou como uma espécie de piada online a meio do surto pandémico de Covid-19, mas com uma reacção bastante positiva e que se acabou por materializar no EP Músicas Sobre a Quarentena.


Ao invés de camadas e contra-camadas de reverb como existe nos Summer of Hate, temos distorção que em vez de acariciar o tímpano, fura-o. As influencias deste projeto não derivam de um contexto sinfónico mas sim de referencias como o pop-rock de Big Star, as “cenas limpas” de Velvet Underground ou o punk estridente de Guitar Wolf. Tudo isto originou um EP com uma linguagem semelhante a “punk infantil”, com melodias fáceis que convivem com instrumentais lo-fi agressivos e estridentes num contexto cómico surreal e imaturo.

Músicas Sobre a Quarentena foi gravado e misturado na integra por João Martins, e está venda no Bandcamp em formato digital aqui. 


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JE T'AIME - "Merry-Go-Round" (video) [Threshold Premiere]

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© Anaïs Novembre

There are bands that born to conquer your heart and make part of your life at a specific time. Some of them will stay and accompany your future and others will just teach you an important lesson and will be later replaced by a suitable sonority. JE T'AIME is one of those bands for us but applying the first case scenario. We fell in love with them since the release of their outstanding debut album and we still feel passionate today about their rousing attitude, almost a year after the born of their first child, JE T'Aime. Since then they have brought us light in such a chaotic world and created a beautiful bond with us to the point we are once again premiering one of its videos, this time for the fueled song "Merry-Go-Round". It may sound really ironic that we fell in love with a band called JE T'AIME but life always surprises you when you are less expecting it to happen so.

It was almost a year ago - weeks before the release of JE T'Aime - that we had this wonderful opportunity to share with the world their catchy video for "Dance" (which you can watch in here), and since that time JE T'AIME just created an ignition point into our whole new vision that there are still bands out there that care for the listeners and the people prior to their fame and recognition. They never wanted to go mainstream and they always stayed true to their persona, giving to the world what they most enjoy doing: to create absolutely addictive sounds to needy souls. It's impossible not to fall in love with a band when they do everything so genuinely and ask for nothing in return, except for our honest opinion and enjoyment (if that's the case applied).

Within the tracklist of JE T'AIME's debut album (which we were also fortunate to present in this dedicated article here), there was this song that instantaneously caught our attention, "Merry-Go-Round". "Merry-Go-Round" - as JE T'AIME has previously explained to us - is a tribute song that they wrote to pay tribute to a close friend, Gregory Wronski, who committed suicide in 2018. According to the band "He was an extremely intelligent and talented person who did not love humanity. (...) It's a bit of a gap in the story we're telling, but at the same time this theme remains very close to the universe we're describing in this album. "Merry-Go-Round", a series of similar activities that can often seem boring."

Though in the new music video for "Merry-Go-Round" JE T'AIME decided not to create screenwriting about his story, they are now composing a new painting of their powerful sound interpreted in a lighted room that gains contrast by their vigorous dark and keen appearance. In a full picture that indeed brings to a visible spectrum the astonishing dark thoughts living inside our beautiful and healthy bodies, when suffering from depression, self-loathing, or another kind of distorted perception through life, JE T'AIME reliefs the grief with an extremely danceable vibe. If you haven't checked the official premiere on their Facebook page a few minutes ago, we are now proud to give it to you below:


Je T'Aime was released on May 13th through the labels Icy Cold Records and Many Depression Records in both CD and vinyl versions. Buy your copy here before it runs out. 

The band is also composing its second album, in which the composition process has been shown within their social networks. Make sure to follow them on Facebook (here) or Instagram (here).

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"Glitter Rose Garden" - os jardins reconstruídos de Makoto Kino


Em tempos em que a nossa permanência no exterior se torna numa dúvida, o conceito de jardim ganha novas cores e significados. Francisco Cabreria Celio, sob o seu principal alterego, Makoto Kino, editou no dia 16 de Abril o seu novo álbum, Glitter Rose Garden, uma viagem pelo conceito do próprio enquanto um jardim, sem esquecer o decaimento que se manifesta quando deixamos de o cuidar.

Composto entre 2015 e 2017 e misturado e masterizado entre 2018 e 2020, Glitter Rose Garden combina texturas díspares e pouco familiares em peças harmoniosas. Cada tema funciona como um mantra isolado, sustentado por samples cortadas e retorcidas numa espécie de hipnose por Garden of Delete, capturando a atenção com a manipulação incensurável de vocais e sensibilidade pop que outros grandes nomes da electrónica contemporânea tanto popularizaram, como Laurel Halo, Holly Herndon e Oneohtrix Point Never. Munido de um sintetizador Yamaha DX100, pedais de efeitos, microfones baratos e samples e com inspirações nipónicas e experimentais, Makoto Kino é uma brisa de ar fresco no mundo da pop, desconstruindo-a e reformando-a em algo que brinca com a forma e conteúdo do género sem perder a sua identidade.


Cabreria Celio vai lançar outros álbuns ao longo do ano sob a sua miríade de alter-egos, que o mesmo alberga com Drone Idol, a sua editora pessoal - Makoto Kino é o único que existe enquanto a sua própria entidade, fora de editoras, e, depois de Eternal Loss, editado em 2016, volta a manifestar-se com Glitter Rose Garden, a escutar em baixo. 

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Morgan King em entrevista, baterista da Lene Lovich Band: “Acho que sou um baterista de canções”


Falámos de sentimentos, de música, do seu projecto a solo e do seu novo disco. Morgan King, o baterista da Lene Lovich Band esteve à conversa com a Threshold Magazine e aqui se desvenda tudo sobre o antes e o depois do seu segundo álbum a solo, Old Skin.

Nasceu no seio de uma família que respirava música. Filho de uma cantora que teve o privilégio de actuar com os grandes da cena jazz londrina, Morgan King cresceu rodeado de música, rodeado de instrumentos de percussão e claro, rodeado de discos, e se não eram os discos a tocar, era a mãe que entoava as canções. Havia sempre música: ''Em casa tínhamos um tambor e já nessa altura, gravávamos os nossos 'ruídos' e as nossas músicas de infância''.

O primeiro som de que tem memória ter escutado é o da voz da sua avó a chamá-lo pela porta, som que ainda hoje permanece e que guarda consigo tal como a primeira canção de que se recorda ter escutado, a da voz da sua mãe que a cantar também lhe ensinou "Old Mary Ellen", uma canção de  estória trágica que termina com Mary Ellen encontrada morta no rio.

Na adolescência ouviu James Brown, passou por Jimmy Hendrix, David Bowie e T-Rex e, quando o punk chegou sentiu-se completamente pronto, rebelde e afinado. Numa altura em que o “impossível não existe”, Morgan King teve a sorte de aos 16 anos estrear-se na bateria com os The Young Vandals e foi assim que tudo começou, o princípio de tudo o que veio depois e que tem experimentado desde então.

Contou-nos que nos anos setenta participou com os Ilustration em Some Bizzare, compilação que incluía os também estreantes na época Soft Cell, Depeche Mode, Blancmange, B-Movie, Naked Lunch e The The. Nos anos 80 ingressou nos Balance Of Power como vocalista e só voltaria a tocar bateria três décadas depois. No final dos anos 80, em Chicago, foi ainda convidado para escrever no primeiro álbum de Kym Mazelle, e em 1989 regressou a Londres para assinar com a EMI Publishing, colaborando no álbum Bonafide dos Maxi Priest. Nesse mesmo ano, na Suécia assina um contrato com a editora B-Tech, junta-se aos Clubland e vence o Grammy de melhor álbum de dança com Adventures Beyond Clubland, lançando três álbuns de dança que escalaram os tops da Billboard nos EUA com os temas “Let's Get Busy”, “Hold On” e “Hypnotized”. Em 1991 estreia-se com o primeiro tema a solo “I'm Free” , gravando ainda sob os pseudónimos SoundSource, Maniac Tackle, Control E, Bassrace e Technoir. Fundou em 1993 a sua própria editora em Londres, a Om, e sob o pseudónimo de Obiman grava “On The Rocks”, um dos temas que integra a compilação seminal de Cafe Del Mar, onde co-escreve e produz no mesmo disco "Aqua", de Jose Padilla.


Em 2005, ressurgiu da loucura e ''tornei-me num fotógrafo como uma maneira de recuperar a minha sanidade mental’. Teve a sorte de viajar pelo mundo: ''numa outra profissão criativa'' - mas, lentamente, o seu músculo musical começou a superar a fotografia, altura em que entra para a Lene Lovich Band, depois de dez anos como fotógrafo, voltando a focar-se novamente na música e também na sua carreira a solo.

Grains & Grams foi a estreia a solo de Morgan King em 2016, ao mesmo tempo que lançou “Dunes”, tema gravado sob o pseudónimo de Obiman e co-escrito com Lene Lovich. Nesta altura, anos 20, Morgan King diz-nos que está focado principalmente no seu projecto a solo, com a recente edição do seu segundo disco a solo Old Skin, no final de 2019, nas digressões com Lene Lovich Band, mas há muito mais sobre o que conversar, até porque há muitas coisas novas a acontecer e, a seu tempo, a serem reveladas.


Morgan, fala-me da tua relação com a música enquanto adulto.

Morgan King (MK) - Para mim é o melhor momento da minha vida, nesta altura sinto-me em simbiose total com a música, em equilíbrio com a minha riqueza mental e segurança emocional. Escrevo palavras e música porque adoro explorar e também porque percebo todas as perguntas que fiz (e são algumas) que jamais terão resposta. Recebi elogios, prémios, dinheiro, números 1 nos tops, que, na verdade, são um subproduto de fazer o que eu amo… Há um lado menos bom em tudo isto, não gosto de como as pessoas mudam em torno do sucesso.

Sucesso. No teu caso, falámos de como te sentiste extremamente infeliz, não gostas - (odeias) - da maneira de como as pessoas mudam em torno do sucesso. Mesmo que pareça bom para uns, é o lado menos bom do sucesso, quando se está rodeado das pessoas erradas.

MK - Apenas sinto que as pessoas tendem a concordar, mesmo quando se trata obviamente de uma parvoíce. Para uma pessoa que foi educada a não ser falsa, sinto que se te quiseres dar bem criativamente, o melhor é estar com aqueles que desafiam o processo e que o entenderão de um outro ponto de vista que talvez não tenhas considerado, não se trata de ego, nem de mim.

Nasceste no seio artístico, rodeado de música e arte. A tua mãe foi uma inspiração e um privilégio. Saber compor e unir sons não é fácil, sentes que a tua veia criativa flui como parte de ti e daquilo que tens para dar ao mundo?

MK - Esse é um tema complicado, o da ‘propriedade', porque por mais que flua como parte de mim, eu diria que flui através de mim. É uma parte, mas não o todo. Identificar-me com esse grau de parentesco não me deixaria livre para observar o fluxo e preciso ser um observador, e um participante. Uma parte dos pais, uma parte dos filhos, a fim de ouvir as necessidades da música e orientá-la, se precisar de ajuda. Algumas músicas simplesmente escrevem-se, outras precisam de uma mão sensível.



Ao ouvir Old Skin, o teu segundo álbum em nome próprio, escutamos alguns arranjos electrónicos muito interessantes, a bateria com um som natural no meio desses arranjos (por vezes discretos). Tocaste todas as baterias tal como se fosse para um álbum rock?

MK - Para o álbum Old Skin programei as baterias utilizando por vezes o meu kit electrónico para disparar samples. Tem um feeling natural pelo facto de estar a tocar um hi-hat verdadeiro por cima dos beats, e claro que ter criado os meus próprios samples de bateria ajudou. Acho que sou um baterista de canções. A minha abordagem depende da canção e não do género musical.

Fala-me um pouco do lado da produção, sendo um músico experiente, gravaste tudo sozinho e misturaste o disco demoradamente ou foi um processo rápido? Algumas das faixas são muito orquestrais…

MK - Old Skin foi co-produzido pelo Giulio Gaietto. Gravei a maior parte da música, no entanto e porque o Giulio tem o seu estúdio em Génova, gravo e testo algumas gravações, mando para ele e depois entramos então em acordo de como modificar as gravações para que se insiram no disco. Por exemplo, e sendo o caso, ele pode dizer para gravar a voz principal no estúdio, gravar o backing vocal na casa de banho e um take ad lib no hall de entrada, isto porque ele conhece todos os meus espaços, grava as suas partes em Itália, claro. Giulio misturou o álbum e eu ía enviando feedback conforme necessário. Giulio Gaietto é uma pessoa muito talentosa que me obriga constantemente sempre a fazer melhor.

Uma canção que realmente se destaca é “Janet & John” com uma abordagem minimalista e letras enigmáticas. Podes falar sobre essa canção?

MK - Janet & John era um livro usado nas escolas em Inglaterra como primeiro livro de leitura. Descrevia a típica casa com mãe, pai, rapaz e rapariga, a familia perfeita onde nada de mau acontece. Não conseguia identificar-me com isso porque não se parecia com a minha família. Na escola tinha muitas perguntas que nunca eram respondidas excepto pelo: “é assim que as coisas são”. - Eu nunca acreditei no que o sistema me dizia e sempre acreditei que fosse uma mentira. Assim, “Janet & John” é uma canção que aponta emocionalmente para esse cenário.

Outra canção muito especial é “Retrospective” com a distinta voz de Lene Lovich. Foi a Lene que escolheu essa canção por alguma razão em especial, ou simplesmente pensaste que fosse a mais adequada para a sua voz?

MK - Ah sim, “Retrospective”. Estava em casa a escrever a canção no piano quando me apercebi que a parte do piano seria mais assombrosa se fosse tocada na guitarra, e com esse som na cabeça, subitamente consegui imaginar a Lene a cantar comigo. Enquanto continuei a trabalhar na canção já não a conseguia imaginar sem ela, era como se ela já existisse na canção. Telefonei-lhe e perguntei se haveria hipótese de fazê-lo, uma vez que acreditava que a voz dela com a minha seria o ideal. Confio em cada canção que escrevo para que a mesma me diga o que é necessário.


As canções “Vagenda” e “Old Skin” são muito feitas para as pistas de dança com ritmos viciantes mas tens letras tristes e um feeling melancólico numa canção como “The Otherside". Fala-nos um pouco desses estados distintos presentes no álbum, o lado mais upbeat e o lado mais melancólico e profundo.

MK - Os sentimentos vão e vêm e cada um tem o seu oposto. Se escrevesse num só estado de espírito iria sentir-me restringido porque tudo é ´impermanente´. Como toda a gente, tenho diferentes pensamentos sobre diferentes assuntos que gosto de exprimir. Na minha cabeça posso ir de uma gargalhada a uma lágrima e é esse o meu Eu autêntico que ouvem. Aparte disso, acho que me sentiria entediado sem variedade, mesmo no meu próprio pensar.

Morgan, diz-nos onde os nossos leitores podem encontrar Old Skin.

MK - Podem comprar através do meu website que está agora disponível. Existe também uma versão digital online na generalidade das plataformas de streaming, ou em alternativa tenho um Patreon que parece funcionar melhor para a maioria, uma vez que conseguem obter o álbum com as faixas bónus.



Entrevista por Lucinda Sebastião.

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[Review] SURE - 20 Years

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20 Years | Weyrd Son Records | março de 2020
8.0/10

As dancefloors podem estar encerradas fisicamente, mas o novo dos SURE é já uma bomba pronta para se acender quando todos regressarmos à normalidade. Três anos depois de terem colocado na ribalta "Tasting Revenge" e dois após a edição de "Precious Words" - os primeiros singles de carreira que apresentaram ao mundo a sua sonoridade eletrónica escura e altamente abrasiva - os franceses SURE regressaram este ano ao radar com 20 Years, o LP que marca a estreia da banda nos longa-duração. Aguardado desde outubro do passado ano, o mês em que a editora belga Weyrd Son Records tornou público o lançamento foi, só em fevereiro que, a banda formada por Michael Szpiner, Nicolas Di Vincenzo e Gregory Hoepffner em 2016 trouxe ao panorama a primeira extração do disco, o homónimo "Twenty Years", a apostar em força no lado mais arrojado, aditivo e poderoso das ambiências lúridas. Estava, assim, anunciado o futuro de um trio que, dentro em breve, regressará aos palcos para mostrar os seus traços energéticos influenciados pelas mais diversas correntes da darkwave, synthpop e industrial. Antes desse momento chegar os SURE começam por nos explicar melhor o conceito deste novo disco, nas próprias palavras: 


"Segundo a ONU, 20 anos é o tempo que resta para a humanidade desacelerar a sua queda inexorável. (...) Tentamos representar esse desafio impossível na capa do álbum: uma mão a afogar-se (referindo-se ao aumento dos oceanos) e a queimar-se até ao fim. Uma bela e global tragédia em câmara lenta". 

Desde a formação até à data do lançamento, deste 20 Years foram quatro os anos que a banda dedicou a forjar a sua sonoridade singular, fortemente trabalhada ao redor das melodias vocais, onde as letras são redigidas em sonância com a progressão dos ritmos criados. Numa atitude vigorosa, emergente e de apelo à ação - que é posteriormente camuflada entre uma digitalização vocal de texturas doces, sobreposta a um compasso rítmico bastante acelerado de ambiências selvagens e distorcidas - os SURE criam um disco ao qual, após o play, é impossível ficar indiferente. Tudo começa por se formar entre dois elementos cruciais: a água e o fogo. Em pano de foco na capa do disco, juntamente com uma mão que representa a frágil condição humana, a banda explora esta ideia de apocalipse, à qual dá continuação com os temas que integram o alinhamento do disco. A história completa relativamente à imagem pode ser lida numa entrevista que os SURE deram à Neoprisme aqui.



20 Years tem abertura com "What's Left", a primeira amostra da luz incendiária que o trio de Paris emana entre os seus sintetizadores amplificados de força brutal. Há um poder obscuro e fervoroso ao qual é inverosímil não formular qualquer espécie de emoção e ainda uma vontade inerte de o reproduzir por horas a fio. Segue-se "Morrows", mais uma faixa amplamente abrasiva que é apresentada através de um trabalho audiovisual de autoria de Nicolas Di Vincenzo e Gregory Hoepffner, onde a força e a bravura das ondas do mar aparecem em plano de foco numa perspetiva humana de contemplação e fragilidade. Neste caos sonoro de essência batcave, surge no alinhamento "Tasting Revenge" o primeiro cocktail de som que os SURE criaram antes de nos terem oferecido o piromaníaco "Precious Words", ambos, dois néctares de cor tendencialmente negra, com aromas a fumo e um sabor emergente a fogo de final longo e encorpado. Para dar fim ao lado A, a banda inteligentemente escolhe "Twenty Years", a primeira faixa a servir de apresentação ao disco. Num tema cujo vídeo funciona como uma espécie de perambulação hipnótica diante do colapso, a banda mostra que, enquanto houver coisas para queimar, o seu som continuará a fluir de forma autêntica e iminente. 



No lado B que se inicia com "Another Girl", os SURE mostram uma essência romântica que até então, não se encontrava tão evidente. Por trás do som esteticamente violento e camuflado pela distorção ganham destaque as linhas do baixo a brilharem, pontualmente, nas quebras de ritmo ao longo da sua progressão. Pelo caminho encontramos "Relief", single onde os SURE apostam forte na exploração de camadas melancólicas e experimentais, construindo um som mais badalado que o impresso até então. Tudo isto enquanto preparam o ouvinte para uma das grandes pérolas do álbum, "Lying Dead". Entre a subordinada atmosfera poderosa de sintetizadores funestos - que tem sido destaque na abordagem musical que os caracteriza - é, quando chegamos ali ao minuto 1.44 que os SURE viram o jogo e colocam todos os focos de luz virados para si. Aquele riff de guitarra a emergir das trevas, entra numa harmonia perfeita com a eletrónica robusta que o sustenta enquanto prepara o ouvinte para paisagens sonoras ora sinistras e desoladoras, ora amplamente confortáveis e emotivas. Para a despedida fica "Sinking Story", outro tema que, a par com o já mencionado "Relief" volta a explorar texturas nostálgicas, refletindo o tão conhecido estado de calma antes da tempestade. 


Entre os quatro anos que levaram à conceção deste longa-duração os SURE aprimoraram não só a sua base como artistas DIY a nível musical, mas igualmente ao nível estético. A estreia pela alçada da Weyrd Son Records - uma das editoras que tem desenvolvido um forte cunho no design criativo de discos ímpares - resulta num trabalho que arregala não só os olhos, mas claro está, os ouvidos, ao apresentar uma imersão quase instantânea numa sonoridade contagiante que funciona como um convite inegável à pista de dança. Na tentativa de desacelerar a queda implacável da humanidade, em 20 Years os SURE retratam de forma eficaz este desafio de tragédia global em câmara lenta, num disco que apela à emoção do ouvinte para refletir um efeito de ação. Sem dúvida um passo corpulento na história de uma banda que tem tudo para se tornar no novo grito da cena underground.



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