sexta-feira, 15 de maio de 2020

Reminiscence estreia-se nos discos com Tomorrow's Gone


A folk experimental vigora no disco de estreia de Reminiscence

Ricardo Brito, um nome que se tem destacado no panorama da música nacional underground, pelo seu trabalho como membro integrante dos Urze de Lume, estreia-se agora a solo sob o cognome de Reminiscence. O produtor mantém alguns dos territórios da folk experimental e do post-rock - que tem explorado com afinco nos Urze de Lume - para abraçar uma sonoridade embevecida pela nostalgia e explorar em força o conceito de contemplação. Num cenário musical que não é rígido e se metamorfoseia de diferentes apetrechos sonoros, Reminiscense apresenta um ensaio sobre as paisagens da música minimal sem recorrer ao uso da voz. No disco destaca-se a progressão global, que toma início numa vertente mais delicada, prosseguindo a ritmo lento, para um cenário mais tenso e dominado pela escuridão.

Para apresentar este novo Tomorrow's Gone, Reminiscence lançou cá para fora em março "I see you in empty spaces". O tema, enriquecido por riffs de guitarra em profunda harmonia com a mensagem saudosa que comunica, mostrava já uma profunda sensibilidade na abordagem sonora: uma bela canção de instrumentação tão simples. Folk minimalista na sua expressão máxima. Entre o casual recurso à percussão - audível em "The greatness of hope" - o tema mais efervescente do disco a explorar uma vibe rock gótica -; o baixo como se denota em "Forests of steel" - uma das faixas mais experimentais - ou até mesmo os sintetizadores, de traços celestiais no tema de encerramento "In empty spaces II", Tomorrow's Gone consegue ser dinâmico sem se perder na experimentação. O disco foi gravado no Arnade Studio, em Lisboa e masterizado por André Eusébio na Lemon Drops Media. Podem ouvir Tomorrow's Gone na íntegra abaixo.

Tomorrow's Gone foi editado oficialmente a 1 de maio de 2020 em formato self-released. O disco encontra-se à venda nos formatos digital e CD, podendo ser adquirido aqui.


+

The Love Coffin e a estética audiovisual de "Stripped Down"


The Love Coffin e a estética audiovisual de "Stripped Down"

Os The Love Coffin lançaram já no final do mês passado o seu novo registo de estúdio, Second Skin. O segundo trabalho longa-duração trouxe ao radar um conjunto de dez temas pintados sobre uma certa toada nostálgica, a acompanhar o habitual arrojo do seu rock emotivo e de vibrações voláteis. Em promoção do novo disco, a banda dinamarquesa avançou esta semana com um novo vídeo para o tema "Stripped Down", que vibra no olhar muito à conta da estética musical amplamente apelativa, com um trabalho incrível de fotografia assinado por Yasser Yassin. Como protagonista Yasmin Elizabeth dá corpo a uma mulher à procura de emoções.

"Stripped Down" é o terceiro single extraído de Second Skin, disco que contou com a produção a cargo do guitarrista da banda, Kristian Alexander Pedersen e do produtor inglês Guy Fixen, cujo trabalho anterior inclui colaborações com nomes como Pixies, Stereolab, Breeders e Slowdive, além de lançamentos na alçada de editoras de renome como a Creation, 4AD e Beggars Banquet

O novo vídeo para "Stripped Down" pode ver-se abaixo.


Second Skin foi editado oficialmente no passado dia 24 de abril, no formato digital e vinil, numa co-edição entre as editoras Third Coming Records (comprar aqui) e Bad Afro Records (comprar aqui).

+

VOWWS têm novo tema, "Impulse Control"


VOWWS têm novo tema Impulse Control

Dois anos depois de terem lançado cá para fora o memorável Under The World (2018, Weyrd Son Records) os VOWWS regressam aos holofotes do underground com "Impulse Control". No novo tema - que não avança quaisquer pormenores relativamente a uma futura edição de estúdio - a banda cria um ambiente de submersão instantânea no seu mundo de caos negro e eletrónica hipnotizante, aos quais se é impossível ficar indiferente. Donos de uma imagem sinistra com linhagens da reminiscência punk é, maioritariamente, graças à sua eletrónica imersiva de sintetizadores negros que o poder dos VOWWS conquista a atenção. 

Exemplo disso volta a ser mostrado neste novo "Impulse Control" que, no seu desenvolvimento inclui uma certa mestria no resultado de composição: guitarras abrasivas, um trabalho vocal arrastado e uma eletrónica tão psicologicamente densa como fisicamente destrutiva. 

A dupla australiana, atualmente sediada em Los Angels, continua em processo de confeção do sucessor de Under The World e, enquanto os pormenores adicionais não chegam a praça pública, lança também um novo vídeo para acompanhar a audição de "Impulse Control". Dirigido e editado pela vocalista e dona dos sintetizadores Rizz com codireção e cinematografia a cargo de Jesse Draxler, no trabalho audiovisual de "Impulse Control" surge uma estética DIY onde filmagens de uma Rizz alienada são contrastadas com a presença sóbria de Matt. O tema foi lançado esta sexta-feira (15 de maio) e pode escutar-se na íntegra abaixo.


Under The World foi editado oficialmente a 20 de abril de 2018 pelo selo belga Weyrd Son Records em formato CD e vinil. Se ainda não têm a vossa cópia física podem aproveitar para a comprar aqui

Relembramos ainda que escrevemos uma crítica ao disco Under The World que pode ser ler-se aqui.

+

7 ao mês com Benthik Zone


Nesta edição do 7 ao mês falamos com os Benthik Zone, uma dupla de black metal atmosférico do Porto formada em 2016. Durante os seus quatro anos de existência lançaram 5 discos pela UNDERWATER RECORDS e ainda em janeiro deste ano, disponibilizaram o tema "Metaphysics from the Eleventh Dimension". As escolhas de Artur Leão e Francisco Braga – a dupla que compõe os Benthik Zone – refletem os 7 lançamentos que mais os influenciaram enquanto artistas, e são também as nossas sugestões para esta edição do 7 ao mês.



Malicorne - Les Cathédrales de l’Industrie (Celluloid Records, 1986)

Canções de embalar que já nos marcam desde a infância. Música folclórica francesa cheia de vida, que provoca uma tranquilidade imensa no ouvinte especialmente por causa da voz angelical da Marie Sauvet. Contendo referências à Mitologia pagã, ideal para ouvir em noites de convívio com amigos.





Windir - Arntor (Head Not Found, 1999)

Vocais estridentes e agudos, com uma fúria que penetra o corpo, melodias épicas e enternecedoras que impelem no ouvinte um misto de coragem e tristeza, ambos sentimentos que integram as vivências e experiências que originaram o nosso projeto. Para ouvir em longas caminhadas matinais. 




Elffor - Heriotz Sustraiak (Self-released, 2012)

Uma referência no que concerne aos vocais arrastados e pungentes, são melodias épicas que vão diretas ao coração e elevam o espírito. Com uma composição memorável e um ritmo minuciosamente pensado, é uma música que nos transporta para um mundo ficcional de floresta repleta de clareiras em que a lucidez se mantêm apesar da densidade, falta de luz e desorientação ao longo da caminhada.





Valentin Stip - Sigh (Other People, 2014)


Atmosferas de tempos distantes, movimentos pendulares em espaços micro e macro cósmicos. Um equilíbrio entre ambas as partes, todos os estados de existência e não-existência passam a coincidir numa só energia, que funciona como um elemento que tanto interliga e une como desagrega.



Goran Vejvoda - Etats hautement réverbérés (Signature / Radio France, 2014)

Uma viagem por um universo muito característico de Goran em que o astral se interliga com o espiritual e onde surgem alguns vestígios de um caracter onírico, tribal e ritualístico. É um conjunto de músicas que nos leva para o universo da ficção científica, onde não há limites para a nossa imaginação, onde o vazio nos faz arrepios à flor da pele. Uma grande influencia no que diz respeito aos fragmentos mais ambientais da nossa música. 



Abul Mogard - Works (Ecstatic Recordings, 2016)

O sentimento é de transcendência permanente, onde numa aparente elementaridade sónica encontramos complexidade num universo simples. O efeito obtido através do refinamento dos tons e das suas texturas, é de simbiose com a própria vontade de ser e estar do ouvinte, puxando-a de dentro para fora, apenas para descobrir que no final permanece no âmago.



Caïna - Christ Clad in White Phosphorus (Never Stop The Madness, 2016)

Este talvez foi a obra mais impactante a respeito do modo como elaboramos a componente industrial do nosso projecto. Completamente visceral, esventra a máquina humana e coloca as peças que a formam sobre uma mesa, preparadas para ser montadas de formas nunca antes imaginadas.




Aproveitem para seguir os Benthik Zone no facebook e passem pelo seu bandcamp para estarem a par dos seus últimos lançamentos.

+

STREAM: Distant Stars - Car Crashes and Heart Attacks


STREAM - Distant Stars - Car Crashes and Heart Attacks

Cerca de cinco meses após a edição do longa-duração The Tides, a dupla franco-australiana Distant Stars lança agora um novo EP composto por três temas, em celebração dos tempos de confinamento. Segundo os artistas, Car Crashes and Heart Attacks é uma nova peça de três singles escritos e compostos enquanto cada membro da banda mantinha os olhos na tempestade. Os temas refletem uma amálgama sonora composta com o objetivo de aliviar a ansiedade que é gerada em alturas especiais, como é o caso atual de saúde pública que o mundo enfrenta. Entre uma eletrónica ligeira embevecida em traços da minimal wave e um trabalho vocal pop, a banda vai evoluindo progressivamente as camadas sonoras para uma onda mais negra e reverberações sinistras.

Mantendo a abordagem sonora que têm consolidado desde as primeiras edições, os Distant Stars apostam agora num trabalho multilingue que envolve inglês, espanhol e um q.b. de alemão na mesmo prato sonoro. O resultado do confinamento obrigatório dos Distant Stars resulta assim em três composições dedicadas a uma crise transglobal, numa eletrónica ligeira e decadente. Da obra destaque para o tema de encerramento "Ünterbrix", onde se denota um amplo e exímio exercício sonoro das estruturas do mundo clássico ao ritmo da música industrial.

Car Crashes and Heart Attacks foi lançado oficialmente a 13 de maio em formato digital pelo selo australiano Detonic Recordings. Podem descarregar o disco na modalidade "name your own price" clicando aqui.

 


+

STREAM: Papaya - Seis / VI


Já é tradição que os Papaya (Bráulio Amado, Óscar Silva e Ricardo Martins) se juntem todos os anos durante uns dias - pelas férias de Natal, quando o Bráulio se desloca de Nova Iorque a Portugal - e gravem disco novo.

"Sem limites e sem pressões" foi o que fizeram em dezembro passado, adotando o habitual método de cientistas punk, resultando no que é provavelmente o disco mais maduro e experimental deles. E quem conhece a discografia sabe que isso é dizer muito.

SEIS / VI chega-nos hoje, com selo Revolve, e já pode ser escutado na íntegra no seu Bandcamp.

+

Einstürzende Neubauten lançam primeiro álbum de originais em 12 anos



Alles in Allem é o primeiro álbum de estúdio dos Einstürzende Neubauten em 12 anos. O novo trabalho da banda de Blixa Bargeld, que comemora quatro décadas de atividade em 2020, já se encontra disponível para escuta em todas as plataformas digitais.  

Antecedido por dois singles, “Ten Grand Goldie” e a faixa-título “Alles in Allem”, Alles in Allem sucede o último álbum de originais dos alemães, Alles Wieder Offen, lançado em 2007 pela Potomak. Em 2014, os Neubauten editaram Lament, espectáculo revisitado em disco que foi apresentado em palco em 2014, centenário do início da 1ª Grande Guerra. 

O grupo alemão conta ainda dezenas de trabalhos editados desde 1980, todos eles fundamentais para um melhor entendimento da música exploratória – o uso idiossincrático de objetos como serras, brocas e latas nas suas músicas é uma das marcas caraterísticas da banda –, mas também dos diferentes quadrantes que marcaram a música popular das últimas quatro décadas como o techno ou a new wave.

Em novembro de 2019, a banda anunciou uma digressão de apresentação do novo álbum com passagem por Portugal. No entanto, face à situação do novo coronavírus (Covid-19), os concertos originalmente marcados para os dias 25 e 26 de maio na Aula Magna, em Lisboa, e na Casa da Música, no Porto, foram adiados para os dias 18 e 19 de maio de 2021 nas mesmas salas.





+

quinta-feira, 14 de maio de 2020

[Review] ÀIYÉ - Gratitrevas


Gratitrevas | Balaclava Records | março de 2020
8.5/10

Larissa Conforto é uma compositora carioca de raízes amazónicas que ao longo da carreira já trabalhou como produtora artística de nomes bem-conceituados da música brasileira como Chico Buarque, Gilberto Gil, Alceu Valença e Karol Conká. Depois de seis anos como baterista na banda Ventre e da participação nas bandas de Paulinho Moska, Numa Gama e Ricardo Richaid e do Bloco de Carnaval Calor da Rua, Larissa reinventou-se com o seu novo projeto ÀIYÉ, experimentando novos caminhos sonoros.

Além do seu trabalho como compositora, Larissa conjuga as suas energias artísticas com o ativismo climático e feminista. Faz parte dos grupos internacionais de ativismo climático Extinction Rebellion e Rhythms of Resistance, é voluntária no projeto Girls Rock Camp, é membro integrante do coletivo artvista MOTIM e da promotora cultural SÊLA.

Foi quando participou em 2018 na primeira edição do programa ASA (Arte Sônica Amplificada) do British Council, com mentoria da artista britânica Hannah Catherine Jones (NTS, BBC), que Larissa contactou com a metodologia sonora de colagens e ritmos desconstruídos que incorpora em ÀIYÉ

© Rodrigo Tinoco 

A viver em Lisboa há cerca de um ano, Gratitrevas é o seu primeiro registo discográfico e chegou às diversas plataformas digitais a 20 de março com o selo da Balaclava Records. Enquanto gravava e produzia Gratitrevas, ÀIYÉ foi ensaiando ao vivo as suas composições por cidades como Lisboa, Nova York, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, ao mesmo tempo que acompanhava a cantora francesa Laure Briard em tour pelo Brasil e vendia todos os seus pertences para viajar para Lisboa.

Gratitrevas apresenta-se ao mundo como um disco assumidamente político, íntimo, em que as trevas de cada um (da artista inclusive) e de todos nós tanto são temidas, como reconhecidas e agradecidas. Ao longo das oito canções ÀIYÉ aborda a espiritualidade, as saudades da avó, os gritos e revoltas contemporâneas e universais. A mensagem, essa, é otimista, uma maneira de olhar para o presente, mesmo com todas as dificuldades inerentes, e enfrentá-lo, recorrendo a toda a sabedoria ancestral que nos for possível. 

O disco começa com “Semente”, a primeira música que Larissa compôs na vida e curiosamente a última a ser finalizada para o disco. Dedicada à sua avó Isis, este tema presenteia-nos com ritmos suaves (ideal para ser escutada num sunset) envolvidos numa percussão electrónica ritualista. "Eu sou semente forte, pode mandar me asfaltar" é o lema que vai ecoando ao longo da música, e esta semente, segundo a avó Isis, representa todo o potencial que existe dentro de nós, toda a liberdade e o conhecimento da natureza que podemos alcançar, mas que está oculto por inúmeras camadas opressivas. A semente irá brotar, por certo, demore o tempo que demorar. 

Segue-se “Pulmão”, tema dominado pela percussão assertiva, a qual nos agarra instantaneamente à melodia e contracena elegantemente com o piano. O primeiro single de Gratitrevas retrata a sociedade em que estamos sujeitos a uma enormidade de estímulos e informação e que, por vezes, é preciso afastarmo-nos de tudo isso. A faixa seguinte, “Silêncio”, inspira-se na cena favorita da artista do filme Mulholland Drive (David Lynch, 2001) e serve de introdução a “Terreiro”, um dos momentos mais fortes de Gratitrevas. Com fortes influências de Radiohead, com um baixo a recordar “The National Anthem” e uma atmosfera textura sintética bem recheada de pormenores minimais e samples de atabaques, “Terreiro” apresenta-se como um tema de cariz espiritual e sagrado, onde Larissa retrata a Umbanda, a religião que segue e se guia pelas máximas do sincretismo, do respeito e da diversidade.
 


A pérola do disco é da responsabilidade de “O Mito e a Caverna”. Tema dominado pela spoken word, traz à tona memórias de Otto, conta com a colaboração de Vitor Brauer e assume-se como uma música de intervenção, com significado político bem explícito. Este tema resultou de uma tour que os dois artistas fizeram em 2018 e se vestiram de vermelho, de modo a consciencializarem as populações de norte a sul do Brasil para as eleições que se avizinhavam. A letra, intimamente ligada à Alegoria da Caverna de Platão, é incisiva e perspicaz, reflete sobre o fogo e a queima (o duo recebeu durante a tour a notícia do incêndio desolador no Museu Nacional do Rio de Janeiro) e manifesta o seu desagrado com o “esquecimento” da História mais recente que leva à veneração de mitos: “Os mitos caem por terra, um após o outro, quando encontram a verdade / E a verdade chega, minha amiga, ainda que tarde/ (…) Pode ser que tudo isso seja só um sonho / E vamos acordar quando dissermos todos juntos: Não”.

Com uma faceta mais convencional, “Isadora” mostra-se como um samba que Larissa fez para a sua irmã mais nova, com o intuito de ensinar a lidar com a morte e a solidão. Os dois últimos temas de Gratitrevas surgem num formato mais introspetivo, repletos de texturas sintéticas. “Sombra (US)” foi escrita numa altura em que Larissa sofria de depressão, tendo sido musicada por cima de um sample da sua música favorita de Fiona Apple, "Fast As You Can", e foi apenas com a ajuda do produtor Hugo Noguchi que este tema ganhou vida e feições de Gratitrevas. A música que fecha o disco, “Astrosoma (Wake Up)”, funcionava como um interlúdio que a artista fazia nos seus concertos, em inglês e espanhol, de modo a provocar o público que não entendia as letras em português. Ah! E está relacionada com experiências ufológicas.

Gratitrevas releva-se como um disco muito agradável e fácil de ouvir, especialmente em tempos de primavera/verão. Coerente de início ao fim e sonhador, o disco de estreia de ÀIYÉ é marcado pela experimentação eletrónica e pela sua produção exímia. Um registo futurista que olha para a ancestralidade.
 

+

quarta-feira, 13 de maio de 2020

MAAT celebra Dia Internacional dos Museus com programa dedicado à Nyege Nyege Tapes

© Thomas Lewton

Nyege Nyege: Uma Nova Esperança é o título do programa que o MAAT preparou para dia 18 de maio, Dia Internacional dos Museus, e o primeiro capítulo do novo programa de música e som do museu, Terra Irada, com curadoria de Pedro Gomes e que se irá desenvolver ao longo dos próximos meses sob a temática “diversidade e inclusão”.    

Fundada pelos europeus Arlen Dilsizian e Derek Debru em Kampala, no Uganda, a Nyege Nyege tem sido "um bastião de ideias e de iniciativas construtivas e positivas para a era pós-colonial". O Nyege Nyege Festival, evento anual que realizam desde 2015 na cidade de Jinja, assim como as duas editoras discográficas – a Nyege Nyege Tapes e a sucursal Hakuna Kulala – têm servido como "canais viáveis a partir dos quais culturas insulares e com pouca exposição podem apresentar-se".  

Nesta colaboração inédita com o MAAT, o programa transmite seis emissões diferentes a partir de seis localizações no mundo — África do Sul, Mali, Tanzânia, Santa Lúcia nas Caraíbas, Ilha da Reunião e Uganda – que acolhem as performances de Menzi com os dançarinos Tshipo e Amabhotela, DJ Diaki, Jay Mitta com MC Anti Vairus, DJ Chengz, Jako Maron e o português HHY, ou seja Jonathan Saldanha, que comandará um espetáculo com o The Kamapala Unit (editam novo disco pela Nyege Nyege Tapes no início de Junho). 

A programação, que pode ser consultada no site do MAAT, inclui ainda uma conversa moderada por Shannen SP entre Pedro Gomes e os fundadores do coletivo.


+

JE T'AIME celebram um ano do lançamento do disco de estreia com um vídeo DIY

JE T'AIME celebram um ano do lançamento do disco de estreia com um vídeo DYI

Há cronologicamente um ano atrás os franceses JE T'AIME estavam a lançar cá para fora o disco homónimo Je T'Aime, uma coleção de onze temas imperativos num registo essencialmente cru, sujo, controverso, mas altamente aditivo e incrível, tal como o amor. Desde então até à data os JE T'AIME orgulham-se de terem conquistado um grande renome entre a comunidade underground, muito por culpa da sua atitude arrojada e claramente genuína. Em jeito de celebração do feito a banda lança agora uma nova reinterpretação de alguns dos temas que fizeram incendiar as pistas de dança caseiras. Num novo vídeo que incorpora "The Sound", "A Million Suns" e "Dance", a banda regista o período de uma sociedade em isolamento, sem nunca deixar de ser produtiva.

Dada a situação atual e com toda a incerteza que pauta relativamente ao futuro dos eventos ao vivo, Tall BastArd, Crazy Z e Dany Boy "juntaram-se" em teletrabalho e decidiram oferecer um pequeno retrato caseiro da energia poderosa que prometem fazer ecoar ao vivo. Podemos estar ainda um pouco longe de dividir o mesmo espaço físico que a banda, mas nunca estivemos tão perto de sentir aquela aura única que eles tão bem aportam. Tudo isto à distância de um clique abaixo.


Je T'Aime foi lançado no dia 13 de maio de 2019 em formato vinil e CD numa co-edição entre a Icy Cold Records e a Many Depression Records. Podem comprar o vosso formato preferido aqui.

A banda encontra-se neste momento em processo de composição do novo disco e tem disponibilizado alguns teasers do proresso nas suas redes sociais. Aproveitem para os seguir no Facebook ou no Instagram.

+

segunda-feira, 11 de maio de 2020

[Review] Morte Psíquica - Suite Nº Zero

Review- Critica - Morte Psíquica - Suite Nº Zero

Suite Nº Zero | Zodiaque Musique | abril de 2020
8.0/10

O cenário do post-punk contemporâneo português não tem visto uma atividade muito frequente quando comparado com outras andanças sonoras de apetrechos mais eletrónicos e cores vibrantes. O clima, pouco temperamental e a habituação ao sofrimento como parte integrante da vida de um português pode estar na explicação. Este não é um ensaio sobre o sofrimento, mas é um ensaio sobre como a Morte Psíquica está a colocar o cunho português na vanguarda do revivalismo gótico: na lírica e composição sonora.

Já não é de agora que a Morte Psíquica faz escutar-se entre os corações mais melancólicos e saudosistas. O agora projeto a solo de Sérgio Pereira - atualmente sediado no Canadá - teve génese corria o ano de 1993 em formato banda. O grupo passou, postumamente, por um período de hibernação que acordou já com os novos anos 10 em desenvolvimento, durante o ano de 2014. Tendo lançado o marcante Fados do Além em 2016, foi em 2018 com o novo EP Maneirismos que Morte Psíquica se passava a fixar como um one man project e a exportar a sua sonoridade para outros continentes. 

Num ano pautado pela fixação da incerteza e consequente destabilização emocional, chega também às prateleiras o novo longa-duração da Morte Psíquica - Suite Nº Zero - trabalho que nasce para deixar o seu marco. O disco, anunciado com o mês de fevereiro passado trazia a boa nova no primeiro single de avanço, "Labirinto". Numa canção genuinamente melancólica, esculpida entre as arquiteturas sonoras do movimento gótico dos anos 80 e o novo revivalismo post-punk, Sérgio Pereira destaca-se essencialmente como letrista, apresentando uma poesia de traços decadentes e existencialistas a que tão bem nos tem habituado, desde as origens. Se, já com Maneirismos e Fados do Além, era notório que a Morte Psíquica, acima de um projeto musical tecia toda uma conspurcação  lírica em força, neste Suite Nº Zero isso tornou-se claro através do tema de avanço, essencialmente no refrão: "Uma coisa que me põe triste é que não exista o que não existe". 

Suite Nº Zero traz uma coleção de oito temas onde se incluem os já anteriormente apresentados "Olham e Sorriem", "Sensações Descontroladas" e "O Conforto do Desconforto", presentes no EP Maneirismos (Z22, 2018) e ainda "Fado da Vertigem", tema presente na coleção Z vinte e dois compilation, editada o ano passado. Além destes temas - que foram regravados e novamente masterizados - destaque também para "Em Teu Sonho Acordado", tema original de Ode Filípica, a que Sérgio Pereira deu uma nova roupagem no espectro sonoro, mantendo a lírica originalmente escrita por Carlos Matos (Broto Verbo, Fade In). A cover foi feita originalmente para a compilação de tributo à Ode Filípa, intitulada Misantropia e editada em 2018 pelo selo ANTI-DEMOS-CRACIA. Também na produção e promoção do novo disco participou a artista canadiana Xarah Dion com o trabalho audiovisual para o tema "Labirinto", um vídeo de estética lo-fi que talhou uma espectativa sensacionalista para aquilo que viria a ser Suite Nº Zero na íntegra. 




Um facto que se tornou óbvio e bastante claro com as edições sob o cunho Morte Psíquica é que este é, sem margem para dúvidas, um dos melhores projetos portugueses na atualidade, a atuar dentro das estéticas do post-punk contemporâneo e das tonalidades mais góticas da música rock. Há poucos que se dedicam ao espectro, mas nenhum deles tem a capacidade de atingir a amargura do existencialismo como a Morte Psíquica o faz. Não é apenas o trabalho das guitarras cintilantes contrastado pela decadência vocal que tece uma unicidade singular na produção resultante, mas claramente, a mensagem que a música aporta consigo. Escrita de forma brilhante e carregada em nefastas metáforas, Sérgio Pereira pode facilmente ser comparado a uma Florbela Espanca destes novos anos 20, mas menos romântico e mais pessimista. No trabalho dos dois solidão, tristeza e saudade intercalam em sintonia, mas Sérgio Pereira conduz o ouvinte a um rumo mais decadentista e depressivo. 

Inexoravelmente o existencialismo e a ausência de sentido são metaforicamente explorados em temas como "Olhem e Sorriem", como se ouve: "A minha alma partiu-se // como um vaso vazio" (…) "olha os cacos, absurdamente conscientes // mas conscientes de si mesmos // não conscientes deles". Em "Alienado", como o próprio nome indica, Morte Psíquica foca-se no tema do alienismo, que continua a ser explorado com o sucessor "Fado da Vertigem": "Quando olho para mim // não me percebo // tenho tanto a mania de sentir // que me extravio às vezes // ao sair, das próprias sensações que eu recebo". Já na música de despedida, "O Conforto do Desconforto", Sérgio Pereira arrasa com a temática da auto-aversão: "Meu cérebro faz lembrar descomunal jazigo // nem a vala comum encerra tanto morto // o tédio, fruto infeliz da incuriosidade // alcança as proporções da imortalidade".



No espectro sonoro esta tendência para o profundo descontentamento continua em vigor, embora pontualmente afagada pelo brilho luminoso do trabalho da guitarra. Apesar disso, ao longo deste Suite Nº Zero é o lado monocromático que vigora em força, essencialmente ao nível das linhas de baixo que, na maioria das vezes, se sobrepõem ao ritmo orgânico produzido pela bateria. Ainda no campo da estética sonora, menção para os primeiros segundos de "Em Teu Sonho Acordado" a mostrar todo um lado semi-industrial e experimental face à abordagem usual da Morte Psíquica. O tema destaca-se essecialmente por se apresentar como uma excelente reinterpretação do tema original. Arriscar-me-ia a dizer que melhor que o original, que é coisa rara no "mundo das covers". 

Voltando à ideia inicial de que tão poucos artistas portugueses conseguem, no campo da vanguarda dark underground, atingir o equilíbrio harmonioso entre lírica e composição sonora, eis que Morte Psíquica volta a frisar que está aí com uma fórmula tão única e singular para iluminar almas em sufoco. Suite Nº Zero compila oito temas que coadunam, num disco moderno, uma estética ora clássica e revival, mas na essência sempre muito emotiva. Numa mensagem que permanecerá intemporal enquanto não se desacelerar o crescimento de expectativas irrealistas em vigor na sociedade atual, Morte Psíquica oferece um meio de extravio da realidade cruel num ponto de compreensão e conforto para as almas mais perdidas: a Suite Nº Zero.



+